Existe uma grande censura sobre várias coisas que não fazem sentido algum, até os dezoito anos eles nos proíbem o acesso a arte, já que várias produções em todos os gêneros falam abertamente de assuntos que nossos pais não gostariam que soubéssemos, ou por evidenciar a nudez humana que todos nós conhecemos desde pequenos, seja em banhos com os próprios pais ou seja brincando de médico com os primos, vendo imagens impróprias pela internet, os meios nem são tão importantes; antes dos dezoito também somos proibidos de dirigir mesmo sem sermos testados quanto a isso, nos julgam incapazes. Censuram a manifestação artística e verossímil nas representações para tevê, censuram histórias, evitam negros, mascaram a realidade. Eu não fumo, nem pretendo que isso me nauseia, mas não tolero a censura contra o cigarro e a propaganda exacerbada de cervejas, um brinde ao coma alcoólico. Está tudo errado. Ás vezes acho que viajo demais pensando coisas que não me levarão a lugar algum, nem me salvarão de meus pecados.
Mais um exemplo de como tudo estava errado era a reportagem que via agora no jornal, Suzane Von Richtofen, uma adolescente acusada de assassinar seus próprios pais com a ajuda do namorado, parecia estar sendo libertada para aguardar o julgamento em liberdade. Pode até ser um mito popular, mas quem não conhece aquela historia da mulher que roubou um pote de manteiga no supermercado e foi encarcerada por anos? A filha abre a porta de casa no meio da noite, enquanto seus pais e seu irmão mais novo, de apenas quinze anos dormiam no andar de cima; o namorado, acompanhado do irmão, que diziam ser drogado, entraram com barras de ferro e subiram até a suíte do casal, chegando lá proferiram dezenas de vezes seus tacos contra o senhor e a senhora Richtofen que morreram espancados, esmagados por bastões de ferro, manchando de sangue a roupa de cama branca e importada. Após tudo isso os autores do crime tentaram enganar a policia forjando um assalto. Que mundo é esse que nós estamos? Como dizia Cazuza, que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver? Censuram atos de coragem e carinho, quantos não são censurados todos os dias? Porque não censuravam os jornais que aquela hora do dia transmitia a morte nua e crua em sua forma mais inadmissível. Espalhando à crianças, jovens, pessoas de bem, e todos que estão de frente aquilo o que um ser humano, que age como bicho, é capaz de fazer ao outro. Filhos que matam pais, pais que estupram seus filhos, maridos que esfaqueiam esposas, outros que são queimados vivos, esquartejados, jogados no rio, abandonados em malas e sacos de lixo por toda parte. E ainda assim censuram.
Meu pai entrou sem bater, seria àquela hora, a hora da conversa.
—Precisamos conversar. —Eu desliguei a tevê, ele sentou-se na poltrona ao lado. —Eu conheço essa cara...
—Que cara? estou só pensando...
—Eu sei, eu também já fui assim, passava horas pensando.
—E por que parou?
—Porque um dia, Vinicius, todo mundo precisa parar de pensar e agir, se ocupar de alguma coisa. Um dia “pensar” deixa de fazer parte da vida.
—Espero jamais ficar como você.
Meu pai era muito polido, falava pouco, nunca perdia a calma, mas era bastante insistente e persuasivo. Inicialmente começou perguntando como me sentia, como estava minha vida no colégio, o que estava achando desse ano de mudanças. Eu respondi a tudo sem me aprofundar em nada. O segundo round começou quando ele tirou do bolso o envelope azul amassado.
—Sua mãe me mostrou isso... Gostaria de falar a respeito?
—Não. —houve um minuto e então ele se levantou.
—Sua mãe está certa. Seu relacionamento com o Augusto está restringido ao colégio. —logo em seguida se levantou, tentando escapar.
—O senhor está fazendo um mau julgamento.
—Não pense que essa atitude minha tenha um fundo preconceituoso.
—Então o que é?
—Você não sabe de tudo, Vinicius!
—Eu sei que por sua causa minha mãe está pirando outra vez... Colocando na cabeça dela que ela está gorda?
—Isso são assuntos de casal, por favor...
—Assuntos de casal? Assuntos de casal uma ova, pai. São coisas suas que fazem mal à ela e refletem em mim. O senhor deveria...
—Não me diga o que fazer. Os problemas entre sua mãe e eu já foram resolvidos e vim aqui para resolver os nossos. Espero que tenha entendido. Eu fui bem claro aqui, Vinicius. —Eu o olhei com rancor e voltei a ligar a tevê. A reconstituição de um crime acabava de começar.
O período de chuvas parecia estar passando, pelo menos temporariamente, um dia acordei bem cedo e tive a impressão de que já era meio da tarde. O clima árido e fastidioso do meio oeste, do cerrado, ressurgiu como bailarinos em um grande espetáculo, o imponente sol, a imensa claridade das ruas, a baixa umidade do ar, o ressecamento das narinas e a falta de nuvens no céu, que agora, demonstrava-se imensamente azul e opulento. Dias atrás acompanhei o jornal local, com alguma esperança de que o caso, que envolvia o doutor Marcos, tivesse sido abafado ou esquecido, mas pelo contrário, vasculhavam e dissecavam aqueles assassinatos com tanto ardor que parecia extremamente tolo confiar em todas as informações passadas pelos repórteres que acompanhavam os acontecimentos.
Augusto e seu pai ainda se recusavam a dar entrevistas ou dizer algo que fosse sobre as evidências, mas quando o filho fora chamado a depor, a imprensa o cercou como vespas na porta da delegacia, e era possível acompanhar todo o tumulto pela tevê, homens e mulheres com câmeras, microfones, maquinas fotográficas, gravadores, blocos de anotações, todos formavam um circulo em volta, enquanto o advogado de seu pai pedia calmamente para que respeitassem seu cliente e dessem espaço para que passassem. E assim, apesar do tumulto, ele entrara e saíra da delegacia sem nada declarar. Os laudos do instituto médico legal confirmava as mortes por choque hipovolêmico com êxito letal em ambos os casos. Os cadáveres apresentavam pupilas midriáticas e fotoplégicas, escoriações irregular, localizadas nas regiões auricular, carotidiana esquerda, torácicas e claviculares. Produzidas por arma cortante de uso cirúrgico não encontrada. Lesões perfuro-incisas, localizadas na região cervical anterior, seccionando traquéia, vasos e nervos de região cervical, ocasionando hemorragia interna. O laudo de exame pericial, feito no local de encontro dos cadáveres, detectaram impressões digitais do réu em questão, haviam digitais de doutor Marcos no carro de Solange, como também em copos e talheres na residência de Ismael. Não haviam testemunhas de acusação, mas algumas pessoas apareceram com a tentativa de inocentá-lo, ou de pelo menos dizerem que o réu jamais seria capaz de uma barbaridade como essa, até mesmo porque, enfermeiras e colegas de trabalho de Marcos e Ismael não sabiam como explicar algo como o que aconteceu. Ambos eram amigos há muitos anos e pareciam manter uma excelente relação. Doutor Marcos continuaria detido, o delegado acreditava que o réu possuía sim condições financeiras favoráveis a uma fuga, além do fato de que os crimes eram considerados hediondos e sendo assim, não via outro meio a não ser retê-lo em cela especial enquanto aguardava o julgamento. Mas já se pensavam em algo parecido com prisão domiciliar. Lembrando-se de que Marcos Bueno de Almeida respondia por dois homicídios premeditados, o que me deixava seriamente confuso sobre o homem que invadira minha casa, sobre os telefonemas que o ameaçavam, sobre o desaparecimento de Caio e o atentado a casa de Carol e sobre todas as outras pequenas coisas estranhas que vinham acontecendo. Falando disso com Augusto, chegamos a conclusão de que seu pai era inocente, o que fez com que ele se sentisse aliviado, já que em seu depoimento não disse nada que pudesse piorar ainda mais a situação, mas foi cauteloso e demonstrou receio ao delegado, de modo que o que disse não seria descartado como uma tentativa de inocentar o próprio pai.
Já eu, resolvi dizer tudo que sabia, pois naquele momento parecia-me que essa era a única saída, o único meio de inocentar doutor Marcos e talvez chegarmos a verdade. Essa decisão foi tomada sozinho, não consultei Augusto, não disse nada à ninguém. Augusto provavelmente me reprovaria e tentaria me impedir de seguir com essa idéia adiante, tentaria me convencer de que só encontraríamos a exatidão das coisas sozinhos, e confiando um no outro. Mas sozinhos não chegaríamos a lugar algum, além do mais, aquela admirável confiança que tínhamos um ao outro, parecia de algum modo estar se perdendo entre as intermináveis dobraduras da vida, trincada como um fino copo de cristal. Havíamos experimentado o sangue um do outro, num pacto que fizemos já há algum tempo. E quando digo que estava tudo se perdendo, assumo totalmente minha parte de culpa.
A decisão foi tomada. Naquele mesmo dia, em que o sol voltara ao seu lugar, desci até a sala e determinadamente liguei para a redação do jornal. Um homem de voz ríspida e baixa atendera a ligação. Parecia tuberculoso, tossia.
—Eu gostaria de conversar com alguém, é sobre o caso Marcos Bueno de Almeida e os dois assassinatos…
—Quem está falando?
—Vinicius, sou amigo da família e o que eu tenho a dizer é de seu interesse.
—É o seguinte, Vinicius, nossa repórter que acompanha esse caso não se encontra aqui neste momento, mas acredito que iria gostar muito de conversar com você. Será que poderia deixar seu numero? Ela te retorna ainda essa tarde.
—Claro. anota aí.
Em menos de quarenta minutos o telefone tocara, eu observava minha mãe pela janela do quarto, parecia estar ocupada com a jardinagem, plantava mudas no seu novo canteiro, aberto com a derrubada do pé de caju. Desliguei o monitor e fui até o corredor atender.
Conversava diretamente com uma das repórteres do jornal local, Juliana Texeira, já a conhecia do noticiário há muito tempo, tempos em que ainda vivia longe daqui. E foi ela mesma quem apresentou aquela matéria sobre meu artigo publicado no jornal do Campus e criava especulações sobre o desaparecimento de Caio. De alguma forma, ela também parecia saber que algo muito estranho estava acontecendo, seu instinto lhe dizia coisas assim. Quando soube que eu havia lhe procurado para contar detalhes inéditos até então, sentiu-se de tal modo lisonjeada que não pode deixar de me ligar no minuto seguinte. Naquele momento a conversa foi rápida, ela demonstrou interesse em me encontrar pessoalmente, e eu gostaria de falar o mínimo possível pelo telefone, mas lhe disse que não gravaria nada em imagens e a fiz jurar que não usaria gravadores e que estaria sozinha quando nos encontrássemos.
—No café Blend em uma hora, tudo bem pra você?
—Estarei lá, Vinicius, sem atrasos. Ainda preciso passar informações sobre o caso no jornal noturno, e acredito que agora, talvez, as coisas tomem uma nova direção.
—É o que eu espero também. Até mais tarde. —desliguei.
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