Eu andava tão perdido, andava sem saber o que fazer, meio desnorteado, como alguém que vê pedras em chamas caindo do céu, ateando fogo por todos os lados e te deixando ileso. Eu só queria fugir, todos aqueles dias e meses se passaram sem que eu nada fizesse. Estava apenas fugindo. Eu não pensava a respeito, agia impulsivamente a favor de algo que só me destruía, por um período estivemos assim, abusei de substâncias, esqueci quem eu era. Talvez a companhia de Augusto não tivesse me fazendo tão bem, o uso indiscriminado de todas aquelas porcarias, a tristeza que batia quando o pó acabava e ele inventava de retirar grana no caixa eletrônico e correr atrás de um pouco mais, de alguma outra coisa. Isso tudo é decadente... Se eu pudesse respirar o ar puro de meses atrás, quando tudo parecia mais simples, quando os dias eram alegres e não tão úmidos como hoje... Se eu ainda pudesse...
O Campus já não era mais o mesmo, os amigos também não, eles se transformaram em uma coisa incomunicável, sabíamos qual era o problema e simplesmente o ignorávamos, ninguém queria falar, e por várias vezes cheguei a conclusão de que estávamos exagerando. Estávamos ficando altos tempo demais.
As noites pela cidade, andando de região em região, nos levou a conhecer diversos lugares, inclusive submundos fétidos atrás de ter o que fumar, o que cheirar, o que engolir. Sander sabia cada canto sujo habitado por traficantes e também freqüentava os condomínios mais elevados a procura de qualidade, ou quando queria algo como extasy ou GHB. Foi Sander quem nos transportou para essa segunda cidade que só alguns conheciam, e nos fez aprender o valor de cada substância, o efeito que cada uma delas produzia no organismo e a quantidade ideal de se consumir, que quase sempre era desobedecida, quando lembrada.
Eu tinha chegado da casa do César, — jogávamos continuamente todas as tardes, saiamos para curtir uma sinuca e mexer com a mulherada. Acabamos no motel com algumas delas uma vez, em quartos separados obviamente. A que estava comigo deu uma chupada no meu pau ainda no carro, no banco de trás, e então César pediu para a que estava com ele fizesse o mesmo enquanto dirigia, e você não vai acreditar, a garota vomitou enquanto chupava o cara, simplesmente vomitou, sobre o pau dele e o banco do carro. De modo que César ficou sentado em uma poça de vomito, e o cheiro azedo nos fez perder um pouco do tesão, mas nem tanto. —Augusto tinha Ketamina, convenceu-me de experimentar. Eu não tinha nada a perder. Parecia que aos poucos eu ia cedendo. Cherei aquilo sem saber exatamente o que era, se algo acontecesse, se morresse duro como um gato, culparia o destino, ou Deus, ou qualquer outra coisa que possa ter me levado a trilhar aquela estrada bifurcada e tão cheia de armadilhas. Culparia algo que não fosse eu mesmo.
Sob recomendações do professor Franz, estava lendo um conto de Marcos Rey onde Augusto é um cachorro desses de rua que ao ganhar um dono e um lar adotivo se torna triste e apático, mas ao mesmo tempo transforma-se em algo de extrema importância na vida daquele que o acolheu. Eu me sentia o próprio Augusto, o cachorro.
Queria muito tomar uma ducha e descer até a casa de Carol, beber uma Coca-cola e fumar um cigarro enquanto escutamos um novo disco qualquer, mas sou impossibilitado pelo peso em minhas pernas que dificultam o movimento ágil e com isso afeta o meu desejo de levantar e tomar banho quente. A Ketamina primeiro te acelera, depois te detona todo. Movendo um pouco a cabeça, pude ver Augusto, meu amigo, inconsciente, os olhos abertos enquanto a mente e o corpo descansa, enquanto eles absorvem os amenos e últimos raios do sol na escuridão de seu quarto, no tapete branco importado de algum lugar da Europa. Eu estava começando a achar a vida de Augusto uma coisa estúpida, e nem sabia exatamente porque, talvez porque passei as últimas semanas vivendo a vida dele, a vida que não se resumia em nada mais além de compras, carro, música e drogas. A natação era o que eu mais tinha de mim no momento, só quando estava na piscina, submerso n’água, puxada lateral, puxada para baixo e puxada para dentro; o movimento das pernas simultâneo e em forma de chute para trás é que eu estava mesmo vivendo minha vida, eu voltava a ser Renato.
Dizem que depois dos vinte a vida muda, dizem que tudo muda, você passa a ver as coisas e pensar sobre elas de um jeito diferente, e que os anos passam mais rápidos do que quando estamos no segundo grau; eu não sei dizer, e detesto me fazer de vitima como quase todos que conheço, mas não é fácil ter só dezoito e não ter nada. Começo a odiar todos os tipos de datas comemorativas, detesto Natais, dia das mães ou dos país, aniversários, dia dos namorados já que nunca tive alguém pra valer, detesto o carnaval por não suportar uma festa tão longa e colorida, e também não curto a páscoa, me dá nostalgia. Tantas coisas passavam em minha cabeça, eu queria tomar um banho, mas não tinha coragem de me levantar. O quarto cada vez mais escuro, Augusto cada vez mais impronunciável. Eu repetia inúmeras vezes para mim mesmo: Em algum lugar o tempo está passando, Renato. Em algum lugar o tempo está passando.
Não sei explicar o que aconteceu ao final daquela noite de quinta, mas a sexta amanheceu de repente, eu estava em minha cama, queria que fosse domingo.
Sem saber que naquela manhã fazia companhia a Augusto rumo ao colégio pela última vez, acabei passando grande parte do trajeto sem nada dizer. Apenas percebendo como a voz de David Usher pode parecer terrivelmente triste em certos dias. Agora éramos apenas nós dois, Eu não mais dividia o banco traseiro com Caio, tudo estava diferente, a falta que Carol fazia criava esse ambiente mudo que o som do carro preenchia. O vento que nos envolvia trouxe água, limpou toda a cidade horas atrás, mas não nos devolveu nada do que perdemos nos últimos meses, o vento apenas levava as coisas, era essa sua missão, mover tudo de lugar. O sol que Agosto trouxe e fez do cerrado o que normalmente ele é, se esquivava aos poucos. Era final de Outubro, a festa de Halloween, que aconteceria em alguns dias, marcaria o inicio dos testes de fechamento e em um mês estaríamos de férias anuais. No nosso caso, livres do Campus para todo o sempre, um ciclo que se fechava. Aquelas quatro eram nossas últimas semanas. Da rodovia era possível ver longe os inúmeros prédios, a poluição crescente, nos trechos menos urbanos, os campos cobertos de capim e árvores locais. Adorava Goiás, aquele pedaço de chão brasileiro, lugar onde é possível ver o sol no horizonte em seu último minuto diário, em sua despedida, nosso querido rancho. Nosso verdadeiro lar.
Sem saber que naquela manhã fazia companhia a Augusto rumo ao colégio pela última vez, acabei passando grande parte do trajeto sem nada dizer. Apenas percebendo como a voz de David Usher pode parecer terrivelmente triste em certos dias. Agora éramos apenas nós dois, Eu não mais dividia o banco traseiro com Caio, tudo estava diferente, a falta que Carol fazia criava esse ambiente mudo que o som do carro preenchia. O vento que nos envolvia trouxe água, limpou toda a cidade horas atrás, mas não nos devolveu nada do que perdemos nos últimos meses, o vento apenas levava as coisas, era essa sua missão, mover tudo de lugar. O sol que Agosto trouxe e fez do cerrado o que normalmente ele é, se esquivava aos poucos. Era final de Outubro, a festa de Halloween, que aconteceria em alguns dias, marcaria o inicio dos testes de fechamento e em um mês estaríamos de férias anuais. No nosso caso, livres do Campus para todo o sempre, um ciclo que se fechava. Aquelas quatro eram nossas últimas semanas. Da rodovia era possível ver longe os inúmeros prédios, a poluição crescente, nos trechos menos urbanos, os campos cobertos de capim e árvores locais. Adorava Goiás, aquele pedaço de chão brasileiro, lugar onde é possível ver o sol no horizonte em seu último minuto diário, em sua despedida, nosso querido rancho. Nosso verdadeiro lar.
Sexta-feira, quarta aula, havíamos acabado de voltar para a sala, Sr. Amorim falava qualquer coisa sobre a geografia do comércio mundial. Coisa que nunca escutei falar. Na hora do intervalo, aquela meia hora antes, Sander e Augusto se juntaram e desapareceram, ele havia me contado que numa ocasião em que deveria estar na biblioteca, dias atrás, fugira com Sander para um esconderijo próximo ao fumódromo. Era uma mini-sala que antes era trancada, mas sem que ninguém soubesse alguém havia lhe arrombado sem deixar marcas aparentes. Haviam cheirado umas carreiras por lá, foi o que me disse. Este dia quando os reencontrei, pouco antes de entrarmos para sala, pareciam meio amedrontados e riam bastante, a pupila dilatada. Senti um cheiro de maconha disfarçado por cremes de rótulos caros. Haviam inclusive abandonado Carol e Vinicius, que ficaram a ver navios enquanto Fernanda, Felipe e eu tentávamos remontar o quebra cabeça que é o filme “Cidade dos sonhos” de David Lynch. Quando, já dentro da sala, foram chamados pela secretária eu tive certeza que seria por causa disso, que ambos tinham culpa de algo e que o diretor não deixaria mais passar em branco. Outra suspensão? Não sei. Os rumores diziam que nós éramos os responsáveis por trazer a desordem, o caos, o sangue para dentro da instituição. Quando saíram cabisbaixos, Vinicius e Carol me olharam interrogativamente. Eu retribui o olhar e voltei ao professor Amorim, a observá-lo, dar vazão ao que um professor dizia era algo que fazia mecanicamente. O homem que nos ensinava geografia tinha seus cinquenta e três anos, parcialmente calvo, sempre usava camisa branca e gravatas sóbrias, falava convulsivamente e tinha fama por gostar de implicar os alunos e cuspir neles ao falar, em sua aula os que sentavam na primeira carteira se protegiam como podiam, com cadernos de capa dura que faziam o papel de escudo. Ele era mestre em fazer ironias desnecessárias e algumas vezes até ultrajá-los publicamente. Sua filha, Ana Dayse, fazia o primeiro ano e era uma gorda, feia e desbocada, gostava de rir escandalosamente, é presidente do comitê de eventos.
Muito tempo depois, mas ainda dentro daquela hora, a porta da sala se abriu e ambos entraram, Sander estava sorrindo sarcasticamente, Augusto parecia ter chorado e olhava o chão, evitando cruzar os olhos com quem quer que fosse. E foi notando a fragilidade daqueles dois coitados que o professor Amorim se movimentou e lançou o primeiro golpe de espada.
—Acharam que poderiam sair ilesos dessa? Alguns garotos mimados e marginais acabam assim mais cedo ou mais tarde.
Foram até suas carteiras sem nada dizer e começaram a guardar suas coisas. Nesse pequeno intervalo em que todos os olhavam não muito surpresos, mas curiosos, foi possível ouvir Vinicius perguntando o que tinha acontecido. Alguns idiotas fizeram comentários estúpidos e riram da cena. Falando que o namorado estaria preocupado.
—Agora não, Vinicius. —Respondeu Augusto centrado em seus cadernos.
—Agora vamos ver uma briga de casal. —Comentou Takano. Augusto reagiu.
—Porque você não cala sua boca, seu idiota, ou quer que eu vá ai fazer? —A agitação foi geral e o professor pareceu desequilibrado ao perceber que perderia o total controle.
—Rapazes, queiram lembrar que vocês estão numa sala de aula! —Gritou Amorim.
—Ei, não estressa... Meu bem! —Acrescentou Takano, ele olhava para Augusto interpretando um homem afeminado no auge de uma ardente paixão. O fato é que meu amigo, que você já conhece muito bem, sempre foi um pouquinho esquentado e impulsivo, reagiu falando que iria fazer Takano aprender uma lição naquele momento. Vinicius que estava logo atrás se levantou e tentou impedir, houve uma euforia tremenda, iria rolar carnificina. Takano se levantou e ficou ao fundo cercado pelos amigos, fazendo graça, mandando beijos, chamando Augusto para luta corporal, sem dizer uma palavra, pois poderia ser advertido. Pensei em levantar-me na tentativa de controlá-lo, mas não quis me envolver, e antes mesmo que pudesse decidir que atitude tomar, Carol se levantou e o puxou pelo braço.
O professor em protesto bateu com o apagador no quadro algumas vezes, chamando-nos a atenção.
—Eu quero todos sentados imediatamente. —Quase tudo cessou, o tumultuo instantaneamente desapareceu. Carol ainda estava em pé, conversando em tom baixo com Augusto, que neste momento parecia muito transtornado.
—Caroline Araujo, por favor, acomode-se em sua carteira.
—Eu posso acompanhá-lo ao portão? Acho que ele não está passando muito bem.
—Queira se sentar. —Carol o encarou, como se lhe implorasse em silêncio. —Sente-se agora, Caroline. —Ordenou Amorim. Carol com medo da represália sentou-se contra sua vontade.
—Vocês dois... —Continuou o professor, cometendo o erro de puxar Augusto pelo braço.
—Tire suas mãos de mim! Seu velho pançudo, detestável. —Disse Augusto virando-se para o professor. —Espero que sobre tudo que já fez cada aluno desse colégio passar, você amargue os últimos dias da sua vida e tenha uma morte horrível e dolorosa. —E agora não houve nenhuma agitação, e sim caras surpresas, bocas abertas, olhares arregalados. Nunca na história do Campus alguém ficara sabendo de um desacato tão grande contra um professor.
—Muito bem, senhor Almeida, —Amorim deixara transparecer um certo receio, um indicio de insegurança. Afinal acabara de ser praguejado, ou amaldiçoado, sei lá. Estava clinicamente alterado.— irei tratar de deixar anexo em sua transferência uma carta de observação assinada pelo diretor e timbrada com o carimbo dessa instituição. O que segundo a minha larga experiência, para não mencionar o que a imprensa está falando a seu respeito, irá dificultar e muito a sua entrada em outro colégio que possua um mínimo de dignidade. Agora queiram se retirar da minha sala, por favor. —O professor abrira a porta, a sala estava estática, e em êxtase. Sander foi o primeiro a passar por ela e saiu assim como entrou, sem nada dizer e com aquele sorriso que debochava de qualquer um que estava ali dentro. Eu sabia que agora Augusto não tinha nada a perder, o que o deixava muito perigoso, quem o conhecia tinha noção dessa coisa e foi no exato momento em que me passava isso pela cabeça que o vi cuspir na cara do professor ao atravessar o portal, passos antes de alcançar o corredor.
—É isso que eu chamo de cuspir no sistema educacional desse país. —Saiu. Em seguida o senhor Amorim pediu licença e a algazarra na sala foi total, gritavam, riam, falavam, e no meio de tudo ouvi Takano dizer que adorava Augusto.
—Meu, eu adoro mesmo esse tal de Almeida. Quem diria!
Carol, Vinicius e Fernanda pareciam tão perplexos quanto eu.
Dizem que depois dos vinte a vida muda, dizem que tudo muda, você passa a ver as coisas e pensar sobre elas de um jeito diferente, e que os anos passam mais rápidos do que quando estamos no segundo grau; eu não sei dizer, mas torço para que estejam certos.
(A sala de aula sob o comando do professor Amorim)

Nenhum comentário:
Postar um comentário