quarta-feira, 6 de outubro de 2010

44 - INVERNO

Trilha: Howie Day - collide    (e)   Pnau - lover







                                                                               Depois de lavar o rosto e escovar os dentes voltei a me deitar, me isolei totalmente nos últimos dias, vinha evitando as pessoas e pensando em uma maneira de me vingar do desgraçado que era Jonathan Marques. Pensei que talvez no festival de inverno, promovido pelo Campus, eu teria a oportunidade de lhe dar o troco. Poderia fazer algo que o irritasse quando um fiscal estivesse por perto, mas isso sem que ninguém percebesse que foi intencional, como é estourado e se acha o tal, partiria para cima de mim, eu seria a vitima e ele estaria ferrado.
     Lá de cima pude escutar risadas de Sarah, desci pensando em encontrá-la e comer um pão ou qualquer outra coisa. Ao entrar na cozinha minha mãe já preparava algo para o almoço, recheava uma peça de carne que seria levado ao forno, minha prima, sentada à mesa, experimentava uma fatia de pudim de canela do dia anterior.
—Bom dia, primo!
—E aí? Animada? —Coloquei leite em uma xícara, não muito porque ainda acrescentaria café.
—Animada para quê? —minha mãe possuía o mal da curiosidade. —Para a festa de inverno?
—Sim, vou com o Vinicius. —Sentei-me. —Estou ansiosa. Vamos com o Augusto?
—Não... Vamos com Daniel, irá passar aqui para nos pegar, já está tudo combinado, as seis. Mas o Augusto estará lá.
—Aquele Daniel é pegajoso...
—O Augusto está sumido, Vinicius, o que houve? —Perguntou dona Marta enquanto abria o forno. —Tenho uma dó daquele menino, perder a mãe tão novo, agora o pai envolvido naquele assassinato... Você viu na tevê?
—Vi sim...
—Na verdade ele está estudando bastante. —Menti.
—Onde está o tio Raul? —A curiosidade parecia ser de família. Com a pergunta minha mãe deixou demonstrar parcialmente sua impaciência e irritabilidade.
—Droga. —Pegou um fósforo. —Esse forno nunca acende no automático quando precisamos.
—Disse que tinha trabalho para fazer no interior.
—Estranho meu tio, quando vocês moravam lá ele vivia por aqui, agora que estão aqui ele está sempre lá.
    O telefone toca, ficamos ali parados um instante, só ouvindo.
—Ninguém vai atender? —Levantei-me e pegando o fone sem fio apertei a tecla para falar.
—Alô? —Nada disse, minha mãe já sabia do que se tratava.
—Desliga.
—Alô? —Tentei outra vez, nada respondeu desliguei e desconectei o plug do aparelho.
—Pensei que estivessem recebendo essas ligações só durante a noite. —Sarah comia uma maçã.
—Nada... Isso acontece durante todo o dia. Fico pensando quando irá parar.
    Não havia lhe contado nada sobre o carro de cor preta que vi em nossa porta por quatro dias, nem mesmo mencionei que Augusto também vinha recebendo ligações mudas como eu, mas minha prima sabia, de forma alguma conseguimos ver com senso alguma ligação entre todas essas coisas, passamos a acreditar que poderia ser apenas mais uma brincadeira de alguns idiotas que estudavam no PH. Havia dito à Sarah que Jonathan e outros estavam me perseguindo pelo que escrevi no jornal, e nem pensei em dizer o que aconteceu naquele dia que choveu pedra. Aquilo eu não contaria à ninguém. Jamais. Durante um tempo breve ficamos pensativos.
—Ah, tia, meu pai disse que vão ao cinema hoje a noite.
—É verdade... faz meses que não vejo um filme, se o seu tio não me leva, o jeito é ir com seu pai mesmo.
—Meu pai também precisa sair um pouco, trabalha demais, coitado. Sabe que filme vão ver?
—Não... ficamos de decidir na hora.
—Acho que iriam gostar de “Minha vida sem mim”, estreou a pouco tempo.
—Ouvi dizer que é muito bom mesmo. —Disse. Augusto tinha falado a respeito. —Você assistiu?
—Ainda não... mas vi uma matéria sobre o filme ontem no Eurochannel e achei muito bom... O filme é com aquele ator que faz Felicity, o Scott Speedman. —Quando Sarah começava a falar de Felicity não parava mais.
—Vou falar com o Victor... Minha vida sem mim, o título é interessante.
—Sarah eu preciso terminar duas listas de exercícios antes de sairmos, Daniel passa para nos pegar as cinco.
—Estarei aqui!
    O festival de Inverno acontecia todos os anos com o intuito de comemorar a estação e arrecadar fundos para instituições de caridade. O slogan daquele ano era “Aqueça alguém neste inverno.” Parte de todas as vendas seria convertida para compra de agasalhos e cobertores. Como era um evento de fundo social, nós alunos, éramos obrigados a cumprir uma escala, feita pela coordenação, e passarmos duas horas em uma das barracas, e eram várias, que vendiam desde comidas e roupas até diversão. Eu ficaria das sete as nove na barraca de tiro ao alvo, Felipe e um tal de Holando, que eu não conhecia, estariam comigo. Augusto estaria das cinco as sete vendendo chocolates e Júlia estaria com Fernanda e Ricardo, das seis as oito, na barraca de leilões, e diziam guardar uma grande surpresa.
    As meninas já estavam em minha casa quando Daniel tocou o interfone, ansiosos, logo estávamos na calçada.
—Olha só... —Brincou Daniel. —Senhorita Sarah, e ainda mais bonita que da primeira vez. —Ela apenas sorriu sem graça. —Então? Prontos?

*

     O evento não aconteceria no salão de festas do instituto e sim no pátio interno, as barracas estavam armadas nas quadras, havia um palco mais abaixo onde bandas e artistas se apresentariam e já próximo a biblioteca instalaram uma imensa roda gigante, daquelas que possuem bancos para dois. Thunders, dupla formada por Sander e um amigo, se apresentariam as oito. Era o que dizia a programação entregue na entrada.
—Meu pai doou cinqüenta pares de sandálias da nova coleção! —Dizia Júlia.
—Meus pais também doaram cinqüenta garrafas de vinho. —Disse Daniel. —Que coincidência!
—Poderíamos ter convidado nossos pais, Vinicius!
—Não sei sobre meu tio, Sarah, mas convidei minha mãe e ela disse que queria sair para se distrair e não ser incomodada por uma centena de estudantes. —Sarah estava deslumbrada com a riqueza de tudo que se via, com as paredes altas e limpas, as grandes vidraças, a iluminação, o verde vivo da grama e a beleza dos detalhes. Tudo era lindo, dizia ela. O pátio do Campus borbulhava de pessoas de todas as idades e estilos, mas todos muito bem vestidos e perfumados.
—Ouvi dizer que Claudia Raia, mãe do Enzo, viria para o festival de Inverno.
—O filho de Claudia Raia estuda aqui?
—Estuda... Cleo Pires também estudou aqui. Eu me lembro dela.
—Muita gente famosa já estudou aqui. —Comentou Julia.
    Ainda estávamos ali, parados após a entrada meio que admirando a grandiosidade da decoração.
—E então pessoal? O que vamos fazer?
—Eu não sei vocês, mas quero dar uma volta naquela roda gigante. Você me acompanha? —Minha prima convidou Daniel porque sabia que sua resposta não seria negativa.
—Claro!
—Vocês dois? —Julia e eu nos entreolhamos.
—Vamos!
    A caminho da roda encontramos Augusto que passava por nós apressado e por pouco não nos vê. Segurei-o pelo braço.
—Ei, onde vai correndo assim?
—Oi, eu estou meia hora atrasado, meu horário é das cinco as sete.
—É, eu sei... e você só chegou agora? —Os outros estavam parados acompanhando nosso diálogo. Havia algo esquisito com ele, não olhava diretamente para mim, seus olhos não pareciam os mesmos, estavam avermelhados. —Está sozinho? Onde está Carol e o Renato?
—A Carol deve estar com o Sander e o amigo idiota dele, o Renato foi para barraca de fotografia.
    Os outros ainda aguardavam.
—Augusto, essa é Sarah, minha prima de quem falo tanto. —Ela se aproximou e ele lhe deu um beijo no rosto.
—Prazer!
—O prazer é meu, preciso ir, até mais! —E saiu correndo. Eu suspeitei que tivesse usado maconha. Carol estava com Sander porque de algum jeito se incluiu no Thunders, foi uma forma que arranjou para não trabalhar nas barracas. Porém, de cinco canções que seriam apresentadas ela faria uma pequena participação com a guitarra em uma delas.  
    Enquanto seguíamos rumo ao brinquedo Júlia segurou em minha mão, gostava da garota, mas de alguma forma sentia receio de que nos visse de mãos dadas, talvez achassem que somos namorados, e no fundo era isso que queria, só que esses comentários, sendo verdadeiros ou não, poderiam magoar muito Augusto. Hoje vejo que no fundo não queria era abrir mão daquilo que ele sentia por mim. Pensei numa forma de nos soltar sem parecer rude ou arredio, foi quando passamos de frente ao algodão-doce. Rapidamente enfiei minhas mãos nos bolsos, estava livre, e peguei a carteira.
—Vou comprar um algodão-doce pra gente. Vocês não querem?
    Jonathan e Takano apareceram em nosso caminho.
—E aí, peão? Deixou seu carro-de-boi ancorado no estacionamento? —E saíram rindo as minhas custas. Um ponto para mim. Daniel e Júlia presenciaram uma agressão verbal e sem razões. Eu queria que ele fosse denunciado por algum fiscal e ganhasse suspensão. Que eu saiba ele já tinha duas em seu histórico e com três você é gentilmente convidado a se retirar. Se levasse mais uma suspensão, aquele desgraçado teria o que merece.
—Quem andava de carro-de-boi era sua avó lá no sertão de Pernambuco. —Gritou Julia.
    Quando finalmente alcançamos a roda, por sorte, pessoas iam saindo dando espaço às que aguardavam em fila. Depois de sete ou oito casais, conseguimos entrar. Sarah e Daniel foram à frente, num acento amarelo que balançava com o girar da estrutura. Após entrarmos o brinquedo fez mais uma parada para que outro casal subisse, nosso acento balançou e certamente deixei meu medo exposto.
—Você está com medo? Não acredito...
—Eu não gosto muito de altura... E isso balança muito.
—Não se preocupe. Me dê sua mão. —Fiz o que ela pediu, e confesso ter ficado mais tranqüilo. Em cima de nós Sarah dava gritinhos de euforia. Aquilo girou umas seis vezes e lá do alto se via muita coisa, se via a escuridão do nada que nos cercava e as luzes intensas do Instituto, que naquela noite eram ainda mais intensas. No final, com a ajuda dela, consegui até levantar os braços para o alto e me divertir.
—Saindo daqui preciso ir para barraca de leilões, vamos lá, você ainda tem meia hora antes de pegar seu turno.
—O que vão leiloar?
—Muitas coisas que foram doadas ao Campus, até obras de arte, na verdade já estão sendo leiloados, meu turno é o último.
    A barraca de leilão não era bem uma barraca e sim uma grande tenda, haviam mesas para alguns e outros permaneciam em pé mesmo, atentos a cada lance e curiosos com a próxima peça. Quando chegou o turno de Fernanda, Júlia e Ricardo o espaço se entupiu de gente, o que era de se esperar, Fernanda fez uma árdua divulgação de sua barraca ao longo da semana. Só não sabíamos que a primeira peça a ser leiloada em seu turno seria algo tão bizarro.
—Boa noite, senhoras e senhores! —Cumprimentou Fernanda, naquela noite usava um rabo de cavalo. —já chegando ao final dessa tarde de leilão, gostaríamos de agradecer a todos vocês que compareceram e abriram suas carteiras essa noite. —Todos riram. —Vocês sabem que tudo será revertido em agasalhos e cobertores.
—Muito obrigado! —Disse Júlia, meio acanhada.
—Vamos começar esse último lote com algo diferente... Após tantos vinhos e quadros belíssimos, não é mesmo? Trazemos a vocês algo que todos desejam.... —As pessoas se entreolhavam curiosas e comentavam, pareciam felizes com a novidade. —Senhoras e senhores trazemos a vocês Ricardo, nosso escravo por um dia! —E Ricardo entrou dançando uma música eletrônica, e rebolava com swing e o público foi ao delírio, alguns gritavam, poucos riam, outros gesticulavam e todos se divertiam, com Ricardo, o escravo por um dia.  
—Atenção senhoras e senhores, esse rapaz tem dezoito anos, um metro e noventa de altura, pesa oitenta e sete quilos e é do signo de escorpião, diz que sua maior qualidade é ser perfeccionista. —Logo Ricardo tirou a camisa e mostrou um tórax sarado e liso, houve gritos. —Ele pode cuidar do seu jardim, pode ser seu motorista particular por um dia, ele pode ser o que você quiser em vinte e quatro horas. O lance inicial é de mil reais.
—Mil e cem! —Gritou uma senhora.
—Mil e duzentos. —Dessa vez foi um senhor. E a disputa parecia acirrada, eu tive que deixar todos ali e partir para a barraca de tiro ao alvo.
—Se cansar do Daniel pode me procurar. —Disse à minha prima.
—Pode deixar, isso aqui está o máximo! —Quando sai Ricardo ainda dançava e a disputa já ultrapassava os mil e quinhentos reais.


Continua...


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