A construção onde ficaríamos era um sobrado bem alto, toda feita de tijolinhos, olhando em volta, o verde predominava, campos que cobriam todo o terreno, até onde podíamos ver. A estrada de chão se acabava no horizonte. Depois da última porteira, já entravamos na propriedade dos pais de Augusto, seguíamos um novo caminho de paralelepípedos que terminava na entrada principal da casa. Augusto alertou que havia uma piscina nos fundos da construção, e acredito eu, todos estavam ansiosos para vê-la de perto.
—O que aconteceu com o caseiro? —Ainda estávamos na varanda. Augusto desligava o alarme.
—Pediu demissão, com tudo que começou a acontecer, acho que meu pai não teve tempo para procurar alguém que confiasse.
—Tudo bem. Sobre uns e outros, —Disse Carol. —prometo ser agradável se vocês dois cooperarem. — Em sua opinião alguns ali estavam passando, mas como a fazenda não era dela...
—Você está se referindo à Julia e eu? —Vinicius às vezes me parecia tão incapaz. Como alguém poderia ser tão insosso?
—Sim. Quem mais poderia ser?
—É melhor fingirmos que nem escutamos as besteiras que você diz. —Retrucou em sua defesa.
—Eu acho que o Augusto tem razão. —Sander parecia preocupado com o lado negro de Carol. Eu já estava acostumado, até me divertia com uma ou outra coisa que ela falava. —Não vamos criar um clima de guerra, viemos para cá com o intuito de nos divertir. E se depender de mim, diversão é o que não vai faltar. —Adentramos. —Mas vocês precisam primeiro parar com essa onda de ficar tirando os outros. Isso não vai ser legal. Entende? —Ninguém respondeu. A sala era espaçosa e bem mobiliada, com tapetes, cortinas, poltronas, almofadas, abajures e tudo aquilo que faz parte de uma boa decoração em salas ricas de bom gosto. E ao contrário do que pensava não tinha nada de rústico. Realmente aquilo não tinha porra nenhuma a ver comigo, aquela gente entulhava coisa demais, quadros em paredes, pequenos objetos valiosos que se espalhavam como bibelôs por todo canto. Minha sala era tão simples perto daquela e de tantas outras, simples como quatro paredes brancas, um sofá de tecido amarronzado e uma estante metálica de aparência ultrapassada, onde permanecia apenas uma tevê desgastada e o aparelho de DVD que comprei no último natal. Às vezes me sentia um camaleão, e noutras sentia-me um bicho mesmo, adaptando-me facilmente ao meio em que momentaneamente eu estava. Podem pensar que convivendo com todo esse luxo e com pessoas tão diferentes de mim eu poderia me sentir mal quando estivesse sozinho ou realmente acreditar que era um cara sem sorte e que minha vida, minhas coisas, não valiam nada, mas não era assim, eu até sabia valorizar a merda toda. Por que eu era a prova viva que ninguém precisa de muito para levar a vida. Precisamos apenas de alimento, vestuário, família, amigos e sexo. O resto é excesso de bagagem.
—Onde está a piscina? —Perguntei. Estava curioso, de água eu sempre gostei, comecei quando minha mãe matriculou-me na escola de natação perto de casa, estava com dez anos. Quando fui aceito no PH tive a possibilidade de me aprimorar.
—Pela outra porta, vamos. —Então atravessamos o cômodo. —Provavelmente teremos que limpá-la, porque ela não é coberta.
—Então já temos algo para fazer.
—Limpar a piscina? —Às vezes Carol era tão repulsiva.
—Não quer tomar banho nela? —Perguntei e esperei resposta, ela apenas fez uma cara de quem pisou em ovos. —Então vai ter que ajudar a limpar.
—Eu não posso ajudar vocês. —Julia fez questão de relembrar, como se aquela armadura branca de gesso que envolvia todo seu braço pudesse nos fazer esquecer tal detalhe.
—Nós já sabemos que não pode fazer nada, será que pelo menos banho você pode tomar? Não me diga que terei de fazer isso por você também? —E Carol estava certa, Julia precisaria sim de ajuda no banho. E talvez seja por isso que tempos depois ficamos sabendo que ela havia convidado Fernanda sem nos consultar.
—Você realmente não consegue se banhar sozinha? —Perguntou Vinicius, parecia preocupado.
—Não, Vinicius. Mas não precisa se preocupar, se Carol não pode me ajudar eu darei um jeito.
—Mas como seus pais deixaram que você viesse assim? Quando os conheci eles me pareceram muito protetores.
—Realmente são, mas dessa vez eles não tiveram outra opção. —Ela sentiu que todos a olhavam pedindo uma continuação, o complemento que falta nesses tipos de frases. —Não me questionem… Eu estou bem. —Na verdade ela estava fugida.
A piscina era realmente fantástica e estava totalmente vazia, ainda assim precisava de uma higienização, o resquício de água que permanecera no fundo se juntara com o pó acumulado e formara uma crosta fina de terra, lama e barro sobre a superfície.
—Acho melhor a gente subir com nossas coisas, nos trocarmos e então descemos. O que vocês acham? —Todos concordaram com Augusto. Então após voltarmos e abrirmos o bagageiro do carro, subimos as escadas em direção aos quartos.
—Temos quatro quartos, três são de solteiro e o último no final do corredor é de casal. Acho que deveríamos ocupar os de solteiro, já que estamos em seis e os quartos são duplos.
—Duplos?
—Não que o último quarto no final do corredor não deva ser usado. —O comentário de Sander soou bem-vindo e um pouco engraçado. Houve risos acanhados e curtos. E naquele momento algo veio em mente, estávamos em seis, mas Julia e eu estávamos sobrando, para aqueles que pensam como eu, aquela garota de braço engessado, aparentemente assustada, estava tão solitária quanto eu sempre estive ao lado de Carol.
—Acho que estou me sentindo em um reality show.
—Bem, acho que no primeiro a direita podem ficar Carol e Sander, Julia e Renato no segundo, e Vinicius e eu no da esquerda. —Depois descobri que Augusto escolhera o quarto da esquerda, porque era o único de solteiro com ar condicionado e hidromassagem. Mas o puto estava certo, ele que estava proporcionando aquilo, merecia o melhor. Vinicius não contestou a decisão.
—Se não se importarem eu preferia ficar no mesmo quarto que Carol, não posso ficar a vontade desse jeito. Com Carol não teria tantos problemas. —Augusto procurou os olhos de Carol e levantara a sobrancelha em tom interrogativo.
—Tudo bem! —Nessa frase, Carol nos passou apenas descontentamento e exaustivo cansaço. —Vamos, quero me adaptar ao colchão o quanto antes.
Sander e eu estávamos estrategicamente posicionados de frente a porta do nosso quarto.
—Tudo bem com vocês? —Quis saber Augusto.
—Claro que sim. —Sander deu um passo a frente, foi um passo totalmente afeminado seguido de uma discreta jogada de cabelo, algo totalmente caricato. —Ficaremos melhor ainda. Não é gato? —Então se voltou para mim e piscou um dos olhos. —Não demorem muito meninos, precisamos lavar e encher a piscina antes que anoiteça. —Estava imitando uma bicha afetada, com certeza o fato de não ter ficado com Carol o deixou zangado, ainda por cima nos colocam juntos nessa porra de quarto. Que bem que Augusto nada teve a ver com isso. Mas achamos graça da brincadeira de Sander e rimos.
—Sua bicha prostituta! —Insultou Augusto.
—A gente não vai demorar. —Vinicius pareceu ter entendido a indireta. Ambos continuaram pelo corredor e Sander fechara a nossa porta. De rústico ou simples aquela casa de campo não tinha nada, coisas fúteis como lençóis, colchas e travesseiros deveriam valer uma pequena fortuna para qualquer assalariado. Deixei minha mochila no chão ao lado da porta e joguei-me em uma das camas, a que ficava ao lado da janela.
—Essa é minha. —Disse enquanto me deitava.
—Seu sacana!—Pousou as mochilas ao lado do armário. —Gostei daqui. —Abriu a janela. —Esse carinha sabe mesmo como surpreender a gente.
—Acho que não deveria ficar fazendo o tipo de brincadeira que acabou de fazer. —Ele me encarou. —Acho que para o Augusto tudo bem, ele já está acostumado com os meus xingamentos, mas o outro lá é meio encucado.
—O Vinicius? —Concordei com a cabeça. —De boa, Renato, gosto pra caralho do Vinicius, mas ele não me engana não... Já não pegou ele te dando umas olhadas esquisitas? Tipo que te analisando de cima em baixo? Cara, o dia que vi ele fazendo isso comigo até suei frio. —Realmente ele tinha esse hábito, de ficar me medindo com os olhos. Um dia quase perguntei “Que foi? Perdeu alguma coisa aqui?” —É... coisa que Augusto não faz.
—É essa semana que a cobra vai fumar! —Rimos um pouco para quebrar o gelo. Ainda estava deitado, vi Sander meter a mão em um dos bolsos e pegar um pequeno embrulho feito de guardanapo. —Tenho um troço dos bons para gente aqui, está afim de experimentar? —Era um pequeno comprimido de cor rosa que foi partido ao meio e sido entregue em minhas mãos cordialmente. —Se aprovar dividiremos o resto que tenho com os outros essa noite.
—O que é?
—Nada de mais, outra droga daquelas sintéticas para te deixar ligadão.
Ele engoliu o meio que estava em suas mãos, logo em seguida eu fiz o mesmo. E depois disso, não tive sequer um minuto de lucidez, por todas aquelas horas que permanecemos ali. Deitou na cama ao lado.
—Precisamos colocar as cervejas na geladeira.
—Acha que fizemos certo de nos isolar aqui?
—Ué... Quem está perdendo grana esses dias todos sou eu.
—Entendo...
—Acho que vai ser divertido, que bem que hoje é o primeiro dia e já está rolando uma tensão...
—Júlia e Carol não se dão bem.
—Júlia é bem gata, não acha? Só aquele jeito dela de menininha princesinha que é um pouco nada a ver. Porque não pega ela?
—Ela tem um lance com o Vinicius....
—Que tipo de lance?
—Não sei, acho que já ficaram... mas parece que ela gosta dele. Acho que é isso.
—E ela não sabe da parada entre ele e o outro lá?
—Sei lá... Essas mulheres hoje em dia andam mais vagabundas que os homens.
—Boto fé...
—Você e Carol já estão juntos há quanto tempo?
—Pouco mais de dois meses...E Renato, nunca pensei que fosse gostar tanto de alguém em tão pouco tempo.
Eu, particularmente, pela experiência vivida, não posso dizer que o encontrei, mas posso falar aonde ele, com certeza, não está. Assim como milhares de outros seres humanos, me acostumei, quando adolescente, que o amor chegaria até mim como um presente, uma dádiva que me era merecida. Dessa forma entrei naquela sala de espera existencial, aguardando que alguém entoasse meu nome, para só então me converter no homem feliz que encontra seu par.
Logo descobri que o amor não é uma espera, pois quem espera um dia alcança. Encontrar alguém que te ame é mais questão de sorte, ou tem a ver com quem você é. E se você também é capaz de amar...
Eu não podia mais aguardar, era hora, levantei-me e abri a porta.
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