quarta-feira, 10 de novembro de 2010

53 - ENTRE O CÉU E O INFERNO

Trilha: Bettie Serveert - semaphore   (e)    Bettie Serveert - sower and seeds








                                                                                        Estávamos finalizando o mês de Julho, mês em que colégios de todo pais encerram suas férias semestrais e voltam do recesso de quatro semanas. No Campus isso funcionava de modo singular, as aulas iniciavam-se em Fevereiro e prolongavam-se até meados do mês de Novembro ininterruptamente. Quase três meses seguidos em férias, porém um mês de Julho repleto de atividades escolares, e não parecia fácil tolerar, seria meu primeiro inverno estudando para exames.
      Seu Costa parou o ônibus vermelho, entrei. Julia já estava acompanhada, por isso sentei-me numa poltrona qualquer e seguimos com o arranque do veículo. Quando Sander subiu os degraus, cumprimentou seu Costa afavelmente, lhe desejou um bom dia e perguntou-lhe sobre sua saúde, mas seu Costa possuía uma saúde de ferro e nada se queixou, apenas disse: “Estou melhor que muito de vocês” e riu em seguida. Vendo-me, Sander enviou um sorriso safado como quem diz: “Viu só, sou um bom rapaz, amistoso e educado.” Mas Sander estava repassando drogas aos três mosqueteiros, estou me referindo a Augusto, Caroline Araújo e Renato Fortino, e isso por mais que me parecesse educado não era nada amistoso. Involuntariamente lhe devolvi um sorriso murcho e acanhado enquanto passava por mim, mas acredito que o mesmo nem tenha percebido.
      O professor responsável pela primeira aula daquela manhã, professor Edgar, lecionava espanhol e era um homem entre trinta e cinco a quarenta anos, corpulento, falante e despreocupado, usava sempre gravatas interessantes, coloridas. Amigável, mas tinha a má fama de dormir com alunas, as histórias eram várias. A mais famosa era a que envolvia a filha de uma apresentadora da GNT, a menina já estava na fase da paixão.
      Enquanto copiava a matéria que era lançada no quadro com velocidade estonteante, e Edgar era um homem muito ágil, preocupava-me a carteira vazia da frente. Augusto e seus freqüentes atrasos, isso afetava seu desempenho e se continuasse agindo de tal forma nos próximos meses, provavelmente seria reprovado, provavelmente perderia a chance de ingressar em uma universidade, e com relação a isso o Campus PH era uma instituição altamente rígida e inflexível. Se por acaso ocorresse de reprovar dois anos como aluno do instituto, você era gentilmente convidado a se retirar. Havia cerca de oitocentos alunos repartidos em salas de ensino médio e fundamental, e uma lista de espera que alcançava números bem próximos a esse, onde eram inscritos alunos de vários outros estados e regiões. Quando a porta se abriu com quinze minutos de atraso, o professor deixou o que estava fazendo para prestar atenção nos retardatários e lá estavam eles. Cabelos desgrenhados, com exceção de Augusto que ainda tinha cabelos razoavelmente curtos, raspados, gravatas afrouxadas e óculos escuros. Atravessaram a sala em fila indiana e passos cuidadosos, silenciosamente.
—Por favor, crianças, —Solicitou o professor. —retirem os óculos. —Então todos ouviram o som abafado que os três fizeram ao sentarem-se sincronicamente, e em seguida retiraram os óculos escuros. O que pensar dessa gente? Pensava eu.
      Não disse palavra, nem mesmo durante a troca de professores, o que acontecia num tempo recorde de um minuto. Não iria questioná-lo e muito menos alertá-lo sobre coisas a seu respeito que parecia me assustar muito mais do que à ele mesmo. Acho que também, de alguma forma sentia-me cada vez mais retraído em sua presença, agora possuíamos segredos e detalhes incontáveis, e a diferença que se punha entre nós começava a aumentar de forma significativa. Assim que a terceira sirene da manhã tocou, peguei minha carteira na mochila e conduzindo Julia pelas mãos nos dirigimos ao refeitório. De inicio, em minhas primeiras semanas naquele lugar, como já lhes disse, costumava passar o intervalo com Augusto, ele me apresentava cada rosto estranho que circulava próximo de nós e dizia que quando os conhecesse bem, veria que não eram nada daquilo que pareciam ser. Isso aos poucos vinha se confirmando verdadeiro, nem ele hoje, parecia-me o mesmo.
      Dividia uma mesa com Julia, Fernanda e Felipe, e pude ver um olhar de soslaio por parte dos quatro, assim que entraram. Em seguida sentaram-se duas mesas após a nossa e esperaram a fila diminuir, quase desaparecer, para que então demonstrassem ânimo e se levantassem para  comprar o que comer. Decidi ignorá-los, na nossa mesa falavam sobre o vestibular, assunto inesgotável onde quer que se fosse dentro do Campus, pelo menos entre os alunos do terceiro ano. Eu ainda olhava para eles, e Augusto e Sander que estavam de frente, também pareciam nos monitorar de um jeito bem sutil. Tenho quase certeza que Julia notou o foco da minha atenção, mas preferiu me ignorar.
—A bandida foi presa, ontem mesmo vi no jornal. Aquela romena ordinária, se inscrevia no vestibular para roubar nossas chances! —Dizia Fernanda com vivacidade, era sempre assim, quase teatróloga. Ainda lembro da primeira vez em que conversamos, estava sozinho na mesa quando de repente, ela ao meu lado, perguntou-me o que eu faria se ela se sentasse ali naquele momento. “Eu te agradeceria muito”, respondi, e então ela se sentou. Fernanda era uma linda garota, pele negra, cabelos longos e trançados, vaidosa e de corpo exercitado. Nossa relação nunca havia ultrapassado os portões do Campus, mas ouvia dizer que era uma garota muito rica e que se quisesse poderia não fazer nada o resto da vida que ainda assim viveria com conforto até os setenta anos.
—De que vocês estão falando? —perguntei.
—Você está tão distraído… —Insinuou Julia.
—Sobre a romena que foi presa ontem, uma ciclana chamada Ioana Rusei. Dizem que a vigarista fazia parte de uma quadrilha com mais uma dúzia de pessoas que fraudavam vestibulares, não só aqui em Goiás, mas em todo país. Onde precisassem deles lá estavam. Bem, em primeiro lugar essa tal de Ioana tem uma capacidade mental muito acima da média, ela é incrivelmente inteligente, conseguem entender? Então o que faziam? Primeiro extorquiam do “cliente”, vamos dizer assim, quinze mil reais, uma quantia nada modesta. Em seguida a romena entrava em ação, se inscrevia na mesma universidade de quem a contratou, para o mesmo curso e muitas vezes usavam até documentos falsos! —molhou a boca sugando um pouco de refrigerante pelo canudo e prosseguiu. — inacreditavelmente Ioana Rusei respondia todas as questões da prova em apenas quinze minutos e assim que era liberada, passava todo o gabarito da prova para seus comparsas de quadrilha. Esses homens então, não sendo tão inteligentes como Ioana, mas sendo muito habilidosos, repassavam todas as respostas para o candidato através de um minúsculo ponto no ouvido. Sei que tudo isso parece um pouco mirabolante, cinematográfico. Mas realmente aconteceu, fraudaram dezenas de vestibulares em universidades federais, fizeram isso em Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Santa Catarina, Acre e adivinhem só onde foram presos? Piauí, pela trigésima vez na vida, a romena prestava um vestibular para medicina no estado do Piauí. Não dispõem sequer de uma gota de vergonha na cara!
—E você está tão zangada porque também vai fazer medicina?
—Claro que não, só acho um absurdo que pessoas como nós corra o risco de perder uma vaga em uma grande universidade por causa de vigaristas como esses.
—Você tem toda razão. —Sentenciou Julia, e segurava minha mão com força e carinhosamente.
—Mas não acredito no que dizem, —Falou Felipe pela primeira vez, não era de se comunicar tanto, pronunciava apenas o que achava necessário. —que nós estamos preparados para os primeiros lugares de qualquer universidade simplesmente porque estudamos aqui? Eu não sei... Mas às vezes vejo isso como puro marketing.
—Não deixa de ser. —concordei.
—Mas somos mais capacitados, nossa grade é uma das melhores do ensino médio em todo território brasileiro. —Que saco! Eu já não estava mais agüentando o ar inflado que possuíam todo aquele povo que circulava por ali. Talvez, como diziam, fosse o meu lado provinciano sendo perversamente sufocado por aquela gente.
—Eu preciso ir ao banheiro, me dêem licença. —Levantei-me e sai, era uma mentira, eu queria mesmo era respirar ar livre, ficar longe daquele assunto cansativo sobre uma romena golpista e paranormal. Desci os degraus que me levariam a biblioteca, entrando, procurei uma cabine vazia próxima a sessão de literatura e escolhi uma obra de Fernando Pessoa para folhear, ler algum trecho talvez, “O livro do desassossego.” Assim que o abri meu celular vibrou dentro do bolso, e aquele era o único momento em que podíamos usar nossos celulares. Era ele.
—Você anda muito arredio, rapaz!
—Reclusão é algo que faz bem nos dias atuais.
—Seu pai me convidou para almoçar em sua casa hoje, sabe de alguma coisa?
—Não sei, deve estar sensibilizado com tudo que está acontecendo. Mas acho que não deveria aceitar o convite.
—É, certamente que sim. Mas por que acha isso?
—Meus pais pegaram aquele bilhete que me escreveu, Augusto! Meu pai deve estar querendo ouvir o seu advogado de defesa. —Achei estranho a atitude de meu pai, mas não o questionaria a respeito.
—É... —Pareceu refletir.— E o que foi que aconteceu?
—Nada... —Acho que deixei transparecer um pouco de raiva, o que não era exatamente o que sentia. —Aliás foi péssimo, você não vai nem querer saber.
—Estranho me convidar... devem estar brincando de tiro ao alvo.
—O quê?
—Nada não... Sorte minha você ter me avisado. —Sorte nossa, eu quis dizer. —Então vamos embora comigo... Vamos almoçar juntos em algum lugar...
—Quando foi que o seguro resolveu o problema com o carro?
—Ontem... Eu não sei como vocês agüentam viajar nesses ônibus.
—Não teria vagas suficientes no estacionamento se todos viéssemos de carro.
—Desculpa, podem construir quantos estacionamentos quiserem.
—Mania de grandeza você tem. Está onde agora?
—Banheiro, único lugar onde posso falar sem que Carol diga qualquer coisa. E você?
—Só passando um tempo na biblioteca.
—Vamos almoçar juntos?
—Se você quer. —disse de forma maliciosa.
     Às vezes pergunto-me se ainda existe o absoluto. Se ainda existe o certo e o errado. Bom e ruim. Verdades e mentiras. Eu só sei que há coisas que são conhecidas e coisas que são desconhecidas. E entre elas há portas.





Copyright 2010








.

Nenhum comentário: