—Odeio essas festas ridículas... Proibir a gente de fumar numa festa? Onde já se viu... —resmungava Carol, já pensando em abandonar a cesta de piquenique, acessório indispensável de sua fantasia. Que a essa altura já havia se transformado em um fardo, uma mala sem alça. Sander carregava a cabeçorra de lobo nas mãos.
—Deixa essa porcaria de cigarro para lá. Isso vai acabar te matando... —Ele não gostava de cigarros industrializados e sempre que podia nos expunha as advertências do Ministério da Saúde como quem prega à semi-analfabetos. Ela acendeu um Lucky Strike enquanto caminhavam entre os carros, em direção oposta a que estava a patrulha naquele momento.
—Não acha melhor deixarmos essa cesta e sua cabeça por aqui, em algum lugar? A gente pode dar uma volta pelo estacionamento, ele é tão grande... —Parecia sugerir algo mais.
—Sabia que nós pensamos juntos, Carol! —Disse ao mesmo tempo em que saiam da rota, entravam entre os carros, procurando um abrigo para o peso que carregavam. —Normalmente quando estou pensando em algo você diz, ou acontece o contrário. E quando penso em você, logo depois você me liga.
—Você pensa em mim o dia inteiro! —Brincou ela.
—Penso sim, mas quando me esforço muito, logo depois você liga.
—Eu também já percebi... Talvez isso queira dizer que estamos na mesma sintonia. Sabe? Parapsicologia. —Abaixou para guardar os empecilhos. — Vamos deixar isso aqui mesmo, está ótimo! —Um espaço restrito entre dois veículos negros...
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Decididamente ninguém nos viu saltar a janela, a queda foi um pouco dura, mais ou menos três metros, ela estava eufórica. O Campus PH era um sonho para quem passou a vida assistindo filmes e terminou o segundo grau apenas imaginando como seria estudar ali. O instituto possuí uma estrutura magnífica, são três imensos pavilhões interligados como um C, três imensos andares, gigantescas colunas de sustentação, um ar respeitável de cinqüentão. No centro dos três edifícios, ali onde estávamos agora, se encontrava o chafariz, os bancos de lazer, e a rampa de acesso as quadras de esporte, Piscinas e biblioteca. No primeiro piso do pavilhão central, estava o refeitório e podíamos ver, através das portas de vidro, o ambiente iluminado e vazio. Nunca pude imaginá-lo assim antes, e parecia-me muito mais triste quando abandonado. As paredes brancas, as cadeiras frias, o piso limpo.
—É enorme!
—É bem grande. Cento e vinte mil metros de área construída. Tem noção do tamanho?
—Não faço a mínima idéia...
—O que quer ver primeiro? Salas, laboratórios, banheiros, vestiários, lugares secretos...
—Quero subir no ultimo andar... Onde fica sua sala?
—Sala 206, pavilhão leste. —Apontei em direção. —Vamos, é por aqui. Passamos por lá e depois subimos ao último andar.
Inconscientemente entrelaçamos as mãos e subimos os dois lances de escada até o segundo andar. Os corredores estavam escuros e as únicas luzes que se viam, vinham do térreo, do refeitório, do chafariz, e até onde era possível se ver, da biblioteca.
—Como você conseguiu entrar aqui? Quero dizer... Deve ser caríssimo.
—Minha mãe me inscreveu numa lista de espera, e estudando muito consegui uma bolsa. Para mim não custa absolutamente nada, existem outros vinte e nove como eu. —Estávamos quase de frente a porta 206. —É aqui... —Disse abrindo. Era uma porta comum, de madeira e com um quadriculado de vidro no centro superior.
Entramos e a porta ficou aberta, os olhos já haviam se acostumado, de forma que mesmo no escuro era possível notar detalhes, com exceção de cores nítidas.
—Uau! Queria ter passado toda minha vida escolar aqui!
—Na pratica não é o que se pensam. Rapidamente poderia comprovar. —As salas assim como todo resto esbanjavam luxo e ostentava superioridade, móveis grandes, pesados e confortáveis, dimensões territoriais ampliadas, ornamentos e detalhes caros e sofisticados, coisas de primeiro mundo.
—Vendo até onde vi, nem dá para imaginar como deve ser o resto. O que vai fazer quando o ano acabar? —Ela já estava sentada sobre a mesa do professor.
—Eu não sei... Talvez entrar numa Universidade. Fazer Arquitetura.
—Depois do curso de apliques que eu fiz, —Comentou. —tenho ganhado tanta grana que nem penso em passar quatro anos numa Faculdade para me formar e continuar fazendo apliques. Muito menos gastar metade do que ganho todo mês, simplesmente para conseguir um diploma que muito possivelmente não me servirá de nada... Metade das pessoas que se formam não conseguem um emprego dentro da área que se dedicou.
—Sabe por quê? Estamos no Brasil. Na Europa as coisas são bem diferentes daqui.
—Em que Universidade está pensando?
—Certamente uma que não pague nada. A ultima semana letiva do ano é voltada para o vestibular. Existem várias Universidades do país interessadas nos alunos do Campus, então nos escrevemos em quantas quisermos e o próprio Campus aplica as provas, que são enviadas e corrigidas pela equipe responsável da Universidade em questão.
—E você se escreveu em quantas?
—Em nenhuma até agora. —Ela pareceu decepcionada. Caminhou até a janela da sala e eu a segui. De lá era possível ter uma visão parcial dos inúmeros carros que aguardavam seus proprietários em total repouso. Observando melhor notamos que algo se mexia entre dois veículos, fixei minha visão no movimento, eram duas pessoas.
—O que o Sander e a Carol estão fazendo lá fora?
—Onde? —Ela perguntou. Apontei com o indicador.
—Devem estar querendo um pouco de privacidade... Eles não são um casal?
—São, mas não aquele tipo de casal carinhoso, sedento, que precisa de privacidade. Aliás, sempre os achei muito frios um com o outro. Se parecem mais com irmãos...
—Não existe regra... As pessoas se gostam como podem, ou como conseguem. —Ela tinha toda razão.
—E você? Tem saído com alguém?
—Na verdade não... Terminei com um carinha há umas três semanas. Ficamos juntos cinco meses. Ele era escritor...
—Escritor?
—É... Gostava de escrever... Um conto que ele escreveu foi publicado na revista Cult, se chama “Gases por toda parte”. —O titulo não me pareceu atraente. Pensei no que seria. —É uma história sobre o terrorismo, um grupo que acaba com uma cidade inteira fazendo uso de um gás mortífero.
—Hummm... inicialmente pensei se tratar de outra coisa. E por que terminou? Não gosta de literatura?
—Não é isso... Acabei descobrindo por um amigo em comum que ele pretendia publicar uma história sobre uma travesti que trabalhava com apliques... E até onde esse amigo em comum leu a história, foi possível perceber que na verdade a travesti era eu. Entende? Quando li, fiquei espantada pela forma como ele descrevia tudo que eu era... Então terminei. Não estou preparada para me relacionar com artistas... Detesto ser retratada. —Justificou, a lembrança do escritor parecia deixar-lhe impaciente.
Bruna me contou outras histórias sobre seu ex-namorado, então propus que fizéssemos uma ronda contornando todos os pavilhões, poderíamos continuar o assunto enquanto ela matava a parte de sua curiosidade.
—E você, está saindo com alguém?
—Não. —Engraçado. Nos últimos seis meses devo ter transado umas nove vezes ou mais, mas quando a primeira pessoa que teve coragem de perguntar se eu estava saindo com alguém. Minha resposta foi um seco “não”. —Não estou saindo com ninguém. Acho que não tenho cabeça para isso no momento... Ficar com alguém requer muita dedicação.
—Pode ficar lá em casa se quiser.
—O que é isso? Uma proposta de casamento? —Ela estava apenas sendo gentil.
—Claro que não... Mesmo se estivesse com alguém teria feito o convite.
—Gosta de homens comprometidos? —Ela me deu um tapa leve de brincadeira. Em nenhum momento considerei aquilo. Permaneceria na casa de Bruna apenas mais uma noite. Depois procuraria um hotel barato próximo a rodoviária e me alojaria alguns dias até conseguir um emprego, qualquer coisa.
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No salão azul, que borbulhava na exata meia-noite, Augusto entrou sem ser notado. Possuía convites, usava a mesma fantasia do ano anterior, Capitão Gancho, porém sem a perna de pau. Carregava na mão livre um envelope branco tamanho oficio, e mesmo com um de seus olhos vedados, era possível notar certa alteração. O outro era pura lava.
Por algum tempo ele andou desorientado por entre as mesas, procurava alguém, olhou de longe o pessoal que dançava. Decidiu se servir com um pouco de ponche na esperança triste de que haveria vodka ali, indevidamente misturada por qualquer um. No entanto era só ponche, pareceu decepcionado e abandonou o copo segundos depois sobre uma mesa vazia. Ainda com os olhos na pista, notou Thais usando um vestido preto estranhíssimo e uma peruca que só gente fracassada seria capaz de usar, então reconheceu todos os outros, ao ver Vinicius pareceu curtir o visual, as calças apertadas de Elvis, o charme roqueiro, o topete natural feito a custas de gel e clara de ovo. Sorriu e foi ao seu encontro.
Ninguém estava o esperando ali, quando chamou por Vinicius e foi notado pelos outros três, Thais, Felipe e Fernanda, causou certo estranhamento. Estava nervoso.
—Precisamos conversar... Você não atende a porra do celular... —Reclamou gritando.
—Não está comigo, deixei em casa... O que você faz aqui?
—Eu tive que vir... Parece que todo mundo que eu conheço está aqui. —Passou a mão sobre o rosto, suava.
—Você está bem, Augusto? —Não parecia, os outros três haviam até parado de dançar.
—Preciso te mostrar um troço. —Vinicius notou o envelope que Augusto levava consigo. Em seguida disse à Thais que precisava sair, mas que voltava em um instante.
—Nós vamos com vocês. —Disse Fernanda.
—Não acho uma boa idéia, Fernanda. —Na verdade Augusto queria evitar qualquer pessoa que não fosse o Vinicius... Naquele momento examinava a possibilidade de falar apenas com Carol.
—Deixa dessa, Augusto... Eu estive naquela casa de campo e inclusive perdi alguém lá... Se isso que você tem para mostrar for algo que tenha a ver com aquele dia, eu tenho o direito de saber.
—Você é quem sabe. —E então saiu acompanhado de Vinicius,seguido pelos outros.
—Onde foi que tu conseguiu essa fantasia? —Quis saber o Elvis.
—É do ano passado. —respondeu secamente. —Viu Carol por ai? Renato? O Fernando tem ligado lá em casa procurando por ele.
—Estávamos juntos uma hora atrás... Depois desapareceram.
Passaram pela equipe da recepção, traçando o mesmo trajeto que Sander e Carol realizaram tempos antes e pegaram suas pulseiras.
—O que tem nesse envelope?
Distanciaram-se um pouco mais, naquele momento a viatura estava parada há uns duzentos metros, falavam com um grupo que fazia algazarra, pegaram a direção oposta. Augusto parou um instante, deixou o gancho que segurava com a mão direita cair no solo pavimentado.
—Alguém deixou isso lá em casa essa noite. —Entregou o embrulho nas mãos do namoradinho. —Não falaram com o porteiro, não tocaram a campainha. Apenas passou por baixo da porta e sumiu. —Do envelope saíram fotografias exatamente iguais aquelas que recebemos enquanto estávamos na fazenda. O conteúdo não era o mesmo, mas o tamanho ampliado das imagens denunciava a mesma autoria.
Nestas que Vinicius agora observava, ainda incrédulo, era possível ver-nos na área de lazer da casa de campo de Augusto. Uma delas mostrava todos nós na varanda. Julia sentada à beira da piscina enquanto Augusto e Sander boiavam nos colchões, Vinicius e eu próximos a mesa, com copos nas mãos. Ricardo estava escorado a porta da sala, observando tudo, parecia descrente. No canto direito, quase que cortadas da imagem, se viam Carol e Fernanda sentadas em uma mesa plástica vendo algo que parecia ser uma revista. Alguém nos observara o tempo todo.
—Você pode me explicar o que é isso? —Sinceramente. Fernanda fazia parte dessa história de um jeito que não deveria estar pedindo explicações.
—Eu sei lá o que é isso... E olha só, você esteve lá, mas não foi convidada por mim. Se alguém te meteu nessa, Fernanda, com certeza não fui eu. —Augusto soltou o verbo.
—Mas o que isso quer dizer, Augusto? Que alguém estava nos observando o tempo todo? Já sabíamos disso. —Isso acabou irritando-a um pouco mais. —Você veio até aqui para nos dizer isso?
—Não.
Augusto suava, passou a mão no rosto algumas vezes, esfregou o olho, tirou o tampão do outro, o chapéu. Apoiou-se com uma das mãos no carro mais próximo. Parecia estar sumindo.
—Augusto está tudo bem? —Quis saber Vinicius. Foi então que Augusto se apoiou em Felipe que estava ao seu lado e num de repente desabou no chão. Quase como quem morre, sem dor sentir.
CONTINUA....
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(Campus PH comemora o Halloween)

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