O Caio sempre será conhecido como o garoto que desapareceu; Augusto, como o cara que se apaixonou por seu melhor amigo; Carol, como a menina louca de cabelos vermelhos; e eu, bem, eu sempre serei Vinicius Martins Bianco, o cara que ainda precisa se encontrar, a terceira parte. E preciso dizer, não gosto de triângulos, eles possuem pontas que machucam as pessoas... Tenho me sentido como um jovem carente, meu castelo de areia foi derrubado, minha bola foi parar no meio da rua e minha pipa está no telhado do vizinho. Deveria ter dito tudo isso à doutora Maria Helena, não dessa forma, é claro. Mas quando questionado fui totalmente controverso.
—Como está essa semana.
—Bem. —Sentei-me. —Bem melhor.
—E sua mãe? Como está? —Na verdade minha mãe não parecia muito equilibrada.
—Está bem. —Ela abriu seu caderno de anotação e me olhou seriamente.
—Vinícius, se quisermos progredir no que estamos fazendo aqui, você terá que me dizer muito mais do que pequenas frases e respostas monossilábicas. Certo?
A principio, me opus, com medo do que viria a seguir.
—Bem, como está se sentindo com relação à Augusto e Julia? —Peguei um bombom, e sem nada dizer retirei-o da embalagem.
—Por quê está me perguntando isso?
—Porque já observei que normalmente você se foca nesses dois colegas de classe. Eles são mais do que colegas para você, não são?
—Quais são minhas opções? —Simulei um olhar irônico.
—Não creio que seja uma questão de opção. Seus sentimentos são concretos. Gostaria de falar o que sente pelos dois? Acho que se pudesse expressar isso, Vinicius, progrediríamos muito. Acredito que te faria um bem enorme.
Permaneci calado.
—Você cria seu próprio futuro, Vinicius. —Prosseguiu. —Pensei que já havia entendido isso. Você constrói a felicidade a partir dos seus insights.
—Olhe, eu sei que eu mesmo crio o meu futuro, certo? Que merda você quer que eu diga? Que eu sou gay? Que eu tenho um caso com Augusto?
—Você está sendo sarcástico outra vez, dizendo palavrões. Não é preciso usar esse meio de defesa.
—Me desculpe.
—Por quê mencionou a homossexualidade? Isso te incomoda?
—Deveria incomodar?
—Eu não sei. O que você acha dos homossexuais?
—Nossa... hoje você está cheia de perguntas.
—Poderia me responder?
—O que eu acho dos homossexuais? Não tenho nada contra eles. Acho que cada um faz da sua vida o que bem quer.
—Você já teve contato físico com algum outro homem? —Ela deve ter percebido minha expressão e tentou clarear o clima. —Não se preocupe... Isso, na minha concepção é algo absolutamente normal. —Poderia mentir mais uma vez, e continuar mentindo sempre que perguntasse, mas aquilo me sufocava de um jeito que fui forçado a dizer, a pedir ajuda e procurar a compreensão que não estava em mim para entender meus próprios erros e conflitos.
—Na verdade já aconteceu sim... —Ela pareceu interessada, se moveu na cadeira inclinando-se para frente, notou minha sinceridade.
—Continue...
—Acha que qualquer homem que toque outro vira gay?
—Não. Acho que isso não está ligado a ter tido ou não uma experiência homossexual. Sabemos que hoje em dia algumas pessoas se relacionam com pessoas do mesmo sexo e para os outros expões um modelo de vida totalmente heterossexual. Para a sociedade essas pessoas são heterossexuais, para alguns deles eles também são. E para você?
—Não sei, para mim eles não são...
—Quer me falar o que aconteceu?
Quando finalmente deu minha hora, sai do consultório deixando uma âncora sobre a mesa da doutora, eu não sei é como esses psicólogos depois de ouvir tantas coisas durante o dia conseguem voltar para suas casas e descansarem sobre seus travesseiros. Andando em direção ao ponto de taxi, que ficava há uma quadra subindo a avenida, deparei-me com uma banca de frutas. Eu vivia deixando moedas no fundo dos bolsos da calça. Catei as moedas de vinte e cinco centavos e comprei duas maçãs, sentia fome.
Já dentro do carro, voltando para casa, passamos de frente ao Parque Beija-flor, pessoas caminhavam em torno o lago enquanto o sol baixava devagar. Pensem em quantas coisas poderiam ser evitadas, ou pelo menos prorrogadas de acordo com nossa vontade, se todas as histórias que você já ouviu sobre videntes e esoterismo fossem algo realmente sério e confiável. Ou se todos esses dons clarividentes tivessem sido repartidos entre todos de forma justa, e não somente confiados à alguns. E quais seriam os critérios de seleção? Porque não ouço vozes em minha cabeça? Ainda mais difícil que acreditar, é tentar explicar tudo que se relaciona a atividades paranormais, ao poder da mente ou a força do espírito.
Na manhã seguinte, já estava acordado quando o despertador tocara, sentimentalismo e falta de sexo é uma combinação que me dá insônia. Tinha preguiça e a luz do sol afugentava vampiros e morcegos, uma luz ávida, um brilho intenso. Levantei-me, vesti meu uniforme e separei o material que usaria aquela manhã, com tudo dentro da mochila, escovei os dentes, lavei o rosto e penteei rapidamente o cabelo. Desci até a cozinha e preparei apenas um leite gelado que tomei num gole só, a mesa do café estava posta, mas algo me dizia que seu Costa estaria no portão de casa em questão de dois ou três minutos. Rejeitei até a xícara de café. Da sala gritei que estava de saída de modo que todos que estivessem em casa, independentemente de que lugar estivessem, pudessem escutar. Na calçada, não foram mais que cinco minutos quando pude ver o ônibus dobrando a esquina.
—Bom dia, seu Costa! Como está quente esses últimos dias, não?
—Nem me fale, menino Vinicius! O tempo nesse planeta está ficando maluco, e eu agradeço por minha hora está chegando.
—Seu Costa… — Adverti. — Ainda teremos muitos dias de chuva pela frente.
—Bem… nesse caso é melhor esperar. —Brincou comigo, e logo o ônibus voltou a se movimentar. Pisquei para Julia, que estava nos primeiros bancos atrás de seu Costa, acompanhada de um aluno do segundo ano, sorriu como forma de cumprimento. Agi da mesma forma com Fernanda e Felipe, que também estavam ali e ocupavam duas poltronas ao lado. Sentei-me um pouco mais ao fundo, ao lado de Getulio, com quem nunca conversei.
Quando o ônibus parou de frente ao edifício de Sander, pude ver apenas sua mãe, nenhum sinal do cara, que segundo minhas observações vinha oferecendo e vendendo pequenas porções de entorpecentes dentro do Campus. Pensei que talvez Sander não mais pegaria o ônibus e passasse também a fazer o trajeto na companhia de Augusto, Carol e Renato. Os profetas do underground, como dizia Fernanda. Pude ouvir sua mãe se desculpando ao seu Costa por não ter avisado a central com antecedência, mas que Sander amanhecera com muita febre e não tinha condições de sair de casa naquela manhã. Se fosse outra coisa qualquer, poderia pensar que tudo não passava de um de seus truques, pois o cara-de-pau do Sander parecia um mestre em coisas do tipo. Mas simular uma febre? Só se fosse um mestre do ilusionismo, e ainda assim não tenho certeza se conseguiria êxito total. Esperei que não fosse nada grave, pessoas com febre vinham sendo uma alerta aos perigos da dengue, uma picada de mosquito que poderia até matar. Seria talvez uma infecção?
Coloquei meus fones de ouvido, uma canção de Jesse Sykes era a primeira da lista, fiquei a observar as ruas pelas quais passávamos, as cores dos muros, os tamanhos das árvores, os buracos nas calçadas, observando tempo suficiente para estarmos longe dali, já na rodovia 153, a caminho do Campus PH. Outras coisas passavam-me em minha mente, alguns dias já haviam se passado desde aquela tarde em que falei com a repórter, o fato é que Juliana Texeira não havia retornado, e tudo parecia caminhar como antes. Ou nada aconteceria, ou quando acontecesse, provavelmente, todo o caso ganharia atenção redobrada. Não só pela imprensa, mas também pela população.
Olhando o relógio, notei um certo atraso com relação aos dias anteriores. Dobrando a pequena estrada de acesso, apenas um outro ônibus nos acompanhava a frente, com uma certa distância. Certamente todos os outros já estavam encostados no estacionamento. Faltavam apenas cinco minutos para o sinal de entrada. O sol fumegante penetrava por todas aquelas árvores que cercavam a estrada e batia diretamente sobre meus olhos, o que me fazia olhar apenas para o interior do ônibus, evitando o cenário verde e externo da mata. Ainda ouvia Jesse Sikes pelos fones de ouvido e apesar do atraso, aquela me parecia mais uma manhã rotineira, comum, ineficiente.
—Estamos atrasados. —Comentei despretensiosamente com Getulio.
—O ônibus deu um pequeno problema, antes mesmo de chegarmos em sua casa.
—O que aconteceu?
—Eu não sei, seu Costa chegou ligar para central e pedir reforço, mas logo mexeu em alguma coisa do lado de fora e com um pouco de paciência e pratica conseguiu fazê-lo funcionar novamente.
O tormento surgiu inesperadamente, escutamos um estouro, um barulho que nos lembrava tiros de arma de fogo, escutamos gritos que vinham do ônibus a nossa frente e todos entraram em uma espécie de pânico, um susto coletivo, alguns se levantaram no exato momento em que outros se encolhiam, sem saber por quê. Aquele barulho se repetiu seguidamente, um deles acertara o ônibus em que estávamos. O vidro da janela estourou como uma bomba caseira, provocando gritos aterrorizantes, inclusive por parte dos garotos. Assim como eu, Getulio abaixou-se e colocou sua cabeça entre as pernas, o que deixara tudo ainda mais confuso. Outros tiros, novos vidros se rompendo, explodindo com a força que agia contra eles. Olhei para dentro do corredor e vi mãos sujas de sangue, o veiculo parecia ziguezaguear, enquanto ouvia gritos e choro de todos os cantos. O ônibus finalmente perdera a direção, saíra da estrada direto para o bosque, ouvia-se o nome de Deus sendo chamado, e eu em toda minha fé reencontrada esperava que esse realmente estivesse por perto. O impacto causado pelo choque com uma árvore nos jogou contra os bancos da frente e muitos caíram sobre os cacos que dançavam sobre o assoalho. Quando isso aconteceu, acredito ter batido a cabeça, pois segundos depois tudo escureceu, meu físico não mais respondia aos meus comandos, e foi como se estivesse morto.
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Um comentário:
Oi Carlos, td bem seu sumido?
Bem, demorei para deixar um coment aqui pra voce, mas queria me aprofundar mais na história.
terminei de ler a segunda parte do seu livro hoje, agora mesmo, e preciso te dizer que nunca imaginei que seu livro seria tão louco e tão profundo.
a narrativa pelo menos para mim, um mero leitor, é excelente, consegue passar para quem tá lendo sensações, em grande parte pessimistas e angustiadas, mas esse é o universo e a gente consegue viver tudo isso.
mesmo sem terminar de ler posso dizer que é um dos melhores livros que ja li, dá até vontade de conhecer sua cidade, Goiania. quem sabe uma hora né?
A trilha sonora é maravilhosa!!!
Bem, só quero mesmo dizer que vou ler até o final e te dar os parabéns!
nao estou esntrando muito no msn e não te encontro qnd entro, mas até nos falarmos.
abraços!
E aqui em Londrina é um dia de chuva
:)
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