domingo, 20 de fevereiro de 2011

74 - DEIXANDO AMIGOS, CONHECENDO ESTRANHOS

Trilha: Teenage Fanclub - sometimes I dont need to believe in anything








                                                                                                 Passei um longo tempo deitado, o corpo e a mente estavam tão pesados, o ar que respirávamos pesava em nossos pulmões. Levantei-me quando escutei o interfone tocar bem próximo, fui até a cozinha, deslocando-me agilmente, e atendi. Permiti a entrada de Carol. Quando alcancei a sala ele estava descendo os degraus.
—Carol?
—Isso.
—Está bem atrasada. —Já era noite, ou parecia ser. Pela janela já era possível ver luzes em outros edifícios. A campainha tocou. Abri.
—Que cara é essa? —Perguntou.
—Eu não estou muito bem.
—O pai dele ligou. —adiantou-se Augusto em dizer.
—Mandou ele ir para o inferno?
—Foi o que eu fiz.
—Ótimo! É o que eu faria. —Carol estava excêntrica, o que era de costume, mas parecia um pouco mais. Usava presilhas pretas no cabelo, algo fino como uma meia negra lhe cobria os braços, usava um vestido azul que me lembrava capa para botijões de gás, uma peça estranha, que não ajustaria em seu corpo nem se pegássemos uma liga e a amarrássemos como uma pamonha. Carregava uma bolsa enorme de cor branca que deixara sobre o sofá logo que entrara. Agora ela já estava no bar, foi o que fez quando entrou. Não me deu um beijo, não cumprimentou o dono da casa... Apenas foi direto ao bar, pegou um cálice de licor e a garrafa de Chivas logo acima de sua cabeça. O liquido de tom dourada balançou dentro do vidro em suas mãos.
—Adoro isso. Disse a mim mesma que seria a primeira coisa que faria quando chegasse aqui. —Parecia aliviada.
—Acho que vocês estão exagerando em tudo isso. Nem chegamos à quinta-feira, as aulas voltaram e faltam apenas dois meses para formarmos... —Eu estava quente. —E vocês parecem não dar à mínima.
—Renato...
—Você fez o trabalho de amanhã?
—Que trabalho? —Ela perguntou com suavidade enquanto molhava os lábios no destilado.
—Você não sabe do trabalho que vale cinqüenta por cento da nota? Gael nos mandou planejar antes mesmo daquele atentado ao ônibus.
—Você está preocupado a toa. Diego do terceiro ano C ficou de nos trazer ainda essa tarde.
—Você também sabia? —Eu meio que me sentia traído. —O fato é que já é noite. Eu acho bom vocês ligarem para esse cara, ou vão querer reprovar em Química? De quem foi a idéia?
—Do quê? Do trabalho? Foi idéia minha! E outra, acordamos primeiro que você. Se o trabalho é para amanhã, acha mesmo que passaríamos todo o dia de hoje fazendo isso? Fala sério.
—O Vinicius ligou dizendo que passaria aqui, espero que não se importem.—Ele não tinha ido embora? —Ele havia saído um pouco antes de receber a ligação do filho-da-puta do meu pai.
— Ele locou um filme e estava afim de assistir aqui em casa.
—Ótimo! —Disse. Eles pareceram assustados com meu entusiasmo. —Está vendo? Esse é um sinal. O cara saiu daqui agora a pouco e te liga com a idéia de assistir filme? Ver um filme nunca significa ver um filme...
—Claro que não. —Comentou Carol.
—Isso é apenas um pretexto. É hoje que você precisa avançar o sinal, Augusto.
—Como assim? O que eu devo fazer? —Indagou o aprendiz ao mesmo tempo em que se sentava para sua primeira aula.
—Vocês podem assistir o filme no quarto, e depois faça o de sempre, pegue na mão dele. Se ele der sinal verde você pode por a mão na coxa, isso vai provocar alguma coisa.
—Espero que não seja um murro no meio da minha cara.
—É claro que não, misto-quente. Porque acha que o Vinicius preferiu ficar em um quarto com você na fazenda? E não se lembra que a sonsa da Julia também estava lá? Faça o que o Renato está dizendo. Não é possível que o ano vá acabar e vocês não vão consumar o fato.
—Mas tem um problema... —Esperamos que continuasse. —Eu não quero dar para ele, vocês entendem? —Carol caíra na risada e eu meio que me controlei. Ela se serviu de mais uma pequena dose.
—Alguém me acompanha? —Nenhum de nós dois quis beber.
—É provável que ele também ainda não tenha isso em mente. —Comentou ela após dar um primeiro gole.
—Quem disse que um precisa dar para o outro? Bem, pelo menos é o que eu acho. —Ressaltei. —Eu não tenho nenhuma experiência nisso, tá certo, já assisti alguns filmes e vi uns caras se pegando, naqueles pornôs gays... O que estou querendo dizer é que vocês podem fazer outras coisas.
—Eu não quero que esse troço entre eu e o Vinicius siga o modelo de um pornô gay... —Carol entrou novamente com mais risadas.
—Não é isso o que quero dizer, quis dizer que vocês podem se abraçar, beijar... Os heteros fazem isso.
—Fazemos muito!
—E se acharem que não vão conseguir se controlar, vocês são homens, certo? Se masturbem, peguem no pau do outro e batam uma. Ninguém precisa dar nada para ninguém e ninguém precisa ficar sabendo. —Carol me olhara desconfiada. —Exceto nós. —Completei.
—Que papo estranho esse de vocês! —Carol deu alguns passos e deixou o pequeno cálice sobre o balcão. Depois disse que adorava o bar da casa de Augusto, e que sua mãe jamais seria dona de algo tão sofisticado, de modo que só lhe restava fazer uso e aproveitar as cores e os sabores de tantas bebidas quando estava ali.
—Ah! Acabei de me lembrar, Sander também passará aqui mais tarde. Estamos tão carentes que pensei que poderíamos fazer uso de um dos quartos vazios no segundo andar. O que você acha, Augusto?
—Não vá sujar a colcha da cama com você sabe o que.
—É claro que não.
    Logo teria que suportar a tensão gay mal-resolvida, o namorado droguinha da minha melhor amiga, que certamente faria de tudo para entorpecer todos os presentes, e não muito demoraria eu ficaria só tendo que lidar comigo mesmo, exatamente o que queria evitar. Na verdade queria deixar para lá todas essas coisas desagradáveis, e o risco de segurar vela enquanto nos drogávamos um pouco mais, ou, enquanto interrompia a peculiar intimidade entre dois caras. Eu precisava dar o fora dali. Até mesmo porque já haviam feito planos sem mim.
—Eu não estou me sentindo muito bem, acho que ficaria melhor se ficasse sozinho hoje a noite. Já que vocês dois estarão acompanhados, se importam se eu saísse para dar uma volta? Ver a rua, pessoas estranhas, respirar um ar.  —Percebi que eles se entreolhavam como analistas, poderiam estar naquele momento fechando uma tese.
—Se importam?
—Por mim não. —Disse Carol. —Você realmente deve estar precisando de um tempo só. E tem outra coisa, não vou poder ir mais para o Campus com vocês dois.
—Não vai mais poder? Como assim?
—Nossos atrasos recentes deixaram minha mãe enfurecida. Disse que não é seguro e me proibiu de continuar indo e voltando com vocês. A partir de amanhã o ônibus vai passar na minha casa todos os dias.
—Me desculpa... mas foi um dos ônibus que foi baleado até tombar no meio da estrada. —Disse Augusto, fiquei chateado.
—Não é culpa sua, a minha mãe é que é uma louca, e Deus sabe como vou odiar ter que pegar aquele ônibus, mas não tenho outra opção. E ela deixou claro que não tem absolutamente nada contra você, Augusto. É apenas uma questão de segurança, disse ela. Como se fosse seguro andar naquele ônibus, como se alguém já não tivesse morrido dentro daquela porcaria.
—Fazer o que, não? Eu acho melhor eu sair antes que os acompanhantes de vocês cheguem. —Eu disse me apressando.
—Pega meu carro.
—O quê?
—Pega meu carro, não vai andar por ai a pé. Poderá ir mais longe se estiver no carro.
    Fiquei surpreso, mas não recusaria a proposta, seria ótimo pegar o carro, ligar um som, fumar um cigarro e me aventurar pela cidade no inicio da noite. Já sabia onde ir. —As chaves estão no quarto. Subi para pegar minha carteira, colocar o tênis e passar um gel no cabelo.
     Já na garagem notei um cara depositando algumas caixas próximo ao elevador, algumas pequenas, outras bem pesadas, como a que vinha trazendo no ombro agora. Suava, parecia cansado. Eu não estava fazendo nada mesmo.
—Precisa de uma ajuda, cara?
—Essa é a última. —Disse colocando-a no chão. —Mas se não for fazer nada e puder me ajudar a subir com elas, seria um grande favor. —César era um cara enigmático, de semblante misterioso. Branco de cabelos pretos e boca bem vermelha, sobrancelhas finas.  
—Mora aqui faz tempo? —Perguntou.
—Não... Na verdade não moro aqui, só estou passando um tempo.
—Então somos dois, meu brother.
—Você também não mora aqui? —Perguntei, logo terminamos de arrastar todas as caixas e o elevador começou a subir. Assim que ele apertara o painel de controle percebi que seu apartamento era o que ficava logo abaixo ao que estava.
—Vou ficar no apartamento da minha tia, ela teve que fazer uma viagem de emergência e pediu que tomasse conta. —Ele parecia uma pessoa bem formada, bem vestido, apessoado. Era um cara que chamava atenção.  —Como se chama?
—Renato!
—César. —Disse oferecendo a mão como gesto de amizade. 
—O apartamento em que estou fica em cima do seu.
—Espera ai, cara... Eu te conheço! —Disse com o dedo em riste. —Você é um dos alunos do Campus... vi você na tevê.
—É isso aí, esse é meu cartão pessoal de agora em diante. —Ironizei.
—Foi mal, cara... Eu não quis te chatear. Deve ser realmente um pé no saco ficar conhecido assim, dessa forma.
—Não se preocupe. —Assim que a porta se abriu, as caixas começaram a ser retiradas. De repente ele disse:
—Ei! Você curte jogar Playstation?
—Claro... Você joga?
—Vou instalar o meu na tevê da minha tia agora, a tevê dela tem sessenta e duas polegadas. Eu tenho uma centena de jogos... Está afim de ficar e jogar um pouco?
—Com certeza, é de boa?
—Claro, entra aí! —Imediatamente pensei no que um dia de fulga do colégio não pode nos proporcionar. Não precisar fazer aquele trabalho, de certa forma foi um alivio.
     Passamos horas ali, jogando Tomb Raider, vivendo as aventuras da arqueóloga Lara Croft, uma personagem feminina similar a Indiana Jones. As histórias são geralmente baseadas na procura de poderosos artefatos, com Lara numa corrida contra uma sinistra liga de bandidos. Esses artefatos geralmente são místicos e podem inclusive ter poderes sobrenaturais. César preparou uns sanduíches de peito de peru e ricota por volta das sete horas e assim continuamos até as dez da noite. Quando notei as horas, num momento de pequeno intervalo, entendi que precisava ir. Ele insistiu para que ficasse um pouco mais, e eu bem que gostaria de fugir mais algumas horas da minha sombra diária. Porém, precisava dormir, ir à aula no dia seguinte.
—Deveria ficar mais um pouco, Renato. Finalmente consegui um adversário a altura.
—Eu passava o tempo todo em casa... Jogava isso o dia inteiro... Agora estou sem meu vídeo-game.
—Então... Conhece alguns lugares maneiros por aqui? Um local para gente pegar umas mulheres. Eu sou de Uberlândia.
     Expliquei que conhecia alguns bares, e ele logo disse que eu estava convidado para dar uma volta qualquer hora e deixara claro que quando quiséssemos poderíamos passar mais tempo com a gostosa da Lara Croft. E eu, é claro, disse que estava tudo bem. 




Copyright 2011




.

Nenhum comentário: