O Campus era constituindo por três prédios interligados formando um C, três pisos que se sobrepunham, no pátio central havia uma fonte iluminada cercada por bancos de madeira. No intervalo entre a terceira e quarta aula, no qual saiamos, grande parte dos estudantes se dirigiam para o refeitório, no térreo do pavilhão central; outros usavam as mesas do playground, no pátio inferior, para fazerem seu lanche, mas esse lugar era freqüentado em peso pelos alunos da primeira fase. Nós, do ensino médio, em essencial, o último ano, freqüentava o refeitório como mulheres fumantes e aparentemente insatisfeitas passam suas tardes em casas de bingo, naquele intervalo de uma tarde, em que deixam as crianças na escola.
Naquele mesmo dia, eu não fui ao refeitório, subi para o terceiro andar do pavilhão Oeste. Nossa sala, 206, terceiro ano, turma II, era a primeira do pavilhão oposto, no segundo andar. De onde estava, via um remoto movimento na porta da sala. E o motivo pelo qual escolhi o terceiro piso Oeste, fora pelo fato de que ali, ninguém incomodaria, ali se instalava as salas de quinta série, das crianças mimadas da elite do Estado e representantes de quase todo território nacional. Os garotos da quinta série saiam da sala trotando, em perfeita comunhão, e sempre retornavam rebeldes, cabisbaixos, desejando que a coordenadora fosse atropelada na porta de casa ou fosse vitima de um choque letal ao ligar seu secador de cabelos na manhã seguinte, qualquer coisa que a fizesse se arrepender de obrigá-los a retornar à sala.
Do celular liguei para o Augusto. Por mais que eu acreditasse que me manter afastado fosse o mais sensato, em alguns momentos isso era tão dificil que logo chegava a conclusão de que ser totalmente radical não era a melhor das opções, gelar a amizade um pouco funcionária. Alguns minutos depois ele subiu, parecia suspeitar de algo conspirador, pois andava melindrosamente, e direcionava os olhos para todos os lados. Seus passos eram firmes e ao mesmo tempo distraídos, seus pés se direcionam para fora quando caminhava, havia sensualidade.
—Estou gostando de ver… me refiro sobre sua amizade com o novato. —Para Augusto a melhor defesa era sempre o ataque. Não perdoava uma sequer.
—O Sander está a fim de fazer uma reunião na casa dele amanhã a tarde e nos convidou, pediu para que falasse contigo. —Disse ignorando a provocação.
—Para isso me chamou até aqui? E o que é que eu iria fazer na casa daquele sujeito?
—Não começa, Augusto. Só estou fazendo o convite. —Paranóico. —E sobre seu pai? …Como estão as coisas?
—Está em casa, infelizmente não há nada ainda contra ele… estou falando de provas… mas ele tem me parecido muito perturbado, tem falado sozinho…
—Isso é muito bom, eu quero dizer, o fato dele está em casa. —Caminhamos de modo lento em direção a extremidade oeste do pavilhão. — A morte daquela mulher que andava com ele, a Solange, foi tão repentina e estranha. Acha que pode haver ligação entre o cara que telefonou para o seu pai e para a Carol com a morte dessa mulher?
—Não sei...
—Pode até não ser nada, mas ontem um carro preto ficou parado na porta de minha casa horas. Naquela chuva pensei que fosse alguém que visitava um vizinho meu, mas, Augusto, havia alguém dentro do carro e permaneceu lá por horas...
—O que acha que pode ser?
—Não faço idéia.... —Por um momento pareceu refletir. —Sobre o Sander? Você vai ver ou sua resposta é definitiva? Ele vai acabar lhe pedindo desculpas, além disso, podemos chamar a Carol se quiser. —Houve um incomodo, Augusto tremeu uma das pernas como telefones moveis e vibráveis acordam toda uma família durante a noite, ainda que esteja em modo silencioso, todas aquelas vibrações sentidas a distância, quase como um pequeno terremoto, um abalo sísmico.
—É a Carol. —Mostrou-me o telefone, o nome de Carol piscava no visor azul do sansung como um vaga-lume extravagante.
—Onde você está misto-quente? —Pude ouvir, o último andar era muito silencioso. —Renato e eu estamos aqui, sozinhos… estamos precisando de sua ajuda para decidir o que faremos esta tarde. Lembrando que primeiro precisamos terminar a lista de exercícios de matemática. Não quero ter problemas com aquela cretina da professora Cida. Também precisamos saber de você a respeito dos discos que ficamos de colocar na pasta amarela comunitária, já os separou?
—Já os separei sim, podemos fazer isso hoje a tarde.
—Perfeito, e me faça o favor de nos fazer uma surpresa, e voltar para o seu lugar. —desligou.
—O que é essa pasta amarela comunitária? —Perguntei.
—Uma pasta que Carol separou para que colocássemos alguns dos nossos cds, e daí essa pasta amarela comunitária poderá ir para qualquer lugar conosco, e poderá ficar tanto na minha casa, quanto na dela ou na de Renato.
—Preciso lhe contar uma coisa, mas tem que prometer segredo.
—Então teremos segredos? —Disse insinuando qualquer coisa.
—Sabe a prova de gramática da próxima semana? Estava no departamento jornalístico e entrei na sala do Andrade sem saber que ele não estava, acabei encontrando nossa prova sobre a mesa dele.
—Não acredito... E o que você fez?
—Eu tirei uma cópia. —Ele sorriu vitorioso.
—Sério mesmo que você fez isso? —Confirmei. —Você vai me passar questão por questão. Nem acredito, preciso de nove na merda dessa prova.
—Não conta para ninguém.
—Pode deixar... Vou descer antes que me liguem outra vez... vai ficar por aí?
—Um tempo. —Ele foi se distanciando, então gritei. —Sobre a casa do Sander, você vai?
—Depois dessa noticia que me deu, acho que vou para qualquer lugar. A tarde nos falamos. — Augusto logo desceu, o assunto da pasta amarela pareceu-lhe algo importantíssimo, parecia ser a pauta do dia.
Lembro-me que na aula seguinte, de literatura, professor Frans abordava a tipologia de Norman Friedman. Como era de uso em sua classe, pediu-nos que saíssemos de nossas carteiras, e que arrastássemos todas elas para as laterais da sala. E isso nos deixava extremamente apreensivos, já que as filas, por sua impecável organização, pareciam primeiramente terem sido desenhadas, e logo depois, as carteiras pareciam ter sido chumbadas sobre essas linhas imaginárias tão concretas. A seguir, pedia-nos que sentássemos ao centro, e todos se amontoavam com seus cadernos, livros em mãos —alguns com seus notebooks. — e se deixavam levar pela entonação do professor, fluente, rítmica e segura. Suas aulas já nos chamavam atenção por sua espontaneidade, de se comunicar, de rir, contar histórias, e se fosse necessário sapatear sobre a mesa ele o faria muito bem, como o fez em uma de suas primeiras aulas em que assisti. E se precisasse imitar o rosnar pensativo e sofredor de uma cadela como a cadela Baleia no leito de sua morte, ele imitaria sem um resquício de constrangimento.
—Toda a teoria de Friedman, se deu por questionamentos, ele começa por se levantar as principais questões que se é preciso responder para tratar do narrador em qualquer tipo de narrativa, Primeiramente: Quem conta a história? Foi sua primeira pergunta. Trata-se de um narrador em primeira ou terceira pessoa? Não há ninguém narrando? Depois se perguntou de que ângulo em relação à história o narrador conta? Depois se questionou sobre que canais de informação o narrador usa para comunicar a história ao leitor. Palavras? Reflexões? Pensamentos? Sentimentos? Do autor ou do personagem? Ou uma combinação de tudo isso? E por ultimo se questionou sobre a que distância ele coloca o leitor da história. Próximo? Distante? Alternando? A tipologia dos narradores de Norman Friedman vai procurar nos fornecer ferramentas para desvendar todas essas perguntas. Lembrando, senhores, que sua teoria se trata sempre de uma questão de predominância e não de exclusividade.
Não havia como não gostar das aulas de Frans, Francisco de fato, mas Frans era inspirado em Kafka e não havia o porque dele não gostar. Sander em sua segunda aula de literatura, fora convidado a ler um trecho que representava um exemplo de um narrador onisciente neutro, segundo Friedman. O professor havia entregue cinco ou seis livros, onde havia o trecho que deveria ser lido como exemplos, marcados por marca-páginas plásticos e coloridos, sempre o fazia, mas apenas uma vez recebi um deles de suas mãos. Sander recebera um romance de “Sinclair Lewis”, os novatos eram sempre candidatos a leitura, era uma tática para saber a que pé andava a fluência de cada um.
—”Após uma discussão bastante aprofundada das toalhas sob todos os aspectos, domésticos e sociais, ela pediu desculpas a Babbitt pela dor de cabeça deste, que era devida ao álcool, e ele recobrou forças suficientes para procurar uma camiseta que fora, segundo fez ver, malevolamente escondida sob o pijama.“ —E prosseguiu, com vivacidade, Provavelmente Sander conseguira uma boa qualificação na avaliação de Frans.
Renato, seu aluno predileto, e não sabíamos muito bem ao certo o porque, mas como era de se esperar, Renato lera, também recebera um dos livros de Frans. Concordo que realmente pronunciava as palavras como ninguém, e não gosto de pensar em coisas do tipo, mas naquela manhã cheguei a conclusão de que um bolsista não possuia nenhum direito especial que o fizesse participar mais das aulas do que um aluno oficial. E confesso que toda essa tola discussão entre bolsistas e oficiais era um assunto de única importância aos alunos oficiais. Para a direção, coordenação, corpo docente e funcionários em geral, tal problema, como era nomeado entre os oficiais, não era nenhum assunto genuinamente problemático. Mas de uma coisa eu sei, quando um bolsista passava, todos, todos e qualquer um sabia que aquele, de fato, era um bolsista. Rubem Fonseca fora escolhido para ilustrar o narrador que Friedman chamava de onisciência seletiva múltipla. Claro que ali todos nós já havíamos feito a leitura do romance, mas o trecho apresentado por Renato nos despertou a vontade de lê-lo uma outra vez.
—“Ela não tinha mais ilusões românticas, já tivera a sua quota de homens daquele tipo e seu coração não mais batia alvissareiro, como quando era menina, mas era sempre deleitável e animador sentir o interesse de um homem, ainda mais tendo a graça bruta das pessoas robustas e ingênuas. Inconscientemente passou a posicionar o seu corpo com mais cuidado (...).”
Para a próxima aula, deixara um trabalho em dupla, para que procurássemos novos exemplos de cada tipo de narrador, eram sete ao todo. Não houve nenhum critério de seleção além da formula que usara para separar os casais, a de direcionar o dedo em algum ponto da lista de chamadas e proferir os nomes em seguida. “Vinicius Martins Bianco e… —Levantou o dedo, fechara os olhos em uma grande encenação, teatralmente, e pousara-o sobre o papel. —Julia Mesquita Melo.”
Sentado ao lado de Julia, no ônibus, combinamos de nos vermos na tarde de sábado, o que me deixou um tanto feliz. Pesquisaríamos sozinhos e nos encontraríamos em sua casa no fim de semana, para finalizarmos todo o processo chateador da digitação. Eu iria até sua casa naquele sábado, chegaria mais próximo do que jamais havia estado. Ir à casa de alguém assim, pela primeira vez, é algo grandioso, é como conhecer um novo país, repleto de semelhanças, estranhezas, encantamento, descobertas, e novas formas de se ver quase tudo que já foi visto. Isso por que as pessoas estão sempre recriando. Estranho era o fato de que pensar em Julia, me levava involuntariamente invocar Augusto, e toda essa turbulenta profusão de fatos e pensamentos não concretizados me deixavam próximo de um abismo para o qual eu não queria olhar.
—Como vai sua tia? Ganhando campeonatos? —Ela sorriu, parecia estar sempre com um sorriso no rosto, mas quando sorria de verdade, parecia me pedir para beijá-la. Seu hálito parecia refrescante e o aparelho que usava nos dentes exercia em mim certa atração. Mas era aparelho de porcelana, passavam despercebidos aos olhos caso o fio estivesse preso a eles com ligas transparentes. Era um aparelho importado, o pai lhe comprara em uma viagem que fez a Nashville no ultimo ano, representando sua industria e seus calçados. Julia pagara duzentos reais a um dentista por cada pecinha daquela colada cuidadosamente sobre seus dentes, ela possuía vinte e oito dentes, extraíram-lhe dois deles dias antes de começarem a colagem da porcelana. Calculava-se que havia gasto cinco mil e seiscentos reais com a instalação dentária, com a cola, e com a eficiente intervenção médica-ortodontológica.
—Ela bem que gostaria de ganhar alguma coisa, Vinicius… mas quem estaria interessado em promover um concurso de covers da Gretchen? —Soltamos gargalhadas da situação. Ainda no caminho para casa, Julia parecia estar tão interessada quanto eu, sobre Caio, eu digo. “Não é estranho?” Perguntou. Eu disse que sim, e Julia confessara que não via como algo assim poderia ter acontecido sem o envolvimento de Caroline Araújo, e conseqüentemente de Renato e seu mais novo escudeiro. Se um dia Carol desejou ser tão amiga de Augusto, fora simplesmente pelo fato de ter em si, um gênio corrompido e dissimulador, e sabia que ele poderia lhe oferecer muito mais que problemas… Está bem, se quer mesmo que eu confesse, eu confesso, estava com uma ponta de ciúme mesmo, mas estava vendo meu amigo ser corruptamente adulterado em prol de interesses pessoais de uma garota imprudente e egocêntrica. Eu já havia dito à ele que não confiasse em garotas com a personalidade de Carol, principalmente naquelas que pintam os cabelos de vermelho. Meu transporte chegava ao meu setor, ao voltar, o percurso era bem mais rápido.
—Júlia, preciso lhe contar uma coisa, mas tem que prometer segredo.
—Claro que pode confiar em mim.
—Sabe a prova de gramática da próxima semana? Estava no departamento jornalístico e entrei na sala do Andrade sem saber que ele não estava, acabei encontrando nossa prova sobre a mesa dele. —Se fez surpresa.
—Você está com a prova de gramática do Andrade?
—Estou.
—Ai meu Deus! E como é que ela está? Muito difícil? São quantas questões?
—Vinte.
—Escuta, Vinicius. Não pode me passar as questões?
—Você não pode contar à ninguém.
—Claro que não... sou um túmulo.
Quando me despedi, próximo do ônibus fazer a parada, ela me beijou o rosto de um jeito muito passional, o que me levantou suspeitas de que eu estava certo, ela realmente vinha me olhando com olhos impressionados.
—Boa tarde de sol, seu Costa! —O dia apesar de úmido estava claro e os raios do sol se propagavam agradavelmente emitindo uma onda muito leve de calor. Ouvia-se pássaros que cantavam do alto das árvores, e me sentia vividamente sanguíneo.
Ainda aquela tarde li um poema de William Ernest Henley que dizia o seguinte: "Dentro da noite que me cobre negra como as profundezas, de um pólo ao outro, agradeço aos deuses, se é que existem, pela minha alma indômita. Nas garras ferozes das circunstâcias não me encolhi, nem fiz alarde do meu pranto. Golpeado pelo acaso, minha cabeça sangra, mas não se curva. Longe deste lugar de ira e lágrimas só assoma o horror da sombra, ainda assim, a ameaça dos anos me encontra, e me encontrará sempre, destemido. Não importa quão estreita seja a porta, quão profusa em punições seja a lista, sou o mestre do meu destino. Sou o capitão da minha alma."
E todos nós somos mestres de nossos destinos, todos nós somos capitães de nossas almas.
Ainda aquela tarde li um poema de William Ernest Henley que dizia o seguinte: "Dentro da noite que me cobre negra como as profundezas, de um pólo ao outro, agradeço aos deuses, se é que existem, pela minha alma indômita. Nas garras ferozes das circunstâcias não me encolhi, nem fiz alarde do meu pranto. Golpeado pelo acaso, minha cabeça sangra, mas não se curva. Longe deste lugar de ira e lágrimas só assoma o horror da sombra, ainda assim, a ameaça dos anos me encontra, e me encontrará sempre, destemido. Não importa quão estreita seja a porta, quão profusa em punições seja a lista, sou o mestre do meu destino. Sou o capitão da minha alma."
E todos nós somos mestres de nossos destinos, todos nós somos capitães de nossas almas.
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