Nunca imaginei que um dia estaria na sala de um psicólogo, erroneamente sempre andei com o pensamento de que psicólogos são coisas de gente maluca e mentalmente desequilibradas. Hoje tenho certeza de que todos nós, em algum momento, deveríamos passar pela clinica de um profissional do comportamento humano. Era minha primeira sessão com a doutora Maria Helena, de inicio passamos por um momento delicado, porque eu não me sentia a vontade para lhe dizer coisa alguma e ela, por sua vez, se limitava a me observar sem nada dizer. Olhando rapidamente para doutora percebi que se tratava de uma mulher feliz, porque possuía feições vividas, olhos bem abertos e altos, lábios que mesmo fechados esboçavam sorriso, e o cabelo ondulado possuía luminosidade. E mesmo demonstrando ser mais jovem, devia estar se aproximando dos cinqüenta.
Cansada de jogar o vaca amarela, formulou uma questão:
—Vinicius, sei que foi encaminhado até mim pelo Campus, e acredito que você, como a maioria dos outros garotos que passam por aqui, acredita que não tem motivos para estar aqui. Mas se me deixar eu posso lhe mostrar que está errado. —Será que todo psicólogo é tão convincente? —Vamos esquecer o Campus, está bem? Pode me dizer se existe algo que está lhe incomodando?
Pensei um momento, haviam várias coisas, apenas não sabia qual delas contar.
—Sim.
—Me conte.
—Há poucos dias perdi uma prima em um acidente de carro.
—Vinicius... —Pareceu-me sensibilizada. —Eu sinto muito. O que houve?
—Nós voltavámos de uma festa quando tudo aconteceu...
—Como ela se chamava?
—Sarah... ela se chamava Sarah, tinha apenas dezoito anos. Você deve ter visto no jornal aquele acidente próximo ao Campus em que um carro com quatro alunos foi jogado para fora da pista deixando minha prima morta e meu amigo gravemente ferido.
Pareceu-me espantada e curiosa.
—Sim. Então foi esse acidente?
O resgate, assim como a policia militar e o IML já estavam no local, a estrada de acesso antes escura, estava agora iluminada por faróis e o brilho vermelho que se movia sobre as viaturas. Tumultuo. Quando a noticia do acidente chegou ao Campus, se espalhou rapidamente, e naquele momento havia uma centena de pessoas por ali, entre elas Júlia, Daniel, Fernanda, Renato e Carol. Júlia disse que quando souberam que algo havia acontecido com um conversível de cor cinza na estrada de acesso, ficaram tão assustados que saíram correndo e chegaram ao local da tragédia a pé. A equipe de reportagem também estava presente e a matéria gravada foi ao ar na manhã do dia seguinte. Juliana Texeira colhia depoimentos e informações.
—Infelizmente mais um acontecimento triste e inexplicável atinge os alunos do Campus PH. —Dizia posicionada de frente a câmera. A luz amarela era refletida em seu rosto. —Desta vez, um acidente com um veiculo conversível envolvendo quatro pessoas, quatro jovens que voltavam de uma festa no colégio, uma festa tradicional do Campus PH, que é realizada todos os anos, o Festival de Inverno. —Começou a andar entre as pessoas, para levar os telespectadores ao local de onde foram tirados os mortos e acidentados. —A policia militar já tem a informação de que o carro em que estavam os estudantes foi jogado para fora da estrada por um outro automóvel, um sedã preto. Portanto pessoal, esse acidente deixou dois feridos, um gravemente ferido e um morto, você que é dono de oficinas mecânicas, se receber um sedã da cor preta com danos no lado direito, por favor, entre em contato com o disque denuncia da policia militar. —Um helicóptero sobrevoava a área e o posto policial da rodovia fora comunicado, estavam todos em alerta. —Vamos falar agora com o oficial do corpo de bombeiros, Sérgio Golçalves. Boa noite, o Corpo de bombeiros juntamente com a policia chegou a conclusão de que o acidente foi criminoso?
—Boa noite. Trata-se sim de acidente criminoso, além das provas físicas deixadas no veiculo da vitima, um dos garotos, o único que encontramos lúcido confirmou e narrou aos policias como tudo aconteceu.
—Qual era o estado dos estudantes quando o resgate chegou ao local?
—Bem... O motorista estava em estado mais grave, os outros dois sofreram pequenas lesões, infelizmente a garota que estava no banco traseiro, sem o cinto de segurança, foi arremessada para fora do veiculo e se chocou contra uma árvore.
—É, é realmente muito triste essa história. Obrigada ao senhor. —Se afastou do oficial. —A policia neste momento faz uma busca em helicóptero para tentar localizar o sedã preto, há suspeitas de que o carro ainda esteja por aqui, entre o Campus e a BR 153. Vale lembrar a todos que o garoto que dirigia esse conversível e que se envolveu neste trágico acidente é Augusto Bueno de Almeida, filho do médico Marcos Bueno de Almeida que está sendo investigado pelo assassinato da comerciante Solange das Neves. Outro caso sem explicação envolvendo Augusto Bueno de Almeida, de dezenove anos, é o desaparecimento de Caio Freitas Amaral. O filho do deputado Paulo Freitas desapareceu nessa mesma estrada há dois meses, inicialmente acreditava-se em homicídio e ocultação de cadáver, posteriormente a família recebeu uma ligação do estudante que apenas confirmava que Caio estaria vivo. O Seqüestro continua um mistério, pois os seqüestradores não entraram em contato com os pais, Caio nunca mais telefonou e também não voltou para casa. Estamos aqui com uma aluna do PH e amiga de Augusto, Caroline Araújo. Caroline, alguma explicação para o que aconteceu esta noite?
—Boa noite, Juliana. —Renato e os outros estavam atrás de Carol, mantendo certa distância. —Tudo isso foi terrível, há pouco tempo estávamos juntos... bem... O que sei é que antes de saírem alguns alunos, que são protegidos pelo Instituto, por serem atletas vencedores e filhos de famosos, bateram em um de meus amigos e chegaram ameaçá-lo sem motivos. Estamos todos muito assustados.
—Realmente aconteceu um desentendimento essa noite, segundo os policias, os alunos envolvidos já estão sendo procurados. Nós voltamos a qualquer momento com mais informações.
—Eu vi essa reportagem, realmente foi uma tragédia, uma garota tão nova, não sabia que era sua prima.
—De certa forma dei graças a Deus por ter ficado preso no carro, porque de onde estava via Sarah caída, entende? Mas não conseguia me mover... não sabia que estava morta, Felipe também ficou desacordado no banco de trás. Foi uma sensação horrível, Augusto sangrava...
—Não gosta de sangue?
—Não... sangue me lembra muito dor, sofrimento, morte...
—Sangue também pode lembrar vida.
—Não para mim.
—Como tem sido esses dias sem sua prima?
—Ruins... antes de me mudar no inicio do ano, nosso contato era bem pequeno, nos víamos uma ou duas vezes por mês. Mas nos últimos meses ela era como uma irmã que eu nunca tive, talvez fosse melhor porque além de parecer irmã ainda era minha amiga. —Eu estava tentando não chorar, mas meus olhos já estavam úmidos. Limpei-os com a mão.
—Como estão seus tios?
—Minha tia morreu a gente ainda era bem pequeno, meu tio está arrasado, a outra filha que tem quase nunca lhe visita. Sarah tinha seus defeitos, mas era muito espirituosa, isso fazia bem para gente que tinha ela sempre perto.
—Se perceber que seu tio está tendo muita dificuldade em lidar com a situação, mesmo após meses, peça para que venha falar comigo. —Psicólogos são traiçoeiros, se aproveitam das desgraças alheias para ganhar o pão de cada dia.
—Eu vou prestar atenção. —E então voltamos ao ponto zero. Ela m observava durante o silêncio. Preferi dizer qualquer coisa. —Ele me pediu para escolher a roupa do velório, disse que não conseguia abrir a porta do quarto.
Entrar no quarto de alguém que morreu é a pior sensação que já experimentei até hoje, ainda pior deve ser a sensação que um pai tem ao entrar no quarto de um filho morto. Eu não sei, parece que o cheiro misterioso de quem dormia ali permanece no ar, e você o vê em todos os cantos, é como se o dono estivesse ali, permanecesse ali, descansando, esperando alguém entrar. Tentei imaginar Sarah, não fazia idéia de que roupa escolher, se seria calça, saia ou vestido. Olhei tudo em volta e apesar de ser organizada era possível perceber uma pequena desordem, a blusa branca que usava no dia anterior, quando esteve lá em casa, estava jogada sobre a cama, também sobre a cama estava algumas bijuterias espalhadas, brincos, pulseiras, colares. Sentei em sua cama, dei uma olhada em tudo e comecei a chorar, eu me sentia totalmente culpado. Se minutos antes tivesse brigado com ela, mandado ela voltar para casa, nada disso teria acontecido. Chorei até as lagrimas secarem e enquanto chorava lhe pedia perdão onde quer que estivesse. Abri as portas do armário, passei cabide por cabide a procura de algo, até encontrar um vestido claro, cor de pérola, não me lembro de vê-la com ele antes, mas era bem parecido com todos os outros que usava. Minha prima gostava de usar vestidos e foi aquele que escolhi, foi aquele que entreguei ao meu tio e com ele Sarah se despediu de todos nós.
Maria Helena olhou em seu relógio.
—Bem, está na nossa hora, Vinicius, mas ainda temos muito que conversar. —Nos levantamos. —Posso aguardar você na próxima semana?
—Sim.
—Olhe, —Colocou a mão em meu ombro. —Não é fácil mesmo e ficar triste faz parte, não vale a pena é ficar guardando e segurando tudo dentro da gente. Se for preciso chore, e se quiser falar pode me ligar se precisar.
—Obrigado.
Voltando para casa, nada disse ao taxista além do meu endereço, ele até tentou ser simpático e puxar assunto, mas deixei claro que não estava bem, que havia perdido uma prima. Ele apenas se desculpou.
Meus pais não estariam em casa aquela noite, participavam de um grupo de apoio a mulheres violentadas por membros de suas próprias famílias, espancadas ou abusadas sexualmente. Coisas da igreja que freqüentavam. Até mesmo crianças de quatro anos, penetradas por seus próprios irmãos. Pensei em ir para casa do tio e lhe fazer companhia, mas desisti, seria muita tristeza. Abri o portão e de modo muito incomum as luzes do jardim não estavam acesas, toda a casa parecia-me totalmente enegrecida. Mesmo com toda a neurose de meu pai sobre a segurança em grandes cidades, lamentei o fato de que todos são humanos, provavelmente esqueceram de deixar as luzes acesas. Não morávamos em uma cidade violenta, mas concordava com certos cuidados que são indispensáveis.
O que me deixou mais espantado, foi me deparar com a porta da frente aberta, não só destrancada, mas totalmente aberta, escancarada. Pensar na hipótese de que poderiam ter esquecido a porta assim era algo longe demais. Parei pensativo de frente os degraus da varanda, reflexivo e imóvel, ingesticulável. Pensei para onde ligar num caso desses… policia? Havia uma duvida em minha cabeça sobre o numero correto, o três números a serem discados, 199, 911, 186, 190, eram tantos. Quando um deles atendeu, uma voz máscula de mulher registrou minha ocorrência, subi os degraus, olhei para dentro, me vi passando pela porta principal, adentrando. Quando meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que os moveis denunciavam a passagem de algo violento, as gavetas entreabertas, tudo estava fora do lugar, de forma que me era impossível mentalmente reorganizar todos os objetos, imaginar seus lugares originais, me parecia uma tarefa bastante complicada.
Ainda meio atordoado pelo choque inicial e por tamanha desordem em casa, me apoiei com um dos braços na parede da sala, subitamente, por um nonasegundo, presenciei um vulto negro vindo em minha direção, que me atingiu com algo contra o peito e quando cai, pelo poder do golpe, sem ar e a ponto de sangrar, ele passara por cima de mim, ganhara a rua, me deixando inerte, sem reposta, e longe do corpo.
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