domingo, 5 de setembro de 2010

35 - EM CASO DE ACIDENTES...

Trilha: Dawes - that western skyline






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                                                   Sentir-se sozinho no mundo atual é algo comum à todos, principalmente se você vive em um grande centro urbano, e isso parece crescer e aumentar a medida que você fica mais velho. No momento não me sinto só, como antes também não me sentia, meu caso é diferente, uma exceção, estou só e não me sinto. Sempre quis ter um irmão, ou uma garota mesmo, mas minha mãe mal conseguiu me carregar oito meses quem diria parir outra criança. Hoje sei que foi essa necessidade responsável por me aproximar tanto do Augusto. O que me fazia triste quando me distanciava dele era algo muito difícil de entender, e hoje ainda muito complexo para explicar. Já tive amigos tão próximos quanto, mas quando nos despedíamos e voltava para casa, eles não me acompanhavam persistentemente, eles não surgiam inesperadamente em momentos de prazeres solitários e nem me salvavam de pensamentos infelizes sobre quase todas as coisas do mundo. Eles se faziam presentes apenas quando estávamos juntos, ou quando apareciam inesperadamente em casa e me gritavam, chamando-me para rua. Sobre o que vinha acontecendo comigo, sentia-me quase um criminoso, havia cedido ao beijo viril que me lascara na boca numa tarde em que a maior preocupação deveria ser revistas masculinas e todas as mulheres possíveis de se exibir em uma dessas, eu havia deixado, eu havia sentido não só o gosto mais a espessura da saliva, a dureza dos lábios e a voracidade dos movimentos, o corpo forte sobre o meu. Eu havia ficado estático e passivo sob movimentos tão determinados. Eu senti o pau dele roçando minha perna e isso deveria me dar nojo, homens de verdade gostam de xoxota.
      Depois veio aquela noite estúpida, em que por não conseguir me conter, dormimos juntos na mesma cama, ainda naqueles dias em que passara em minha casa. No manhã seguinte, o cheiro do seu corpo estava no meu, o cheiro que tinha, cheiro doce e confortante de amizade, de amizade com gosto diferente, de tudo que juntos descobrimos... E ao mesmo tempo que era bom podia ser assustador, chorei um bocado na tentativa de rejeitar o que vinha sentindo. O cheiro cítrico do perigo que todos nós corremos, o perigo que há em descobrir no outro uma razão para cantar enquanto se toma um banho, em sorrir ao se deitar, em comer com vontade de crescer, em andar na chuva pelo simples desejo de se molhar. O meu crime era saber de todas essas coisas e ainda não conseguir justificar a mim mesmo o meu desânimo quando me distanciava, quando me afastava dele. Uns dias atrás meu professor de literatura falava sobre Nathaniel Hawthorne e mencionou uma famosa citação de sua autoria que cabe perfeitamente à minha condição: “Nenhum homem, por nenhum período considerável, pode usar uma cara para si mesmo e outra para a multidão, sem que, finalmente, venha a se confundir completamente sobre qual delas talvez seja a verdadeira.”
     Mas era assim, sem tomar decisão nenhuma, que me sentia melhor, e dormia melhor depois de vê-lo. Pensar nessas coisas sempre me causava sensação de culpa, minha mãe, também tão solitária... Em Goiânia, naqueles primeiros anos, meu tio e sua filha era o que de mais perto tínhamos de família. Por morarmos bem próximos, Sarah estava rotineiramente lá em casa, e durante as noites meu tio Victor sempre passava para deixar comida que sobrava de uma de suas lanchonetes, a que gerenciava pessoalmente. Conversava com minha mãe quase sempre sobre os parentes que estavam em outras cidades, e depois tomava alguma coisa com meu pai e sentavam para acompanhar o telejornal. Uma vez peguei meu pai dizendo à ele “Vinícius vai fazer Jornalismo, inteligente e bonito como é, vai dar um ótimo repórter.” Meu pai se orgulhava de mim.
   A tevê estava ligada em volume alto, escovava os dentes do outro lado do corredor quando o âncora do jornal local anunciou a próxima matéria:
—Vem à tona o que realmente aconteceu com o filho do deputado Paulo Freitas, o adolescente de dezessete anos, Caio Freitas de Amaral. O garoto desapareceu no ultimo dia dezoito após deixar o Campus PH, colégio onde estudava. A repórter Juliana Texeira tem mais informações e está agora com o delegado que cuida do caso, doutor Hélio Santana. Boa tarde, Juliana! —Saí do banheiro as pressas e corri para o quarto.
—Boa tarde, Fábio! Sobre o desaparecimento do filho do deputado, a policia estava sem pistas, e já trabalhavam com a hipótese de homicídio. Não é isso doutor Hélio? —Passou o microfone para o entrevistado.
—Sim Juliana, a policia já estava trabalhando com essa hipótese já que há quase trinta dias o garoto não era visto, nem se comunicava com a família. Mas na noite de ontem a esposa do deputado Paulo Freitas recebeu uma ligação do filho, dizendo que não estava bem e que também se mantinha refém em cárcere privado.
—Doutor Hélio, —Interrompeu o apresentador. —Já se sabe onde o garoto pode estar preso? Os seqüestradores pediram algum resgate?
—Ainda não, Fábio, a policia está aguardando um novo contato para que possamos entrar em negociação com os seqüestradores. A família já foi orientada a não fazer nenhum tipo de negociação com os bandidos sem nos comunicar.
    De repente o celular tocara, era Sarah, abaixei o volume da tevê e atendi.
—Oi.
—Está vendo a matéria no jornal sobre o garoto que desapareceu no seu colégio?
—Sim. Olha só, estava pensando em escrever algo sobre Caio para o jornal do Campus, É minha primeira matéria, acho que vou procurar essa repórter e ver se ela pode me ajudar ou me passar informações mais detalhadas. O que acha de me fazer companhia?
—Agora?
—Trinta minutos...
—Estarei aí. Abraço!
    O táxi chegou em um instante, Sarah e eu já esperávamos na calçada, ela me perguntava sobre Julia, comentei com ela sobre os flertes que estavam rolando, queria lhe falar sobre Augusto, mas tinha medo do que fosse pensar, tinha medo de que falasse com meu tio ou comentasse com minha mãe, que bem que no fundo sabia que jamais faria algo assim, mas acho que usava isso como pretexto para não ter que lhe dizer nada.
—E seu amigo? O Augusto? Quando vai me apresentar?
—Ele é meio perturbado Sarah... E o pai dele foi preso, não te contei?
    Notei ao volante, uma mulher, uma mulher não, uma garota, e lembro-me de ter achado pitoresco. Fora minha primeira viagem em um táxi feminino. Tudo bem, ultimamente coisas tão absurdas vinham acontecendo que uma mulher de vinte e poucos anos ao volante de um táxi, irrevogavelmente poderia me deixar espantado. Entramos, eu a frente e Sarah atrás.
—Serrinha. —Disse, era esse o endereço.
      Voltando a pensar em Augusto, se ele quisesse, que suportasse essa história macabra sozinho, dentro daquela cova que ele mesmo fizera de seu quarto. Uma cova rasa. Eu ficaria na minha casa, cuidando das minhas coisas, e talvez Julia me ligasse. A garota andava me ligando quase todos os dias nas duas últimas semanas e eu gostava. Normalmente ligava-me as seis, quando o arrebol da tarde mudava todas as cores no interior de casa, e quando desligávamos, a noite estava completa, o jantar já estava quase pronto e meu pai assistia o telejornal em sua poltrona reclinável, ou tomava seu banho antes da refeição. Julia me divertia, fazia-me rir aos montes com algumas histórias de família: casamentos de primos interrompidos ao meio, viagens que se tornaram verdadeiros desastres, e sua faceira tia mais nova, que dizia imitar a Gretchen e Cindy Lauper como ninguém, e Julia tinha plena certeza de que os anos oitenta havia marcado traumaticamente a irmã mais nova de seu pai. Profundamente, até os dias atuais.  
    Ainda no táxi, o trânsito fora se tornando cada vez mais lento até parar, estava no dianteiro ao lado da garota taxista e pudemos ver uma fila de carros coloridos a nossa frente, onde se predominava os veículos de cor prata. O céu estava parcialmente incoberto, apenas sol e nuvens, nada de água, o céu queria transformar a tarde em algo acinzentado. Rostos curiosos saiam de tudo que é buraco, vários deles em janelas de ônibus.
—Aconteceu alguma coisa? —Sarah era tão delicada, possuía um jeitinho tão meigo, educado, gentil e carismático.
—Nessa cidade quando tudo para assim, é flagrante de acidente. —E pela primeira vez disse qualquer coisa após me perguntar qual era meu destino, quando entrara um tempo antes.
—É verdade.  —disse. —hum! Já estou sentindo cheirinho de acidente. —brinquei, a moça do volante desceu as pálpebras como reprovação e desviara o olhar de forma que eu não podia ver seu rosto.
      Acredito que muitas vezes, várias pessoas me consideram um imbecil, talvez por não desenvolver esse estéril cuidado com quase tudo, ou sei lá, com tudo mesmo, com o que se diz, com o que se veste, anda, compra. Com o que se pensa até. Perguntei em tom moderado, não querendo parecer folgado ou grosseiro, se não poderia ligar o rádio e nos brindar com uma magnífica canção. Não consegui segurar e soltei uma risada empobrecida quando o conjunto “nos brindar com uma magnífica canção”, saíra boca afora.
—Tudo bem, isso se prometer falar o menos possível, até chegarmos ao Serrinha. Não é para lá que você vai? —Que garota violenta, com palavras secas e passivamente agressivas, talvez não fossem só as palavras, e sim o modo como as pronunciava. Soltando tudo impausadamente como fazia, declarava seu fraco raciocínio e deixava explicito que livros e gramática não eram uma das coisas que lhe chamavam a atenção. Também o que fazia ela aos vinte anos dirigindo um táxi? E isso dava à ela o direito de conversar comigo como uma amiga faria? Aliás, como uma garota do colégio que não tivesse simpatizado com o meu jeito de ser. Eu estava lhe pagando para que dirigisse para mim. Era uma folgada, e só fazia isso porque via em mim apenas um menino.
     Os carros curiosos moviam-se a passos. A estação de rádio sintonizada tocava uma canção suicida, melancólica e extremamente abatida, como se o dono daquela voz ao momento em que gravava a canção, também presenciava a morte de seu cão por espancamento. A motorista faltava descer e caminhar com os próprios pés, para visualizar antes de mim a cena trágica em que, mesmo sem feridos, motoristas debatem inutilmente a culpa e os danos, os erros e os cuidados. Em casos delicadamente mais graves ninguém passava o tempo discutindo qualquer estrago na parte externa do veiculo ou pensando em seguros e perícias. Nesses casos, o nome de Deus é clamado e todos aguardam os para-médicos e pensam em hospitais como hotéis de luxo, responsáveis por trazer de volta o equilíbrio, a vivacidade e o aspecto humanamente saudável que todos procuram ter. Mas as lesões, essas são quase sempre inevitáveis. 
—É, estamos chegando próximo, logo você verá, não se preocupe. —Ela emitira um olhar descabido. Retribui-lhe, mostrando os dentes, expondo as gengivas. Quando o carro se aproximou, lentamente, esquadrinhamos a cena. Havia um homem em prantos ao chão, implorando inconscientemente aos espectadores desconhecidos que não o deixasse morrer.
—Que horror… —Não sabíamos o que havia provocado o infortúnio, mas ele estava ali num domingo, no pôr-do-sol, com seus trinta e poucos anos, sangrando no meio de uma avenida quente de acesso a marginal.  Não havia carros em lugares impróprios, ou qualquer veiculo motorizado. E então, alguém passou em nossa frente, avisando um amigo de que o cara havia sido baleado. Se fora um assalto, não sabíamos dizer.
    Aquela cena, que ficara em mente mesmo após a calma saída do local, me fizera pensar no futuro, e se eu morrer amanhã ou depois tendo o futuro como minha única preocupação?  O que aconteceria se todos saíssem por ai agredindo uns aos outros?  O que seria capaz de transformar o lixo onde habitamos em um lugar um pouco mais limpo, mais seguro e harmônico? Quem poderia se aproveitar de toda destruição para fazer brotar flores, onde só existe lodo? De dar cor ao que já é totalmente negro? Perguntas que de forma alguma seria capaz de responder. Mas que me seguiram durante todo o resto daquele dia. Alguém uma vez disse que meninas boas escrevem em seus diários e meninas más nunca tem tempo. Eu… Eu só quero viver a vida. E me lembrar dela. Sem escrever nada.



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