domingo, 3 de outubro de 2010

43 - LOGO O PRESENTE SERÁ SÓ LEMBRANÇAS

Trilha: Chatham County Line - Carolina    (e)  Warren Ellis - destined for great things







                                                                                    A primeira vez que fiquei com uma garota fora no final de semana que comemorávamos as bodas de ouro de meus avós maternos, eu estava com doze anos e quem me ensinara tudo, exatamente tudo que alguém precisa fazer quando se beija, fora minha prima Valéria. Me arrastava para lugares silenciosos, atrás de cortinas, dentro de armários, atrás de portas, em cima de árvores, e eram em lugares assim que me conduzia a um orgasmo precoce estonteante. Valéria tinha dezessete anos nessa ocasião, e hoje com mais de vinte e cinco, sustenta um pobre rapaz de dezenove, Valéria sempre fora apaixonada por moços mais jovens.
      Já a primeira vez que fui para cama com uma garota, fora um tremendo desastre. Por confiar demais no que dizem os amigos, acabei parando com dois deles em um local na saída da cidade onde morava, há duzentos e sessenta quilômetros da capital. Provavelmente por falta de entretenimento e ocupações diárias, o mundo parecia girar em torno das garotas e de como seria estar com uma totalmente nua, que cheiro as partes mais intimas de uma garota teria, e passávamos a tarde toda falando de coisas assim. Quando não falávamos de coisas assim, jogávamos canastra e falávamos de coisas assim. Os comentários na redondeza diziam que havia um lugar para rapazes desavergonhados da cidade, diziam que o Pena Verde era o lugar ideal para quem quisesse realmente sentir o cheiro das partes mais intimas de garotas. E por muitos dias a idéia de conhecer o local nos deixara em êxtase. Decidimos nos apresentar em uma noite de quarta-feira, o movimento estaria menor e assim não seriamos tão notados. Isso fora combinado entre Rodolfo, Murilo e eu, naquela noite fugiríamos de casa. Lembro-me de ter pulado a janela após as onze cuidadosamente para que ninguém percebesse, com os sapatos na mão até, e iríamos para o Pena Verde a procura de toda a verdade, ali ela era exposta de forma farta e suculenta, apreciada até o tutano. A dona do local sorriu, por ver rapazes tão jovens e bonitos em seu estabelecimento, nos recebeu calorosamente e em seguida pediu para que três de suas garotas descessem e nos acompanhasse aos quartos individuais. Parecíamos ter tirado a sorte grande porque todas as três eram incrivelmente encorpadas, tinham exatamente tudo que propunham oferecer e só fui sentir o peso de minha responsabilidade quando ela se despira e pediu que fizesse o mesmo. Em alguns minutos eu estava totalmente nu, enrijecido e morto de tesão, só o fato dela pegar em meu pau já me fazia contrair ou dar pulos de espasmo. Eu a vi abrindo um pacote de camisinhas, rasgando a embalagem de uma com a ponta dos dentes, batom vermelho. Quando engoliu meu pau, aquilo me provocara arrepios em toda coluna e eu o retirei com precisão e emergência. Aí ela descera a camisinha até o final, como se colocasse um novo vestido em sua boneca preferida, deitou-se na cama, eu subi em cima e chupei seus seios, beijei sua boca suja com todo o jeito lascivo e comprometedor de filmes pornográficos, o que até então era o mais próximo que eu já havia chegado de uma cena como aquela. Quando a penetrei, ela soltara um gemido oculto, como uma andorinha emboscada por um gato. Tal demonstração explicita de satisfação, me fizera momentaneamente perder toda a concentração que retinha meus fluidos. O calor úmido do canal absorvendo e acolhendo meu membro pulsante, gozei antes mesmo de chegar ao fim, gritei em êxtase até cair em mim novamente. De alguma forma muito incompreensiva ela me olhava com olhos de indignação, eu sai de cima dela, tirei a camisinha e a joguei ali mesmo, no pé da cama, vesti minha cueca, minha calça, as camisas e desci após dizer um muito obrigado. Quando retornara à recepção, Murilo e Rodolfo já me aguardavam sentados em um banco próximo a mesa de bilhar, e pareciam tão surpresos quanto eu.
      Lembrar anos que se passaram nunca foi meu passatempo predileto, mas quem de nós, humanos, consegue viver sem memória? Penso nos vampiros, que são imortais, e carregam com eles uma memória infinita de centenas de anos, que nunca se apaga, esse é o castigo que precisa ser pago para se ter a vida eterna. Naqueles dias o ar mofo, pela falta do calor, me sufocava aos finais de tarde, pensei em ligar para um dos meus velhos amigos e relembrar coisas velhas de tempos, época ingênua em que jamais me veria da forma como me encontrava então, mas de fato eu não parecia ser mais importante, ou tornara-me importante demais. Perdi todos meus amigos quando decidira me ingressar no PH, não que algo fora dito por parte deles, mas eu de alguma forma sabia disso. Murilo, Rodolfo, Carla, Silvia e Guilherme, meus grandes amigos de infância, eram pessoas simples e toda a minha turma de segundo ano, como todos os estudantes do ultimo colégio onde estudei, também eram. Agora eles me evitavam, às vezes eu ligava, mas não faziam questão de disfarçar um lado frio do outro lado. E quando começava a lhes contar histórias sobre o Campus, histórias sobre pessoas que conheci, eles diziam estar ocupados e desligavam com um tchau sonâmbulo e desinteressado.  Talvez me acharam imprudente quando tomei a decisão de me mudar, talvez sentiram uma pontinha de inveja e provavelmente agora me achavam acima de um padrão ideal para manterem qualquer tipo de contato. Mas eu sabia que todos eles vinham a Goiânia constantemente, mas não me procuravam, nem queriam me ver.  Liguei a televisão como alguém que pede socorro a um desconhecido. Os raios azuis cintilaram se propagando por todo quarto, o jornal local exibia comerciantes que falavam sobre o aumento das vendas nas semanas que antecediam o dia dos pais. “Um aumento de vinte por cento, para esse ano.” Dizia o gerente de um grande shopping. Havia algo no esôfago, uma sensação de estrangulamento, uma dificuldade imensa em engolir, em sentir o ar passando livremente, era uma pequena bola de isopor que bloqueava a traquéia. A matéria seguinte me chamou bastante atenção:
—“Uma matéria publicada semana passada no jornal de circulamento interno do Campus PH, parece demonstrar que uma das maiores instituições de ensino do país enfrenta dias difíceis.“ —Agora sim eu estou completamente ferrado. Pensei. Em seguida entrou a repórter, aparentemente nova para a profissão, se posicionava em frente aos portões do Campus, onde se via uma espécie de autdoor que anunciava: “Os melhores do estado estudaram aqui. “
—Estranhos acontecimentos têm ligado um mundo frio e misterioso aos alunos do Campus PH, é verdade que o Educadores Campus PH passa por um período de crises. Essa matéria divulgada no ultimo jornal elaborado por próprios alunos denuncia cenas de irresponsabilidade, queda do nível de ensino, desaparecimento e abuso no uso de drogas. O estudante Vinicius Martins Bianco, redator do jornal, diz o seguinte: —Eu não estava acreditando em tudo aquilo, será que alguém mais estava assistindo aquele jornal? Sentei-me embasbacado. —“Será que assim como Caio, estamos todos desprotegidos dentro desses prédios de arquitetura tão forte? —Questiona o aluno. —Será que os próprios alunos nos oferecem riscos inesperados?” Para quem não sabe, —Prosseguiu. — Caio Freitas Amaral é filho do deputado estadual Paulo Freitas, e está desaparecido há aproximadamente três meses, dizem que a última vez que o viram foram exatamente aqui, Fábio, lá dentro. —Apontou para dentro dos portões e a câmera avançara seu foco capturando uma visão destorcida de parte do estacionamento. —bem, —Palpitou a repórter. —o que nos deixa mais intrigados é que um dos acompanhantes de Caio, um de seus melhores amigos aqui dentro, é Augusto Bueno de Almeida, filho do cirurgião Marcos Bueno de Almeida, que atualmente está sendo investigado pelo assassinato da empresaria Solange das Neves, no inicio do mês. As coisas por aqui não andam nada bem. —Nesse momento o apresentador do jornal intrometeu-se. —Os alunos estão ai nesse momento, Juliana? —Não, Fábio. Os alunos não estão aqui, a não ser aqueles que vivem no dormitório do próprio colégio, porém não temos acesso a esses alunos, Fábio. O Campus permanece aberto em horário comercial, mas as aulas são administradas pela manhã, o turno se encerra as quatorze horas e então os jovens retornam para casa naqueles grandes ônibus, olhe só. —E a câmera se fechou novamente no estacionamento. —Eu não sei se está dando para ver, Fábio, mas os alunos voltam para casa naqueles ônibus ali. —Uma frota de doze ônibus, de cor vermelha, lustrados, fora capturada pela câmera do cinegrafista.
—Tudo bem, Juliana, muito obrigado. —Disse o apresentador. 
—Ok. Obrigada, Fábio, aqui é Juliana Texeira para o jornal local.
    O telefone tocara assim que a matéria saiu do ar, eu estava gélido e ao mesmo tempo decidido que abandonaria essa coluna, aliás não tinha escolha, eu havia muito despercebidamente estragado tudo, falaria com Daniel na manhã seguinte. “Olha, cara, eu não agüento mais.” Diria algo assim ou qualquer coisa do tipo, só para disfarçar. Levantei-me, abri a porta do quarto e atendi ao telefone ali mesmo no corredor.
—Eu espero que esteja satisfeito com a repercussão da sua matéria idiota. —Disse Caroline.
—Carol?
—Sim, sou eu, o que vai escrever para próxima semana? —sua voz demonstrava insegurança. —Gostaria muito de ser a primeira a saber.
—Eu… eu não vou escrever nada. Eu abandonei o jornal.
      Lembro-me de que a semana seguinte fora marcada por acontecimentos bizarros e aflição, angústia, ânsia, apreensão, atropelo. Durante sete dias tanto eu quanto Augusto fomos acordados por telefonemas que se repetiam por toda madrugada, o identificador de chamadas não conseguia registrar o numero de forma que isso nos intrigava um pouco mais, a tal voz, do sujeito misterioso não voltou a se comunicar, mas de algum modo sabíamos que esses telefonema sinalizavam e diziam qualquer coisa, e que muito dificilmente não estariam ligados a todas as outras coisas que nos levavam ao homem da voz mais uma vez. Esse individuo era a única prova e a única pista.
    Augusto tentara arrancar de seu pai qualquer coisa que nos levasse a qualquer direção, mas o doutor, como fazia questão de chamá-lo, parecia tão perdido quanto nós. Não sabíamos até onde ele estava metido em toda essa história. Primeiro havia a acusação de que ele havia assassinado a própria esposa, e porque alguém inventaria algo dessa natureza assim do nada? Em segundo, a afirmação de que não passava de um pai postiço, e mais uma vez você poderia pensar quais motivos levariam alguém a revelar esse surpreendente detalhe. Então, quando vi policiais entrando pela casa dizendo que Solange estava morta, bem, pareceu-me que ele estava metido nisso até os cílios. Mas de todas as suspeitas que recaiam sobre ele, pelo menos uma estava solucionada. O exame de paternidade dera compatível para os dois. Ambos, cientificamente testados, eram pai e filho. Isso causara em Augusto uma certa dor, por querer atribuir todos os desentendimentos passados com seu pai à mentira que ele fez questão de acreditar, a de que aquele homem não possuía seu sangue, e que isso lhe isentava de qualquer obrigação para com ele no âmbito sentimental.




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