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Perca de tempo procurar aquela repórter, não nos encontramos, mas acredito que se tivéssemos, pouco poderia me ajudar, já que o tempo em que aguardei, e foi bastante, ela estava nas ruas a procura do queijo. Chegaria em casa e cuidaria de iniciar minha primeira matéria para o jornal do Campus, aquilo estava me deixando tão eufórico, escrever para todos os alunos do PH, e todos leriam, já que os professores normalmente faziam referências necessárias, isso me dava um certo poder. Quando abriram aquela vaga para um novo editor, soube que estariam selecionando através de artigos, logo pensei em deixar meus dados e um texto de apoio, escrito por mim, na tentativa de ganhar a vaga. Dois dias depois Daniel me ligara dizendo que havia sido aceito e que deveria preparar uma matéria para a próxima edição, senti-me forte. Era como se realmente estivesse na direção certa, era como iniciar algo em que sonhava progredir ao longo da vida. Eu queria ser jornalista. (E isto era algo que Augusto e eu tínhamos em comum).
No departamento jornalístico do PH, gerenciado pelo senhor professor Andrade, que lecionava Língua Portuguesa desde os primórdios do Instituto, Daniel era coordenador e Redator chefe naquele ano, não era de minha turma, apesar de também estar no terceiro ano. Ele deixara claro desde o nosso primeiro encontro que me dava crédito, eu estava livre para discutir qualquer tipo de assunto de meu interesse, como também apalavrar puerilidades ao meu próprio proveito. Bem, Se nada acontecesse que me fizesse mudar de idéia, iniciaria abordando o desaparecimento de Caio Amaral.
—Tenho certeza que vai ser incrível, Vinícius. —Dizia Daniel apoiando-se sobre a mesa de sua sala, no departamento jornalístico. —Acho que você gosta dessa linha investigativa, isso é muito bom. Deve apostar nisso. —Pensava em dar continuidade ao assunto quando ouvimos alguém batendo a porta, em seguida a porta se abriu.
—Como vai chefia? —Adentrou Ricardo Bensimon e outros três capangas, todos do centro esportivo, o departamento jornalístico era constantemente visitado por esse pessoal e o jornal possuía um caderno inteiro dedicado aos atletas e suas competições.
—E aí pessoal? —Cumprimentaram-se, eu continuei sentado. Ricardo me olhou de modo estranho e desviou o olhar em seguida, sem nada dizer.
—Novidades Daniel, — Notei que todos possuíam cartões vermelhos em forma de coração nas mãos. —dias dos namorados está se aproximando e Fernanda vai dar uma festa nesta Sexta em comemoração ao dia dos amantes. —Entregou-lhe um cartão. Sua expressão sugeria a malicia que se vê na cara de garotos de programa. —Estou ajudando organizar, e te digo uma coisa, essa tarde de sexta vai ficar para a história. —Os capangas fizeram uma pequena algazarra e se quietaram outra vez.
—A festa terá adultos?
—Claro que não, os país estarão viajando, somos só nós irmão... —E uma pequena algazarra se formou outra vez. Ricardo voltou a me olhar.
—Você é da minha turma, não é? —Idiota, como se todos esses meses ainda não tivesse me visto dentro daquela sala.
—Esse é Vinícius, Ricardo, ele está na sua turma sim. —Olhava-me como se fizesse uma sondagem. De repente me estendeu um cartão.
—Vá você também, tenho a impressão de que ainda não sabe o que esse colégio tem para te oferecer. —Peguei o cartão.
—Eu acho que deveria ir. —Comentou Daniel. —O que você acha?
*
Sarah estava ansiosa para conhecer os alunos do Campus, na festa de Augusto não pode estar presente, visitava minha avó no interior, uma forma que meu pai encontrou de fugir da agitação. Aproveitei que se tratava de um convite informal, já que não haveria adultos e convidei, eu ainda não sabia o que esperar de uma festa assim, mas Daniel garantira que coisas boas poderiam acontecer. Foi ele o primeiro a chegar.
—Então é aqui que você se esconde? —Brincou ainda no portão. —Cara muito longe, moro do outro lado da cidade, pelo menos fica próximo do condomínio da Fernanda.
—Vamos entrar? Convidei uma prima, acha que tem algum problema?
—Claro que não... diz à ela que estou desimpedido... —Entramos. Meu pai estava na sala vendo alguma coisa na tevê. —Vê se não esquece.
—Você nem a conhece... —Fiz uma pausa. —Pai, esse é Daniel Roese, editor chefe do departamento jornalístico do Campus.
—Oh, —Fez-se de encantado. —Muito prazer Daniel. Roese? Seus pais fazem o quê, filho?
—Minha família é do Sul, meus pais são proprietários de uma vinícola e produzem um bom vinho nacional, já deve ter experimentado um Bertoldi, acredito. —Meu pai agiu como se lembrasse de um bom momento.
—Sim, sim... Que interessante! Então é sua família que os produz?
—Sim senhor...
—Pai, precisamos subir, estamos atrasados. —O interfone tocou e logo dona Marta, minha mãe, surgiu na sala.
—Julia está aí.
—Convide ela para entrar, eu desço num instante.
Daniel fora comigo até meu quarto, enquanto calçava os tênis e penteava o cabelo ele futricava no que estava amostra, nos chaveiros que guardava pendurados em uma das paredes, minha coleção já contava com oitenta e sete modelos, todos importados. Não sabia mais eleger o preferido e normalmente me questionavam a respeito.
—Cara, seus chaveiros são muito interessantes... Qual deles você prefere?
—Os dez que estão na fileira de cima são os que mais gosto. —Entre eles o primeiro, presente do meu tio.
Quando voltamos à sala, Sarah e Julia já pensavam em subir, apresentei Daniel à minha prima e enquanto atravessávamos o jardim ele bateu em meu braço com a palma da mão e fizera um movimento com os olhos indicando Sarah que caminhava logo a frente. Provavelmente me vendo como cafetão, o cara que agiliza os encontros.
—Diz para loirinha da sua prima que o gato aqui está solteiro. —Mas eu sabia que Sarah não gostava de homens que usa óculos. Por uma questão de lógica e sensibilidade, acredito eu, por parte dela, ocupou o banco da frente deixando que Júlia e fossemos atrás.
—Conheço Augusto hoje? —Perguntou Sarah com o carro em movimento, seus olhos grandes voltados para mim. Júlia também me encarou, com uma cara de insatisfação.
—Falei com ele mais cedo, me falou que não tinha certeza... Carol estava indisposta.
—Era de se esperar que todo o Campus fosse convidado para esta festa, Fernanda é tão popular. Se não forem pouca gente vai sentir falta. —Nunca fui muito simpático à Caroline Araújo, mas Júlia parecia gostar ainda menos que eu. Pensando sobre o que disse cheguei a conclusão que só havia sido convidado porque todo o Campus também fora.
Ao entrar no condomínio de luxo onde Fernanda morava a atmosfera era outra, parecíamos estar num sofisticado subúrbio da California. Encontrar o local não fora tão difícil, o hip-hop que animava a festa ultrapassava cercas e jardins, ritmava o final da tarde e atraia até mesmo curiosos.
—Está pegando fogo. —E estava mesmo. Dezenas de carros se amontoavam na entrada.
—Estudar no Campus deve ser um sonho. —Comentou minha prima. Nenhum de nós três concordamos e logo descemos todos do carro. Uma pequena aglomeração de pessoa aguardava para entrar, ao passarmos pela porta serviram-nos uma gelatina num pequeno copinho descartável de café.
—Engula isso tudo. —Nos disse Tatiana de Anschau, Usava apenas um biquíni de duas cores e sorria bastante. Engolimos. —A casa é de vocês! —Completou, e assim saímos rumo à porta dos fundos, seguindo apenas o som e o fluxo de pessoas.
Nos fundos, mais de uma centena de pessoas, a maioria delas com roupa de banho, algumas sentavam-se a beira da piscina enquanto os mais agitados mergulhavam e saltavam; outros, dançavam na área coberta e bebiam bebidas de cores fortes e vibrantes, desconhecidas. Na mesa da cozinha um grupo jogava cartas e um outro acompanhava fazendo torcida. Grande parte conhecidos, outros nem sei de onde possam ter saído. De repente um alvoroço, todos param para visualizar, nós de copos nas mãos, Ricardo, Fernando Takano e Maurílio carregavam Felipe por braços e pernas, de roupa e tudo, e pareciam intencionados a jogá-lo na piscina. Um coro se formou abafando os gritos histéricos que o menino soltava. Um coro que gritava: “joga, joga, joga, joga.” Felipe não merecia aquilo, mas suportava por ser bolsista e raquítico. Era inevitável, ele afundou nas águas negras, já repleta de urina.
—Ricardo! Já disse para vocês deixarem o Felipe em paz, coitado! —Gritou Fernanda surgindo de algum lugar.
A gelatina era inexplicável, após três cervejas a sensação era a de que havia entornado sete, decidi abandonar o grupo e vasculhar a casa a procura de um banheiro, também queria ver se encontrava Augusto em algum lugar, se estivesse ali, provavelmente estaria com Renato e Carol se metido em algum canto longe dos olhares daquela gente. Fernanda morava em uma mansão, eu não julgava morar em um lugar pequeno, mas sua casa era três vezes maior que a minha. Finalmente encontrei uma sala onde o barulho externo não penetrava totalmente. Peguei meu celular, o numero de Augusto caia na caixa postal.
Subindo a escada deparei-me com um largo corredor, o banheiro estava próximo, claro que não haveria de ser o único da casa, mas preferencialmente era o mais vazio, imaginei. A primeira porta que abri ofertou-me um susto, quarto ocupado, não os conheci, mas o cara estava nu sobre a cama e havia duas garotas, uma gostosa de cabelos compridos e longos beijava-lhe a boca ao mesmo tempo que uma menos interessante lhe chupava. Ambos pararam e me encararam, não pareciam enfurecidos, pareciam totalmente tesos, sem me desculpar fechei a porta e recobrei o fôlego. Outra porta ao lado se abriu, para minha surpresa era Renato.
—E aí? —Perguntou. —Você está bem?
—Estão fazendo uma suruba dentro desse quarto.
—E você não vai participar? —Às vezes ele me parecia sarcástico.
—Na verdade estou procurando um banheiro...
—É logo ali. —Indicou a porta de onde saiu.
—Você está com o Augusto?
—Viemos juntos, mas Carol e ele saíram para comprar cigarros. Eu fiquei por aqui, mas já devem estar voltando. Quer que eu o avise? —Eu disse que sim e ele se despediu descendo a escada.
Mijar quando se está cheio de cerveja é uma das melhores sensações que existem, tão bom quanto gozar. Afrouxei o cinto, liguei a torneira da pia, coloquei meu pau ali dentro dela e mijei, aquela festa realmente estava uma loucura, as pessoas nem conseguiam conversar umas com as outras, e quando tentavam precisavam gritar para serem compreendidas. Julia estava sentada na sala de baixo quando desci, a tevê estava ligada e sem volume, sentei-me ao seu lado e senti um cheiro bom da colônia que usava. Ela colocou a mão em minha coxa, alisando com a ponta de seus dedos. Meu maior defeito era a timidez, mesmo sabendo que estava com faca na mão em todos os casos, a timidez me impedia de dizer coisas, de fazer coisas, de meter a mão.
—O que você está fazendo, Julia?
Ela se aproximou ainda mais e começou a falar de modo suave, mais próximo:
—Eu não sei sobre você, mas eu sempre quis estar assim mais próxima, sentido sua pele. —Com a mão no meio das minhas pernas? Ela se insinuou, eu lhe meti o beijo. Beijo louco e quente, ela mordia meus lábios, o que não era muito bom, mas provocador. E no meio do beijo, bem, difícil de saber se era realmente o meio, o fim ou ainda o inicio, mas o fato é que escutamos o estalar da porta ao se abrir e paramos bruscamente.
—Meu Deus! —Soltou Carol colocando as mãos na boca, segundo ela, horrorizada. Acompanhava Augusto, que me pareceu furioso e saiu logo em seguida sem nem mesmo me cumprimentar. A intragável ainda continuara ali rindo da situação, levantei-me.
—Júlia... Eu preciso falar com... Você pode me esperar aqui? Eu volto logo.
—Imbecil. —Disse ao passar por ela.
—Vai se danar, Carol.
Lembro-me de ter ficado muito tempo procurando-o, cheguei a perguntar algumas pessoas, então pude vê-lo sentando sob uma árvore fumando seu cigarro. Apressei-me em alcançá-lo.
—Augusto?
Ele nada disse.
—Sei que o que viu não foi legal mas...
—Mas o quê Vinicius? Beleza... Eu já entendi. Eu já entendi que não tem nada a ver eu achar que um dia você vai gostar de mim como gosto de você. Aliás, eu sou maluco mesmo.
—Eu também acho. —Ele me encarou e olhou-me furioso.
—Vai se fuder!
—O que você quer que eu faça, Augusto? Presta atenção... Não acha que está cobrando de mim mais que um amigo tem a oferecer?
—Eu posso te dar mais que um amigo pode oferecer...
—As coisas não podem ser assim...
—Por quê? Porque você está apaixonado pela Júlia ou porque nem um de nós dois é uma mulher? —Eu nada disse. —Quer saber? Estou indo embora dessa porcaria de festa. São Valentino, que porcaria é essa?
—Gostaria que não fosse.
—Quer saber o que eu gostaria? —Me encarou.
—Diz.
—Eu gostaria de beijar na sua boca agora como beijei aquele dia na sua casa. —Voltou a me encarar. Eu nada disse. —Estou saindo daqui agora, gostaria que fosse comigo.
—Não posso. —Não poderia deixar Sarah, Júlia e Daniel ali sozinhos sem noticias.
—Estou saindo agora e estou indo sozinho, espero por você cinco minutos no carro, se não aparecer eu vou. —Assim saiu me deixando ali.
Pensei por algum momento, analisei tudo rapidamente e com as condições neurológicas que dispunha, coisa de um minuto. E pelo menos ali, senti que a coisa mais certa era seguir o impulso, não sentimos vontade do nada, não podemos bloquear as vontades que temos sem sermos assombrados por elas durante a noite, em nossos sonhos, em nossos pensamentos mais profundos. Será mesmo que é preciso escolher a estação do ano favorita? Será que eu não posso simplesmente viver cada uma delas enquanto elas duram? Respirar o ar, beber da bebida, saborear a fruta, e deixar-me levar pela influência de cada uma delas.
Foi bom saber que alguém me aguardava, que este alguém era um grande amigo, foi bom apertar os passos para encontrá-lo outra vez.
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