sábado, 27 de dezembro de 2014

37 - METAL CONTRA AS NUVENS

Trilha: Drowning Pool - paralysed








                                                                      Houve um noite naquela semana seguinte, em que acordei após um sonho e levantei-me determinado a alcançar minha caixa de cartas, guardada sempre na ultima gaveta do armário, juntamente com livros de infância, cd’s que eu não queria mais e vídeos caseiros em VHS, Basf, T-120, high quality, com seis horas de gravação. Voltando a cama, abrindo a caixa, lá estava ele, o envelope recebido de Augusto no dia anterior. Estava intacto, a minha espera como uma cápsula de material radioativo, de um brilho e encantamento desigual, porém, mortífero. Tirei o envelope azul da caixa e rasguei sua lateral, só agora havia decidido entrar em contato com o que quer que fosse que estivesse ali dentro. Era um pequeno papel, não era uma carta como todas as outras, parecia-se mais com algum tipo de notificação. Li, gostei.

                   “Você me faz acreditar que descobri um novo continente, você se insinua e desperta toda minha curiosidade, você me instiga, me faz acordar com a boca seca e por todo o dia penso em tê-lo ao meu lado, para explorar tudo que é seu, de forma que jamais esqueceria. Penso muito em você.”
Seu amigo, Augusto.

     Reli o trecho acima algumas vezes seguidas, de modo que as palavras grudaram permitindo releituras imaginárias durante as horas seguintes. Guardei o papel dentro do envelope, um cheiro de Augusto transitava pelo quarto. Novamente fechei a caixa e recoloquei-a dentro da gaveta do armário. O fato é que todas aquelas cartas não me diziam nada, eu não as compreendia muito bem, naquela idade eu sabia muito mais sobre doenças sexualmente transmissíveis, mesmo nunca tendo sido contaminado, do que sobre o amor.
     Bem, só esclarecendo algumas coisas, devo dizer que, para mim, o homossexualismo é uma idéia interessante, já que entendo os homens muito mais do que as mulheres, mas seria uma responsabilidade pesada demais. Eu já tenho muitas identidades às quais responder. Ser gay seria uma restrição demasiada, mais uma coisa para ser, para explicar nas festas. Que bem que entre os alunos do PH, não havia tanta diferença entre esses dois distintos e seletos grupos sexuais. Os heterossexuais eram tão afetados como as bixas e os possíveis gays tão afortunados e inteligentes quanto os falsos machistas. Lá não era possível olhar as pessoas com tanta clareza como nos mostram a teledramaturgia e os espaços periféricos reservados a estereótipos de baixa renda. Poderia dizer que talvez, esse fator, me deixasse levemente mais a vontade. Mas nem por isso, me convencia de que tudo era igual, porque simplesmente não poderia ser. Não poderia mesmo. Prometi a mim mesmo que nunca mais deixaria Augusto tocar em mim, e que em hipótese alguma, mesmo que eu esteja bêbado ou inconsciente, ele voltaria a me beijar outra vez.
    Eu não sei se já aconteceu com você, mas comigo aconteceu uma única vez. Quando aquele dia de sexta chegou, com aquele vento frio passando pela janela aberta, cidade úmida, os pássaros cantavam e não havia sol àquela manhã, meu quarto totalmente enegrecido, a única pista de que o dia amanhecera, além dos pássaros, era a luz opaca e branda do lado externo. Eu sabia que não estava bem, normalmente sabemos quando há algo de errado com nós mesmos, às vezes não sabemos explicar o que é, ás vezes simplesmente perdemos a vontade. A pior sensação que já experimentei nesse mundo é a de se tornar seu próprio inimigo, é a de se odiar como se odeia um inimigo, a de se envergonhar de si próprio com ar pejorativo e desdenhoso, a de querer não pensar em você, a de querer ser uma outra pessoa que você nunca foi... Sentindo tudo isso a última coisa que queria era levantar-me e me encarar. Sexta-feira, entrega da minha primeira matéria, que julgava estar um lixo, avaliação de Anne Frank, um dos melhores livros que já li. Definitivamente não poderia deixar de ir ao Campus, e logo minha mãe estaria me enchendo, com aquela história diária de que sempre estou atrasado, quando nunca estou.
    O corpo estava tão pesado, a cabeça cansada de pensar e os sonhos, durante aquela noite, fugiram-me todos, com exceção daquele em que viajava em um balão com um palhaço todo sujo de sangue, coisa macabra. Arrastei-me até o banheiro e mais lento que o normal lavei o rosto, escovei meus dentes e voltei ao quarto. Sentia vontade de deitar-me na cama e passar todo o final de semana ali, sem contato algum com quem quer que fosse. Fiquei pensando se não estaria doente, mas não havia dor alguma, não precisava de remédios, precisava era dormir um pouco mais. Já de uniforme, desci, mas não quis comer.
—Não vai comer? —Minha mãe acordara radiante, passaria o fim de semana com meu pai na cidade das águas quentes. Eu não poderia acompanhá-los, muitos trabalhos para entregar.
—Não estou com fome...
—Você está bem? —Olhou-me procurando uma evidência. —Porque se não estiver, seu pai e eu podemos deixar nossa viagem para o próximo fim de semana.
—Não... está tudo bem... acho que é o tempo... sabe como fico enjoado em dias de chuva, fico preguiçoso, só queria voltar a dormir.
—Mas acho melhor se apressar, antes que se atrase, seu ônibus está passando. —Fiz menção de me retirar. —Quando chegar já não estaremos aqui, vou deixar seu almoço no freezer, esquente  no microondas. E não se esqueça de ir para casa do seu tio mais tarde, não quero que passe a noite sozinho.
—Eu vou. —Logo ela se aproximou, deu-me um abraço e um beijo no rosto.
    As três primeiras aulas passaram sem que eu anotasse sequer uma frase completa, estava disperso, estava sem querer estar. Foram três horas em que fiquei pensando como lidar com o problema, talvez fosse melhor sair daquele colégio e voltar para a cidade onde nasci... ou talvez só sair do colégio e nunca mais conversar com ele, não só ele, mas com qualquer aluno do Campus, incluindo Júlia. Se eu me entregasse estaria condenado, condenado a nunca ser perdoado por aqueles que gostam de mim de verdade, meus pais. E para que me entregar tanto se sabemos que relacionamentos são passageiros e amor é um sentimento raro, tão raro, que mesmo amando de verdade você se questiona se esse amor é verdadeiro. Fiquei pensando no que Augusto disse uma vez, que no primeiro dia que beijamos, não foi só ele quem beijou, eu também beijei, e agora me sentia culpado, não por ter beijado a boca de um amigo, de um homem, mas por ter gostado, por ter beijado outra vez, por estar me odiando, por estar querendo correr, fugir sem olhar para trás. O sinal do intervalo me acordara, sabia que precisava encontrar Daniel, por mim ficava ali mesmo, na sala de aula, onde ninguém me incomodaria.
—Vamos lanchar? —Convidou Júlia com seu sorriso meigo.
—Não... Eu preciso encontrar o Daniel no departamento. —Fernanda e Felipe se aproximaram.
—Vamos? Não quero pegar o que sobrou. —Tenho certeza que parecia cansado.
—Podem ir vocês... —Então peguei o envelope amarelo com a matéria. O texto tinha o titulo de “Seqüestro misterioso.”
—Vamos pegar uma mesa para nós quatro. —Finalizou Júlia, e então saíram deixando-me abandonado na sala de aula vazia.
    Quando entrei Daniel estava ao telefone, fez uma pausa para me receber.
—A matéria está pronta, é sobre o desaparecimento de Caio, segui uma linha policial.
—Excelente Vinicius, pouca gente tem cacife para fazer isso por aqui. É preciso deixar o texto com o professor Andrade, pode fazer isso por mim?
—Claro.
—Ele deve estar na sala dele, depois nos falamos, estou meio ocupado agora... Pega uma mesa para gente no refeitório, nos encontramos lá.
    Bati algumas vezes na porta do professor Andrade, como ninguém respondeu decidi abrir e dar uma olhada, ele não estava, notei outros envelopes sobre sua mesa e pensei em deixar o meu por ali. Entrei, peguei os outros envelopes para conferir se realmente era o que estava pensando, nas etiquetas que os nomeavam estava escrito “Avaliação” seguido da turma correspondente. Senti um frio na barriga, olhei para o corredor, tudo quieto, passei um por um até encontrar o “avaliação 3º.ano”, era a prova trimestral de gramática, eu precisava de oito pontos nesta disciplina. Deixei tudo sobre a mesa, fui até a porta para realmente estar certo de que estava só, nenhum movimento, voltei, abri o envelope e ali estava, vinte questões e gabarito. Agindo pelo instinto criminoso que os oportunistas possuem peguei aquelas duas folhas e fotocopiei ali mesmo, em uma multifuncional instalada em um canto da sala, levou menos de um minuto. Guardei os originais e deixei-os sobre a mesa na mesma posição que havia os encontrado. Não poderia deixar minha matéria ali, confirmaria a possível hipótese de minha presença, retornei a sala de Daniel, ele já havia descido, coloquei minha matéria sobre sua mesa, dobrei a cópia da prova e escondi dentro do paletó. Depois fui até a piscina coberta, sabia que durante o intervalo não haveria ninguém por lá, e era o que queria, não queria encontrar os outros no refeitório, eu queria sossego, e um lugar tranqüilo para ler o que estava em minhas mãos.

*

     Era tarde de sexta-feira, o asfalto permanecera molhado durante todo o dia, Sarah que sempre fora apaixonada por cinema, estava agora conhecendo a filmografia de um diretor chamado por ela de “Voz da adolescência conturbada” Larry Clark. Eu não queria ver filmes, só pensava em ficar vagando por aquela casa sem nada fazer e nada falar, mas Sarah me convenceu de que seria uma boa assistir “Kids”, o primeiro longa de Clark. Por não querer ser grosseiro ou chamar sua atenção para meu estado de espírito acabei aceitando.
—Assim que a chuva afinar um pouco eu corro até aí. —Então desligou.
     Era uma história legal, enredo interessante e apesar de falar sobre o nada, pois o filme é sobre um monte de adolescente que não faz absolutamente nada da vida, o diretor consegue prender sua atenção, por um momento até esqueci dos meus problemas, até que sem esperarmos chegou uma cena em que duas garotas se beijam na boca dentro de uma piscina. Nesse momento voltei a me preocupar e Sarah nem disfarçou o nojo que sentia.
—Passa isso para frente. Que nojo! —Apenas encarei-a, não sabia que era tão preconceituosa. —Vamos! Passa para frente.
—Não vou passar... —E escondi o controle sob meu braço. —Acha nojento?
—Claro que sim! Você não acha? Duas mulheres beijando... —Apertei pause e sai rumo a cozinha, abri a geladeira para pegar um refrigerante.
—Não acha nojento?
—O quê? Duas mulheres beijando? Não. —Respondi.
—Tenho certeza que se visse dois homens beijando iria achar nojento.
—Você acha? —Retornei a pergunta.
—Eu acho... é horrível.
—Então eu deveria achar duas mulheres nojento também.
—Não estou entendendo o que você quer dizer...
—Acho que isso é uma escolha pessoal de cada um, muitos fazem essas coisas só por curtição.
—O homem foi feito para mulher, Vinicius, homossexualismo é condenado por Deus... Não é por nada que essas bixas estão todas com AIDS. —Que droga, só faltava mais essa... Será que o Augusto tinha AIDS? Claro que não, Augusto nem era bixa, eu devia estar ficando paranóico.
—Podemos terminar de ver o filme mais tarde na sua casa. —Eu disse sem paciência.
—Pode ser. Está pensando em fazer o quê?
—Estou pensando em dormir. Depois tomo um banho e desço para lá.
—Acho que vou aproveitar que não está chovendo agora e vou para casa... A gente se vê mais tarde.
    Assim que minha prima saiu, voltei à cozinha e na caixa de remédios peguei um vidro de comprimidos, eram calmantes, soníferos, sei lá o quê. Alguma coisa receitada por um psiquiatra à minha mãe para ajudá-la a dormir quando estava sofrendo com a síndrome de pânico. Sabendo da eficácia da droga arrisquei tomar apenas um comprimido e engoli com a ajuda de um pouco de Coca.
    Quando acordei assustei-me com o horário, passara as últimas seis horas apagado, estava tudo escuro, as únicas luzes eram as dos relógios digitais. Trovejava forte, estrondos de uma luz branca que rasgava o céu. Era uma tempestade, que por meu descuido, de não fechar as janelas, invadia a casa e molhava todo o piso da sala, acendi algumas luzes e percorri a casa trancando tudo. No celular incontáveis ligações da casa de meu tio. Retornei. Ainda sentia-me cansado.
—Onde você se meteu?
—Acho que acabei dormindo mais do que devia. —Estava no andar de cima, segui até o final do corredor e liguei as luzes da varanda.
—Posso falar com meu pai, vamos até aí para te pegar. —Abri a porta de vidro e sai, o barulho da água se chocando contra os telhados e o concreto era um chiado forte e inalterável, quase como uma tevê fora do ar. —Acho que essa chuva não passa hoje.
—Na verdade acabei de acordar. —De onde estava tinha uma vista elevada dos portões e da calçada de casa. Estranhei a presença de um carro parado ali na entrada, estacionado na minha calçada de frente para mim.
—Vinícius... está me ouvindo?
—Sim Sarah, estou achando estranho um carro parado aqui de frente ao portão.
—Um carro? —Pelo tom de voz também deve ter achado estranho, um carro que nunca vira antes, às onze da noite sob uma chuva torrencial, estacionado de frente a minha porta. —Que carro é?
—Não sei... Um carro preto. Um Corsa Sedã preto.
—Estranho... Está aí faz horas?
—Não sei, acabei de ver. —Achei melhor finalizar a ligação. —Não deve ser nada, só pode ser alguém visitando um dos vizinhos. Faz o seguinte, vou tomar um banho e te ligo.
—Vê se não demora. —Desliguei. Estava na varanda observando o carro, o celular vibrou em minha mão. No visor aparecia o nome de Augusto, eu não tinha nada para falar com ele, deixei tocar até que fosse atendido pela caixa postal. Ainda parado ali, com os olhos no carro, tive um mau pressentimento quando julguei ter visto a luz de um isqueiro brilhar de dentro do automóvel.




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 (Um Sedã preto ronda a casa de Vinícius)
   

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