domingo, 12 de setembro de 2010

37 - BR 153

Trilha: Cosmic Rough Riders - sometime    (e)    Explosions in the Sky - your hand in mine








                                                                O uniforme estava em um cabide, cuidadosamente passado, joguei-o sobre a cama, vesti uma camiseta e sai do quarto em direção ao banheiro, do outro lado do corredor. Detesto tomar banho assim, logo pela manhã. Uma água no rosto, uma escova nos dentes e gel no cabelo já me deixavam limpidamente aristocrático, o que dizia que estava pronto para mais um dia duro no PH. Em lugar algum havia tanta chateação referente a aparência como dentro dos muros daquele colégio para jovens ricos. Se meus antigos amigos pudessem presenciar tudo aquilo, ficariam constrangidos com tamanho afeminamento e cuidados por parte de alguns, —E estou falando de homens de verdade. — e de algum modo bem obducto veriam como estou diferente.
    Com dez minutos de atraso chegara o ônibus. De verdade não estava atrasado, mas os ponteiros da minha mãe é que estavam pontualmente adiantados, e me fazia correr mais do que deveria.
—Toma logo seu café, Vinicius, seu ônibus está para passar.
—Ainda faltam dez minutos.
—Não faltam não. —Dizia conferindo o relógio.
    Entrando, cumprimentei o seu Costa, grande motorista, dirigia transporte escolar há quarenta e dois anos. Buscava-me e deixa-me em casa todos os dias com muita segurança. Disse: “Como vai seu Costa? Mais um dia de trabalho?”
—Nem me fala, menino Vinicius. —era assim que ele nos chamava, com o menino antes de qualquer nome próprio. Seu Costa estava na casa dos sessenta, mas ainda em plena forma. Muita disposição. —Essas chuvas não param mais, o tempo anda muito diferente nos dias de hoje… muito diferente. — Claramente não parecia ser um dia bom para seu Costa, acabrunhado voltara a direção.  Meus olhos focalizaram o interior do ônibus, o corredor. Havia uma garota do primeiro ao lado de Julia, Felipe também estava acompanhado e a melhor opção foi sentar sozinho e esperar que alguém se sentasse ali, era melhor do que ter que escolher com quem se sentar. Fiquei logo a frente, ao lado da janela, deixávamos a rua de casa. Tirei de dentro da mochila o livro que estava lendo no momento “O diário de Anne Frank”, o professor havia exigido a leitura do livro para uma avaliação que seria feita na semana seguinte. Eu estava adorando testemunhar os dias terríveis de Anne Frank dentro do sótão. Quem escreve um diário, procura anotar seus pensamentos íntimos e reflexões. Anne Frank tenta descrever, o máximo possível, a vida cotidiana da casa de trás e as notícias que chegam de fora. Às vezes acontecem casos emocionantes para relatar, como bombardeios e tentativas de assaltos no meio da noite. Durante a narrativa, Anne consegue comentar de forma acertada as transformações de cada um dos que estão escondidos com ela, com sinceridade e um tanto irreverente em várias ocasiões. Anne Frank descreve as coisas com seu espírito crítico; não somente as alheias, mas também as próprias. Como não tem nenhuma amiga para compartilhar suas intimidades, escreve longas cartas a uma amiga imaginária chamada Kitty. As cartas escritas a Kitty se multiplicam com rapidez. Durante sua permanência no refúgio, o diário torna-se muito importante para ela. Serve como um desabafo. Em 16 de março de 1944, Anne anota: “O melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso descrever; senão, me asfixiaria completamente”.
    Percebi que seu Costa havia mudado a rota de sempre, voltei a leitura, a próxima parada fora num elegante sobrado de esquina. Isso acontecia, às vezes trocavam alguns alunos de lista, e então um novo trajeto era criado, em questão de segundos. Não sei por que, mas minha primeira impressão sobre o cara novato, não fora o que eu poderia chamar de “profunda identificação”. E era ele mesmo quem eu via agora na calçada, mochila preta nas costas, uniforme completo e impecável, um gorro verde de lã. Sander parecia um doente, pois sua pele branca e pálida ficava ainda mais evidente devido aos tufos de cabelos negros que escapavam ao gorro. Sua mãe também estava a espera, seu Costa fizera a parada e a mulher se despediu do filho com um beijo na testa,— como quando o deixava todos os dias na escolinha, quando tinha seus seis ou sete anos de idade.— o que o deixou aparentemente constrangido, mas ficar vermelho não adiantou, a cena se repetiria diariamente, por todo o semestre. Subiu sem ao menos olhar na cara de seu Costa, talvez para ele, aquele senhor fosse apenas o velho idiota que o levaria para merda de colégio todos os dias. Ele olhara diretamente para mim, ainda parado na porta da cabine, eu desviei o olhar para a rua, vendo os postes passarem cada vez mais rápido. Ele veio e sentou-se ao meu lado. Atos de sua personalidade passiva-agressiva. Logo pegamos a BR 153, rodovia de grande fluxo que corta nossa cidade de norte a sul. Passávamos por ali todos os dias, vendo o sol nascer brotando da terra, observando a massa de poluição sobre o centro urbano, atento aos aviões que decolavam e aterrissavam no aeroporto a margem da rodovia.
—Espero acreditar que não há motivos para inimizade aqui? —Disse, o que me deixou por um instante espantado. Olhei-o incrédulo.
—Me chamo Sander.
—É, eu sei…
—E o seu? Qual é?
—Eu me chamo Vinicius. —Estendeu a mão, eu a segurei sem vontade alguma. Mas o fiz.
—Está lendo o quê?
—O diário de Anne Frank, para a aula de literatura estrangeira. Você não está lendo?
—Não... quero dizer, ainda não comecei.
—Duvido que termine a tempo da avaliação.
—è que preciso colocar meus óculos de leitura para ler. Detesto óculos, conseqüentemente detesto ler.
     Às vezes Augusto parecia-me certo ao dizer que a vida nada mais é do que um grande programa de tevê, adaptado é claro, mais realismo, personagens mais vividos e primorosos, e totalmente contra-censura, anti-hipocrisia, onde tudo é possível de se ver e vivenciar, basta achar a freqüência, sintonizar-se. Pensei que se minha vida atual estivesse sendo exibida em telas de cinemas clandestinos de algum lugar desconhecido. O que seria que as pessoas que acompanhavam estariam pensando e dizendo a meu respeito, a meu respeito e a respeito da minha vida impermanentemente instável? A respeito de minha família e dos poucos amigos que tenho? Toda essa idéia talvez tenha surgido após o grande holocausto das câmeras, de todos os elevadores da cidade, de ruas sendo monitoradas por elas vinte e quatro horas por dia. Câmeras nas boates, supermercados, shoppings, estacionamentos, ônibus, táxis, calçadas, restaurantes, banheiros de restaurantes, escadas de emergência, clubes e motéis. Até em tampas de caneta é possível se colocar uma delas… e então fiquei a pensar, se realmente houvesse uma ponta não só de sentido, mas também de verdade em toda essa história, como não seria o trailler que abreviaria toda nossa vida em apenas um minuto:
      Um fundo negro, ao mesmo instante em que se inicia uma musica do “Explosions in the Sky”, também surge a imagem do Campus PH na tela, visto por cima, sua esplêndida estrutura, todo o arvoredo ao seu redor, as centenas de alunos, também vistos do alto, metidos em seus uniformes azuis, que pela distancia aparentariam pretos, descendo dos ônibus. Então o locutor com voz grave de trailler diria sua primeira frase: “Um ano de chuvas”, mostraria a cidade em um dia molhado, linda como só ela consegue ser depois de um dia assim. “A quebra de sigilo de um mundo que até então eles não conheciam.” Então viria flashes de cenas imperdíveis. Em câmera lenta fechariam o foco em pequenas expressões, um sorriso, um abraço, uma discussão, até mesmo um beijo. Corpos, tempestade, sangue. O locutor voltaria: “Um mundo muito próximo do fim”, e então um de nós levantaria os braços para o céu, em plena liberdade, e a cena seguinte traria os outros abraçados andando pela rua repleta de poças d’agua.  O fundo escuro voltaria trazendo a seguinte frase em cor branca e negrito, “Você não está sozinho.” Em seguida o titulo, forte e marcante fecharia o pequeno filme e arrecadaria o desejo de milhares.
    Quando pegamos a estrada de acesso, disse à Sander que seria melhor que tirasse o gorro da cabeça antes mesmo que chegássemos ao Campus, disse assim, como quem diz que não gostou do prato que acabara de experimentar, de qualquer forma ele não poderia entrar com o gorro mesmo. Sander seguiu as instruções e protestou sobre a rigidez e moralismo dos coordenadores, “É bem provável que sejam nazistas”, soltou de repente. E aquilo se repetiu nos próximos três dias, minha casa, prédio de Sander, beijo da mãe, sua subida arrogante e o sentar ao meu lado.  De forma que no segundo dia nós não nos falamos, houve apenas um cumprimento sem palavras e durante todo trajeto fiz questão de ver a paisagem da rodovia, através da janela. Inicialmente os setores da zona leste, Universitário, Vila Moraes, depois a ponte de acesso ao Caiçara, desvio para o setor Jaó, Aeroporto Santa Genoveva, e logo após o viaduto de acesso ao Aldeia do Vale, tudo ia ficando mais verde, a cidade dava espaço à natureza concreta, e os pastos se alongavam como pistas de autódromos. Olhei-o de soslaio repetidas vezes, e notei que seu olhar sobre mim era idêntico ao de um psicanalista Junguiano, compassivo e aplicado, melancólico e impassível. No terceiro dia ele se desculpara por sua mãe, que lhe fazia parecer patético demais. Eu nem formulava conceitos sobre o tema que propôs tratar, mas ele fizera questão de se desculpar dizendo-me também que havia um irmão mais novo, pelo qual sua mãe não era aficionada. O irmão estava na fila a espera de uma vaga na sétima série há quatro semestres e Sander se achava com sorte por terem lhe chamado antes mesmo do fim do período. No quarto dia subira com fones de ouvido, seus cabelos, sua franja especificamente estava cuidadosamente penteada e ajeitada para que parecesse o mais despojado e natural possível. Sentou-se. Através do pouco contato que vinha travando com o recém-chegado, percebi que ele despertava certa curiosidade, porque era de certo modo enigmático. Era diferente de algum jeito.
—Você deveria dizer bom dia ao seu Costa. —Ele não entendeu, se mostrou desnorteado.
—O que foi? O que foi que você disse mesmo?
—Você deveria cumprimentar melhor as pessoas, olha o seu Costa por exemplo, o motorista do ônibus… já estamos no fim da semana e você sempre sobe como se isso estivesse sendo guiado por um piloto automático ou alguma coisa assim… —Tudo bem, fiquei sensibilizado mesmo.
—Nossa… perdão, eu não sabia que ele se chamava seu Costa. —Parecia arrependido. —Ei, seu Costa! —Exclamou, fazendo com que seu Costa olhasse para trás, rapidamente, em nossa direção. —Bom dia para o senhor, está uma bela manhã, o senhor não acha? —Seu Costa sorriu.
—Está sim, menino Sander. Está uma linda manhã!
—Viu só, ele sabe nossos nomes. —E minutos depois me convidara para passar a tarde em sua casa, olhei-o impressionado, esboçando certa desconfiança.
—Vai sim, pode levar aquele seu amigo, como ele se chama mesmo?
—Augusto. Ele não vai querer ir para sua casa... lembra que o empurrou no primeiro dia em que chegou?
—Estava em defesa de alguém, e posso me desculpar caso ele queira.
—Eu não sei...
—Tem aquela amiga gostosa dele, a ruivinha… Eu fiquei de olho nela na festa dos namorados.
—Carol.
—Ela mesma. Eu convidaria pessoalmente, mas a única vez que lhe chamei, na tentativa de pedir uma borracha emprestada, ela me ameaçou de morte.
—Não fico nem um pouco surpreso.
    Em seu diário Anne Frank escrevia coisas tão parecidas com as quais sentia: “Sou capaz de encarar a Anne de todos os dias sem preconceitos e sem fazer concessões, observando o que há de bom e de mau. Essa autocrítica me acompanha sempre, e, cada vez que falo alguma coisa, sei imediatamente se devia Ter falado de outra maneira ou se estava bem assim. Há muita coisa que condeno em mim. Seria uma longa lista! Cada vez mais, reconheço a verdade que havia nas palavras de papai: "Aos pais cabe dar conselhos e indicar caminhos, mas a formação final do caráter de uma pessoa está em suas próprias mãos."


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