Naquela mesma noite, após passarmos em uma sanduicheria, paramos próximos a Praça Tamandaré e demos mais dois tiros cada um, dar um tiro significa cheirar uma carreira.
—Nem sei se consigo dormir quando chegar em casa. —Nem sei descrever como sentia-me naquele momento.
—Vamos voltar para o meu apartamento então.
—Na verdade preciso passar esse domingo em casa, lavar roupa, ver meu velho e terminar de ler o livro do Lúcio Cardoso, nem sei se consigo fazer isso antes da prova.
—Eu ainda não terminei o segundo capitulo. Acho que estou fudido.
—Você está fudido seu merda de nada.
—Seu merda de nada? Seu branquelo filho da puta! —Augusto e eu, ao longo dos meses desenvolvemos o hábito de nos agredirmos verbalmente, xingando um ao outro, ninguém levava aquilo a sério e a gente se divertia um bocado. Teve vezes que ficamos um longo tempo criando xingatórios e imaginando frases diferentes.
—Aquele comprimido que te dei vai lhe ajudar a dormir, é só deitar.
—Eu poderia ir para uma trance agora, eu acho. —Alguns carros passavam por nós e por um instante fiquei a observá-los. —A gente bem que podia ir numa boate uma hora dessas, eu, você, Carol, Sander...
—Vinicius...
—Nunca fomos.
—Eu nunca fui numa boate, Renato.
—Fala sério!
—Para te dizer a verdade, antes de conhecer você e Carol eu nunca tinha feito nada.
—...Como assim?
—Eu não tinha amigos, eu viajava e passava maior parte do tempo com minha mãe... Quando não estava no Campus, estava com ela ou então estava em casa sozinho. —A palavra mãe era uma palavra muito dura para mim, era como uma estaca no peito. Para Augusto devia ser parecido porque sempre que pronunciava a palavra parecia lacrimejar. Não ter mãe é algo muito cruel.
—Até hoje me lembro de quando se aproximou e contou tudo que tinha acontecido, nós estávamos fumando um cigarro próximo ao portão de entrada do Campus.
—É engraçado... Naquele dia eu jamais poderia imaginar tudo isso que aconteceu, até mesmo que seriamos amigos agora.
—Muito menos eu... Que bem que sinto falta da Carol, velho.
—Acha que devemos boicotar o namoro dela com o Sander?
—Acho que não... Ela parece estar curtindo o cara. —E mais um tempo se passou. As ruas de madrugada não parecem as mesmas que vemos durante o dia, elas se transformam. —Nossa... acho que preciso ir pra casa, você está bem para voltar sozinho?
—Estou, o trânsito essa hora é bem tranqüilo. Eu te deixo em casa.
—Bem que podíamos tomar uma cerveja antes! —Em seguida deu partida e saímos, eu continuei a observar as ruas e ocasionalmente via algumas pessoas caminhando na calçada, vestidas para festas. A noite as pessoas são felizes, ou pelo menos se esforçam para estar, porque os que não estão e mal conseguem disfarçar provavelmente estão dormindo, ou estão assistindo qualquer coisa na tevê, ou estão de frente o monitor esperando as horas passarem.
Quando cheguei em casa, já passavam das duas e não sei nem porque decidi não dormir na casa dele aquela noite, talvez seja porque quando alguma merda tem que acontecer, ela acontece. Acho que o exagero e cansaço me fizeram, ainda louco, agir com a razão. Ficamos em um bar do Bueno tomando algumas cervejas, serviam ótimos aperitivos, espetos, caldos e nós havíamos feito o pedido, enquanto aguardávamos observei que algumas gatinhas olhavam em nossa direção, uma era morena, do jeito que gosto, peitos perfeitos, não muito grandes e lábios carnudos. O foco central de um grupo de mulheres sozinhas, sempre será os homens. O lamentável era saber que quando estava com Augusto e Carol, ou quando estava apenas com Augusto, não havia possibilidades de nenhuma garota se aproximar, e por conseqüência disso eu estava me tornando uma pessoa assexuada, desolada, privado de sexo e conseqüentemente só. Agora era Carol e Sander, daqui a pouco Augusto e Vinicius se assumindo de vez, e eu ficaria sozinho. Isso não era justo, e não poderia acontecer. Eu até sou importante nessa história... Vai dizer que não? E antes que as meninas nos intimassem eu chamei meu amigo para darmos o fora daquele bar. Ele não tinha jeito nenhum com mulheres. Não era afeminado, mas sensível e sincero demais.
Para ser bem franco, não me lembro bem como cheguei até a porta do meu apartamento, fumamos o resto de haxixe nas praças desertas do setor sul. Fiquei tão chapado. Mesmo sem lembrar de nada acredito que tenho chegado em casa pelo meio comum. Não conseguia recordar dos minutos em que desci do carro, passei pela portaria e entrei no elevador, eu me sentia como vitima do teletransporte. Demorei calcular o local exato de encaixar a chave na fechadura, além de ausência de luz, eu estava cansado e turvo, tudo era turvo, tudo era fragmentos de sonhos despedaçados, e a porra da chave não se encaixava. Eu estava com muita sede, vontade de tomar um banho e sem coragem alguma. Passei pela pequena sala já alcançando o corredor, estava com sede, voltei, entrei na cozinha e abri a geladeira, a luz não acendeu, cheiro ruim aquela geladeira tinha, nada lá dentro, o copo estava quente, a água estava quente, toquei no interruptor da parede e não havia luz. Mais uma vez estávamos sem energia.
—Merda de casa. Porra! —E chutei a porta do velho refrigerador. Tomei um pouco de água da torneira. Dei alguns passos e apaguei no sofá.
Foi tarde e terrível quando descobri, mas ainda assim me fez um bem enorme saber que Fernando, meu irmão, entendia o que acontecera e ainda por cima teve coragem de se abrir comigo. Me disse sobre as inúmeras vezes que o desgraçado do nosso pai lhe tocou, lhe pediu ou ordenou que fizesse coisas, que lhe entupia de presentes e coisas caras enquanto eu ficava sempre com o que ele não queria mais. Minha mãe já estava com câncer quando teve conhecimento do que vinha acontecendo, Fernando já estava ficando grande e começara enfrentar o velho, quando tinha dezesseis acertou o pai com o aparelho de telefone e fugiu de casa, isso acabou com a minha mãe, a matou em questão de meses. O que me intrigava era o seguinte: Como um pai pode odiar tanto seus filhos? Velho Filha-da-puta.
Nossa simples e minúscula sala não suportava mais que uma estante com um aparelho de DVD e televisor vinte e nove polegadas e um jogo se sofás, dois e três lugares que dançavam pelo cômodo, sobre o piso liso da cerâmica sem tapetes. Éramos simples sim, assumíamos nossa simplicidade, e de forma alguma nos preocuparíamos em transformar aquele dormitório em algo que lembrasse um lar. Se um dia fomos uma família, isso fora há muito tempo, há mais de uma década atrás. Acordei meio afoito por que senti de repente uma forte sensação de que queria ejacular. Quando recobrei parte dos meus sentidos, senti de imediato um frio abaixo da barriga que terminava nos joelhos. Meu pai estava ali, foi possível vê-lo um pouco antes de me levantar assustado e me deparar com algo que jamais vou esquecer em toda vida. Minha bermuda, juntamente com a cueca, estava arriada até os joelhos, eu inconscientemente estava ereto e meu pai sentado ao meu lado me masturbava enquanto acariciava minha perna com uma de suas mãos e lambia meu saco.
—O que você está fazendo? —Tentei levantar e ele me forçou.
—Calma, Renato... É o papai. —Parecia tão bêbado que nem notou o momento em que abri os olhos e o peguei praticamente me chupando. Antes de uma reação agressiva senti o coração batendo mais forte, poderia explodir, eu pensei mesmo sem desejar. Num impulso usei minhas pernas e empurrei sua cabeça de modo que ele caiu atordoado no chão. Deus do céu!
—O que pensa que estava fazendo? —Falei enquanto abotoava a calça, constrangido.
—Vai me dizer que não estava gostando? —E ainda continuou ali, no chão, só que agora de joelhos, chorou. —Não me bata... por favor! —Estava decididamente bêbado. Era um gambá fedorento, um homem totalmente acabado e infeliz.
—Meu Deus do céu! —Gritei. —Tem noção do que acabou de fazer? —comecei a andar de um lado para outro. —Você é maluco...
Levantou-se, depois de um arroto ele prosseguiu.
— Eu pensei nisso várias vezes antes, mas hoje quando entrei e te vi jogado no sofá... —E então começou a chorar. — Eu não consegui... Te chamei e nada... Me sentei ao seu lado e comecei a te fazer carinho, você é meu filho... Logo você ficou excitado e...
—Não precisa me contar esses detalhes... —Ele tentou se aproximar, mas eu o empurrei o tórax, afastando seu corpo com minhas duas mãos. —Fique sabendo que essa é a ultima vez que está me vendo. Está me ouvindo? Espero que fique sozinho e se arrependa pelo o resto da vida.
O desgraçado começou a chorar daquele jeito ridículo que sabia fazer, gritando e chamando Deus, exatamente como no enterro de minha mãe.
Ainda eram sete da manhã quando levantei, mesmo com o comprimido que Augusto me deu, mal conseguia fechar os olhos. Estava trancado no quarto e por um momento pensei que tudo aquilo tinha sido um sonho, mas acho que pela gravidade das coisas e pelo modo como me sentia eu sabia que não era. Liguei o som baixinho, abri a janela, tocava um metal melódico na radio sintonizada, logo a voz do locutor confirmara o horário. “Bom dia, Goiânia! São exatamente sete e dez da manhã, pra você que já está acordado nos ouvindo, espero que tenha um excelente domingo pela frente. Seguindo nossa programação, tocamos agora Oasis com a ótima “Stop crying your heart out.”
Abri a porta do guarda-roupa e peguei duas malas debaixo da cama, tirei os cabides da arara e esvaziei as gavetas de meias e cuecas, selecionei as melhores. Empurrei tudo para dentro da mochila aberta sobre a cama. No banheiro recolhi escova de dente, xampu, condicionador, aparelho de barbear, colônia e o gel esfoliante que usava para manter a pele limpa e longe de espinhas. Augusto sempre acordava cedo, sabia disso, liguei em sua casa.
—Fala Renato! —atendeu alegremente.
—Lembra aquele convite que me fez? Para passar um tempo aí?
—Claro. O que tem?
—Estou indo...
—Quando?
—Agora mesmo... Aconteceu uma merda, cara... Uma desgraça mesmo...
—Você está chorando? O que foi? —Perguntou.
—Nada.
—...Não quer falar a respeito?
—Agora não.
—Beleza.
—Não vou demorar chegar aí não, Augusto. Valeu cara!
Ao desligar o telefone, ainda recolhi alguns CD’s e livros e enfiei na mochila do Campus. Ao abrir a porta do meu quarto reparei que a porta ao lado estava aberta. Passei em silêncio e olhei para dentro, lá estava ele deitado de bruços na cama com a mesma roupa de quando chegou. E sem dizer nada, ou deixar qualquer tipo de bilhete, eu sai. Abri a porta com a minha chave, tranquei-a novamente pelo lado de fora e pela última vez dizia a mim mesmo que aquele lugar não era mais meu.
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