As garotas haviam desistido de nos ajudar na piscina, Julia argumentou que provavelmente nem chegaria entrar devido o maldito braço, e Carol deixou claro que poderia fazer qualquer outra coisa desde que não a colocássemos para esfregar uma piscina inteira coberta de lama com a ajuda de uma vassoura.
—Então você fica com a mangueira... Jogando água. —Sugeriu Augusto. Carol não pareceu nem um pouco mais animada ou ofegante.
—Pessoal! Sabem que Julia precisa de mim, não posso fazer duas coisas ao mesmo tempo. —E como Julia nada disse, naquele momento selou-se um pacto entre as duas colegas de quarto. Carol momentaneamente e até o final, se tornou uma pessoa mais doce e menos ofensiva com relação à outra. Se era puro fingimento? Eu acredito que não. Mesmo sabendo que minha ruivinha querida sempre nos surpreendia com suas declarações sinceras, seus atos incoerentes ou até mesmo com uma frase ou outra que às vezes soltava. E era exatamente por essa sua característica que Carol me fazia gostar de quem ela era.
—Tudo bem, —Estava ao lado da enorme piscina, descalço e com pés cheios de terra, havia um rodo em minhas mãos e disse seriamente. —Então você ficará por conta de cozinhar, Julia será sua ajudante na cozinha. —Então Carol contorceu um pouco os lábios, como se tivesse chupado um limão.
—Eu sei cozinhar. —Julia não parecia muito certa do que dizia, mas afirmou.
—E quais são suas especialidades? —Questionou Vinicius.
—Eu sei fazer uma ótima omelete.
—Eu espero não ter que comer omelete a semana inteira. —Sander já havia declarado os inícios do trabalho. Estava enérgico e se movimentava incessantemente. O que realmente o salvava do estereótipo junkie que vemos por ai, era o seu tom sofisticado, quase nobre. E lógico, ele tocava violino muito bem.
—Como já ouviram, ficaremos com a cozinha, o que é terrível porque assim assumimos os papeis que convencionalmente a sociedade distribuiu entre nós, mas o que posso fazer se tenho uma acidentada que precisa de cuidados? O que você acha de prepararmos uns drinks, colega? —Julia não se opôs. —Trouxemos uma vodca excelente, e temos polpa de açaí. Sei fazer uma batida de açaí que deixa qualquer pessoa com vontade de tomar um pouco mais.
—Acho que pelos remédios que estou tomando, não devo beber nada alcoólico.
—Mas você nem sente o gosto, você vai ver, parece suco. —E conduzida por Carol, Julia fora se afastando, e então sumiram para dentro da casa.
—O que vocês acham de uma música? Esse barulho de pássaros me incomoda. —Gritou Sander fazendo com que Vinicius emitisse um olhar de soslaio que expressava uma espécie de repugnância bem disfarçada.
Augusto trouxe a caixa de som para fora e aumentou o volume. A droga fazia efeito, me sentia em um paraíso no meio de um deserto, o sol intenso e claro me deixava levemente desnorteado, eu sorria involuntariamente, a metade de um comprimido fritava meu cérebro. Nós já estávamos dentro da piscina concentrados em remover toda lama que tinha ali, as meninas haviam acabado de chegar com duas jarras de um liquido escuro que supus ser a batida de açaí. De longe era muito parecido com a lama em meus pés, porém mais diluído e visivelmente gelado.
—Se eu fosse vocês viria tomar enquanto ainda está gelada, essa rodada ficou excelente! —E animados, os outros subiram os degraus e foram até a mesa da área, onde as garotas deixaram copos e uma pequena tábua com queijo e salaminho fatiado. A mangueira estava aberta ao meu lado, molhei-me deixando que a água caísse sobre minha cabeça, a água fria cortou o queimar que sentia na nuca por falta de um bloqueador solar. Ouvi barulho de carro se aproximando, de repente todos se afastaram para ver o que era e só então tive interesse de subir os degraus, sair da piscina e verificar o que estava acontecendo.
—Quem pode ser?
—Eu acho que conheço esse Kia... —Disse.
Atravessamos a sala e abrimos a porta principal, o veiculo veio em nossa direção levantando toda a terra que ainda se encontrava pelo caminho até encontrar o gramado dos jardins. Quando finalmente o motor foi desligado, o Kia vermelho estava a nossa frente e já sabíamos de quem se tratava. Mas ninguém, exceto Julia, sabia o que estavam fazendo ali.
—Eu não acredito. —Disse Carol. —Esse é aquele nadador idiota?
—O nadador?
—Quem? Ricardo Bensimon Feitosa?
—O próprio, e o que ele está fazendo com a Fernanda?
—Eu convidei. —Confessou Júlia.
—Eles estão namorando.
—Ah meu Deus! Eu não acredito. —Carol estava possessa. —Você convidou Ricardo Bensimon Feitosa para passar uma semana com a gente?
—Eu não sabia que ele viria, eu convidei a Fernanda. Eu achava que isso que está rolando entre os dois não era nada demais.
—Quem mais está com eles? —Estavam descendo do carro.
—Felipe Silva.
—Eu vou fingir que isso não está acontecendo. —Sorriu, o trio se aproximava.
As vozes foram se dissipando e um sorriso torto e sem graça se esboçou em nossos rostos. Fernanda era uma espécie de Jennifer Lopez da elite brasileira. Seu corpo avantajado e seus traços negros lhe davam imponência, seus cabelos extremamente lisos e seu humor lhe davam simpatia. Mas Fernanda era sempre um exagero, gostava da ostentação exibicionista por parte de quem realmente pode e não escondia o sentimento que a fazia acreditar ser superior do que sua própria raça, por estar acima do padrão, por ser aluna do Campus PH, onde não havia muitos negros. Não que o Instituto de Educação fosse racista, é que entre a pequena parcela que podia dar aquele tipo de educação aos filhos, apenas uma fatia minúscula poderia ser considerada verdadeiramente negra. E os candidatos a bolsistas, que eram negros, nunca tinham sorte nos exames de admissão. Essa era uma dura realidade social do país em que vivemos. E Fernanda era fruto dessa mídia podre que tenta nos empurrar tudo goela abaixo, nos dando exemplos fúteis de como devemos nos vestir, de que forma devo falar e até mesmo com quem devo parecer, criando tantos problemas simplesmente para na próxima estação, venderem o maior numero de jeans que conseguirem. Brincando com sentimentos, desejos e sonhos de todo ser humano, fazendo-os acreditar que serão melhores, que serão mais bonitos, que se sentirão felizes por estarem usando, vestindo e comprando o que de melhor o mundo tem a oferecer. E o que fazemos com tantas embalagens e roupas velhas? Bem, condomínios de luxo nunca serão construídos ao lado de grandes lixões, então, enquanto o lixo estiver bem longe de pessoas como “nós”, ainda poderemos sonhar e acreditar que “eu” serei uma pessoa melhor quando conseguir comprar aquilo que tanto quero, mas que pouco preciso.
—Nem acredito que chegamos... Essa sua casa de campo fica no fim do mundo, menino!
—Foi sorte não terem se perdido, todos se perdem por aqui.
—Sorte minha estar com Ricardo, ele conhece bem a região.
—Meu pai também tem terras por aqui.
O silêncio que se seguiu após a fala de Ricardo deixou todos nervosos e desacreditados de que dias melhores viriam, ainda estávamos na porta quando Augusto passou aos três o que estávamos fazendo e então entramos novamente.
—Na verdade Fernanda, eu não sabia que vocês eram amigos. —Disse Carol.
—Na verdade estamos namorando, tudo aconteceu logo após aquele acidente com o ônibus. Ricardo foi até o hospital ver como Maurílio estava e por coincidência nos encontramos. E então tudo aconteceu.
—Bem rápido por sinal. —Comentou Felipe.
—Já que estão juntos podem ficar com o último quarto do corredor e vou pegar um coxão para você ficar no quarto com os meninos, Felipe.
—Tranqüilo. —Eu simplesmente não sabia absolutamente nada sobre esse Felipe Silva, mas dormiríamos no mesmo quarto nas próximas noites.
—Podem subir para se trocarem e desçam depois, estaremos esperando.
—Levará muito tempo para lavarem a piscina? —Quis saber Ricardo.
—Se vocês ajudarem não levará tanto tempo. —Percebi que Vinicius se afastou insatisfeito, o pior é que ele não era o único. Enquanto subiam as escadas, nós, protagonistas, voltávamos lentamente para a área dos fundos.
—No quarto de casal? —Carol estava indignada.
—O que quer que eu faça?
—Eu só espero Julia, que sua amiga saiba cozinhar melhor que você, se não viveremos de ovo frito e macarrão instantâneo.
—Credo! Que nojo. —A mãe de Sander devia cozinhar maravilhosamente, para ter feito tal comentário. Quem nunca comeu um miojo na vida?
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(Estrada de acesso a fazenda)
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