segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

51 - TATUAGENS NUNCA DIZEM ADEUS

Trilha: Warren Ellis - last ride    (e)    Matthew Good - champions of nothing







                                                                                              Em pouco menos de uma hora eu já me encontrava no café, lembro-me de ter tomado um banho e vestido uma roupa leve, camiseta regata e bermudão, devido ao calor daquela tarde. Juliana ainda não havia chegado, mas sentei-me em uma mesa ao fundo e pedi um chá gelado. Com dez minutos de atraso a repórter apareceu. Entrou pela porta do café caminhando muito rápido, pessoalmente parecia-me ousada e destemida e bem mais baixa do que pensava que fosse. Eu gostava de mulheres baixas; usava um tailleur de cor ameixa, berinjela talvez, maquiagem discreta, porém nitidamente perceptível aos meus olhos. Normalmente gosto de mulheres menos enfeitadas, um batom cor de boca ainda é aceitável, muito mais do que isso, em minha opinião, se torna algo extremamente desnecessário em grande parte das ocasiões. A maquiagem em excesso tira toda naturalidade das mulheres. Juliana notou minha presença assim que entrou, e sem oscilar veio em minha direção, sentou-se a minha frente.
—Me desculpe pelo atraso, aquela redação está um inferno. —parecia-me com sede. —Como pode ver, nada de câmera nem gravadores, posso usar um bloco?
—Claro. Não quer pedir algo para beber?
—Sim, claro! O que você está tomando?
—Um chá gelado. —a atendente se aproximou e imediatamente pedimos outro chá para minha acompanhante.
—Como soube que era eu?
—Você era o único desacompanhado, Vinicius, além disso, notei de imediato sua aparência, não há mais ninguém aqui com o perfil do Campus PH. —que ótimo, era como se o Campus borrifasse sobre nós uma espécie de fragrância bem peculiar e característica, ao ponto de pessoas nos identificarem assim. Achei um verdadeiro absurdo, mas me contive sem nada dizer. —Ou talvez tenha sido apenas uma associação com a voz que ouvi um tempo atrás. —Sorriu, como uma empresária insegura, prestes a fechar um grande negocio.
      Em questão de segundos o chá estava sobre a mesa, Juliana retirou um pequeno bloco de anotações da bolsa, uma caneta bic e me perguntou se havia algum problema com relação, gostaria de anotar alguns detalhes para facilitá-la em seu trabalho mais tarde. Eu disse que não havia problema algum e comecei meu discurso sobre toda a história, desde o inicio. Contei-lhe sobre o acidente envolvendo dona Paula, fato que em minha opinião desencadeou todo o suspense, falei das ligações anônimas que doutor Marcos vinha recebendo, das acusações feitas por um homem misterioso de voz enigmática, do desaparecimento de Caio, do atentado a casa de Carol, aquele tiro que quebrou toda uma vidraça, e antes que terminasse minha narrativa ela já se mostrava surpresa com tantos detalhes. Passei pelo acidente da estrada de acesso e finalmente contei-lhe sobre a invasão em minha casa e sobre a pessoa que me atacou aquela noite, sobre o sedã preto que vi várias vezes na porta de casa e as ligações noturnas que tanto eu quanto Augusto vínhamos recebendo, inclusive sobre o que o sujeito disse à Augusto, que pessoas morreriam e que nós dois tínhamos grande parte de culpa em tudo isso. Em todo momento, durante todo meu discurso, ela fazia anotações incessantemente, sem me interromper. Quando terminei, apenas olhava-me com olhos curiosos e incrédulos, e imagino que assim como eu, tentava unir fatos com a intenção de dar coerência a tudo que escutou de modo tão passivo.
—Se realmente tudo isso se conecta, o que faz muito sentido e ao mesmo tempo sentido nenhum, podemos dizer que o doutor Marcos é inocente, coitado!
—É o que penso, mas acredito que de maneira alguma será fácil provar sua inocência.
—E o que você pensa? Acredita que esse suposto amante esteja por trás de tudo isso?
—Sim, mas o doutor Marcos não quer dizer tudo que sabe sobre essa pessoa, se é que sabe de alguma coisa, ou que essa história seja verdadeira. Às vezes me parece que nos últimos anos ele tinha apenas uma suspeita de que sua mulher e esse homem continuavam se encontrando.
—Mas se realmente desconfiava, será que não contratou um detetive para seguir a mulher ou algo assim?
—Eu não sei, mas tudo me leva a pensar que não. Ele amava muito sua esposa e algo me diz que ele não queria ter provas concretas em suas mãos. O relacionamento dos dois era algo muito complexo.  Talvez se você conseguisse uma entrevista… quero dizer, talvez se você conseguisse chegar até ele, e ele soubesse de suas intenções pacificas, talvez ele esclarecesse melhor tudo isso. Porque me parece claro que o único meio de realmente desvendar o que está acontecendo é chegando a esse homem o mais rápido possível.
—Acredita também que o desaparecimento do filho do deputado esteja ligado a esses assassinatos?
—Eu não vejo agora nenhuma conexão, mas com tanta coisa acontecendo… deve haver uma resposta para isso em algum lugar. O que você acha? —fechou a caneta e guardou o bloco como se o que tivesse já fosse, talvez, até mais do que o suficiente.
—Sinceramente, Vinicius, eu não sei o que fazer com todas essas informações… Não posso entrar no ar em uma hora e simplesmente contar tudo isso em dois minutos.
—Eu entendo, e espero que não faça isso.
—Mas preciso pensar em alguma coisa… e não conte nada à policia. Eles estão atrás de provas e nós ainda não as temos. Tudo isso que acabou de me contar, para eles não servem de nada. Mas é claro, isso não me parece um simples caso, até mesmo porque que interesse teria o doutor Marcos em matar essas pessoas dessa forma? Todas as evidências caem sobre ele.
—Eu penso da mesma forma. —Ela olhara no relógio.
—Preciso ir, Vinicius. Não imagina como gostei de ter essa conversa, pretendo te procurar em breve.
—Lembre-se, nada de citar fontes ou gravações.
—Fique tranqüilo quanto a isso. Nós nos falamos. —E assim, após um aperto de mãos, ela se levantou e saiu sem pagar a conta. E por um minuto apenas, fiquei a pensar se realmente eu havia feito a coisa certa.

*

      Já era fim de tarde quando peguei o taxi de frente o Café e passei o endereço da casa de Augusto, iria assim sem avisar, quanto a proibição de meus pais, eles não precisavam saber. Quando abriu a porta da sala para que eu entrasse, só não fiquei tão surpreso porque pensava na possibilidade. As cortinas estavam cerradas provocando escuridão, haviam velas por todas as partes, espalhadas em grupos, algumas solitariamente. Um som calmo nos envolvia e sugava-nos como sessões de psicanálise regressiva. Renato, Carol e Sander estavam presentes, todos sem camisas com exceção da peça ruiva. No chão uma garrafa de Cabernet Sauvignon ao meio e taças espalhadas.
—Estão fazendo o quê? —preferi perguntar.
—Entra. —Então entrei. Sander estava tatuando algo nas costas de Carol.
—Estão se tatuando?
—O Sander comprou uma máquina e pegou umas aulas com um cara aí.
—Na verdade nem foi muito caro. —Explicou-se. Achei no Mercado Livre quase de graça.
—Vocês são completamente loucos!
—Ah! —Exclamou Carol, a dor da agulha parecia lhe acalmar os nervos. —Não estamos transformando nossos corpos em autdoors, estamos apenas marcando esse momento em nossas peles.
—Ah é? E que momento?
—Esse que estamos vivendo... O último ano. —Olhei-os mais detalhadamente quando minha visão acostumou-se com a escuridão. Pareciam tão serenos, tão jovens, tão meigos e mansos.
—Estamos fazendo o mesmo desenho, nos mesmos lugares. —Contou Renato.
—Acho que você também deveria dividir esse momento com a gente, Vinicius. —Sugeriu Carol. —Você não apareceu aqui por acaso. —Ajoelhei atrás, bem próximo de Sander para visualizar a imagem que já estava pronta. Era um desenho simples, todo em preto, apenas traçado, como se houvesse sido feito por canetinha, mas eram linhas bem traçadas; um sol que saia de trás de uma pequena nuvem negra.
—Todos vocês vão fazer o mesmo? —Eles confirmaram.
—A idéia terrível de que ainda há esperança, tatuado no lado esquerdo do ombro. —Prosseguia Carol. Meu calcanhar, onde a desgraçada daquela cadela horrorosa havia mordido, ainda latejava ao me apoiar.
—Tira a camisa. Não dói muito não. —Augusto me ofereceu uma taça. Era bom vinho. Por um momento pensei nas conseqüências, mas ah, queria ser impulsivo como eles e como havia dito antes, ninguém precisava ficar sabendo. A idéia de deixar tudo aquilo marcado na pele me convenceu, a paz e energia que dividíamos ali naquela sala era espiritual. Tirei minha camisa, bebi do vinho e escorei-me numa parede a espera de minha vez.
—Que som é esse?
—Matthew Good.
    Renato, com um livro em mãos e deitado sobre algumas almofadas, recitava poemas enquanto Augusto era marcado, ele sim parecia sentir um incômodo constante. A voz de Renato nos envolvia, o vinho nos tragava, a música nos acolhia, o barulho da máquina de Sander despertava.
—“Trevas
Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho.
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
vaguejavam escuras pelo espaço eterno,
sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
dessa desolação; e os corações esfriaram
numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
os palácios dos reis coroados, as cabanas,
as moradas, enfim, do gênero que fosse,
em chamas davam luz; cidades consumiam-se

e os homens se juntavam juntos às casas ígneas
para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes quanto residiam bem à vista
dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
Queimavam-se as floresta - mas de hora em hora
tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
neles batiam os clarões; alguns, por terra,
escondiam chorando os olhos; apoiavam
outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
alimentando a pira, e a vista levantavam
com doida inquietação para o trevoso céu.
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos.
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
chegavam mansas e a tremer; rojavam víboras,

e entrelaçavam-se por entre a multidão,
silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo, 

e qualquer refeição comprava-se com sangue;
e cada um sentava-se isolado e torvo,
empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
imediata e inglória; e se cevava o mal
da fome em todas as entranhas; e morriam
os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
os cães salteavam os seus donos, exceto um,
que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
em guarda as bestas e aves e os famintos homens,
até a fome os levar, ou os que caíam mortos
atraírem seus dentes; ele não comia,
mas com um gemido comovente e longo, e um grito
rápido e desolado, e relambendo a mão
que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
porém, de uma cidade enorme resistiram,
dois inimigos, que vieram encontrar-se
junto às brasas agonizantes de um altar
onde se haviam empilhado coisas santas
para um uso profano; eles as revolveram
e trêmulos rasparam, com as mão esqueléticas,
as débeis cinzas, e com um débil assoprar
para viver um nada, ergueram uma chama
que não passava de um arremedo; então alcançaram
os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram

o rosto um do outro - ao ver, gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
sem um reconhecer o outro em cuja fronte
grafara a fome "diabo". O mundo se esvaziara,

o populoso e forte era uma informe massa,
sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
dormiam nos abismos sem fazer mareta.
Mortas as ondas, e as marés na sepultura,
que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
tiveram fim; a Escuridão não precisava
de seu auxílio - as Trevas eram o Universo."
Grande, magnífico, Lord Byron! —Declamou Renato. 
     Quando chegou minha vez, o vinho fazia efeito, a dor era suportável. Com o tempo acho que a gente aprende que tudo nessa vida é suportável. Antes, coitado de mim, acreditava que minha vida seria para sempre, e que jamais estaria próximo do fim. 



Copyright 2010



. (Na casa de Augusto, vinho e tatuagem)


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