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O refeitório do Campus era um espaço amplo, branco, claro, rigorosamente limpo, estávamos sentados em uma mesa mais ao fundo, mas muito próximo à saída. Eu estava imerso em pensamentos, Carol e Renato sentavam em minha frente. Fui tomado por um súbito prazer, ver Carol examinando desconfiada seu prato de salada, vê-la inspecionando as folhas de hortaliças com perseverança, naquele momento, se tornara algo tão repleto de significado que me fazia acompanhar o processo cuidadosamente. Renato possuía o hábito de levantar a sobrancelha direita ao mesmo tempo que movia os lábios para a mesma direção. Um meio sorriso que esboçava descoberta, contentamento e esperança, como alguém que acaba de descobrir a cura para uma grande doença ou percebe que o mundo não é tão cruel como eu vejo. Sugava a substância negra e gasificada pelo canudo, e ali estávamos, quando Vinicius apareceu.
—Fui aceito na redação do jornal, me darão uma coluna onde eu poderei falar do que quiser… música, filosofia, literatura, denuncias jornalísticas.
—Que bom! Fico muito feliz, Vinícius! Pensa escrever sobre o que, inicialmente? —Carol deixara a salada e olhava atenta.
—Não sei, inicialmente penso em começar com amenidades, fazendo algumas resenhas talvez... Mas também quero fazer denuncias, pensei em escrever uma matéria sobre alunos que não obedecem as leis de boa convivência da instituição. —Brincou, mas olhara diretamente para os dois.
—É… vai em frente. —Estava convicta de si. —depois não esqueça de fazer uma outra sobre pessoas indefinidas sexualmente. Sabe? Pessoas incrivelmente problemáticas. De repente o Campus se tornou um lugar tão fértil para essas histórias. Será que é a nossa geração? Ou o regime militar desse colégio ridículo? —Vinicius me olhara de forma hostil, talvez ele tivesse tido a leve desconfiança de que Carol sabia do que estava falando. Sua insegurança lhe fez sair dali, sem nada dizer. Apenas nos olhou seriamente e se retirou.
—Por quê disse isso?
—Augusto, eu conheço o tipo… E outra, esse cara já começou a me irritar.
—Não Carol, você não pode dizer que conhece alguém porque você conhece o tipo da pessoa. Você não pode julgar alguém por estereótipos, lembra da aula de psicologia? —Segui o rapaz com os olhos, meu peito gelou, ele tirou da mochila alguns de seus chaveiros.
—Meu Deus do céu, eu preciso sair daqui.
—O que houve? —Indagou Renato.
—O Vinicius está indo em direção a mesa da Julia, e está com os chaveiros nas mãos.
Julia estava sentada ao lado de Fernanda e seu capacho. Felipe era o capacho de Fernanda, um bolsista que a acompanhava para cima e para baixo carregando junto com seus materiais, toda carga de Fernanda. Livros, pastas… Ela estava sempre à frente, a desfilar pelos corredores com os ombros soltos, com seu enorme sorriso no rosto, a pele negra e lisa, uniforme, reluzente, cabelos extraordinariamente lisos,
Eu precisava sair dali de qualquer jeito, o que iria dizer?
—Ela está olhando para cá pessoal, eu preciso sair. —Antes mesmo que dissessem qualquer coisa, me levantei e saí. Fui ao banheiro, joguei água no rosto, respirei. Não havia mais nada a fazer, era voltar e enfrentar a situação. Que ódio eu tinha do Vinicius. O fato é que saindo do banheiro, me deparei quase que direto com Julia Mosquita.
—Porque você inventou isso tudo? Nossa… como eu fui estúpida.
—Normalmente você é muito mais do que imagina ser.
—Qual é a sua, Augusto? Eu não estou conseguindo te entender.
—Você quer mesmo saber?
—Você precisa me dar uma explicação, não acha?
—Quer saber?… —irritei-me. —eu não sei do que você está falando.
—Como você é cínico… aquela história toda sobre Vinicius ser gay não passava de história. Quer saber? Acho que a história é sua, já ouvi alguns rumores de algumas pessoas por ai.
—Do que você esta falando? Quais pessoas? — Aquele assunto me deixava tão angustiado.
—Escutei sem querer uma conversa entre o Pablo e a Fernanda. E você sabe muito bem com quem o Renato anda quando não estão com vocês. — Cínica desgraçada. Eu queria dizer isso na cara dela.
—O Pablo é bolsista, sabe que esses bolsistas são responsáveis por criar discórdia entre os oficiais.
—Você se esqueceu que o Renato também é. —É verdade, ela tinha razão, eu havia esquecido e agora ficara momentaneamente sem argumentos. —E isso pouco importa, o que estou querendo dizer é que você é um grande mentiroso, Augusto. É isso que você é.
—Eu fantasio as coisas, Julia. O que você está pensando em fazer? Eu não tenho culpa, estou passando por sérios problemas neuropsicológicos. Acho que estou com um tumor cerebral. —Ela me olhava convicta de que era verdade, porém desconfiada.
—Se eu fosse você, pensaria duas vezes antes de vir me dizer desaforos. Sabe que eu poderia contar toda essa história, e duvido que ele vá gostar de ficar sabendo que seu melhor amigo é um grande traidor.
—Olha aqui sua idiota, —Aproximei-me abruptamente. — eu já cansei de ser bonzinho com você. Então fica na sua, antes que eu perca a paciência.
—Eu só não conto tudo para ele porque tenho pena dele, quando descobrir que tipo de gente você é.
—Sabe o que me dá mais prazer? É saber que por mais que você queira, ele não vai ficar com você. —Isso era algo, que para mim, chegava a ser duvidoso. E isso me doía muito.
—Olha pra você Augusto, —Olhou-me com desprezo. —está cada vez pior. Eu duvido que alguém possa querer passar muito tempo ao lado do lixo que você se tornou. —Empurrei-a com o braço direito, impensadamente, como se quisesse afastá-la de mim. Foi um ato impensado, todos que estavam fora do refeitório pode ver a senhorita Mosquita se esburrachando no chão. Todo o Campus nos olhava enquanto ela tentava se levantar, como se estivesse machucada, como se sofresse de problemas nas articulações. Tudo encenação. Julia adoraria sofrer de osteoporose ou de uma doença maligna qualquer, só para adquirir dos outros uma espécie de cuidado, atenção e preocupação complacente. Assim ela pareceria mais frágil do que já é. E assim conseguiria fazer com que todos se tornassem pessoas amáveis e delicadas para com ela.
Sander estava bem próximo de nós, vi-o se aproximando de mim de forma muito rápida, antes estendeu sua mão para que Julia se levantasse. Senti cheiro de encrenca, mas não me intimidei.
—Porque você não empurra alguém do seu tamanho? Ou que seja do mesmo sexo que você. O que você acha? Homem pra homem… Tem medo de apanhar?
––Quem é você? Acabou de chegar aqui… Porque não toma conta da sua vida, se for bolsista então... Cala a sua boca!
—Não sou bolsista não.
Fui empurrado tão grosseiramente, que cai no chão exatamente como Julia, enquanto me levantava Carol e Renato surgiram entre as pessoas, entre um mediano público que já havia se formado.
—Olha aqui novato, não se atreva a por a mão em meu amigo de novo. Não queira mexer com quem você ainda não conhece.
—Eu acho melhor seu amigo deixar a menina em paz...— Julia nos olhava como se nos punisse, adoraria ver alguém nos açoitando um dia desses. Seu olhar deixava transparecer a satisfação daqueles que só comem peru uma vez ao ano. A mão de Vinicius segurou um dos braços de Sander.
—Se quiser se meter com o Augusto, vai ter que se meter comigo também. —Disse.
—E comigo também. —Disse Renato se aproximando.
Quando vimos Janaina, a secretária descendo as escadas, a multidão se dispersou por medo de que fossem punidos de alguma forma. Algum fiscal já devia ter feito seu trabalho. A secretária nos entregara cartões amarelos e pedira para que Vinicius, Carol, Sander, Renato, Julia e eu a acompanhasse. O diretor nos falou separadamente.
*
No último sábado de Maio, Vinicius passara a noite em minha casa. Chegamos ao inicio da noite e não havíamos terminado de responder todos os relatórios, porque passamos a tarde toda discutindo banalidades enquanto fingíamos que praticávamos, com a velocidade que fazíamos seria preciso duas semanas para terminar. Eu ainda sentia que cada minuto ao lado daquele cara, era um longo momento de expectativas. Às vezes, de forma não intencional, nossos braços se roçavam ou percebíamos, de repente, o quanto estávamos próximos, e isso nos deixava paralisados, prendendo a respiração por um minuto. Enquanto escutávamos um álbum do “The National”, que eu comprara uns dias antes, e Vinicius declamava versos de Edgar Allan Poe que lia num livro, eu lhe ofereci um uísque com soda. Ele olhara para o copo desconfiado, mas ao me ver tomando, decidiu também engolir sem nada perguntar.
—O que é isso, Augusto?
—Uísque com soda. —Inicialmente achara estranho, mas depois daquele, acredito termos virado mais uns dois ou três.
Passamos a noite rindo de tudo, fazendo festa, às vezes precisamos de tão pouco para nos divertir... Às vezes, a felicidade não vem do dinheiro, da fama ou do poder. Às vezes, a felicidade vem dos bons amigos e da família e da tranqüila nobreza de se guiar aos bons momentos. E é isso que importa, os bons momentos.
Quando meus olhos ressaqueados abriram-se preguiçosos, era bem cedo, um raio provocara um ruído cortante lá fora, traçando uma linha de energia visível e assustadora. Ele estava jogado na cama ao lado e ainda dormia, soterrado em cobertas. Na tentativa de cochilar novamente, fechei os olhos e cobri o rosto com o travesseiro, mas não adiantou. Levantei-me, peguei meu sobretudo, a carteira de Marlboro light e fui à passagem. O céu ainda estava nublado. As pessoas que circulavam diariamente lá embaixo, haviam sido mortas durante a noite sob o efeito de irradiação, algo brilhante, pois nesse dia, nenhuma delas saiu de casa, pelo menos não naquela manhã.
Durante o banho calculei, e descobri que em poucos dias fariam três meses desde a morte de mamãe. E tudo ainda doía muito, a impressão que tinha era a de que ela estava em uma longa viagem, e que um dia, inevitavelmente voltaria, chegaria em casa no meio da tarde, eu a abraçaria e sairíamos para conversar, tanta coisa acontecendo… tanta coisa para contar. Não posso pensar de outra forma, não posso matá-la dentro de mim. Um dia ela voltará e então nos abraçaremos. Isso é tudo que sei.
Se mamãe estivesse em casa, provavelmente teríamos bolo de chocolate para o café, ela preparava um ótimo bolo de chocolate e granola aos domingos, e depois, normalmente almoçávamos sozinhos. Marcos sempre estava nas quadras de tênis com seus amigos e contatos, como ele dizia. Os influentes da cidade. Saindo do banho, Vinicius ainda dormia imóvel, achei bonito vê-lo, respirava forte e de modo audível. Sentei-me em minha cama, e num grande devaneio o contemplei ao lado. Estava prestes a passar uma de minhas mãos em seus cabelos quando a porta do quarto se abriu. Quando Solange, aquela mulher que peguei com o velho aqui um outro dia, entrara de uma vez só.
—Bom dia! —Disse carregando uma bandeja de café. Aquela mulher certamente não passava bem.
—Cristo! O que é que você está fazendo aqui?
—Olha o que eu preparei para você! —Disse enquanto mostrava as coisas postas sobre a bandeja, como mostra do que poderia fazer. Sai furioso do quarto, passei por cima dela e fui até o quarto de meus pais, ele não estava lá. Voltei.
—Onde ele está?
—Não sei, ele desceu… você não gostou? — Eu não tinha era palavras.
—…Eu não pedi isso. Faça-me o favor de levar junto com você.—E fiz questão de me mover, para deixar claro que gostaria que saísse.
—Eu sei, Augusto. Me desculpa, mas como passei a noite aqui, achei que seria gentil se eu preparasse o café. Olha só, são torradas. Torradas e geléia de laranja.
—Olha, minha senhora. Eu não me lembro de seu nome e também não faço questão, mas será que poderia se retirar? —Me encarou com a expressão que provavelmente julgava ser séria.
—Você poderia ser um pouco mais dócil, porque querendo ou não teremos que aprender a conviver um com o outro. Eu levantei e te preparei um café da manhã...
—Olha como fala comigo, não sou cachorro para ser dócil...
—Mas parece, está quase me mordendo.
—Sai do meu quarto. E leva essa merda de torrada junto com você.
—Seu pai já é meu, Augusto, não há nada que você possa fazer.
Todos os sentimentos baixos que um ser humano pode esconder, se sobressaíram.
—Sai da minha casa agora, vadia! —Disse ao pé da porta.
—Augusto…? — Vinicius acabara de acordar.
—Ainda convenço seu pai que seu lugar é em alguma clinica de repouso.
—Sabe o que eu vejo? Você quer um cofre, sua cara conta toda a história, quer alguém para investir naquela sua lojinha vagabunda de maiôs.
—Tudo bem, rapaz… vou embora, mas não pense que se viu livre de mim. Diga ao Marcos que houve um imprevisto e tive que sair as pressas. —Olhou-me com olhos desafiadores. —A gente se vê em breve.
Vinícius não disse nada, ficou a me olhar, mas de forma única seu silêncio me falava coisas indizíveis, ele estava triste, assim como eu. Peguei um cigarro, o segundo da manhã, andava compulsivo, ansioso, desnorteado. Talvez eu precisasse deitar em um divã e deixar que tudo saísse, vomitar toda aquela podridão que me consumia aos poucos. Há um certo momento em que toda sua vida sai de seu curso, nesse momento de desespero você deve escolher a sua direção. Você lutará para seguir o caminho? Outros vão dizer quem você realmente é? Ou você mesmo vai se rotular? Você será honrado pela sua escolha? Ou se arrependerá pelo que decidiu? Há um certo momento em que toda vida sai de seu curso, nesse momento de desespero, quem você será? Você baixará a guarda? E achará conforto em alguém que não esperava? Você esticará os braços? Você enfrentará seus maiores medos corajosamente? E seguirá em frente com fé? Ou você vai sucumbir sob a escuridão da sua alma?
Vinícius não disse nada, ficou a me olhar, mas de forma única seu silêncio me falava coisas indizíveis, ele estava triste, assim como eu. Peguei um cigarro, o segundo da manhã, andava compulsivo, ansioso, desnorteado. Talvez eu precisasse deitar em um divã e deixar que tudo saísse, vomitar toda aquela podridão que me consumia aos poucos. Há um certo momento em que toda sua vida sai de seu curso, nesse momento de desespero você deve escolher a sua direção. Você lutará para seguir o caminho? Outros vão dizer quem você realmente é? Ou você mesmo vai se rotular? Você será honrado pela sua escolha? Ou se arrependerá pelo que decidiu? Há um certo momento em que toda vida sai de seu curso, nesse momento de desespero, quem você será? Você baixará a guarda? E achará conforto em alguém que não esperava? Você esticará os braços? Você enfrentará seus maiores medos corajosamente? E seguirá em frente com fé? Ou você vai sucumbir sob a escuridão da sua alma?
...Continua.
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