Se pegasse o elevador e parasse no nono andar, quando as portas se abrissem, veria um espaçoso corredor. As cores da parede, assim como a decoração do hall de entrada, era de responsabilidade e gosto dos proprietários. O que de comum havia em todos, eram as duas portas laterais do lado direito, e uma terceira porta central, do lado oposto ao elevador, que dava direto para a cozinha. As paredes de Augusto eram revestidas por um papel de parede, de um amarelo bem claro, onde bem de perto, só bem de perto, era possível ver uma tênue linha vertical, de um marrom achocolatado, linha essa, que se repetia por todo o corredor, espaçosamente. A porta de uma das salas se abriu, a segunda porta lateral, se não me engano. Pude ver Renato caído no sofá logo que entrei, de fato, de onde estava era possível ver apenas as pernas de um cara deitado no sofá. Mas imediatamente, de alguma forma, eu sabia que aquelas pernas brancas ali caídas de maneira tão solta, eram de Renato Szabo Fortino. Entrando, a única luz a iluminar o ambiente, vinha do televisor, o brilho azulado e característico, que se propaga em todas as direções.
Alguma coisa parecia ter acontecido, digo por que Augusto, não parecia demonstrar normalidade dentro dos padrões, dentro de seu próprio padrão natural. De inicio, recebeu-me de forma um pouco agitada, e minutos depois, ao lado do outro amigo, se entregava à pequenos surtos retóricos de modo tão involuntário, que pareciam verdadeiros imbecis.
Inicialmente, de forma alguma, consegui fazer com que detalhassem o que havia acontecido com Ismael ou pelo menos um pouco do que pensavam a respeito sobre o que havia acontecido à ele, suas impressões sobre o fato. Estavam compenetrados num filme antigo que passava na tevê, tão antigo que as imagens ainda eram sem cores e os movimentos dos atores, não davam indicio nenhum de que aquilo era humano. Segui algumas cenas com olhar curioso, talvez muito mais no comportamento extravagante de ambos, do que no antiquado longa que usavam como subterfúgio para não me olhar.
Irritei-me quando em certo momento, Augusto olhou para Renato e juntos começaram a rir descontrolavelmente, gostaria muito de ter simplesmente levantado e saído sem nada dizer, voltado para o elevador de onde saí, mas por algum motivo eu não o fiz, e as gargalhadas se tornavam cada vez mais extravagantes. Quando pedi para que parassem de rir e perguntei seriamente o que estava acontecendo, as gargalhadas chegaram a uma altura impossível, e pareciam não parar mais. Então levantei e disse alguma coisa besta, do tipo: “se soubesse não teria vindo.” Augusto levantou-se ainda em crise, pediu para que eu não fosse, lentamente Renato também se segurou de forma que minutos depois olhavam para mim como crianças culpadas, em dias de festa.
—Vocês tomaram alguma coisa?
—Não! —Respondeu Renato com olhos úmidos e contendo um riso afoito.
—Onde está Carol?
—A Carol nos abandonou. —demonstrou-se zangado. —Saiu com Sander e nos deixou sozinhos.
—Ela e o Sander estão namorando sério
—Eles estão se conhecendo melhor.
Essa última frase de Augusto me fez pensar na proximidade entre os dois, Renato e ele, estavam sentados no mesmo sofá e tão próximos um do outro, tão cúmplices e amigos.
Será que estavam se conhecendo melhor?
Talvez o distanciamento de Carol, por mais que fosse temporário, estivesse os aproximando. De alguma forma, sentia-me distante de Augusto, e era algo inexplicável porque simplesmente em um instante eu estava lá com ele e éramos amigos, confiávamos um no outro e isso nos confortava, e num momento seguinte eu não estava mais lá. Havia um outro no meu lugar, e pensar no porque não era mais eu, é algo que se pode até pensar, mas chegar as causas fundadoras de toda questão é algo árduo e penoso. Renato tinha olhos doces, verdes, mas ao mesmo tempo sombrios, sua pele era clara, como a minha, mas seus cabelos eram visivelmente mais claros que os meus, eram opacos e castanhos, de um curto médio que se penteava para frente. Usava cera de pentear para demarcar os fios. Sua educação e o modo como se comportava era conforme os moldes do Campus PH, possuía aquele ar de pessoas enriquecidas e era um cara bem atilado, com o intelectual acima do padrão geral, demonstrava elegância ao se vestir, ao tratar os estranhos e até mesmo ao sentar-se para uma refeição. Porém, apesar de não fazer propaganda, também não escondia a origem humilde e pobre de sua família. Não que fossem pobres desafortunados e marginalmente infelizes, mas estavam bem longe do alto padrão dos amigos que o cercava. Bem, isso para mim não é problema algum, eu não sei se para ele era algo conflituoso, mas acredito que não. Pelo menos não era o que demonstrava.
—Nós queimamos um baseado... —Confessou ele já meio morgado.
—Tudo bem, —Eu concordei de modo irônico. — com tanta coisa acontecendo vocês fumaram um baseado! Onde? Aqui?
—Não olhe para mim, — disse Renato. —foi idéia dele.
—Precisava me distrair um pouco, sabe como é... tanta coisa acontecendo… além disso o Sander tem tanto desse troço…
—É. E nós sempre agradecemos. —Ignorei-os. Cada um sabe das idiotices que faz.
—Vocês podem me dizer ao certo o que aconteceu? Descobriram algo? —Eu estava muito mais interessado no caso de Ismael do que na forma como conseguiam maconha para fumar.
—Ismael foi encontrado hoje a noite, estava morto e tinha marcas de bisturi pelo corpo, assim como Solange, que bem o laudo do instituto médico legal só sai pela manhã. Amanhã isso será noticia em todos os jornais, vai ver só. Já ligaram aqui um punhado de vezes e não sei como essa gente descobre o numero aqui de casa, mas eles parecem dar jeito para tudo. O que aconteceu, Vinicius, é que o advogado ligou dizendo que foi ordenada a prisão preventiva do meu pai, e isso de certa forma me preocupa um pouco…
—Pensei que estivesse pouco se lixando.
—Ontem saiu o resultado do exame de DNA e deu positivo, ai fiquei meio que pensando nesse troço... Se alguém inventou toda aquela história ao telefone...
—Pode ser que esta pessoa realmente acredite no que estava dizendo
—Pode ser uma armação, uma armação daquelas bem fudidas.
—É o que eu penso.
—Eu também penso o mesmo. —falou Renato. —Por acaso o Augusto lhe falou sobre um possível amante... Aliás, cara, sinto muito por sua prima.
“Sinto muito.” É o que todos dizem.
—Não. Você não me disse nada sobre um amante.
—Meu pai veio com uma história dessa... uma história que não sei se posso acreditar porque pode ser inventada... disse que existe uma razão para a dúvida sobre minha paternidade, falou que quando se casaram minha mãe tinha um outro namorado, que ele chama de amante, e que ela só escolheu se casar com ele pelo dinheiro que tinha.
—Será verdade? —Questionei.
—Inclusive falou que quando nasci chegou mesmo a ter dúvidas se eu era realmente seu filho, na época acho que não existiam exames tão avançados... falou que minha mãe continuou a encontrar esse outro homem mesmo depois de casados.
—E aí? Ele sabe alguma coisa sobre esse homem?
—Diz que não... Se bem que depois de ter me falado sobre, eu parei pra pensar um pouco sobre como minha mãe se comportava e como vinha se comportando nos últimos dias antes do acidente… e não sei, talvez realmente havia algo de estranho que eu ainda não tinha percebido. Mas para mim é difícil de acreditar que ela teve um amante, entendem? Andávamos muito juntos.
—Talvez esse possível amante, pense ser seu pai e de alguma forma queira se vingar do doutor Marcos pela morte de sua mãe. Talvez ele realmente acredite que seu pai tenha se envolvido em toda a tragédia com o carro. —Dizia Renato, e eu me lembrava perfeitamente daquela tarde, em que recebi a ligação fria de Marcos pedindo para que entregasse a noticia para Augusto, como poderia ter me encarregado de tal tarefa?
—Sobre a morte de minha mãe eu não tenho total certeza de que ele seja inocente. —Augusto já parecia mais sóbrio, mas suas expressões revelavam angustia e desânimo. —Mas alguma coisa não se encaixa. Lembra do que ele me disse ao telefone? —Perguntou à mim, e lhe disse que sim movendo a cabeça. —de alguma forma, ele não quer atingir só a mim ou ao meu pai, ele quer atingir o Vinicius também. Aquele acidente em sua casa também é uma peça de tudo isso. O que você me diz?
—Eu não sei, Augusto… Eu não faço idéia. —Levantei-me com certa impaciência. —Mas acredito em você. —Então Renato moveu suas mãos até uma carteira de cigarros sobre uma mesa de centro e acendeu apenas um, clareando tudo com a força do isqueiro.
—Vocês parecem estar numa tremenda história suja. —Apoiou então os calcanhares sobre a mesa e soltou quase extasiante seu primeiro jato de fumaça, poluindo tudo a sua volta, nos envolvendo numa nuvem ainda não-espessa e prejudicial.
—Bem... isso de qualquer forma já anda me deixando amedrontado. —Sentenciei.
—A verdade, meu caro, é que estamos todos com medo.
—Por acaso a policia pensa como vocês? Quero dizer, contaram sobre esses telefonemas e sobre o que esse homem lhe disse ao telefone? Suspeitam de alguma ligação entre o homem que invadiu sua casa e todas essas mortes? —Renato perguntava à mim, mas Augusto se apressou em dizer que a policia é burra e que quando suspeitassem de algo, tudo estaria acabado.
—Não há nada verdadeiramente substancial que ligue o homem que me atacou aos crimes contra essas pessoas. —Disse.
—Sobre os telefonemas eu lhes contei sim, mas vejam só, eu sou filho do acusado. Seria natural se inventasse uma história qualquer com a intenção de deslocar o foco sobre meu pai.
—E você acha que a imprensa não poderia ajudar?
—A imprensa, Renato? São urubus, não estão atrás do que eu acho, mas sim de alguém para estrelar essas histórias que eles inventam. Eu não quero me expor, pensem bem, se as pessoas pudessem nos reconhecer ao andar pela rua? Acho que minha vida seria ainda pior… —Augusto tinha razão, se preservar era mais sensato, os rumos dessa história ainda eram incertos e lidar com probabilidades não é algo tão simples como se parece, nem tão seguro como dizem. Além de usar nossa imagem, a imprensa promoveria verdadeiros eventos temáticos, televisivos ou não. Éramos jovens incontestavelmente interessantes, filhos de nomes “poderosos” como diziam na época, alunos do Campus PH… se os repórteres e câmeras ainda não estavam atrás de nós, parecia que isso simplesmente era uma questão de tempo. Apenas uma questão de tempo.
—O que acha de sairmos para comer? Estou com fome. —Normalmente, quando me distanciava de Augusto, pensava seriamente em vê-lo, era uma necessidade, gostava de sua companhia. Mas quando me via ao seu lado, ele me parecia tão assustador que por várias vezes sentia um impulso, facilmente dominado, de me despedir rapidamente e voltar à terras mais seguras que aquelas.
—Eu gostaria muito, — disse como um lamento. —mas estou no carro do meu pai, e já devem ser quase duas da manhã.
Voltando para casa aquela noite senti-me exaltado e desprotegido, exaltado por todo universo de coisas ainda desconhecidas que me cercavam, desprotegido por não ser capaz de controlá-las, manipulá-las de forma que pudesse sentir o sabor sem me sujar ou deixar-me ser atacado. Gostaria de ser simplesmente impulsivo, como agora vejo Augusto, imagino como seria trilhar tais caminhos repletos de prazeres desconhecidos. Sentir-me vivo ao experimentar o novo sem me castigar, ver-me livre de culpas e arrependimentos. Porque normalmente sou muito sensato, nem sei se essa é bem a palavra, talvez eu seja autopunitivo, ou talvez seja puramente covardia. Se definir é algo muito complexo. Tenho absoluta certeza de que depois de alguns fatos narrados, você deve estar pensando como me sentia em relação à ele, e como poderia eu agir de modo tão contraditório em diversas situações. O que posso lhe afirmar com relação a tudo isso, é que quando fui beijado por ele em meu quarto repentinamente, aquilo, por mais que me parecesse absurdo, não fora tão surpreendente assim. Eu já esperava por isso e sabia que em algum momento haveria um contato mais intenso do que os atenciosos apertos de mão, os fortes abraços e o roçar da pele que involuntariamente, pelo menos em mim, causava certa aflição. Bem, tentar justificar meu comportamento conflituoso não é algo de suma importância dentro desse relato, seria o mesmo que um parágrafo dentro de Ulisses, portanto seguirei com a narrativa sem mais dar tanta atenção as minhas atitudes incoerentes, até mesmo porque, me conhecendo como conheço, não saberia com precisão me expressar de um jeito claro. Como na época, não saberia de forma alguma conciliar, desejos, pensamentos e realidade.
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