terça-feira, 13 de março de 2012

86 - TODO FIM É APENAS UM COMEÇO

Trilha: Warren Ellis - last ride   (e)   Alice in Chains - nutshell








                                                                    Acordei com Augusto socando a porta e gritando meu nome, já deviam ser umas nove da manhã, mas não havia claridade do outro lado das cortinas, o quarto estava abafado e quente, levantei e abri a porra daquelas janelas para que o ar entrasse. Meu comparsa, Vinicius, ainda não havia chegado e o sábado prometia ser longo. Ainda dentro da zonzeira que sempre me acompanhou ao acordar fui até ele ver o que estava acontecendo.
—Abre essa porta, Renato! Você não tem o direito de me trancar aqui dentro.
—Nós já conversamos sobre isso...
—Abre logo esse troço seu filho-da-puta, seu desgraçado!
    Eu simplesmente ignorei-o e desci pensando em preparar um café preto. O telefone tocou.
—Sou eu. —Disse o comparsa.
—Eu estou te esperando aqui... Descobri uma coisa que você vai achar intrigante. —Estava me referindo as fotos encontradas horas atrás. No inicio da madrugada.
—Acho que não vai ter como chegar aí antes do almoço. Minha mãe não está passando bem, na verdade minha mãe está surtando e não quer que eu saia. Mas ontem, Renato, aconteceu algo muito estranho.
—O que aconteceu?
—Quando cheguei em casa, havia um envelope endereçado à mim, idêntico àquele que Augusto recebeu no dia das bruxas, igual àquele que encontramos na fazenda com as fotos do Caio... Havia três fotografias lá dentro. Uma de meu pai em frente uma casa que eu não conhecia, ele aparecia fechando um portão e usava luvas, parecia apreensivo. A segunda trazia meu pai caminhando em direção ao carro estacionado mais adiante, e a terceira mostrava aquele mesmo portão que antes ele havia fechado, mas ao lado havia uma placa com endereço, o zoom da maquina deixou as letras bem visíveis. Quem deixou isso aqui queria que eu fosse até esse local.
—E o que você vai fazer?
—Você não está entendendo... Eu já fiz. Ontem mesmo peguei um taxi e pedi para que o motorista me deixasse naquele lugar.  um sobrado na região do Eldorado. Quando desci havia luzes acesas no interior da residência. Toquei a capainha, uma mulher na casa dos trinta veio atender a porta. Usava óculos e tinha o cabelo bem curto, como o de um rapaz.
—Pois não? —Disse parada ao portão.
—Olha... Eu sei que vai parecer loucura, um estranho na sua porta uma hora dessa, mas essa tarde recebi em minha casa essa foto, com seu muro e esse endereço... Eu não sei como posso explicar, mas você pode imaginar porque me enviariam algo assim?
    A mulher apresentava uma palidez cerosa. Pensou por alguns segundos, demonstrou nervosismo.
—Entre. —Falou finalmente. — Tem algo que precisa ver.
   Ao entrarmos, ela se sentou num sofá de cor escura, se apresentou fazendo com que eu também fizesse o mesmo, em seguida inseriu o assunto. Disse que o pai havia sido assassinado meses atrás e que estavam culpando um homem que ela acreditava ser inocente. Foi na tarde de ontem, com o bloco de imagens que recebeu, que veio a confirmação, ela estava certa. Nas imagens, que ela já havia entregado à policia, um homem que não era o doutor Marcos, era visto torturando seu pai. Ela havia guardado uma, me passou ingenuamente. A imagem não era nítida, parecia haver um vidro entre a máquina que registrou aquilo e os participantes daquele acontecimento lamentável. A foto que estava em minhas mãos mostrava ele com uma das mãos segurando o pescoço da vitima...”
—Ele quem? —Perguntei. Então Vinicius guardou o ar no peito por um curto tempo e desabafou.
—Meu pai... —Puta-que-pariu! Fiquei em alerta. —E o homem de quem estou falando era Ismael, o médico, o pai do Augusto não é o culpado desses crimes. —Eu estava cercado de pessoas vivendo o complexo de Édipo. Descobrindo verdades e rebelando-se contra seus próprios criadores. Confesso ter ficado em transe, ainda não eram nem nove da manhã.
—Seu pai matou essas pessoas? Caralho! O que é que você está pensando em fazer?
—Pensando em ligar para policia e dizer quem é o homem que eles procuram. O pior de tudo é que não consigo entender por que meu pai faria algo assim, aliás, eu não consigo explicar como ele foi capaz...
—Talvez eu consiga. Eu preciso ver essa foto... Acha que pode me enviar uma foto do seu pai por email?
—Você pode entrar no site da MartinsBianco, lá você vai encontrar algumas fotos dele. Vá em advogados e clique em Raul Martins Bianco. —Houve uma interferência, como uma voz gritando do outro lado, não deu para entender o que era. —Eu preciso desligar, nos falamos depois.
—Me desculpa, mas porque seu pai faria algo assim e depois se mataria?
—Eu não sei, cara... Preciso desligar.  
—Eu te ligo quando souber de algo. —Desliguei.
    Subi outra vez as escadas, correndo, Augusto ainda espancava a porta e chorava em um daqueles quartos. Entrei no escritório para acessar a internet, liguei o computador e naquele espaço de espera disquei os oito dígitos do residencial de Carol.
—Alô?
—O que você está fazendo agora, Carol?
—Absolutamente nada... O que acha de locarmos um filme? —Meio que achei engraçado, parar para assistir um filme com tantas coisas em mente.
—Acho que não vai dar não, aliás, preciso de você aqui na casa do Augusto. Pode subir?
—Está rolando alguma coisa?
—Muita coisa, mas o principal é que acho que descobri o que está acontecendo... Você não vai acreditar.
—Acontecendo com quem?
—Com nós, Carol... Toda essa história maluca sobre as ligações para o doutor Marcos, essas mortes, o tiro na sua vidraça, as perseguições na estrada de acesso... Acho que estou perto de matar a charada.
—Está falando sério?

*

       Ao entrar no site de advocacia MartinsBianco fiquei surpreso em constatar que o pai de Vinicius era o mesmo homem que aparecia com a mãe do Augusto naquelas fotos, em todas elas. Outra vez peguei as chaves, fui até o closet, retirei a caixa e observei todas aquelas imagens, nenhuma parecia ter sido tirada com o consentimento do casal. Algumas, inclusive, foram tiradas a distância e nunca de frente. As mais antigas datavam de mil novecentos e oitenta e seis, a mais recente, aquela que possuía o endereço no verso, fora registrada em noventa e nove.  Peguei o telefone.
—Descobriu alguma coisa? —Vinicius estava tão apreensivo quanto eu.
—Você morava em Jataí, não é isso?
—Sim.
—O que pode me dizer sobre o seguinte endereço: Rua Riachuelo, 1430, Setor Samuel Graham?
—É meu antigo endereço... Como você descobriu...?
—Eu encontrei umas fotografias na casa do Augusto e em uma delas havia esse endereço escrito no verso... As fotos que encontrei mostra seu pai e a mãe do Augusto juntos, em mil novecentos e oitenta e seis, em mil novecentos e noventa e dois, em mil novecentos e noventa e nove. Aquela história sobre o amante da dona Paula era verdadeira...
—Você está me dizendo que meu pai teve um caso com a mãe do Augusto durante todo esse tempo e que meu pai matou esse homem e aquela mulher para se vingar de doutor Marcos?
—Eu não sei, mas tudo parece se encaixar, Vinicius... A teoria do amante era verdadeira, talvez seu pai acreditasse que o doutor Marcos tivesse alguma culpa na morte da Paula. Pelo que sei o casamento chegaria ao fim de vez bem naquela tarde em que ela sofreu o acidente.
—Meu Deus do céu...
—Você precisa ficar calmo, cara... Talvez sua mãe possa dizer alguma coisa que possa ajudar, certamente ela deve saber ou desconfiava de algo. O caso entre os dois parece ter durado mais de uma década.
—Minha mãe está surtando, Renato... Posso nem comentar algo assim aqui, agora.
—Fala com seu tio, o pai da Sarah... Ele deve saber de algo.

*

—Mas por qual motivo o pai do Vinicius praticaria um atentado contra o ônibus em que estava o próprio filho? —Indagou Carol. E ela tinha razão, ainda não havia pensando nisso.
—Mas não acha lógico? Raul acreditava ser o pai do Augusto, é quase certo que ele e Paula vinham se encontrando até poucos dias antes da morte dela. Lembra do que Augusto nos dizia? De como era um inferno a relação dos pais? Pode ser que Raul realmente culpe o doutor Marcos pela morte da amante.
—Mas eu não entendo... Até aí, tudo certo, as fotos que temos e a que Vinicius disse que viu comprovam isso... Mas algumas coisas não se explicam, como por exemplo: Quem enviou as fotos do Raul para Vinicius e para a filha de Ismael? —Carol era uma verdadeira raposa, farejava. —Quem está nos enviando essas fotos é a mesma pessoa que atirou contra os ônibus na estrada de acesso, e a mesma que incêndiou a casa de campo, e atirou contra Ricardo. Não foi o pai de Vinicius que praticou essas ações. Você entende? E nessa época, o doutor Marcos já estava preso.
—Mas será que essa pessoa é a mesma que nos viu com Caio aquela tarde e tirou ele do rio? Quem foi que o prendeu aquele tempo todo?
—Não sei.
—E sobre aquele carro que quase nos matou na estrada de acesso? Não estou entendendo mais nada, Carol...
    Augusto começou a chutar a porta do quarto e socá-la ao mesmo tempo, produzindo um som grosseiro que incomodava.
—Você já falou com ele sobre tudo isso?
—Ainda não, não é uma boa hora. Ele nem quis tomar os remédios, isso pelo menos o deixaria mais calmo.
—Onde estão? Vou subir até lá e fazê-lo beber antes que ele se machuque com alguma coisa.
—Nem queira ver o quarto dele como está... Venha. —Chamei-a até a cozinha. —Aproveita e leva um sanduíche, e faça-o comer também.
     Preparei um pão com queijo e chester, enchi um copo com suco de uva industrializado e preparei a dose de calmante. Nesse meio tempo Sander ligou no celular de Carol, era pra dizer que estava com saudade. Provavelmente aguardaria processo em liberdade, depois de permanecer detido por alguns dias, estava novamente em casa bebendo seu absinto e assistindo a TV a cabo, confortavelmente, durante todo o dia. Eu fiz sinal para que ela desligasse e subisse com a bandeja, mas Sander queria saber detalhes do que estava acontecendo. 
—Fale com o Renato, eu preciso cuidar do Augusto. —Disse ela, e então me entregou o celular. Pegou o lanche.
—Converse com ele antes de entrar, ele pode querer fugir. Ah, e leve cigarros. —Falei.
    Contei tudo à Sander de modo que aquilo pudesse fazer algum sentido, ainda havia uma brecha em tudo, mas só a certeza de que Raul era o assassino mutilador de cadáveres já era de dar arrepio.
—Se existem fotos do pai do Vinicius na noite em que ele matou aquele médico, quer dizer que a pessoa que está enviando essas fotos e incendiou a casa da fazenda, assim como atacou os ônibus e atirou em Ricardo, está querendo provas contra esse Raul e é possível que esteja querendo atingi-lo através dos filhos. Vinicius estava no ônibus, ambos estavam presos naquele lugar quando atearam fogo. É alguém que está seguindo o Raul antes mesmo desse tal de Ismael ter sido assassinado.
—Mas quem faria algo assim?
—Esse Raul com certeza sabia que alguém estava lhe perseguindo, não houve uma invasão na casa de Vinicius uma vez? E outra, depois encontraram o cara morto lá dentro, quem prova que realmente foi suicídio?
—Vinicius uma vez comentou que estava na sacada de casa quando o pai chegou e viu que um carro vinha logo atrás, quando o pai entrou na garagem, o outro carro ainda permaneceu na porta por um bom tempo.
—Quer saber? Eu começaria investigando aquela mulher que foi assassinada primeiro, a que estava saindo com o pai do Augusto, a tal de Solange. Se existem fotos dele matando Ismael, mas não existem fotos dele matando Solange, pode ser que isso queira dizer que quem está o perseguindo começou a agir só depois que essa mulher foi morta.
—Como vou fazer isso? Eu não sei nada sobre essa mulher.
—O caso dela chamou muito a atenção da mídia. Digite no Google, faz uma busca na internet... Deve aparecer algo. —Já estava no escritório. Digitei “Solange das neves” e logo apareceu uma lista de itens.
—O que achou?
—Espera, estou olhando.
    A maioria deles apenas citava a mulher, enquanto o foco era o acusado doutor Marcos Bueno de Almeida Flecha. Já quase no final da lista encontro um que dizia o seguinte: “Filhos de empresária assassinada brigam na justiça por herança.” Entrei na página em busca de mais informações, a matéria relatava que os filhos de Solange haviam entrado na justiça, porque a mãe havia deixado metade do que tinha para uma instituição que cuida de crianças com síndrome de Angelman, crianças que sofrem com rigidez corporal, dificuldades para andar, ausência de fala, riso excessivo e crises convulsivas. Por que ela faria isso, eu não tenho a mínima ideia.
—Você ainda está aí? —Perguntou.
—Estou sim. —Não parei para ler tudo, mas visualizei toda pagina, ao fim da matéria mais uma foto revelando o que até então não era pensado. De longe um fotógrafo registrara a imagem dos dois filhos de Solange, na verdade um casal de jovens muito simpáticos. A garota eu nunca havia colocado meus olhos sobre ela antes, porém o cara que estava ao lado, eu já conhecia e estive com ele várias vezes... Não podia ser... “Não é possível...”  Pronunciei, escapou-me.
—O que foi?
—Acho que acabo de descobrir tudo, Sander... Eu preciso desligar.
    Carol ainda estava com Augusto, estavam bem, já que não era possível escutar coisa alguma. Sai e desci as escadas até o andar debaixo, onde César, aliás, aonde aquele filho-da-puta vinha passando seus dias. Pensei não encontrá-lo mais, fiquei surpreso em ver a porta entreaberta ainda do corredor. Abri. Chamei-o. Havia duas malas prontas no chão da sala e sobre o sofá de couro preto um equipamento fotográfico. Ele estava de partida. Antes que me pegasse ali, voltei para o andar de cima e liguei em seu celular. Tocou várias vezes. Por fim ouvi sua voz.
—Por onde tem andado? Não mora mais no prédio? —Falou com voz de malandro.
—Passei alguns dias fora. —Menti. —Preciso falar com você sobre algo que é do seu interesse.
—Estou viajando hoje, Renato. Também vou passar alguns dias fora.
—Antes de sair fale comigo... Estou a caminho e sei de coisas que você nem imagina, meu velho!
—Posso saber sobre o que se trata?
—São do seu interesse. Eu já disse. Você me espera?
—Trinta minutos, no máximo.
    Liguei para Vinicius que me parecia muito pior que da ultima vez que falamos. Agora ele estava totalmente insano, preocupado, nervoso e ainda não havia conseguido contatar o tio. 
—Escuta, você pode me passar o numero daquela sua repórter? Liguei para Juliana Texeira, ela podia ajudar. Em seguida acionei a policia e desci, fiquei a espera da equipe de reportagem. Seria o maior furo jornalistico do ano. 

*

     Ele estava na sala do apartamento que dizia ser dele quando entrei, simplesmente peguei as imagens que eu tinha, aquelas que recebemos na fazenda, e joguei sobre o sofá em sua frente.
—Onde você conseguiu isso? —Primeiro ele as pegou e fingiu não saber do que se tratava.
—Não tente me enrolar, César... —Pronunciei seu nome com ironia. —Eu sei que você é filho da Solange, sei inclusive que está na justiça para tirar o dinheiro de crianças doentes... Que vergonha! Eu só ainda não entendi o que você está fazendo aqui, e como você conseguiu se alojar nesse apartamento... Pedro, esse é seu verdadeiro nome. —Logo aquele seu jeito bacana de ser foi para o espaço e ele se mostrou como era, um cara rancoroso e cheio de ódio represado.
—Você quer toda a verdade, Renatinho?
—Eu estou esperando... Ou você me conta a verdade ou eu ligo para policia. Já tenho muitas provas contra você...
—Quando minha mãe foi assassinada algo me dizia que aquele doutor Marcos tinha alguma coisa a ver com a morte dela, os próprios policiais nos alertaram sobre isso... E para te dizer a verdade eu nunca fui com a cara daquele médico escroto. Um dia decidi ir até o hospital onde ele trabalhava, para ter uma conversa séria com ele, mas assim que cheguei o vi saindo em direção ao seu carro. Eu desci rapidamente para tentar lhe alcançar, mas foi em vão, ele deu partida e foi deixando o estacionamento, no mesmo instante um senhor que ocupava outro carro próximo ali, também deu partida e saiu em lentidão atrás do médico. Voltei para o meu carro e fui atrás, notei que o senhor que estava no estacionamento seguia o carro do médico todo percurso, inclusive quando ele parou no hipermercado e demorou cerca de cinqüenta minutos, o outro homem ainda permaneceu lá, e eu também não movi um pé, permaneci ali a espreita. Quando o médico entrou na garagem desse prédio, o carro que o seguia continuou e eu fui atrás, foi então que descobri onde seu colega, o Vinicius, morava.
      Passei algum tempo perseguindo o tal do doutor Raul, aquele assassino, tentando entender qual era a dele, dias depois decidi invadir a casa e ver se encontrava algo que confirmava minhas suspeitas, que o velho estava armando para o médico... Ainda não entendia porque. Foi nesta noite que encontrei essas fotos que aqui estão, essas fotos daquele garoto gordo no rio. Encontrei também cartas de amor enviadas por Paula, mãe do Augusto, fotografias antigas de ambos carregando os dois filhos, que hoje praticamente são gays e amantes. Que mundo nojento!
—Continue. Augusto não é irmão do Vinicius, já sabemos disso.
—Detalhes que me escaparam... Então passei mais alguns dias atrás do advogado, foi quando descobri que ele trancafiava alguém num barracão alugado na zona leste, ali para os lados do Jardim Novo Mundo. Não foi possível saber quem era porque era impossível entrar no lugar sem arrombar uma porta, uma vez tentei falar com a pessoa que estava lá dentro e ninguém respondeu... Mas ele sempre passava por lá após sair de um restaurante no setor Sul. Ver esse homem matar aquele tal de Ismael, coitado, foi uma das piores coisas... Quando associei o que ele estava fazendo com a morte de minha mãe, eu fiquei com tanto ódio, ódio pelas pessoas que morrem todos os dias injustamente... a partir daquele instante eu falei para mim mesmo que iria fazer esse advogado desgraçado pagar o que ele tinha feito comigo, mesmo que para isso fosse necessário tirar dele o que mais amava, o que havia lhe motivado a praticar esses crimes, seus filhos.
     Decidi me mudar para cá para acabar com Augusto, queria ver o pai dele amargurar os dias que passeou com minha mãe como se ela fosse uma acompanhante vulgar e sem valor. Depois desisti... Armei tudo de um jeito que o médico ainda continuasse preso. Ataquei os ônibus na estrada de acesso porque queria machucar Vinicius, queria que ele estivesse se mandado desse planeta naquele mesmo dia. Infelizmente nem tudo que planejamos dá certo... Temos que ter isso em mente... Quando decidiram passar aqueles dias na fazenda, achei que seria divertido passar um susto em vocês, e por incrível que pareça o Raul também planejava o final de seu plano, levaria Caio para ser encontrado preso na casa de campo do médico, com mais essa na ficha, doutor Marcos passaria um longo tempo na prisão e era exatamente o que ele queria. Tempo o suficiente para Augusto esquecer que tinha um pai... e teria conseguido se não fosse por mim.
—Você atirou em Ricardo?
—Eu precisei fazer...
—Seu psicopata, você teria matado todos nós.
—Digamos que vocês tiveram sorte...
—Você fez aquilo com Julia? Você estuprou ela e depois a matou?
—Ela era bem gostosinha, cara de boa moça e cabeça de puta. —Pensei em avançar e dar-lhe um soco na cara, mas não podia. —E sabe o que é mais triste, que já estou com todas minhas malas prontas. Vou de carro até Brasília, de lá pego um vôo para São Paulo e ainda hoje estarei em Buenos Aires. E ai, meu querido, já era... Acabei com aquele advogado desgraçado, deixo Doutor Marcos preso, e a vida dos dois filhinhos destruída. 
—Então você matou o pai do Vinicius?
—Claro que não... Na verdade o idiota fez exatamente o que eu queria. Quando percebeu que havia perdido o controle e que mais cedo ou mais tarde algo de muito ruim aconteceria com ele, o vagabundo preferiu se antecipar e atirou na própria cabeça. —Depois de contar-me tudo, colocou um sorriso no rosto como se tivesse feito um bom trabalho. Estava bem vestido, elegante, diplomático e acima de suspeitas. —Gostaria de me ajudar a descer com as malas?
—Você não vai a lugar nenhum, meu brother. —Abri a porta e lhe mostrei o aparelho de escuta que carregava comigo. Policiais entraram, renderam-lhe, um deles me agradeceu e César sentiu-se traído, amargurado, escondeu o rosto quando as câmeras o filmaram, se protegeu da multidão ensandecida na porta do edifício. Horas mais tarde encontraram o corpo da proprietária do imóvel onde ocupava esquartejado, membros ensacados e empilhados dentro de um freezer vertical na cozinha do apartamento.
—Mais um suspense que chega ao fim... —Dizia Juliana Texeira. —Doutor Marcos Bueno de Almeida, que estava preso injustamente, ganha liberdade essa tarde. Alguns detalhes de tudo que aconteceu, assim como o carro usado pelo assassino em suas perseguições ainda estão sendo investigados. A policia conta com a colaboração de Pedro César das Neves, que acaba ter confessado os seguintes crimes: O assassinato dos estudantes Julia Mesquita, Ricardo Bensimon Feitosa, Sarah Martins e também de uma senhora de sessenta anos, Edna de Campos. —Interrompera as informações para dialogar com o âncora do telejornal.
—Caso de difícil resolução, não Juliana?
—Muito, Fábio. E o céu está armado, já estamos prevendo uma possível tempestade aqui na cidade, e vem num bom momento, não? Lavar as marcas que estes acontecimentos apavorantes deixaram na população. Eu volto a qualquer momento com mais noticias. 

*

     Com a volta do doutor Marcos para casa, Augusto teve o amparo profissional do pai que o ajudou a ficar longe de tudo, inclusive do álcool. Eu estava presente durante todos aqueles dias, que digo a você, não foram fáceis. Quando seu pai contatou um colega especialista, decidiram deixá-lo em uma clinica por dez dias, e durante aquele tempo eu fiquei ali sozinho. O curto tempo me fizeram ver que Marcos agora era um destroço, a traição da mulher exposta publicamente, seguida de sua trágica morte, os meses na prisão, a carreira destruída, o filho viciado em drogas.
     Quando Augusto voltou para casa estávamos há dois dias do Natal e pretendíamos passá-lo na casa de Carol. Dona Lena ligou e fez o convite. Essa noite seria a última juntos, no dia seguinte eu embarcaria para aquela aventura de atravessar o México, de encontrar meu irmão em Denver. Eu estava com medo, totalmente inseguro, mas ansiava vê-lo e abraçá-lo. Era fim de tarde, dia vinte e quatro, dividíamos o espaço da sacada, debruçados sobre o parapeito de olho em tudo que aquela cidade tinha para oferecer. De nós três, Carol, Augusto e eu, ele era o único que ainda permaneceria ali, andando naquelas avenidas para se encontrar com outras pessoas, refazendo o ano perdido em busca de finalizar o segundo grau, de pegar caminhos diferentes para outros lugares conhecer, lugares mais seguros onde aquele que passamos todo o último ano.
—Falou com o Vinicius? —Perguntou Carol.
—Falei com ele essa manhã... Vai fazer faculdade aqui mesmo. —Augusto estava bem diferente, sem expressões. —Agora está no interior com a mãe, na casa de parentes... Disse que não seria uma boa ficar ligando para ele enquanto estivesse lá. Disse que seria melhor eu esperar... Na verdade nem sei se ele quer falar comigo...
—Ontem falei com Fernanda.. Disse que vai para Porto Alegre no inicio do mês. —Os ruídos de todos os cantos da cidade foram ouvidos por dois minutos. Uma orquestra.
—Acha que um dia vamos estar juntos outra vez? Nós três? —Os planos de Carol haviam se concretizado. Estava matriculada na Universidade Federal do Estado do Paraná.
     Aquela pergunta deixou um silêncio no ar, um vazio que aperta o estômago e traz a incômoda sensação de que na vida nada é certo... Não existem regras, nem leis universais, e essa sensação de incerteza contínua e latejante prossegue, como um lembrete que avisa: O que há de bom ao longo da estrada sempre se dissipa inelutavelmente, e deixa dentro de cada um de nós todas as lembranças boas de quando, um dia, apesar de todos atropelos, fomos felizes. 


FIM

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(A cidade)

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