Como pude pensar que tudo daria certo quando alunos da minha sala desfilavam com a prova nas mãos antes mesmo que ela fosse aplicada? Os fiscais do Campus eram bem recompensados por dar a língua nos dentes, descontos, eventos Vips, tudo contribuía para que eu fosse denunciado, e assim foi. Naquela manhã, quando a avaliação de gramática foi entregue, senti o peso dos olhares assassinos que vinha de todos os cantos da sala, nenhuma das questões era igual àquelas que se encontrava na cópia que tirei, com sorte conseguiria uns quatro naquela prova, e alunos como Jonathan, Takano e seus companheiros idiotas, que não podiam contar com sorte nesses casos, tirariam zero.
—Eduardo Takano, Maurílio Damares, Ricardo Bensimon, Jonathan de Castro e Vinicius Martins Bianco, devem se encaminhar à diretoria assim que terminarem de responder a avaliação. —Disse Andrade. —E Vinicius, depois que passar pelo diretor eu gostaria de falar com você um instante. —Pronto. Estava literalmente fudido.—Aviso à vocês que aqueles que não conseguirem a média necessária deverão me encontrar a partir do próximo sábado das oito às dez. —E se sentou.
Quando entreguei minha folha de prova, havia várias questões em branco, o professor me olhou com cara de quem dizia algo e pediu para que eu subisse. Quando Janaína, a secretária me convidou a entrar, gelei até os tornozelos. Lourenço foi seco, questionou-me sobre a veracidade de tudo que me permiti dizer em minha matéria. Como se não soubesse o que acontecia dentro e nas imediações do PH.
—O senhor não só foi ousado como fez muito bem seu papel de mexeriqueiro... Talvez Vinícius, você não saiba ou não conheça bem as pessoas que indiretamente citou em seu texto. A sabedoria uma vez lhe dirá que sobre certas coisas não se fala a respeito. Andrade era seu superior nesse trabalho e permitiu que seu texto fosse publicado, infelizmente, portanto você não sofrerá maiores punições. Apenas se despeça da equipe do jornal, procure outra atividade extracurricular...
—Mas eu pretendo cursar Jornalismo...
—Boa sorte! Até o final do ano terá de arrumar alguma outra coisa para fazer. E mais uma coisa: Está sendo encaminhado à doutora Maria Helena, nossa psicóloga. Janaina agendará seus horários.
Os outros praticam terrorismo dentro daqueles muros diariamente, muitos usam drogas, freqüentam psiquiatras, se auto mutilam e eu é que sou encaminhado à psicóloga. O sistema está todo errado mesmo. Cruzando com Jonathan pelo corredor quando descia, levei uma topada, ombro a ombro que me tirou o equilíbrio. Depois colocou as mãos sobre a boca e imitou o mugido de um bezerro.
*
—Tem noção do que fez? Não podia ter dito nada à Fernanda, por sua causa àqueles idiotas do time de basquete estão me marcando. —Fui sincero com Júlia.
—Acho que devo te pedir desculpas, não sabia que Fernanda iria vender o gabarito... de qualquer forma acho que o time de basquete está irritado com você pelo que escreveu no jornal.
—Você tem razão. —Ela tinha razão.
—Você lidou com a verdade, Vinicius. Isso é valido, mas ao mesmo tempo foi muito transparente e isso deixou algumas pessoas preocupadas. —Foi o que Julia disse. Passamos aquela tarde juntos no boliche, havíamos nos encontrado na biblioteca central do Campus, Nova Suíça, e em algumas horas já havíamos feito todas anotações que precisávamos para a apresentação do trabalho. O boliche fora idéia minha, estivemos lá uma outra vez, mas lembro-me que nessa ocasião, Carol estava sarcástica ao extremo e parecia querer descontar em alguém coisas que vinham lhe aborrecendo há semanas.
—Você não deveria se preocupar tanto com o que foi dito… primeiro porque você não citou nenhum nome, não se referiu à ninguém, está tudo subentendido. —houve uma pausa. —O que foi que o Augusto disse? —Perguntou, não estávamos jogando, preferimos tomar um refrigerante e conversarmos em uma das mesas do bar. Eu pedi guaraná antártica com limão e gelo, ela se contentou com uma diet coke simples.
—Eu não sei… —Pensei no que diria quando me visse. —Ainda não tive a chance de falar com ele depois que o jornal foi entregue. A verdade é que... acho que ele não está muito bem comigo… —Com certeza estaria me odiando, Augusto era uma pessoa muito rancorosa, guardava muito ressentimento, e com tudo que estava passando, talvez a coisa mais fácil fosse apertar o eject, estaria eu sendo ejetado da vida dele? Se não por vontade própria, por vontade de Caroline Araújo. E foi então que com ar abatido, Julia me dissera tudo. Aquilo me deixara triste um instante, saber que Augusto andava falando coisas a meu respeito por ai, afirmando coisas que nem mesmo eu saberia dizer.
—Foi o que ele me disse, Vinicius… eu não gostaria de estar lhe contando isso, mas acho que ele não tem direito algum de te julgar. Ou dizer que não quer mais falar com você.
—Mas foi exatamente isso que ele falou? Chegou em você e disse “O Vinicius é gay”?
—Exatamente. Ainda me fez de boba ao acreditar que a conversa que tivemos àquela manhã, sobre sua coleção, era na verdade sobre suas experiências homossexuais.
—Meu Deus do céu! —Fora então que revi tudo que dissera na matéria daquela semana, por mais que atingisse alguém, eu não estava mentindo ou afirmando nada, Estava apenas discutindo fatos reais, e por isso alguns grupos estavam tão preocupados e algumas pessoas se sentiam legitimas vitimas imaculadas.
Para minha surpresa, percebo a presença de Carol. Acabando de entrar acompanhada.
—Olha só quem está aqui, —Disse Julia demonstrando ter notado tão rápido quanto eu. —Como ela pode se vestir assim para ir ao shopping?—Uma longa saia de jeans surrado deixava apenas parte das pernas a mostra, meia três quartos preta, bota de couro e cadarços, uma blusa de malha fina, listrada, com mangas longas, listras finas de todas as cores possíveis. Por cima, uma espécie de colete, de um tecido um pouco mais rústico e de cor única, cabelos presos atrás, uma franja que persistia em escapar. Carregava uma bolsa preta exótica, de aparência retrô e ultrapassada. Até parecia uma estrela do rock com mais uma de suas manias. O desconhecido que a acompanhava, era um cara branco e relativamente alto, usava óculos escuros e uma esquadra de piercings, de longe pude ver pelo menos quatro, corpulento e de aspecto agressivo. Ela não se segurou quando percebeu nossa presença, pediu licença ao moço e veio desfilando em nossa direção.
—Desculpem-me incomodar, mas não teve como não notar a falta de cor nessa mesa, eu estou sendo bem especifica, espero que tão clara quanto. —Confesso que me senti intimidado.
—De onde você tirou essa bolsa? —Foi uma tentativa de Julia em ser tão cruel quanto Carol, mas não deu certo.
—Você gostou, querida? —Então abriu a enorme bolsa, retirou um brilho de algum compartimento interno, e usou o pequeno espelho que vinha grudado na aba interna da bolsa, que estava rachado, para deixar os lábios com gosto de hortelã. —É uma Louise Viton, modelo oitenta e seis, legitima. É isso que encontramos quando vasculhamos bons closets a procura de peças antigas. Era da minha mãe. —Ficamos emudecidos e ela percebera nossa perplexidade. Continuou:
—Precisava lhe cumprimentar, Vinicius, pelo ótimo trabalho que fez para o jornal. Já fiquei sabendo que alguns jogadores que usam o fumodrómo, os mesmo que costumam promover rachas na estrada de acesso, estão de olho em você.
—Carol, não era minha intenção…
—Bem, eu preciso ir. De boas intenções o inferno está cheio... Vocês já estão me deixando enjoada. — olhou no relógio. —Engraçado, em menos de cinco minutos. —Ficamos boquiabertos, ficamos sem palavras até. Tudo isso estava me preocupando. Esperamos que os dois estranhos se retirassem, o que não demorou quase nada e saímos, compramos uma casquinha mista no McDonald’s, trocamos olhares, ela limpou minha boca com guardanapo. ——Ainda me deve desculpas por me deixar plantada naquela festa.
—O que quer que eu faça? —Ela sorriu.
—Eu te digo no momento certo.
As telas de todos televisores amostra em uma loja especializada, mostravam a cidade coberta por nuvens totalmente negras, parecia noite, mas ainda eram cinco horas. Parte da cidade alagada e granizo que destruía telhados e casas inteiras na periferia. Pegamos um táxi ao deixarmos o shopping, e sobre Augusto estar inventando histórias a meu respeito por ai, eu nem sei o que dizer. O vento era tão forte que em alguns trechos observamos árvores que haviam sido tombadas, e poste que em conseqüência também caíram. Os faróis cruzavam-se em todas as direções, o interior do táxi era iluminado pelo agradável brilho âmbar da cidade que permeava as luzes do céu. Pontos luminosos, de todos os tipos, brancos, amarelos, azuis, velozes, trêmulos, estáticos, banzeiros. Eu estava precisando deixar a estupidez de lado e perceber que no mundo há milhões de pessoas diferentes de mim que querem viver livremente, com seus hábitos, costumes e preferências, que talvez sejam opostas, mas ainda assim, isso não faz do outro um inimigo em potencial, eu não tinha nada que querer denunciar ninguém. Tinham plena razão ao me chamarem de jornalista de meia tigela, nem era um ainda e já me achava.
Julia estava no banco de trás, ao meu lado, mas era como se eu estivesse sozinho, era como se o carro estivesse sendo guiado no automático, eu acompanhava o movimento da rua através do vidro, deixava-me levar pelo movimento de tudo que lá de fora via. Então senti algo quente e macio sobre minha mão, virei-me com a sensação conseguinte de pavor. Senti seu carinho sobre ela, seus dedos se movendo maciamente, voltei minha palma para cima e enlacei seus dedos, foi então que a beijei. Metendo a língua de verdade. Foi gostoso beijar no banco de trás em movimento, abrir os olhos de vez em quando e perceber que estávamos parados no sinal, perceber que alguém em outro carro nos olhava curiosamente, como torcedores que acompanham a bola com a fadada sensação de que em algum momento ela dribla o goleiro e bate na rede. Seus lábios eram suaves, desprovidos de qualquer resquício de agressividade. Os pingos começaram a se chocar contra os vidros do carro e de repente sentíamos pedras e pedras açoitando o veiculo, vindas de todas as direções. Quando o carro foi parando de frente casa, abracei-a e nos despedimos, Julia era bonita, doce, e cheirava bem. Eu me sentia viril e disposto, e é claro, sentia-me compensado de alguma forma, até mesmo pela extenuante aparição da bruxa de cabelos vermelhos e sua assustadora bolsa Louise Viton. Carol nunca tivera por mim, de fato, sentimentos nobres ou qualquer coisa que ela considerasse especial e apenas oferecida à seus melhores amigos. Agora, provavelmente, deveria estar empilhando conceitos ao meu respeito na cabeça de Augusto. E porque eu me preocupava tanto? Porque a vida do Augusto era algo mais freqüente de se pensar do que a minha mesma?
Corri para entrar em casa, e estava bem enganado quando pensei que aquele dia tinha chegado ao fim.
*
Não gosto da chuva, gosto menos ainda de ventania e trovões, e posso dizer que detesto o granizo. As pedras de gelo, do tamanho de ovos de codorna, começaram a se amontoar no alpendre e por todo quintal. No quarto, troquei de roupa, sequei os cabelos e me dirigi ao final do corredor, com intenção de da varanda observar os estragos causados pela tempestade, minha mãe e eu aguardávamos a chegada do meu pai, a caminho de casa havia avenidas que simplesmente se transformam em rios com grandes corredeiras.
—Vinicius! —Gritou minha mãe lá de baixo.
—Oi, mãe?
—Já falei com seu pai, ele está chegando.
—Tudo bem, então.
Abri a porta e estava frio, tudo que se via com o fim do temporal era gelo, água e destruição... telhas caídas, janelas quebradas, galhos arrancados, coisas fora do seu lugar. O médio outdoor fixado na esquina informando que a clinica veterinária ficava a cem metros, estava parcialmente tombado. Não demorou muito o Honda City azul de meu pai dobrou a esquina, o portão se abriu e o carro foi deixado na garagem, em seguida meu pai retirou algumas coisas do banco de trás e entrou em casa. Em questão de segundos um sedã preto também dobrara a esquina e a dez por hora passou em minha porta, um pouco mais acima parou. Curioso, desci rápido os lances de escada, meus pais conversavam na cozinha, deixando a sala e passando pelo jardim alcancei o portão e ganhei a calçada. O carro preto ainda estava lá, de repente o frio na barriga veio como um soco e pensei se deveria me aproximar ou não, estava tão focado nisso que não percebi o outro veiculo que se aproximava lentamente por trás enquanto eu caminhava rumo ao sedã. Andei rápido, já decidido a bater no vidro e perguntar qualquer coisa besta, do tipo “Boa noite, está procurando algum endereço?”
Fato que isso não ocorreu, faltando apenas alguns passos para alcançar o automóvel, travei quando os faróis foram acesos e o motorista deu a partida e bem diferente de como chegou, partiu em alta velocidade.
—Olha ele aí... foi mais fácil do que pensávamos. —Gritou alguém e eu conhecia aquela voz.
—Essa foi moleza... Encontramos o puto na rua. Olha só! —No carro dirigido por Ricardo estavam Jonathan, Takano e Maurílio. Eu não podia voltar pra casa correndo porque me pegariam facilmente, então comecei a correr em direção oposta.
—Pare o carro Ricardo. —Ordenou um deles, provavelmente Jonathan, que parecia estar no comando. De repente vi três correndo atrás de mim e eu sabia que devia correr porque eles não estavam ali atrás de amizade.
—Volta aqui seu linguarudo filho-da-puta! Acha que a gente não vai te pegar não? —A ameaça fez com que eu aumentasse os passos, o que era meio complicado, pois calçava uma sandália de dedos e as pedras de gelo que ainda estavam sobre o asfalto dificultava o correr, foi num tropeçar, já há algumas quadras de casa, que Takano conseguiu me pegar se jogando contra mim. Eu caí, ele me segurou pela gola da camiseta e um braço.
—Peguei... Aqui está nosso fofoqueiro. —Os outros se aproximaram, menos Ricardo que imagino estava no carro.
—Vamos ensinar esse otário não se meter mais com a gente.
—Passando gabaritos de provas falsos... Por sua culpa estamos ferrados. —Estavam agressivos, o que me intimidou. Três contra um e covardia.
—Não é minha culpa se preferiu encher a cara do que estudar... Eu não sabia que o Andrade fosse descobrir...
—Não é sua culpa? —Se aproximou jogando sua mão em minha cara. Acho que já estava sendo segurado por Maurílio e Takano, que me obrigavam a ficar de joelho. Jonathan chutou minha barriga de um jeito, que não sei se usava muita força ou não, mas naquele momento eu quis morrer, e senti seu pé em meu corpo por muito tempo depois.
Os vagabundos riam enquanto me contorcia no chão e nesse momento fui solto para que pudesse chorar e ser humilhado enquanto me observavam e debochavam de mim.
—O que vocês querem? —Perguntei. Eles riram.
—Vamos acabar com ele?
—Claro que não, não vamos nos sujar... depois ele dá com a língua nos dentes e estamos ferrados de vez.
—O que nós vamos fazer com o dedo duro então? —Eu tentei levantar, pensei em correr outra vez, mas logo um me segurou.
—Segurem ele, eu vou lhe dá uma lição que você nunca mais vai se esquecer. —disse olhando pra mim. Ele começou a afrouxar o cinto e de repente desabotoou a calça se aproximando. Os outros riam muito.
—O que é que você está fazendo? —Ainda perguntei. Ele colocou seu pau para fora.
—Quero ver você abrir a boca agora.
Logo senti um jato quente em mim e quis gritar e fugir, mas não era possível me soltar de Maurílio e Takano, não era possível gritar... Então fechei os olhos e a boca e chorei ali mesmo, enquanto ele mijava em mim, enquanto riam da minha cara e ele soltava todo liquido que bebeu em minhas roupas, em meus cabelos.
—Levanta essa cara dele. —E Então um deles puxou meu cabelo fazendo com que o jato de urina fosse certeiro em meu rosto. Assim que terminou, assim que tive coragem de abrir os olhos outra vez, Jonathan já havia apertado o cinto e fechado a braguilha.
—Agora sim acho que aprendeu a lição. Vamos embora! Vamos! —Disse correndo. —O Ricardo está nos esperando.
Entrei em casa sem que me vissem, corri para o banheiro e após fechar o Box liguei o chuveiro e deixei que a água quente caísse sobre mim, ali, sentado no piso claro. E por mais que água caísse, por mais que eu jogasse para fora toda aquela humilhação, não conseguia me sentir limpo, nem por fora, nem por dentro.
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