domingo, 8 de fevereiro de 2015

65 - FLORES E FANTASMAS

Trilha: Editors - spiders









                                                                                              

                                                                               Quando abri os olhos, depois de um longo cochilo, os números digitais do visor de meu celular marcavam nove e trinta e quatro, o silêncio era absoluto e ao meu lado Sander dormia imóvel, uma pedra se não fosse pelo suave e constante movimento de inspirar e expirar o ar que alimenta os sonhos. Felipe ainda dormia, no chão, mas parecia bem menos mórbido.  Certamente em algum momento todos apagaram ao fechar os olhos. Era possível sentir o cansaço da noite em claro associada aos efeitos punitivos da química, que agora ainda no sangue fazia efeito contrário, opressor. Olhava todo o quarto atentamente, a luz que penetrava a janela logo acima me agredia de alguma forma violenta.
      Joguei as pernas para fora da cama, ao sentar, uma náusea, impulsionei o corpo com a ajuda das mãos e levantando-me abri o vidro, estava tudo limpo, tudo claro, os pássaros cantavam e era possível de distinguir pelo menos seis tipos de cantos diferentes. As enormes roseiras rebeldes, por falta de poda, que ficavam na área externa da casa, bem abaixo nossa janela, estavam carregadas de flores vermelhas, amarelas e lilases. A primavera havia chegado e eu mal sentia, o verde de todo pasto era mais vivo e mais verde, e o céu amanhecia claro, azul, com nuvens brancas e esparsas que se deslocavam por ele bem mansamente, com a força branda do vento calmo que chega no fim de Setembro.  Apesar do sol que parecia estar direcionado para aquela maldita janela sem proteção nenhuma contra a luz, ao sair, Sander e Felipe estavam exatamente na mesma posição em que os vi quando acordei. Fechei a porta. Pensei em preparar panquecas para o café da manhã, era fácil de fazer, gostoso e sofisticado, era certo que iria agradar. Depois do jantar de ontem, preparado na cozinha experimental de Carol Araújo, acho que todos, inclusive eu, mereciam um bom café da manhã.
        Assim que voltei os olhos ao corredor, percebi que não tinha sido o primeiro a levantar porque a luz da sala no andar de baixo e o barulho da tevê denunciavam a presença de algum ilustre companheiro. Poderia ser Julia, mas era Vinicius. Tentei ser cordial mesmo torcendo os olhos quando me deparei com a cara de presunto azedo que ele tinha.
—Preciso de um alguém para ajudar com o café da manhã.
—Opa... —Desligou a tevê através do controle-remoto e se levantou mostrando-se pronto.
—Não está meio baqueado não?
—Não, estou tão elétrico que nem consegui dormir. —Soltou umas risadas esparsas e contidas. —É tão estranho... Você acha mesmo que tem alguém querendo nos matar?
     Refleti. Adentramos a cozinha.
—Eu confesso que estou meio assustado.
—Acho que Carol estava mentindo sobre ter visto alguém rondando a casa. Eu passei a noite em claro e não ouvi nada... Na verdade acho que nem os fantasmas aparecem por aqui. Mais uma vez o Sander curtiu da nossa cara.  
—Também andei pensando nisso... Mas acho que Carol não mentiria para mim daquele jeito.
—Toda essa história, tudo isso que tem acontecido é muito estranho. Você não acha?
—Cara, é muito. —Sem que percebesse esqueci o café e sentando-me na mesa passei a trocar informações com Vinicius. —Primeiro Augusto diz receber todas aquelas ligações de um homem misterioso dizendo que ele é filho adotivo e tudo mais, falando que o Dr. Marcos havia matado a própria esposa...
—Em seguida a namorada do pai dele morre assassinada... Você não acha muito óbvio?
—Com certeza, mas se foi armação, souberam deixar provas que o incriminasse. Em seguida morre o melhor amigo, aquele médico Ismael...
—Antes disso eu também recebi algumas ligações no meio da noite. Inclusive invadiram minha casa e me acertaram com um porrete. Nem imagina como foi sinistro chegar em casa aquele dia e ver tudo revirado.
—Posso imaginar coisas piores do que isso. Como a morte da sua prima. —Lamentei. Ele se calou, olhando para a mesa de madeira da cozinha. —Me desculpa comentar.
—Não... não tem nada não. Mas Carol também foi vitima dentro da própria casa… você se lembra do tiro?
—O ataque aos ônibus na estrada de acesso. Muita gente ficou ferida...
—Eu estava lá dentro, acho que nunca mais vou me esquecer dos alunos gritando enquanto os vidros estouravam.
—Deve ter sido horrível... Nada parece fazer sentido algum... Mas quem atirou contra aquele ônibus queria atingir aquele ônibus... 
—Mais uma coisa que não faz sentido é o desaparecimento do Caio... —Coitado. Ele não sabia que Caio estava morto. Ele não sabia que eu era culpado, que eu, por medo, não me atirei para salvá-lo. —Não sei se é uma boa continuarmos aqui depois do que Carol e Sander viram ontem.
—Talvez não seja nada, como você mesmo disse, a fazenda estava vazia os últimos meses e com certeza recebia visitas de forasteiros vez ou outra, não sei nem como essa casa ainda não foi arrombada. Ontem quando viram que havia pessoas aqui, se mandaram e não voltarão mais. Aqui estamos salvos, pelo menos até as aulas no Campus voltarem na próxima semana.
—Vamos começar fazer alguma coisa? —Sugeri, Vinicius sabia ser até agradável. —Estou varado de fome.
—Vamos lá.
—Precisamos de ovos, leite e farinha. —Na verdade quem mesmo iniciou e fez tudo fui eu, ele pegava os ingredientes que eu pedia e também passou o queijo pelo processador, trabalho quase que exclusivo do utensílio doméstico. Já na fase final de preparação, marcada por pouco dialogo, ele disse algo em tom confessionário, como se me contasse um segredo.
—Liguei para uma repórter da tevê e contei tudo que sabia sobre o caso, não acredito que o pai do Augusto seja o culpado de tudo que aconteceu.
—Porque fez isso? —Fiquei surpreso, não com o fato dele ter dito tudo, mas por ter revelado isso à mim.
—Porque acho que estava desesperado. Também não sei pra que... Não ajudou em nada. É que pensei que se a imprensa tivesse do nosso lado ou soubesse o que realmente vem acontecendo, quero dizer, tudo mesmo... As ligações, os atentados, as investigações poderiam tomar uma nova direção.
—Por mim tudo bem, não vejo nada demais, mas por que está me contando isso?
—Eu não sei. —Disse. —É que não havia contado para ninguém até então. E hoje eu estou me sentindo tão angustiado...
—Sabe o que acho? Que mais tarde quando você finalmente deitar e conseguir dormir, vai se levantar outra vez umas vinte e quatro horas depois.
—Estou achando é que não vou conseguir deitar nos próximos dois dias. —Olhou com um sorriso safado no rosto, era seu sorriso de sempre. — Vocês colocaram alguma coisa naquela bebida.
    A acusação foi feita seriamente. Olhei-o, ele esperava respostas.
—Que tipo de coisa?
—Droga, Renato. Acha que não sei que mexem com isso? Ontem vocês nos drogaram sem que soubéssemos.
—Eu? Você está ficando louco?
—Não sei se foi você, mas sei que alguém fez isso. Não nos respeitou. O que vocês pensam? Que fumar essa porcaria ou cheirar, sei lá... Que usar essas coisas que vocês usam para ficar chapado é normal?
—Vinicius, você está exaltado, rapaz. Péra lá...
—Não gostei, tá ligado? Quero saber o que foi. —Se aproximou de modo hostil.
—Por que tu não vai perguntar seu namorado? Se liga... Você é que não sabe beber... Toma um copinho de vodka e fica dando trela dois dias sem parar. Se for para continuar desse jeito, Vinicius, é melhor nem beber mais.
—Olha só, não tenho namorado, Renato. Eu não sou o que você está pensando.
—E eu lá tenho a ver alguma coisa com isso?
—É... —Oscilou. —Você tem razão.
—Vai lá acordar a galera para comer? Não vai demorar ficar pronto.

        Julia e eu estávamos sobrando, e ambos percebemos quase no mesmo instante, ela um pouco depois que eu. Estávamos na mesa do café, as panquecas empilhadas sobre um prato branco, havia feito três tipos de recheios; o italiano consistia simplesmente em presunto e muzzarela, orégano e azeitonas pretas; um mais elaborado nomeamos de Caldo buco, —Em italiano, buraco quente. — lombo canadense, bacon, espinafre, mostarda e pimenta; e o tradicional chocolate com morangos. As panquecas, após serem recheadas a gosto, eram enroladas e postas sobre um grill onde passavam alguns minutos antes de serem devoradas. Os casais estavam lado a lado, Carol e Sander dividiam a lateral direita da mesa com Augusto, acompanhado por Vinicius, sentado em uma das extremidades. Eu Estava a esquerda de Vinicius, ao lado de Fernanda e Ricardo, que por faltam de vergonha na cara ainda estavam ali. E de onde estava podia ver Julia do outro lado, tão solitária quanto eu, divagando sobre coisas possíveis, assim como eu... Atraente, assim como eu me esforçava para também estar. Os outros falavam sobre coisas diversas e sem importância, a gente se olhava despretensiosamente. Eu queria aquela menina, e se Vinicius não aprovasse a ideia que fosse tomar no cú, porque estava claro que Julia ia ficando cada vez mais isolada com o passar das horas, e dos dias.
        Voltei aos outros quando a decisão, por parte de alguns, fora tomada de explorarem a região com os carros, talvez uma corridinha entre duas equipes, sugeriu Ricardo, com suas idéias que não iam além do clichê imbecil. Julia não gostou da sugestão e se opôs, não queria nenhum tipo de perigo que envolvesse veículos em movimento e um braço quebrado.
—Não, eu não sou louca de sair por ai num carro conversível a mais de cem por hora com esse braço quebrado. —Foi o que disse. Resquícios traumáticos do incidente com o ônibus também incomodavam o namoradinho do Augusto.
—Eu também não estou afim, podem ir vocês.
—Ah! Gente, —apareceu Carol. —que coisa mais chata, vamos nos divertir um pouco... Nunca pensei que fosse ser tão sem graça passar uns dias com vocês. Deveria ter trazido minha guitarra!
—Ainda bem que você a esqueceu! —Fui obrigado a mencionar.
—Nem foi esquecimento, foi mais falta de espaço.
—Por que você não acompanha o Sander? —Perguntou Fernanda. —Vocês poderiam fazer uma dupla de guitarra e violino, talvez arrumassem um batéra, Carol no vocal... Seria louquíssimo!
—Eu não sei se seria capaz de acompanhar Carol na guitarra. —Sander ironizou. E todos riram baixinho, não queríamos irritar a gatinha de cabelos vermelhos. Apesar de gata, Carol era um irmão para mim.
—Bem, antes de mais nada, —Atalhou Fernanda, Ricardo estava mudo como se alguém houvesse colado seus lábios. —gostaríamos de saber se podemos ir com vocês? Caso contrário vamos embora. —Augusto disse que estava tudo bem e Carol consentiu, porque quem cala consente.
      Por fim Augusto acabou convencendo Vinicius a se aventurar, e como o efeito da porra do comprimido ainda borbulhava em seu sangue, consegui ver até uma ponta de entusiasmo quando realmente tomou a decisão. Eu não podia ficar, Carol me chamaria de traidor preferindo ficar a sós com Julia do que estar com ela, seria muito chato estar só entre os sete, Felipe, para mim, nunca foi nem mesmo um colega de classe.
—Vai ficar fazendo o que aqui, Julia?
—Tem certeza? 
—Não sei, acho que vou ler um livro.
—Divirta-se. —Debochou Carol ao se levantar. —De qualquer forma não acho uma boa ideia ficar sozinha. Tudo bem, pode ser que fosse apenas um morador das redondezas, mas que tinha um motoqueiro por aqui ontem a noite tinha. Tenho certeza disso.
—Eu volto mais cedo para lhe fazer companhia. —Disse eu. Carol me flechou com os olhos. —E além do mais quem vai preparar o almoço? Julia pode me ajudar, assim vai estar tudo pronto quando vocês retornarem.
—E quem disse que queremos passar toda a manhã explorando a região? Não há nada por aqui além de pastos.
—É que já não são mais dez horas Já é quase meio dia. .
—Tudo bem, Renato! Você é quem sabe. Vamos, então?
     Com o chamado de Carol, todos se levantaram e partiram rumo a sala. Vinicius perguntou à Julia, ainda sentada e melancólica, se realmente queria ficar, logo saiu parecendo rir sem saber do que.
—Eu não vou demorar. —Disse colocando minha mão sobre o dorso da dela. O contato foi como elétrico, a vontade que tive de abraçá-la, beijá-la e sugá-la foi contrariamente reprimida, mas aquele toque nos acordou em direção ao que já pensávamos e queríamos.
—Vou esperar. —Respondeu se dirigindo aos meus olhos.  Então saí meio apressado para alcançar os outros.
—Anda João, que a vida é curta e a estrada é longa! —Gritou Carol de dentro do conversível, imitando um locutor de rodeios.
    Saltei a porta do conversível e já estava no carro que saiu logo em seguida levantando poeira. 



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(Explorando a região)


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