Estávamos todos em minha barraca, Carol e Sander reclamavam que o leilão de Ricardo roubara o público da apresentação que fizeram, e também ficamos sabendo por Daniel e Sarah que o mesmo fora leiloado por dois mil e setecentos reais e entregue ao seu comprador, um homem de quase cinqüenta anos. Iriam curtir para sempre com a cara do otário, e bem que merecia. Augusto e Renato estavam distantes, pouco disseram e muito fumavam, como era festa, a regra de proibido fumar não se aplicava. Eu estava muito ocupado recebendo fichas e entregando bolinhas, não dava para conversar direito com ninguém, Júlia desaparecera com Fernanda e já fazia um tempo... Carol, Sander e Renato logo saíram, dando espaço para que minha prima se aproximasse de Augusto. Comigo estavam Felipe, alvo certeiro e Holando, que possuía uma imagem tão forte de nerd que chegava a parecer um portador de uma daquelas síndromes estranhas e raras. Jonathan apareceria por ali a qualquer momento, e para minha sorte descubro que o tal de Holando é fiscal. Naquela noite, nós estudantes, usávamos crachás de identificação, enquanto o nosso era de cor azul, os fiscais desfilavam com crachás vermelhos.
Lembro de que em algum momento precisei muito ir ao banheiro, em festas as pessoas sempre bebem líquidos demais e depois se acumulam de frente as portas em grandes filas. Descia apressado, cortando caminho por entre a multidão, às vezes acho que existe tanta gente no mundo, fico pensando na quantidade de alimento que é preciso produzir e colher para sustentar esse enorme número de pessoas. Hoje posso dizer que te certa forma me sinto culpado por coisas terríveis que vieram acontecer com o cara que naquele momento chamava de melhor amigo, foi chegando próximo ao pavilhão oeste que pude ver Sander e Carol ao lado de uma árvore, conversavam com outros três estudantes cujo os nomes não sei, pois não eram de minha turma, um deles tenho certeza de que fazia o oitavo ano. Pude ver nitidamente quando um deles entregou à Sander notas de real e pegou algo qualquer embrulhado em plástico branco, depois de meteram o negocio no bolso saíram sorridentes. Dei um jeito de sair dali antes que me vissem e entrei no banheiro. Foi naquela noite, antes mesmo de qualquer coisa, que percebi como Sander ganhava a vida e o excesso de coisas que possuía, vendendo drogas.
Sempre carreguei comigo a sensação de culpa, o peso que é se sentir culpado. Eu me culpava por não ter um irmão, me culpava por ter decidido entrar no Campus e conseqüentemente perdido meus amigos, obrigado minha mãe viver em uma cidade que não gostava, culpado por ter aproximado Augusto de Sander, culpado por roubar o gabarito da prova de gramática, culpado por falar mais do que deveria na matéria do jornal, e culpado por levar minha prima àquela festa, e culpado por várias outras coisas que ainda não mencionei. Toda aquela história de destino, e de que tudo está traçado, de por acaso, não existe para os que se sentem culpados. Os culpados acreditam que poderia ter feito tudo diferente, mas que sempre optaram nas ações e decisões erradas.
Estranho, já estava virando rotina os encontros com Renato nas portas dos banheiros, aconteceu dessa vez, cruzamos na porta.
—E aí? —Era o que sempre perguntava.
—Vi o Sander passando alguma coisa para um badeco de uns quinze anos bem aqui na frente. O quê era aquilo?
—Sei lá, meu. —Tentou escapar.
—Ei! —Ele se virou. —Não deveria estar encobrindo o cara, se ele é mesmo o que estou pensando.
—Eu não tenho nada a ver com a vida dele, tá ligado? Eu nem sei do que você está falando. —E saiu, mas sabia sim, a cara de todos eles não só diziam que sabiam como também mostravam o crime estampado sem vergonha.
Cinco minutos depois haviam desaparecido, estava no pátio central, voltando em direção às barracas, o movimento ali era lento, senti passos atrás dos meus, meu nome:
—Vinicius. —Disse Andrade, meu professor de gramática. Olhei-o assustado.—Desculpa, não quis te assustar.
—Professor...
—Eu gostaria de lhe pedir desculpas pela decisão do diretor.
—Na verdade eu é quem lhe devo desculpas... Eu tirei uma cópia do gabarito de sua prova, sem saber que todo mundo teria acesso...
—Eu já sabia, mas não estou aqui para falar sobre isso, fique tranqüilo. Acredito que a atitude do diretor fere qualquer democracia... Você não pode perder seu cargo, que você lutou para conseguir, porque simplesmente falou coisas que os mais poderosos não gostaram.
—Eu sei disso, mas infelizmente nós moramos no Brasil.
—Andei pensando e existem três saídas. Na primeira você continua no jornal fazendo uso de um pseudônimo e atento para driblar o leão; na segunda você entra com um recurso contra a decisão do diretor e tenta legalmente lutar pelo que te pertençe; e na terceira opção e mais triste você desiste de tudo e aceita o que é imposto. No que você acredita? —Juro que naquele período eu não acreditava em nada.
—…hum…Eu não sei… não sei se quero continuar escrevendo tendo que tomar cuidado com o que vou dizer e também não sei se quero entrar numa briga com o diretor.
—Gostaria que me procurasse caso mude de idéia.
—Eu vou ver. —Nos olhamos por mais algum tempo, talvez para termos certeza de que o assunto estava encerrado. Então, sem mais palavras saímos cada um em sua direção.
Eu não pedi para estar fora, mas a decisão do diretor caiu bem, não poderia continuar escrevendo, procurando problemas com as próprias mãos.
Augusto ainda conversava com Sarah e Daniel quando voltei.
—Que demora para ir ao banheiro, Vinicius, a coisa aqui está feia. —Reclamou Felipe.
—Foi só dessa vez. —A barraca estava cheia e a brincadeira consiste em derrubar latas que estão postas a cinco metros do candidato, estas latas estão em uma esteira e se movimentam o tempo todo, cada lata dá direito ao participante de receber um prêmio surpresa. Na maioria dos casos ursos de pelúcia.
Augusto se levantou e chegou mais próximo do balcão.
—Viu o Renato ou Carol por aí? —Parecia cansado.
—Estavam pros lados do piso oeste, mas isso já tem um tempo.
—Primo, quero dar mais uma volta naquela roda quando terminar seu turno.
—Vão vocês dois.
—Não... —Falou dengosa.—Dessa vez quero ir com você.
E foi então que chegou o momento que eu tanto esperava, Jonathan e uma enchente de gente da mesma laia se aproximaram do balcão já tirando onda.
—Olha só! —Disse. —A barraca dos idiotas perdedores. —Deu para ver que Felipe tremia. —Vamos jogar aqui, pessoal! Mostrar para esses palermas quem é vencedor.
—Quem é esse cara idiota? —Questionou Sarah. E foi ouvida.
—Quem sou eu? E quem é você lourinha? —Jonathan era realmente asqueroso.
—Deixa ela em paz, Jonathan.
—Namoradinha, Daniel? —mandou um beijo em seguida. —Então, qual dos três vai me passar a arma? Estou esperando. —Holando lhe entregou uma arma de chumbinho. Era incrível como tinha boa pontaria, a cada tiro um novo prêmio e o pessoal em volta vibrava com a energia emanada da vitória. Vitória essa que chegava ao fim. Decidi que poderia até ser suspenso, mas não seria expulso como Jonathan Marques. Eu estava na tarefa de receber as fichas do jogador, cada ficha dava-lhe direito a três tiros.
Pensei numa forma de provocá-lo, ali estava perfeito, testemunhas, fiscal, eu prestando meu trabalho voluntário (vítima), resolvi que após o terceiro tiro, quando voltasse a receber mais uma ficha de suas mãos, diria qualquer coisa que o irritasse. Nesta quarta e última rodada, o cara errou o primeiro tiro, acertou o segundo e novamente errou o terceiro. A lata derrubada trazia um par de patins ao ganhador, que foi entregue por Felipe ao participante.
—Mas que porra eu vou fazer com um patins?
—E aí, saradão? Vai jogar mais uma vez? —Ironizou Sarah. Um grupo de pessoas acompanhavam, torciam pelo cara.
—Eu vou dar esses patins à você. —Não sabia se ele estava cantando minha prima ou sendo sarcástico com ela. —Tenho certeza que ficará ótima neles.
—Obrigada!
—Eu vou jogar mais uma vez! —A galera aplaudiu. Aproximei-me para pegar outra ficha. Cheguei bem perto para o que fosse dito não escapasse de seus ouvidos. Ele colocou a ficha em minhas mãos enquanto eu lhe dizia:
—Seu lambe cú! —E me afastei.
Mudou de fisionomia de repente, perguntou em voz alta o que é que eu havia lhe dito, logicamente me defendi em voz alta dizendo que eu não havia lhe dito nada, ele pareceu ainda mais nervoso e insistiu.
—Você está curtindo com a minha cara, seu filho-da-puta? Já não aprendeu com a lição que te dei? —Alguns tentaram acamá-lo sem sucesso, o que nos separava era o balcão, Felipe estava até branco, suava frio.
—Vinicius esse cara é meio louco. —Ouvi Sara comentar.
—Velho, manera! —dizia Takano ao amigo. —Tu tá noiado.
—Sai fora Takano, me deixa, brother! —Quando parecia que tudo se abrandava, que tudo ficaria bem, eu olhei bem na cara do desgraçado e soletrei sem som o que havia dito antes; “seu-lam-be-Cú!”. O cara era bom em leitura labial e não se conteve, pulou o balcão e atacou se jogando contra mim, cai com as costas no chão, um soco no rosto deixou meus movimentos momentaneamente lentos. Pedaços de uma garrafa que se quebrara cortaram meu braço, o cotovelo sangrava, mais um soco e eu nada fiz. O tumulto se formou trazendo até nós, em poucos instantes, seguranças contratados pela coordenação. Nossos nomes foram anotados e Augusto assustado se ofereceu para me levar de volta para casa. As pessoas estavam assustadas, fomos encaminhados a enfermaria.
—Aquele cara é maluco! —Enquanto a enfermeira fazia um curativo em meu braço, minha prima fazia-me companhia. Augusto, Daniel e Felipe aguardavam do lado de fora.
—Você viu? É isso que a gente tem que enfrentar aqui todos os dias... esses imbecis!
—Prontinho! —Disse a enfermeira de cabelos tingidos, porém com raízes longas e escuras. —Passe aqui na segunda para eu dar uma olhadinha. E em caso de dor, tome um analgésico.
—Ok. Muito obrigado! —Fomos saindo por um corredor que daria na sala de espera.
—Corre o risco de ser suspenso?
—Não sei. Talvez. —Os três se levantaram quando chegamos.
—Como está? —Perguntou Augusto.
—Bem.
—Que loucura, Vinicius. Esses caras estão ultrapassando os limites...
—Preocupa não, Daniel.
—Vamos embora? Eu levo você.
—Não vai te atrapalhar?
—Não... eu só precisava avisar o Renato e a Carol, mas não faço idéia de onde eles estejam.
—Pode deixar, cara. —Falou Daniel. —Eu sei quem são eu os aviso, e se for preciso deixo eles em casa.
—Poderia ir com vocês? —Perguntou Felipe. —acho que meu prédio fica em seu caminho. Se importa?
—Não. Claro que não.
Despedimos-nos de Daniel e partimos, o conversível de Augusto estava estacionado bem longe da portaria, já ao lado dos portões de entrada. O assunto durante o pequeno trajeto foi a provocação de Jonathan, as possíveis punições, a personalidade do cara, minha prima gostava de falar de coisas relacionadas à psicologia. Acredito que ninguém tenha notado a minha provocação, só acordaram quando perceberam o cara gritando como um maluco, querendo pular para dentro da barraca.
Augusto deu partida e deixamos o estacionamento, pegando a escura rua de acesso, que em dias de festas era iluminada de forma precária. Dizia-se que pedidos para um projeto de ampliação e iluminação da estrada de acesso estava prestes a ser aprovado. O que deixava muita gente feliz. A nossa frente víamos um carro que se distanciava cada vez mais, e logo atrás brilhavam os faróis de outro automóvel. Augusto dirigia a quarenta, bem devagar, estranhou quando percebeu que o veiculo atrás não o ultrapassava, apenas mantinha a mesma velocidade.
—Por que está tão devagar? —Quis saber Felipe.
—Tem algo estranho... o carro que está atrás parece estar nos seguindo, agora estou a trinta e ele também diminuiu. —De repente senti um frio na barriga e meus olhos se umidificaram.
—Consegue ver como é o carro? —Perguntei.
—Não.
Sarah e Felipe que estavam atrás tentavam ver algo, mas a luz alta do farol jogada em nossos olhos impedia-nos de ver.
—É um carro preto? —Perguntei.
—Não sei. —Respondeu Sarah. —Não dá para ver, mas acho que é um carro de cor escura.
—Augusto, e se for o carro preto que vi na porta da minha casa?
Ele me olhou trêmulo, todos estávamos.
—Só tem um jeito de descobrirmos. —Disse mudando a marcha e pisando no acelerador, alcançando cinqüenta, depois oitenta, cem, depois cento e vinte. A adrenalina começou a percorrer o corpo com a mesma rapidez, o veiculo atrás aumentou a velocidade de modo que agora estava quase colado em nossa traseira.
—Ai meu Deus! Você estava certo Vinicius.
—Ai meu Deus!! Corre Augusto, precisamos pegar a 153.
—O que quê está acontecendo? —Felipe estava apavorado.
O sedã preto acelerou se posicionando ao nosso lado, chegamos a cento e quarenta, o primeiro impacto foi fraco, ainda assim nos fez zigue-zaguear, o segundo impacto foi bem mais forte, Augusto não sabia mais o que fazer.
—Seu maluco! Quer nos matar? —Os meninos atrás se seguravam nas poltronas dianteiras para não serem lançados para fora do veiculo, já que não usavam o cinto traseiro.
A terceira vez que o sedã preto investiu contra nós, foi como um bufálo se jogando contra o conversível em que estávamos, foi uma pancada que afundou toda lateral esquerda do automóvel, que feriu Augusto e nos lançou direto para fora da estrada. Depois de um outro impacto, tudo ficou escuro.
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(Ao voltarem do Festival de Inverno, carro de Augusto é perseguido e jogado para fora da estrada)

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