Sempre achei algo difícil estar longe de pessoas que realmente gostamos, tem sempre aquele pedaço da vida da gente em que você acredita que diferente do que acontece com os outros, o tempo não passará para você e tudo que considera valioso e sagrado naquele exato momento, o será para sempre. Mas desde muito cedo aprendi que a vida é o contrário de tudo isso, a vida é uma seqüência de mudanças e transformações, de perdas, trocas e ganhos. Acho que a metade dos erros da vida vem do fato de que sentimos quando devemos pensar e pensamos quando devíamos sentir.
Fernando, meu irmão, insistia para que eu terminasse de contar tudo que aconteceu, só depois de alguns meses é que fui dar detalhes do que passei; quando cheguei naquele lugar, frio como o congelador de casa, pensei “Puta que pariu!”. Eu queria vida nova, esquecer por um momento. Começaria minha rotina trabalhando com meu irmão e dois amigos seus, pintando interiores e fachadas de casas e apartamentos. É o que ele tinha conseguido. Tudo bem, eu não me importava. Se meu irmão me perguntasse mais uma vez se eu estava arrependido por ter deixado as oportunidades que eu tinha no Brasil, eu diria que não. Em breve poderia conseguir um emprego como recepcionista de hotel, por exemplo, meu inglês estava num nível muito bom, alguns meses praticando e ficaria excelente.
—Então o que houve? —Ele parecia consternado com tudo até agora, e já que havíamos combinados de passar a merda da noite de sábado em casa, eu lhe devia o final de toda a história, até mesmo porque, a garrafa de vodka barata estava cheia e os cigarros estavam longe de acabar. Eu, mesmo depois de meses, sentia o frio do Colorado mais que os outros.
—Foi exatamente uma semana antes de todo esse desastre com os ônibus que peguei nosso pai tentando... Sei lá o que ele estava tentando fazer...
—Eu sei muito bem o que era. Queria te chupar. Nosso pai, Renato, é um veado filho da puta. —O ódio que sentia era visível.
—Isso é tão absurdo que nem consigo dizer alguma coisa...
—Mas é a pura verdade, Renato.
—Isso é tão absurdo que nem consigo dizer alguma coisa...
—Mas é a pura verdade, Renato.
—Você deveria ter me dito isso há muito tempo, cara... Antes mesmo de nos deixar.
—Irmãozinho, quando isso começou acontecer você era muito novo, tinha uns oito anos eu acho, e eu, pra ser sincero, não sabia direito o que acontecia, para mim, até certa idade, tudo aquilo parecia normal. O que me encabula é que mesmo com minha saída de casa e com a morte da nossa mãe, ele só foi tentar algo com você agora. Aquele velho desgraçado. Deveria ter socado a cara dele por nós dois.
—Sabe que jamais faria isso. Quantas vezes ele chegou em casa bêbado e começava me agredir por qualquer coisa, dizia que a casa não estava limpa o bastante. Que eu estava desperdiçando a porra do papel higiênico, dizia que depois que nossa mãe morreu eu havia me tornado um estranho dentro de casa e ameaçava jogar minhas coisas pela janela, no lote baldio que tem ao lado do prédio onde morávamos. Derramou café num livro que eu esperei muito tempo para comprar e disse que foi sem querer... Me oferecia cervejas dentro de casa. Ele passava os dias de folga assim dentro de casa, bebendo cervejas e urinando.
Augusto e eu estávamos cada vez mais fissurados naqueles cigarros entorpecentes que Sander nos fornecia, a boa maconha. Era muito fácil conseguir qualquer tipo de coisa com o Sander, o que ele não tinha arranjava com um simples telefonema, com isso acho que caímos na banalização, fumávamos e bebíamos durante todo o dia. Eu estava sem trabalho, mas dinheiro não era problema para Augusto. Às vezes pedíamos também um pouco de pó. Na verdade quem decidia era Augusto, só ele tinha grana para isso, eu o apoiava e me deixava levar, não ingenuamente, caralho, mas o que eu ia fazer?
Comecei a passar tanto tempo em sua casa que numa semana me vi tomando banho e fazendo todas as refeições lá mesmo, ia em casa somente trocar de roupa e pegar algo limpo para vestir, adorava almoçar lá, a comida era sempre bem feita e a variedade ao passar dos dias era algo que me chamava atenção. Lá em casa nunca havia nada pronto, e até mesmo aos finais de semana, quando o velho estava em casa, nada era preparado, almoçávamos sanduiches de pão e mortadela, uma fatia de queijo, algumas vezes, para incrementar, fritava um ovo com a gema mole. Algumas vezes comia no restaurante de frente a praça, quando tinha grana.
Havia todo aquele lance foda do Augusto ser gay, mesmo dizendo quase sempre que não se sentia totalmente assim, dizia que não sentia isso por qualquer cara que passasse a sua frente, era algo direcionado, era o Vinicius que ele queria. E o Vinicius era um cara totalmente sem graça e careta, sinceramente eu não sei o que o Augusto viu nele. Foi por isso que desde o inicio eu desencanei de que algum dia algo pudesse rolar entre nós dois, quero dizer, de que ele pudesse querer que algo rolasse, porque eu não tenho nada contra, mas acho muito nojento dois caras se pegando ou beijando na boca. Eu acho que vomitaria. Não é preconceito, que isso é besteira, acredito que seja só uma questão de gosto.
Meu mundo virou de cabeças para baixo após aquele acidente com Caio no bosque próximo ao Campus. Aquela perseguição insana. Naquela manhã, no momento em que corria, não sabia ao certo porque perseguia Caio como se fosse uma caça em fuga e nós, modernos aborígines com sapatos de grifes que custavam quase um salário mínimo. O que colocaria o básico por um mês na mesa de inúmeras famílias de baixa renda. Com o desaparecimento de Caio, ficamos nós três, e como nas últimas semanas nossa amiga estava mais interessada em algo a sós com Sander, Augusto e eu passávamos maior parte do tempo perambulando pelos shoppings da cidade ou ficávamos em casa, com tanta coisa para fazer na casa dele pouco queria eu ficar me expondo por ai, nós andávamos muito loucos. Eu havia deixado o emprego na loja há quase dois meses, estava cansado daquela rotina, tínhamos aula no Campus até uma hora da tarde, era obrigado estar no shopping as quatro e quando chegava em casa já passavam das onze da noite. Essa porra vinha me matando, o fato é que por algumas vezes cheguei na loja um pouco tonto da vodka que Carol sempre carregava dentro de uma pequena garrafa durante a manhã, e acho que por duas vezes estava tão alto por exagerar que devo ter demonstrado estar com sérios problemas.
O primeiro dia em que ultrapassamos a dose foi numa tarde de sábado em que novamente o casal vinte, como os chamávamos, saíram para comemorar não sei o quê, acho que comemorariam a entrada da lua nova, Carol estava enfeitiçada pelos poderes renovadores desta fase da lua e criou um plano festivo que envolvia apenas seu novo parceiro e namorado. Mas Sander, fazendo questão de nos convencer de como era gentil, deixou sobre a mesa de centro umas vinte gramas de haxixe e ao sair pediu para que não fizéssemos nada que ele não faria. Augusto tinha pó guardado, experimentou a primeira vez uma semana antes e pelo fácil acesso conseguiu a mesma quantidade em todos os outros dias que se seguiram àquele. Nós fumamos em todos os cômodos daquele apartamento ao longo do dia, cheiramos algumas carreiras sobre a mesa da cozinha e ficamos eufóricos, escapamos do chato até chegarmos ao ponto de rir sem parar porque estávamos tão moles que não conseguíamos mais nem prender a fumaça do baseado que queimava, aquilo estava acabando com a gente. Estávamos completamente inertes, a mente havia habilmente se desprendido totalmente do corpo físico de modo que não mais controlávamos os movimentos de nossos corpos, apesar do abalo no sistema nervoso central, meu cérebro estava mais vivo que nunca, captava todas as cores, todos detalhes, e algumas vezes formulava questões complexas sobre esses, outras vezes apenas avançava num túnel de cores onde tudo que se vê, parece mais uma projeção cinematográfica do que vida real. E nesses momentos me questionava. Será mesmo que existe essa vida real de que todos falam? E se houver, será mesmo que estamos vivendo? Eu não sei dizer, mas sempre suspeitei de que a resposta para essa última pergunta seria um decepcionante: Não.
Estávamos na sala assistindo um filme antigo de algum diretor italiano, uma daquelas merdas cult e não faço idéia de quem ou qual filme era, poderia ser qualquer um, sabia que era antigo pelas cenas em preto e branco e o modo antigo como os atores se vestiam, e sabia que era italiano porque o áudio era original e mesmo não sabendo falar essa língua eu sabia reconhecê-la. Não era inglês ou francês com certeza, muito menos alemão, era italiano. A campainha tocou logo após o interfone chamar e não ser atendido, poderia ser alguém, mas nenhum de nós dois queríamos nos mover para abrir, ver, falar, receber alguém. Se fosse conhecido certamente subiria de qualquer forma. A portaria possuía uma lista de nomes autorizados.
—Pode ser o advogado do seu pai, Augusto.
—Ele teria ligado antes.
—Conhece alguém no prédio?
—Não Renato. Vamos ver o filme, fale baixo e logo acreditarão que não tem ninguém aqui.
—Como você está? Ainda consegue transformar as imagens preto e branco em coloridas na sua cabeça?
—Sim. Você não está vendo colorido? —Perguntou Augusto. —Eu estou vendo tudo colorido.
E a campainha tocou outra vez. Augusto levantou-se num impulso e foi até a porta. Quando vi Vinicius entrar me senti um pouco constrangido, sabia de tudo que estava rolando entre os dois e me sentia mal pra caralho, ficar segurando vela para um casal de amigos meus, não queria presenciar nenhum tipo de carinho entre dois caras na minha frente. Cumprimentei-o corriqueiramente, não era nenhum pouco intimo do cara e posso dizer que nossa relação era apenas em função da amizade que tinha por Augusto. Chocava-me saber que quando estavam sozinhos tinham vontade de se tocarem, beijarem e se pegarem de um jeito que ambos queriam e ainda não tinham feito. Se Vinicius pensava que enganava alguém com aquela história de ser meio enrolado com a Julia, ele estava muito enganado, que bem que eu estava nessa posição privilegiada de quem tudo sabe. Mas alguém com um olhar mais perito e realmente disposto a descobrir a verdade, veria no fundo do olho dele que ele precisava mesmo era de braços fortes e alguém que lhe desse todas as instruções, ou que o comesse de uma vez. Ele percebeu que estávamos alterados e logo veio a pergunta inevitável.
—Vocês tomaram alguma coisa?
—Não! —Respondi com os olhos úmidos e contendo um riso afoito.
—Onde está Carol? —Ele perguntou, como se suspeitasse que ela estivesse escondida em algum lugar. Dentro do armário, talvez.
—A Carol nos abandonou, saiu com Sander e nos deixou sozinhos.
—Ela e o Sander estão ficando ou alguma coisa...?
—Eles estão se conhecendo melhor.
—É o que ela diz...
De repente senti o olhar de Vinicius caindo sobre mim, seu olhar era analítico, parecia me decompor em partes para facilitar seu profundo raciocínio. Por alguns minutos pensei que pudesse estar alimentando uma paranóia a meu respeito, supondo se eu e nosso amigo poderíamos estar ultrapassando a linha do que é permitido dentro de uma relação amigável e comum. Naquele momento em que me investigava com aquele olho quase repulsivo de tão invasor, eu senti uma tremenda vontade de gritar, fazer uma declaração em voz alta. Dizer na cara dele: “Eu sei de tudo!” e depois continuar ali, naquela moleza, como se nada tivesse acontecido. Eu também o encarei, e pensei comigo mesmo, “Eu sei de tudo”, e quando ele desviou os olhos para um canto qualquer da sala, eu me senti vitorioso. Não importava o que pensava a meu respeito, o que importava era que ao desviar seu olhar do meu, eu ganhara o embate.
Para ser bem franco eu estava pouco me fudendo para esses carinhas ricos do Campus, caras que usam creme hidratante que custam cem reais. Se querem ser meus amigos, estou aceitando, também tenho o que oferecer, caso contrário é melhor que me esqueçam.
—Nós queimamos um baseado. —Disse Augusto, e nós caímos na risada.
—Com tanta coisa acontecendo e vocês fumaram um baseado! Onde? Aqui?
—Não olhe para mim, —Eu disse —Foi um presente, entende? E foi idéia dele.
—Precisava me distrair um pouco... Sabe como é... Tanta coisa acontecendo, além disso o Sander tem tanto desse troço…
—É, e nós sempre agradecemos.
—Vocês podem me dizer ao certo o que aconteceu? Descobriram algo? —Ele estava muito mais interessado no assassinato de Ismael do que nas histórias inventadas por nós.
—Ismael foi encontrado hoje a noite, estava morto e tinha marcas de bisturi pelo corpo, assim como Solange, que bem que o laudo do instituto medico legal só sai pela manhã. Amanhã isso será noticia em todos jornais locais, vai ver só. Já ligaram aqui um punhado de vezes e não sei como essa gente descobre o numero aqui de casa, mas eles parecem dar jeito para tudo. O que aconteceu, Vinicius, é que o advogado ligou dizendo que foi ordenada a prisão preventiva do meu pai, e isso me preocupa um pouco… depois que realmente ficou comprovado que ele é meu pai, tenho a impressão de que estão armando para cima dele.
—É o que eu penso. —concluiu Vinicius.
—Eu também penso o mesmo. Por acaso o Augusto lhe falou sobre um possível amante...
—Não. Você não me disse nada sobre um amante.
—Meu pai veio com uma história dessa... uma história que não sei se posso acreditar porque pode ser inventada... disse que existe uma razão para a dúvida sobre minha paternidade, falou que quando se casaram minha mãe tinha um outro namorado, que ele chama de amante, e que ela só escolheu se casar com ele pelo dinheiro que tinha.
—Será verdade?
—Inclusive falou que quando nasci chegou mesmo a ter dúvidas se eu era realmente seu filho, na época acho que não existiam exames tão avançados... falou que minha mãe continuou a encontrar esse outro homem mesmo depois de casados.
—E aí? Ele sabe alguma coisa sobre esse homem?
—Diz que não... Se bem que depois de ter me falado sobre, eu parei pra pensar um pouco sobre como minha mãe se comportava e como vinha se comportando nos últimos dias antes do acidente… e não sei, talvez realmente havia algo de estranho que eu ainda não tinha percebido. Mas para mim é difícil de acreditar que ela teve um amante, entendem? Andávamos muito juntos.
—Talvez esse possível amante, pense ser seu pai e de alguma forma queira se vingar de seu pai pela morte de sua mãe. Talvez ele realmente acredite que seu pai tenha se envolvido em toda aquela tragédia com o carro. —Lembro do primeiro dia que tive conhecimento sobre esse mistério da paternidade. Eu estava com Caio e Carol, sentado no tronco de uma árvore que caiu de velhice, bem próximo a entrada do colégio, ele estacionou o conversível um pouco adiante e se aproximou com seu jeito retraído. Falou-nos que no dia anterior havia destruído a clinica de seu pai com uma raquete de tênis e aquilo me fez pensar inicialmente que ele era louco, completamente insano, depois avaliando todas as circunstâncias cheguei a conclusão que apesar de impulsivo era real.
—Sobre a morte de minha mãe eu não tenho total certeza de que ele seja inocente. —Augusto era filho, esperávamos que estivesse seguro em suas impressões. —Mas alguma coisa não se encaixa. Lembra do que ele me disse ao telefone? —Perguntou à Vinicius —De alguma forma, ele não quer atingir só a mim ou ao meu pai, ele quer atingir o Vinicius também. Aquele acidente em sua casa também é uma peça de tudo isso. O que você me diz?
—Eu não sei, Augusto… Eu não faço idéia. —O cara parecia impaciente. —Mas acredito em você. — Peguei uma das carteiras de cigarro sobre a mesinha onde descansava os pés.
—Vocês parecem estar numa tremenda história suja. —Novamente voltei a posição em que estava e soltei a fumaça, estava totalmente relaxado, poderia dormir ali mesmo.
—Vocês parecem estar numa tremenda história suja. —Novamente voltei a posição em que estava e soltei a fumaça, estava totalmente relaxado, poderia dormir ali mesmo.
—Bem... isso de qualquer forma já anda me deixando amedrontado. —Vinicius era um cara meio chato.
—A verdade, meu caro, é que estamos todos com medo.
Estava torcendo para que logo ele fosse embora, pois só assim a conversa deixaria o tom grave e sério. Queria comer algo ao mesmo tempo em que também queria beber, talvez fumar não fosse mais uma opção, esfreguei a brasa no cinzeiro com vontade. Quando descemos, o papo chato de Augusto sobre o que rolava entre ele e seu companheiro se tornou, quase como sempre, o enredo central de toda conversa.
— Eu não te disse que ele anda meio que ligado na Julia. Estavam jantando essa noite... Quer saber, Renato? Eu não estou nem ai. Não ligo mais para casa dele e no Campus vou ficar na minha, vá se ferrar essa merda toda.
— Relaxa velho, você acredita mesmo nessa história do Vinicius com a Julia? Pode até ser que aconteça alguma coisa, mas os dois não têm química nenhuma, e o cara tá na sua, fica ligado... Não vê que ele não te deixa quieto?
Copyright 2010
. (Renato e Augusto começam a abusar das drogas)

Nenhum comentário:
Postar um comentário