A grade de segunda era composta por duas aulas de Biologia humana, duas aulas de Física, Inglês e duas de Prática Esportiva. Não pensei que seria tão difícil voltar ao Campus após aquele período de recesso, voltar ao Campus com aquelas lembranças de Júlia e Ricardo. O Fantástico exibiu exatamente o que aconteceu conosco na noite do incêndio, com direito a uma reconstituição que fora filmada com urgência na tarde do mesmo dia. Uma reconstituição embasada em nossos relatos, ainda não se tinha nada confirmado pela pericia ou policia cientifica. Acharam o corpo dela jogado em uma vala há um quilometro da sede, além do braço engessado, o corpo apresentava hematomas e indícios de violência sexual, dois tiros na cabeça. Os outros alunos nos olhavam estranho, sempre o fizeram, mas agora isso era bem explicito. Até Fernanda que sempre fora popular e cheia de contatos, parecia ter sido isolada e julgada pelos semblantes severos de quem cruzava com ela pelos corredores, as garotas no banheiro quando a encontravam não sorriam mais, saiam cabisbaixas e medrosas. Ela havia sido banida de qualquer conversa em grupinho que não fosse o nosso. Eu estava receoso porque nas últimas duas aulas me separaria do pessoal, eu era o único que praticava natação, e certamente toparia com os amigos de Ricardo. Maurílio Senna e Takano estavam de olho em mim. No refeitório encontramos uma mesa próxima ao lavatório, um lugar terrível para se comer, cheirava pinho para vasos sanitários.
—Cara, a sensação que tenho é que estão querendo nos enfiar num espeto. —Disse Carol.
—Seria ótimo se essa impressão fosse apenas sua. —Augusto e Vinicius estavam do outro lado da mesa, dispersos, mordendo seus terríveis hamburgers. Eu sempre optei por salada de frutas ou sanduíches naturais, barra de fibras; às vezes me animava com um cachorro quente, mas aqueles hamburgers... Sempre achei-os parecidos com solas de sapato. —Vocês estão bem?
—Você está? —Devolveu Vinicius. Eu não respondi. Fernanda lia um jornal enquanto consumia rosquinhas de nata com creme de avelã. Eram deliciosas, porém muito caras. Era difícil admitir, mas Augusto vinha pagando inclusive minhas refeições. Eu devia muito à ele.
—O que está lendo, Fernanda?
—O que foi?
—O que está escrito no jornal? —Então ela se vira e mostra a manchete para todos na mesa.
—“Caio S. Freitas de Amaral, filho de deputado, é reencontrado e diz ter sido seqüestrado e preso em cativeiro por todos esses meses.” - Leu a dona do jornal. —É.. vocês se safaram dessa.
—Mais alguma coisa?
—Há uma outra reportagem sobre seu pai, Augusto. —Fez uma pausa e prossegui com a leitura. —“Doutor Marcos Bueno de Almeida, posto em liberdade há três dias por um pedido de habeas corpus está foragido e novamente procurado pela policia.”
Quando voltamos à cidade, tivemos conhecimento que doutor Marcos não estava mais na cadeia, mas também não estava em casa. Augusto não era totalmente culpado por tudo que vinha nos acontecendo, também tentava entender alguma coisa, mas no fundo todos sabíamos que de alguma forma ele era o eixo central de toda a desgraça. Ao mesmo tempo que sentia pena dele por estar passando por essa porra toda, também sentia raiva, e assim ia levando.
—Eu estou preocupado com as duas últimas aulas.
—Você tem razão. —Mencionou Augusto. —Vamos estar separados. Acha que podem fazer algum troço com a gente?
—Onde vão estar?
—Nós dois —Vinicius e ele. — Vamos estar no tênis de mesa.
—Você sabe que eu me recuso a praticar qualquer coisa, estarei reclusa na biblioteca até o último minuto. —Carol entregava atestados falsos que comprovavam que ela possuía um mal terrível em algum ponto de sua coluna vertebral, algo que poderia destruir os sonhos de uma jovem colegial caso fosse posto a prova. E isso, por vontade, a invalidava atleticamente.
—Tenho Xadrez. —Disse Sander.
—Não sei por que xadrez é considerado pratica esportiva. —Disse Fernanda sem mencionar onde estaria.
—Talvez porque é possível exercitar o cérebro.
—Onde você vai estar? —Perguntei.
—Yoga.
—E você acha que yoga é uma pratica esportiva? —Ironizou Sander.
—Eu acho que é.
—Acho que não precisamos nos preocupar. Não vai acontecer nada. —E assim Vinicius encerrou a conversa.
Mas o fato, irmãozinho, é que aconteceu. Naquelas duas últimas aulas a elite estudantil brasileira se voltara contra nós e deixaram bem claro que não queriam nossa presença por ali, entre eles. Eu ficava imaginando se nós, de alguma forma, tínhamos nossa parcela de culpa sobre tudo que vinha acontecendo. Se os outros enxergavam em nós uma ameaça constante.
—Estarão no enterro essa tarde? —Perguntou Felipe.
—O de ontem já não foi suficiente? —O corpo de Ricardo, quero dizer, os ossos e o que sobraram dele, levou um tempo maior para ser liberado.
—Eu não sei se seria uma boa idéia.
—Eu preciso ir. —Disse Fernanda.
—Alguém mais vai? —Ninguém respondeu. O sino tocara logo em seguida e eu precisava enfrentar meus fantasmas. Por outro lado estava ansiando estar na piscina, porque sabia que estando lá dentro tudo estaria bem, os problemas do mundo não me afligiam dentro d’água. O treino era uma forma semanal de drenar toda carga conflituosa que se acumulava entre os dias. Vi Sander levantar-se e pegar sua bandeja, provavelmente estava levando até o carrinho móvel encostado na parede, que também servia como lixo quando um imbecil do segundo ano, propositalmente, colocara um pé em sua frente lhe fazendo tropeçar e cair com tudo no chão. Houve um tumultuo geral, o refeitório inteiro aplaudiu, assoviou ou riu da situação. Sander se levantou meio confuso e antes mesmo que pudesse pensar em dizer ou fazer algo, Carol lhe pegou por uma das mãos e o tirou de toda aquela confusão.
—Está vendo. — Alertei-os. — Já começou. —Então peguei minha mochila e desci para o vestiário.
Os outros caras estavam chegando juntos comigo, no terceiro ano, somando todas as turmas, haviam onze de nós, nadadores. E Ricardo Bensimon era um de nós, talvez o melhor, ficamos em dez. Pablo me cumprimentou de longe, sempre foi chegado, agora estava distante, nem quis falar. Estranhei. Andei até meu armário, pensei que fosse encontrar algo por lá, mas não havia nada, nenhuma pichação ou envelope contendo um recado ameaçador, não havia nada disso. Se trocar no vestiário era extremamente chato, tirar aquele uniforme que mais parecia uma armadura, gravata, paletó, camisa... Vesti minha sunga e coloquei a toca, os caras pareciam comentar alguma coisa entre eles, mas não parei para observar, não lhes dei confiança, pelo fato de ser o único bolsista entre eles, sempre estive a margem. Apenas segui adiante. O treinador já estava próximo a piscina com seu apito incomplacente. Os outros saíram logo atrás fazendo com que o Siqueira se aproximasse de nós. Parecia mais sério que o de costume. Suspirou antes de nos encarar e dizer qualquer coisa.
—Bem... como vocês já sabem, infelizmente perdemos um nosso. De uma forma trágica e sofrível até, eu poderia acrescentar... Acho que é hora de rezarmos pela alma de Ricardo e pedirmos para que Deus lhe conforte onde quer que ele esteja.
Houve um silêncio fúnebre após isso, era como se ele estivesse ali, em algum lugar observando tudo aquilo. Aquela pausa durou mais do que deveria, e ao perceber que todos estavam olhando para mim, continuei estático.
—Renato Fortino foi o último de nós a estar com Ricardo, inclusive participou de todo trágico acidente. —Pronunciou o professor. —Gostaria de dividir algo conosco, Renato?
Eu iria dizer o quê?
—Acho que não, treinador. Tudo que poderia dizer já foi visto pela tevê.
—Você estava lá, seu bolsista filho da puta! Deixaram o cara queimar vivo... —Me acusou Takano.
—Você não sabe nada. Vá se fuder!
—Não vou permitir esse tipo de comportamento nas minhas aulas, entenderam? Não permito agressões sob nenhuma forma de manifestação. Pela manhã os alunos iniciantes não tiveram tempo de guardar suas pranchas. Farão isso após o treino. Os dois só estarão dispensados quando tudo estiver em seu lugar. Agora em suas marcas. —Ordenou o treinador.
—Podemos fazer a homenagem? —Perguntou outro comparsa de Takano.
—Já está tudo pronto. Os primeiros duzentos metros faremos escutando a banda preferida de Ricardo, Radiohead, o que ele mais gostava de fazer era passar horas nessa piscina aperfeiçoando seu nado de costas. Vamos fazer essa homenagem ao nosso colega. —Anunciou, logo em seguida ligou o aparelho de som e dera o apito de largada. A música se chamava “Street spirit”, você possivelmente já deve ter escutado em algum lugar por ai.
O nado de costas não é meu preferido, o nadador deve nadar sobre suas costas durante todo o percurso, sair dessa posição pode ocorrer desclassificação do mesmo. A batida de pernas é semelhante à pernada do estilo crawl, os braços alongam-se por cima da cabeça de forma alternada e, entram na água passando próximos a orelha, com a palma da mão voltada para fora. Na tração, o braço empurra a água e impulsiona o corpo em sentido oposto. Nadamos sem nenhum sinal até o aparelho de som ser desligado. Logo em seguida o professor pediu para que de dentro da piscina salvássemos Ricardo com um coro de palmas. Foi o que fizemos. Mesmo sabendo que Bensimon jamais seria um herói, me juntei aos outros e fiz barulho com as palmas das mãos. Após quase duas horas de revezamentos, Siqueira liberara o pessoal para se trocar e nos deixou claro que só iríamos para casa quando todas aquelas pranchas estivessem empilhadas organizadamente em seus respectivos armários.
Comecei o serviço tentando ignorar aquele japonês desgraçado, mas logo ele se aproximou.
—Fiquei sabendo que você não mora mais com seu pai, que agora está morando com aquele idiota da nossa sala, aquele que tem o carro conversível... Deve estar sendo melhor agora, quero dizer, cheguei a passar na porta do seu velho edifício algumas vezes, o trajeto feito pelo ônibus me obrigava a isso, e por várias vezes perguntei a mim mesmo como era possível alguém morar num prédio escroto como aquele... Um monte de gaiolas empilhadas. Cara, deveria ser terrível. Eu acho que deveria feder...
—Takano, —Disse seriamente, alguns diriam de maneira sensual. —Você tem fotos de sua mãe pelada?
—O que quer dizer com isso?
—Por que caso ainda não tenha visto e queira comprar... —Ele me jogou contra o armário. Mantive a calma e ri sarcasticamente.
Tive uma vontade enorme de lhe deixar um olho roxo, de socar a cara do filho-da- puta até ele me pedir para parar. Mas ele tinha razão, eu era um bolsista, não podia estragar tudo para mim logo agora que estava tão próximo de me formar. Não estragaria tudo de vez socando aquela cara sem vergonha de Takano. Aquela cara horrível, redonda e achatada de japonês.
—Você poderia manter distância? Toda essa aproximação pode te deixar excitado. —Então abri espaço e comecei a empilhar as pranchas que estavam soltas na entrada do vestiário. Confesso que senti vontade de chorar, pensei nas palavras, que normalmente as pessoas usam como armas para se defenderem, e também para atacarem. Fiz grande parte do trabalho sozinho, Takano se movera em duas ocasiões, uma em que o treinador apareceu para fiscalizar, e outra quando o mesmo retornou para dizer que estava indo embora e que nós, poderíamos nos considerar liberados.
Se tivesse sorte, Augusto e Carol ainda estariam me esperando, caso contrário chamaria um táxi que Augusto pagaria chegando em casa. Me sentia mais a vontade com a primeira hipótese. Corri para o vestiário. Terminava de tomar uma ducha quando o desgraçado do Takano se aproximou, estava acompanhado de Maurílio, pareciam querer me ferrar.
—Ei, Caras... —Disse pegando a toalha, tentando me esquivar. — Não vamos levar isso adiante, está certo?
—Cala sua boca seu bolsista de merda. Você é que não sabe o que já fizemos com bolsistas aqui dentro desse vestiário.
—Hum... —Eu disse. —Se revelando Takano? Pensei que rolassem coisas aqui dentro com as meninas do primeiro ano, não com bolsistas.
—Você está me achando com cara de palhaço, Fortino? —Disse partindo para cima, me encurralando. Tive tempo de passar a toalha na cintura. Maurílio se aproximou com um sorriso debochado.
—Se tem um veado de merda aqui no meio da gente, cara. Pode ter certeza que é você. Você é quem anda com aquela bicha do Augusto Almeida. Está até morando com ele. O que acontece quando vão dormir, ein? Você chupa ele? Ou prefere comer a bundinha?
—Sai fora, Takano. Eu não quero problema com você, cara.
—O que fizeram para salvar meu primo? Simplesmente deixaram ele morrer naquele curral.
—Ninguém teve culpa de nada que aconteceu... Ele estava baleado...
—Olha só, Maurílio. Para um bolsista você não acha que o rapaz se porta até bem?
—Chegou sua hora, Fortino! —Disse Maurílio puxando o canivete. —Faz tempo.
—Nós vamos brincar com você um pouco essa tarde, o que acha? Pode brincar com a gente também se você quiser. Vamos sair daqui juntos.—E começaram a rir sarcasticamente. —Depois vamos te encher de porrada, te encher mesmo, e se tiver alguma esperança e sorte, talvez, te deixemos numa lixeira qualquer. —Então ele se aproximou roçando o pau duro em minha perna. —Você gosta, não?—Não pensei antes de agir, mas com um movimento brusco da perna dei-lhe uma joelhada no meio do saco e lhe empurrei contra a parede. Ele se contorcia. Maurílio veio se aproximando na tentativa de me render, mas logo escutamos passos vindo em nossa direção. Ele fechou o canivete e o escondeu no bolso.
—O que está acontecendo aqui? —Perguntou Carol.
—Ei moça, você está no vestiário masculino. —Advertiu Maurílio.
—Não diga! Eu entro onde eu quiser, seu idiota! —Carol era adorada por sua petulância. —Vamos sair daqui, Renato, estávamos te esperando.
Troquei-me rapidamente e corremos em direção ao portão de alunos, pássaros revoaram quando atravessamos o estacionamento. Augusto nos aguardava cantarolando uma música estranha, que eu não conhecia, nem fazia idéia de quem cantava.
—E aí? Tudo bem? —Perguntou. Vinícius estava no carro.
—Nem tanto. Vamos dar o fora daqui.
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(Renato e os outros nadam em homenagem a Ricardo)
(Estacionamento Campus PH)


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