sábado, 28 de junho de 2014

30 - TALVEZ SEJA SÓ O FIM DO MUNDO

Trilha: Toad the Wet Sprocket - blood pressurize  







                                                               Assim que acordei, ressaqueado da noite anterior, percebi de imediato a atmosfera cerne do meu quarto. O confortável edredom belga que mamãe trouxera das férias, o cheiro das coisas que me pertencem e o admirável efeito borboleta. A passagem para a sacada estava logo ali ao lado, assim como agora… levantei-me e estava fora em questão de segundos. A funesta manhã, em torno de seus vinte graus, avançava delongadamente.
     Numa Segunda, às sete da manhã já era possível ver o que se transformaria num verdadeiro inferno em algumas horas, em um incoercível picadeiro. Se iniciava com alguns poucos carros que deslizavam livremente, pessoas que andavam apressadas, mas mantendo certa resistência ao rapto ritmo urbano; quase nenhuma fumaça, momentaneamente, nenhum barulho. Ao meio dia aquilo estaria borbulhando, os carros estariam enfileirados por todos os cantos, aqui de cima, veria as pessoas se organizando, correndo freneticamente, como formigas. A fumaça tomando conta, se transformando em ar, perfume, em vida. E o barulho de tudo isso junto se transformaria em trilha sonora, a trilha frenética que te conduz, que movimenta, mas que ao mesmo tempo mata todos que fazem parte desse ciclo contagioso das grandes cidades. Mas eram troços assim que eu estimava, a poluição, os policiais, assaltos, mendigos nos sinais, famílias desestruturadas, narcotráfico, atentado ao pudor, clubes subterrâneos, violência doméstica, prostitutas, travestis, sem-tetos, engarrafamento no trânsito, pichações no centro decadente da cidade, seqüestros, grandes espetáculos, punks, gangues e enchentes que destroem casas e deixam dezenas de pessoas desabrigadas em dias de chuva e desespero. Um dia me mudo para São Paulo, só para desfrutar de tudo isso como todo mundo merece. Por aqui, nunca temos o bastante.
    O banho fora rápido e sofrível, sair do vapor para se deparar com o ar gélido das ruas é sempre algo cortante e desagradável. Enfiei-me no uniforme, mochila, óculos escuros, chaves do carro, carteira e celular, os cabelos ainda estavam despenteados, não precisava mais me preocupar. Descendo, percebi que o doutor estava na mesa da sala, tomando o café enquanto acompanhava o jornal impresso.
—Bom Dia!
—Bom Dia! —Disse retribuindo a gentileza. Peguei uma maçã. —Eu já vou descendo… Eu não posso me atrasar. —Antes de sair, avancei novamente sobre as frutas e peguei outra maçã. —Duas são melhores que uma só…

*
    
—O Vinícius não me engana, está na cara que ele gosta de você. Ele me ameaçou uma vez e agora quer nos assustar. Meu Deus! Não se pode confiar em mais ninguém hoje em dia!—Exclamou Carol enquanto retocava o batom, enquanto olhava pelo espelho retrovisor e piscava para Renato. 
—Não é o Vinicius, isso que você diz não faz nenhum sentido, Carol.
—E se for o Caio? Não está desaparecido?
—Está enganado. Mesmo que o Caio estivesse vivo ele não teria coragem para tanto, e estaria fazendo isso de onde? Eu tenho um suspeito mais forte que qualquer outro. —Disse Renato do banco traseiro, mas era como se sussurrasse ao meu ouvido, ele jogava o corpo para frente e ficava com o rosto ali, entre Carol e eu. Para ouvir direito, não deixar nada passar.
—Quem?
—Se você acha mesmo que o cara que ligou para Carol no Sábado é o mesmo que ligava para o seu pai, só pode ser alguém ligado à ele, alguém que saiba coisas que um de nós não saberia.  
    Aquele colóquio sobre quem estaria telefonando para algumas pessoas e definitivamente teria visto tudo o que ocorrera no rio aquela tarde era interminável, e evidentemente necessária. Pois de algo tínhamos certeza, eram atos da mesma pessoa, possivelmente um homem com qualquer tipo de conhecimento sobre a minha família. Independente do grau de aproximação que mantivesse. Discutíamos, pensávamos… nossos cérebros estavam impregnados e a concentração se extinguira totalmente. Eram quase oito e de dentro do conversível já sentíamos o sol ardendo a pele.
—O que vamos fazer essa tarde? —Indagou Carol. —E amanhã e nos próximos trinta anos?
—Não seja mórbida, Carol. O que poderia nos acontecer nos próximos trinta anos?
—O mundo está vivenciando seus últimos dias, Misto-quente, ninguém pode negar que em vinte anos o sol já terá matado metade de nós.
—Oh Meu Deus! —Dramatizou Renato. — O planalto central brasileiro será destruído essa noite por alienígenas do planeta Gfeny, e são seres extremamente malvados e destruidores.
—Alienígenas? Não seria terroristas? Homens bombas disfarçados de pastores da igreja universal, ou seguranças do show da Madonna em uma de suas turnês?
—Não, Augusto, eu acho que a Carol estava se referindo aos tornados, os grandes tornados… um F5, com ventos de quatrocentos quilômetros por hora… meu amigo, se um desses passasse pelo menos próximo daqui, essa cidade só estaria no mapa.
—Imagina o que um desses não faria em São Paulo? —Soltei. — milhares de cacos de vidros voando a quatrocentos quilômetros por hora, dilacerando tudo e qualquer um que encontrasse pela frente.
—Seriamos noticias no The New York Times.
—CNN.
—BBC International.
—Seus idiotas. —Irritou-se. —Eu sou a única mulher entre vocês, e vou pedir com delicadeza que parem imediatamente com isso.

*
  
    Na sala, a pequena mulher falando please em espaços cada vez menores era reflexivamente irritante, as aulas de inglês estavam se tornando algo fastidioso.
—Join us! —Sorriu ao mesmo tempo em que recolocava os óculos. Tenho certeza que Carol expressou cansaço em sua fisionomia. Ainda dentro dos primeiros trinta minutos, o diretor entrara acompanhado por um rapaz. —Não era segredo para ninguém ali que mais cedo ou mais tarde, caso Caio não aparecesse, sua vaga seria preenchida. Só não sabíamos que seria de forma tão rápida. Tudo isso levantou em nós suspeitas de que algo sobre Caio estivesse vindo a tona. Talvez tivessem encontrado seu corpo boiando nos rios de uma cidade próxima… mas o fato é que soubemos posteriormente que nada fora descoberto, era apenas a luxuria e eficiência do Campus PH, adiantando o próximo da fila. — O cara devia ter seus dezoito anos, aparentava ser ligeiramente mais velho que eu; pele branca e corada, olhos claros, tão sedutores como os de gatos; cabelo escuro, uma longa franja desfiada na frente, óculos de aros metálicos bem finos, quase transparentes , usados apenas durante as aulas. Alto, forte, rosto dócil, instinto rebelde. Todos nos levantamos.
—Obrigado, bom dia a todos vocês. —Coçou o nariz, e Vinicius inevitavelmente se virou para trás. — podem se sentar… —Sentamos todos. —Quero apresentar-lhes um novo colega. Como vocês mesmo sabem, estamos a espera de respostas sobre o que pode ter acontecido com um aluno muito querido desse instituto. —Querido uma ova, seu filho da puta! — Caio Amaral saiu no dia dezesseis dessa instituição com a incrível vontade de chegar em casa e nunca mais foi visto. Rezamos para que Deus o acompanhe em sua jornada, e se ainda for possível, que lhe proteja do pior. —Ouve um minuto de silêncio onde eu quis xingá-lo. —Este é o senhor Beaumont, Sander Beaumont. Estará ocupando a carteira de Caio, de agora em diante… —Fez outra pausa, como se sentisse muito por não ter a questão de Caio totalmente resolvida, enquanto, na verdade não era preciso sentir falta nem mesmo da mensalidade que ele pagava pontualmente. —Tenha um ótimo dia de aula, Sr. Beaumont! —Cumprimentou-o. —E para vocês também. Sente-se por favor. —Indicou-lhe a carteira logo atrás de Carol.
—How are you, Sander? —Interrogou a professora.
—Very good, teacher... thanks for asking.
—Not at all. So, please, sit down, smile and join us, ok?
    Tenho hábitos estranhos, como o de ficar idealizando as coisas, quando marco um passeio com alguém, por exemplo, antes mesmo do encontro é como se eu vivesse mentalmente toda a situação. Isso frustra bastante, qualquer pessoa sabe que um pensamento não corresponde a realidade, se fosse assim ainda poderíamos salvar o mundo. Chego à conclusão que se ter as coisas realizadas da forma como você quer, for a medida para uma vida de sucesso, então alguns diriam que eu sou um fracasso. A coisa mais importante é não se amargar pelas decepções da vida. Aprender a deixar o passado para trás, e reconhecer que nem todo dia será ensolarado, e quando você se encontrar perdido na escuridão e no desespero, lembre-se, é somente na escuridão da noite que podemos ver as estrelas, e essas estrelas o guiarão de volta para casa. Erros sempre existirão e sempre os cometeremos, se é assim, por que deixar o medo nos imobilizar? Sempre estaremos escorregando em algum lugar, ou tropeçando. Ou caindo. Na maioria das vezes os melhores prêmios vêm quando se faz àquilo que você mais teme. Talvez você consiga tudo o que deseja. Talvez você consiga mais do que jamais tenha imaginado. Quem sabe onde a vida te levará? A estrada é longa. E no fim a jornada é o destino.



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(A classe recebe um novo aluno, Sander)


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