segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

63 - SOL, ANFETAMINAS E ÁGUA FRESCA

Trilha: Phoenix - lisztomania








                                                                                                      Talvez já tenha acontecido com você alguma vez, mas naquele momento da minha vida eu não queria desenvolver minhas capacidades intelectuais, nem mesmo reflexivas, eu não queria pensar sobre o que seria do meu futuro, e de forma alguma refletir sobre acontecimentos passados, sobre todas as pessoas que se foram deixando-me só, sobre a injustiça do que chamam de Deus, sobre o que ele faz com nós seres humanos; Se Deus nos criou, se ele nos ama, se olha cada um de nós, como deixa que coisas tão terríveis aconteçam conosco? Não estou dizendo com isso que não acredite em Deus e que não o amo, eu acredito nele, só estou involuntariamente refletindo sobre as causas existencialistas dos problemas de todos nós. O que eu sei é que meu amor é defeituoso porque não poderia ser perfeito, mas ainda assim, eu seria incapaz de atingir dessa forma qualquer coisa que ame. Deus levou minha mãe através de uma porra de câncer que a fez sofrer por mais de dois anos até finalmente se entregar. Deus me deixou sozinho, Deus me deu um pai estúpido, pervertido e alcoólatra. O que mais eu poderia esperar de Deus? É certo que se eu não arregaçasse as mangas e fizesse algo por mim mesmo, eu poderia vir a me considerar um cara totalmente perdido. O que aconteceria quando o pai de Augusto voltasse e descobrisse que eu estava vivendo lá? O que seria de mim quando o ano chegasse ao fim? Talvez minha única saída fosse ingressar na Universidade Federal de Goiás, eu não estava em condições sequer de viajar para fazer provas em outros estados. Ainda havia a chance de conseguir grana através do campeonato, ideia que já havia descartado pela falta de vontade em competir. Eu era um derrotado, ou era assim que me via. Eu queria simplesmente ser levado pela onda de calor e dormência que a água quente do chuveiro proporcionava quando se estava sob efeito das drogas, eu queria descobrir quem pintou as coisas como elas são, desvendar os mistérios que envolvem a mente, o corpo e a alma, eu queria num eterno momento me esquecer de todas as coisas belas e sujas, de todas as pessoas que circulam por ai, inclusive aquelas que agora riem alto o bastante me despertando de um intenso mergulho no profundo mar. “Sander já deve ter dado um de seus comprimidos para Carol.” Pensei. E então aquela gargalhada tão conhecida e sarcástica ecoou em meus ouvidos como um grande grito, mas eu nem me importei.
       Continuei a me ensaboar sob a água quente por mais uma seqüência de minutos incontáveis. Tentando desviar qualquer tipo de pensamento que pudesse surgir, por mais tentador que este fosse. Como aquele em que tirava a blusa de Julia calmamente, beijando-a de forma lasciva e fulgente, vendo seus mamilos claros, seus pequenos seios redondos, aperto-os, depois os chupo passando minha língua quente com delicadeza, sugando-os, metendo meus dedos por entre suas pernas. O coração acelerou ligeiramente, eu me contorci em êxtase, gozei.
    Logo após aquele súbito explosivo e prazeroso, ainda sem querer, fui tomado por pensamentos corriqueiros, nada exatamente que me levasse a grandes observações, nada que me fizesse ver algo de forma diferente a ponto de mudar todo o curso dessa história; era algo que simplesmente me alertava para o enorme tempo que fiquei ali no vapor, que permanecia prensado dentro do luxuoso box. A piscina já estava totalmente cheia de água limpa e clorada, ficamos até a noite do dia anterior para deixá-la assim. Já eram mais de dez e quando olhei pela janela após o banho, pude ver Sander e Ricardo boiando sobre colchões infláveis.
      Tirei a toalha da cintura para enxugar os cabelos. Ou não aguentavam mais me esperar ou já haviam se esquecido de mim, com aquele tanto de gente minha ausência não deixava nenhuma lacuna a ser preenchida. O fato meus amigos, é que mesmo com tantas pessoas ali eu me sentia inevitavelmente mais próximo de Augusto e Carol, se isso era recíproco eu não faço ideia. Augusto parecia muito atraído por Vinicius e Carol havia encontrado em Sander uma espécie de versão masculina dela mesma. Vesti uma cueca que peguei entre as minhas coisas, a toalha molhada, joguei sobre a cama. Voltei ao banheiro, abri o armário da pia, Sander já havia ocupado oitenta por cento dele com suas coisas, uma escova de dente infantil de cor azul, de cabo em forma de macaco. Achei estranho. Um aparelho de barbear daqueles com lâmina removível, aproveitei e fiz minha barba com sua gilete e seu creme de barbear em spray. Naquele momento me passou que eu precisava de coisas assim, nos últimos dias vinha usando tudo que era de Augusto como uma vizinha pede gelo emprestado, como se fizesse algum sentido no dia seguinte ela lhe devolver todo o gelo que levara de você no dia anterior. Dentro do armário também tinha fio dental, um tubo amassado de Colgate herbal, um vidro cheio de um Listerine lilás, parecia refrescante, enchi uma tampa com o produto e gargarejei. Protetor solar Red Apple fator 30, me lambuzei com aquilo, meus ombros ardiam, estavam vermelhos em brasa. Ou talvez nem tanto, poderia ser sim efeito psicológico causado pelo ecstasy. 
      Outra coisa que me chamou atenção desde o inicio, mas que evitei por minhas mãos, foram alguns frascos amarelos repletos de comprimidos. Em um deles, o único rotulado, informava que os comprimidos se tratavam de um forte sonífero. Em outro frasco menor, pelo gosto amargo que tinham quando passei a língua em um, classifiquei-os como analgésico, coisas para dores em gerais. O último e mais largo dos frascos continha cápsulas bicolores que já haviam sido apresentadas à mim como anfetaminas, um inibidor de apetite com efeitos energéticos e estimulantes quando misturado com álcool ou ingerido em excesso. Eu já sabia o que fazer, provocaria um colapso coletivo sem que todos tivessem conhecimento, sentiriam-se alegres e confiantes e mais tarde colocariam a culpa no excesso de cerveja. Retirei a tampa, e na palma da mão joguei umas oito cápsulas ou mais, fechei o vidro, recoloquei-o no mesmo canto onde estava e apoiei as que havia retirado sobre a pia enquanto me vestia. Olhando-me no espelho, ainda embaçado pelo vapor, notei que havia mais coisas com as quais deveria me preocupar, como o cumprimento do cabelo por exemplo. Nunca meu cabelo estivera tão grande e nunca estive tão quebrado a ponto de não poder cortá-lo. Mas talvez fosse hora de testar novas formas, novas possibilidades, talvez fosse hora de me reavaliar. Mas não queria pensar sobre essas coisas naquele momento, eu não queria pensar sobre o que seria do meu futuro, e de forma alguma refletir sobre acontecimentos passados. Soquei as cápsulas no bolso da bermuda e desci, ainda do corredor pude ouvir o violino de Sander executando um trecho de Bach. Eu ainda descia os últimos degraus daquele lance de escada quando Sander dera por encerrado aquele trecho da composição e descansou seu instrumento sobre uma das poltronas.
      Vinicius e Augusto ajudaram Felipe retirar todas as compras do carro de Ricardo, pareciam ter comprado uma loja inteira do Carrefour com o pretexto de que encontraram tudo em promoção. As meninas, coagidas pelo resto, se mudaram para a cozinha com a intenção de preparar o almoço, na noite anterior Júlia havia preparado ótimas omeletes recheadas com ricota e ervilhas. O cardápio do almoço seria omelete recheada à moda de Julia Mesquita e de tira-gosto, serviriam pequenos cubos de peito de frango empanados. Aquelas coisas congeladas que não tem como errar, basta abrir a caixa e seguir o modo de preparo que tudo da certo no final.
—Bem! —pronunciou Ricardo. —Bom saber que entre nós não há só fruta e ralé. Gostei muito do seu violino, cara. Só é uma pena que isso não ajuda em nada você melhorar sua aparência. Olha só pra você, se veste como um mendigo.
—Quem foi que pediu sua opinião sobre a forma como me visto?
—É Ricardo, quem foi que pediu? —Fernanda está sentada ao lado de Ricardo, ocupavam o maior sofá da sala. —Amor... Você precisa ser mais sociável, a casa é do Augusto, se lembra? —Alertou-o como se fosse a milésima vez.
—Bem, eu só estava querendo ajudar, mas não está mais aqui quem falou.
—Enquanto uns precisam se vestir melhor outros precisam de neurônios e um pingo de vergonha na cara, que já iria ajudar. —Disse rispidamente, apenas cruzando a sala em direção a piscina, e surpreendentemente nada fora dito quando virei às costas.
    Augusto e Vinicius boiavam na piscina, sobre os confortantes colchões infláveis, conversavam baixo e manso, as caixas de som ali perto abafavam ainda mais o som de suas vozes. Augusto parecia radiante e fiquei bem em vê-lo assim. Talvez fosse apenas efeito de drogas, mas se estava contente naquele momento, isso era o bastante.
—Renato? Entra ai, tem outro colchão logo ali, ao lado da churrasqueira. —Apontou Augusto.
—Não, eu acabei de tomar banho. —Agachei-me na borda, junto a água. —Estou me divertindo muito aqui, Augusto!  Sua chácara, cara! Aliás, obrigado por toda força que está me dando.
—Deixa isso pra lá... não precisa se preocupar. Como é que você está? Está tudo bem com você?
—Sim. Onde estão as meninas?
—A Carol e a Julia foram para cozinha e depois disso eu não as vi... Será que isso quer dizer alguma coisa?
—Bem, ontem Júlia me surpreendeu... Eu vou até lá fazer uma inspeção. Divirtam-se meninos! —Disse ao casal na tentativa de ser simpático. Eu estava tão louco, que nem mais sabia o que estava falando. Os outros deviam estar na mesma proporção. Mesmo aqueles que não estavam servidos por Sander, já estavam bebendo cervejas desde manhã. Julia não, após uma dose da batida de açaí disse que beberia apenas Coca.  
      Novamente cruzei a sala em direção a cozinha, mas desta vez não encontrei ninguém ali, apenas o violino de Sander exatamente onde havia deixado pouco antes. O aroma, ou odor, na cozinha aflorava como damas da noite em madrugada de primavera febril, talvez por isso mantivessem a porta fechada.
—Feche a porta, Renato. Não queremos nenhum curioso aqui antes que tudo fique pronto.
—Que cheiro é esse? O que estão cozinhando? Meias sujas? Algum animal local?
—Claro que não... Deixamos as omeletes...  Estamos fazendo um ensopado.
—Ensopado? De quê? De meias?  —Inevitavelmente cheguei ao fogão e retirei a tampa da panela, a aparência daquele cozido era de doer os rins, e o cheiro, meu Deus... Ainda estava confuso sobre que tipo de condimentos haviam usado. —Vocês acham mesmo que aquelas pessoas lá fora vão comer esse ensopado que vocês fizeram?
—Eu sei, não está com uma aparência muito boa, mas eu acredito que esteja muito saboroso. Você ainda não provou. —rapidamente recoloquei a tampa na panela e me concentrei em meu plano inicial. Tenho certeza que as refeições dos próximos dias seriam responsabilidade minha já que eu parecia ser o único que sabia fazer comida. —Não. Eu prefiro experimentar junto com os outros. —localizei um liquidificador sobre a bancada de mármore. —Estou pensando em fazer uma batida bem leve, só para abrir o apetite, o que vocês acham?
—De açaí? —Perguntou Carol.
—Não Carol, tomaremos açaí amanhã, para não ficar enjoativo... vou usar polpa de maracujá.
—Eu já disse que não posso beber, estou tomando remédios para o osso quebrado.
—Ah, Julia, mas não faz mal... pelo menos provar. Vou fazer bem suave, é só para nos acompanhar em um brinde. Beleza?
     Carol me olhou de soslaio, de forma arrogante.
—Um brinde a quê? A uma semana trancada nessa fazenda com Ricardo Bensimon?
     Pensei um instante.
—Sim, você tem razão, Carol... Então sem brindes, desde que Julia experimente um pouco.
—Ah... Eu não sei... —Parecia atordoada.
—Experimenta logo, Julia. Você não vai se embebedar, e outra, não acredito que vai passar uma semana aqui nesse regime sem sentido. Não acredito nessa história de que álcool corta efeito de remédios. Talvez aconteça alguns efeitos colaterais, mas faz parte.
     Peguei uma garrafa de vodka recém guardada, polpa de maracujá, suco de pêssego, creme de leite, e iniciei o preparo da bebida enquanto as meninas mexiam seu caldeirão.
—Vocês não acham estranho Ricardo e Fernanda juntos?
—Como assim? —Quis saber Julia.
 —Ah, sei lá... Ricardo é o maior idiota que conheço, e aqueles caras com quem ele anda não ficam atrás. A Fernanda é negra e isso me parece ferir um código ético entre alunos estúpidos do PH.
—O que está querendo dizer? Que Ricardo não deveria estar aqui e que Fernanda deveria arranjar um namorado da mesma cor que ela? —Questionou Carol.
—Me respondam uma coisa, desde quando vocês vêem os dois andarem juntos no Campus? —Perguntei. —Algumas vezes. —Eu mesmo respondi vigorosamente.
—Não são namorados de ficarem se atracando no colégio.
—Bem, eu não estou querendo dizer nada com isso, mas ainda não entendi o que ele está fazendo aqui. Agora a pouco peguei ele na sala chamando o Augusto de boióla, me classificando como ralé e tirando sarro com a cara do Sander.
—Ele fez isso? Quem esse cara pensa que é?
—Pessoal, tá certo que ele é irritante, mas não podem dar uma chance? Querem saber? —Prosseguiu Julia, seu tom de voz era suave, aveludado, imaginei-a sussurrando em meus ouvidos. —Acho que vocês se fecham dentro de uma caixa e não aceitam que ninguém se aproxime dela. Quando percebem isso, atacam a pessoa a ponto de fazê-la desistir e se recuar. Não que eu esteja defendendo o Ricardo, mas vocês fazem isso com todo mundo. Fazem isso comigo, de certo modo fazem isso com o Vinicius, e estão fazendo o mesmo com Fernanda e o cara que ela trouxe. Ninguém aqui quer destruir isso que existe entre vocês três... Às vezes eu só queria dizer, Olá, eu estou aqui. —Julia parecia cansada. —Mas cinco minutos no fogo e acredito que está pronto, vou me lavar antes do jantar.
—Você não precisa de ajuda? —Perguntou Carol.
—Não, cuide do jantar, eu posso fazer isso sozinha. —E logo saiu nos deixando a pensar.
    Cruzamos olhares interrogativos.
—Talvez ela tenha razão.
—De qualquer forma acho bom ficarmos de olho no sujeito. E ai dele se falar qualquer besteira quando eu estiver presente.
—Você não sabe o que estou pensando.
—Diz.
—Olha só o que roubei do Sander, são anfetaminas, pensei em misturar na batida sem que os outros saibam, o que você acha?
     Os olhos de Carol brilharam como os de uma criança prestes a cometer a maior de suas travessuras.
—Acho ótimo, pelo menos assim tiramos Julia Mosquita dessa inércia agressiva e fazemos com que Vinicius solte a franga um pouquinho, não agüento mais o Vinicius com esse joguinho... E por falar nisso, onde está o Augusto?
—Na piscina fazendo o joguinho do Vinicius.
—Precisamos fazer alguma coisa Renato, fico com dó vendo o Augusto assim... Praticamente comendo migalhas...
—Não podemos obrigar o Vinicius a fazer nada, Carol. O Augusto é que deveria agir.
—O Augusto é uma lesma, até parece que não conhece. E por falar nisso, precisamos contar à ele sobre essa batida, segredo de nós três.
—Eu concordo, agora vá olhar aquela panela enquanto cuido disso, se não, esse troço pode ficar pior do que já parece. 





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