Às vezes pergunto-me se ainda existe o absoluto. Se ainda existe o certo e o errado. Bom e ruim. Verdades e mentiras. Eu só sei que há coisas que são conhecidas e coisas que são desconhecidas. E entre elas há portas. Quando aceitei almoçar com Augusto queria apenas estar ao seu lado, desde o surto que minha mãe teve ao mexer em minhas coisas e encontrar aquele bilhete que seu nome não era mencionado em minha casa. Para minha mãe ele deixou de ser uma vítima do destino e se transformou em um maníaco sexual.
—Seu carro está melhor do que antes!
Pensei em ir no banco dianteiro, já que seria o último a descer, mas Carol, muito frivolamente passou em minha frente sem nada dizer e entrou no carro deixando-me muito reflexivo sobre o que estava acontecendo e deliberadamente acanhado. Então, sem que ninguém dissesse qualquer coisa, entrei pela porta traseira e sentei-me ao lado de Renato. Quando Augusto deu partida uma música em volume bem alto me assustou de leve.
—Renato, pegue a pasta amarela para mim, deve estar ao seu lado. —Disse voltando-se para nós. —Já estou cansada dessa chata da Liz Phair. —Logo a voz feminina deixou de cantar e foi substituida por qualquer coisa menos pop, algo mais denso.
E quase uma hora se foi, entre esse exato instante e o momento em que chegamos num rodízio de pizza pros lados da casa dele, único lugar ainda servindo comida quente aquele horário. Ainda no carro, por algum milagre ou algo que fugisse de minha compreensão, todos estavam calados e melancólicos. Inclusive a garota cor de fogo, que de forma alguma deixou passar a oportunidade de me alfinetar.
—Renato, pegue a pasta amarela para mim, deve estar ao seu lado. —Disse voltando-se para nós. —Já estou cansada dessa chata da Liz Phair. —Logo a voz feminina deixou de cantar e foi substituida por qualquer coisa menos pop, algo mais denso.
E quase uma hora se foi, entre esse exato instante e o momento em que chegamos num rodízio de pizza pros lados da casa dele, único lugar ainda servindo comida quente aquele horário. Ainda no carro, por algum milagre ou algo que fugisse de minha compreensão, todos estavam calados e melancólicos. Inclusive a garota cor de fogo, que de forma alguma deixou passar a oportunidade de me alfinetar.
—Está namorando Julia Mesquita, Vinicius? —Soou tão irônico. Precisava ser certeiro.
—Não, Carol, não estou. E porque se interessa? —Com certo descaso respondeu:
—Por nada simplesmente, estava apenas especulando, às vezes sinto-me tão motivada por esse tipo de indiscrição.
Depois de me entupir de pizza e do papo de Caroline Araújo, tive vontade de fugir um pouco de casa, passei uma mensagem dizendo estar na casa de Julia para estudar. Na verdade eu ia para casa do Augusto. Entrando em seu quarto joguei-me em sua cama, era macia e muito confortável, ele colocou a mochila no armário e de uma outra porta do mesmo, retirou um par de camisetas e uma bermuda qualquer. Jogou em minhas mãos. Trocamos.
—Eu gostei da tatuagem... —Eu disse. Posso vê-la quando estou sem camisa.
—Daqui trinta anos você vai olhar pra ela e lembrar exatamente de agora. É um souvenir.
Tirou os sapatos, suas meias eram cinzas, foram também tiradas rapidamente, dobradas e guardadas dentro do calçado. Quase que simultaneamente tiramos as gravatas, as camisas, Augusto desceu a calça e momentaneamente ficara seminu. Não sei porque, mas gostei de vê-lo apenas de cueca, preta se querem mesmo saber a cor.
—Você tem o corpo bonito! —Elogiei.
—Valeu! Você também. — Nos olhamos curiosos, já houve um dia em que dormimos juntos na mesma cama, mas pela primeira vez via todo seu corpo daquele jeito. Ignorei-o e dando-lhe as costas entrei no banheiro pra dar uma mijada.
Se você é daqueles que gostam de ver algo do tipo dois homens se comendo, podem pensar como sou estúpido a esse ponto, negando-me o que é preciso. Por outro lado, se considera um contato desses algo asqueroso e trágico, deve estar nesse momento me crucificando em pensamentos e adjetivando-me de forma chula e baixa. Eu te digo que, independentemente do que pense a respeito, eu não estou nem ai. Tudo acontecerá em sua hora certa. Mas já que lhes disse, façam torcida ou puramente menospreze esse sincero rapaz que agora lhe conta essa história. Quando chegar essa parte, apenes pule. Digo isso porque de forma alguma mudarei a ordem dos acontecimentos ou ocultarei o que para muitos pode ser um bocado vergonhoso e inconfessável.
Ainda lembro-me dessa data, tudo aquilo para mim era especial, naquele período ele ainda parecia conservar em si o que de fato tinha de interessante, sentia-me mais próximo, éramos cúmplices e ainda companheiros. Não quero ocupar muito tempo justificando nada disso, mas para mim Carol se tornou uma influência negativa, e era muito boa em conduzir situações que fossem favoráveis à ela. (Algo que se passava só em mente, jamais, em nenhum momento eu dividi tal pensamento com quem quer que fosse.)
Estávamos na sacada, de lá se tinha uma visão incrível. Ele se debruçava sobre o parapeito se projetando para baixo.
—O que está fazendo?
—Me imaginando caindo... —E seu rosto mudava de claro para avermelhado.
—Fala sério. Você não faria isso.
—Agora não, Vinicius... Mas acredito que um dia, mais cedo ou mais tarde eu acabe me jogando dessa sacada.
—E acha que terá quantos anos?
—Acho que terei menos de trinta. —Isso era tão nítido, essa frase que ele disse naquela ocasião. “Acho que terei menos de trinta.”
—Se tiver sorte viverá até os oitenta.
—Chama isso de sorte? —Sorriu sem graça. —Sério. Você nunca pensou em suicídio?
—Eu não... acho que alguém nos colocou aqui e só iremos quando chegar nossa hora. Sou totalmente contra.
—Mas se a pessoa chegou a conclusão de que fez tudo errado na vida e não tem mais concerto?
—Nem mesmo assim, não dizem que plantamos o que colhemos? Se ele fez tudo de errado é hora de colher o que plantou. —E por um tempo apenas, ficamos observando os carros que cruzavam o semáforo lá embaixo. —Tem certeza de que está bem aqui, sozinho em casa? —Perguntei-lhe. —Não seria melhor...
—Eu estou bem, rapaz. —não parecia estar. — Além disso, não estou sozinho, Maria está sempre em casa cuidando de tudo.
—E como está fazendo? Com as compras e as contas?
—O advogado do meu pai está cuidando de tudo, dessa parte financeira. Eu não tenho com o que me preocupar. Você que deveria passar um tempo comigo, o que acha? Iria ser divertido. —Pensei se diversão para ele ainda significava o mesmo que para mim. De qualquer forma minha mãe riscava meu nome do testamento se agisse assim.
—Provavelmente não, mas talvez eu passe um final de semana nos próximos dias. Você sabe como é essa história de ser filho único. Proteção excessiva e tal. —E isso é uma triste verdade, nunca passei mais que uma semana longe de casa. Mesmo em férias, era difícil se ver fora de casa e sozinho por mais de cinco dias. —Tenho sentido muita falta da minha prima. —Então me encarou como se soubesse do que falava.
—Eu sei como é... O pior é que não parece passar, você apenas se acostuma.
—É verdade, as vezes você parece esquecer, mas aquela coisa ruim parece sempre estar dentro da gente.
—Vinicius? —Acendeu um de seus cigarros enquanto eu me sentava. —Se lembra daquele dia em que minha mãe morreu? —O assunto me alarmou porque até então, Augusto jamais havia tocado nele comigo.
—Sim, me lembro, o que tem?
—Se lembra o que exatamente meu pai lhe disse, quando eu estava no banho?
Voltei àquela tarde em que estava na sala de seu apartamento folheando livros de medicina enquanto ele tomava banho, isso, depois de sujarmos toda a cozinha com sobras de molho e ficarmos completamente ensopados.
—Eu não me lembro bem, ainda me sinto mal por tudo aquilo.
—Por quê?
—Porque em minha opinião seu pai jamais deveria ter me pedido para lhe falar uma coisa dessas… não consigo me lembrar em detalhes o que conversamos, fiquei tão espantado que mal consigo lembrar o que disse à ele. Acho que apenas concordei e não disse nada. A única coisa que sei, Augusto, é que ele fora bastante frio. Não sei dizer se foi pela gravidade do fato ou pelo medo de como você reagiria… sei que praticamente me obrigou a te dar aquela noticia e se fosse necessário, pediu para que o acompanhasse até o hospital, para que não lhe deixasse sozinho. Foi o que eu fiz…
—Eu sei… e ainda assim fui embora te deixando naquele hospital.
—Eu entendi completamente, não dá para pensar direito numa hora dessas, quando passou por mim novamente no corredor, depois de ter insistido para vê-la, esperei um pouco mais de trinta minutos e quando percebi que você não ia mais voltar eu chamei um táxi e fui para casa. Eu não sabia onde você estava, seu celular não completava a ligação e foi então que pensei que mesmo se estivesse ao seu lado, o que eu poderia fazer? Naquele momento eu me senti totalmente incapaz, sabe como é? Simplesmente voltei para casa... Mas pensei comigo mesmo, assim que ele me ligar, assim que eu puder fazer qualquer coisa, assim que ele precisar de mim, eu vou o ajudar.
—Eu me lembro que naquela noite eu dormi como uma pedra após tomar uns comprimidos. Meu pai disse que eu parecia estar morto também.
—Eu pensei em vir a sua casa naquela mesma noite, mas a chuva que caiu e durou a madrugada inteira me impediu. Minha mãe estava sabendo de tudo, mas ela não me deixaria sair com tanta água caindo de uma vez só. —Como fiquei assustado naquela noite, éramos assolados por uma tempestade infinita, relâmpagos, o sono me fugiu deixando-me pensar em como coisas desse tipo podiam nos acontecer normalmente e sem avisos. A morte. E a natureza provocando catástrofes.
—Está ficando com Julia? —fora assim mesmo, sem avisos e secamente.
—Não, não como está pensando. Estamos saindo como amigos, nada de mais.
—Vocês estavam de mãos dadas essa manhã, eu os vi no refeitório.
—Eu sei que você nos viu. Você também não vive andando de mãos dadas e de abraços com a Carol? Isso significa que estão tendo alguma coisa? —Nem sei porque não lidei com a verdade, nem sei porque agi na defensiva, mas não queria de forma alguma falar de sentimentos e sobre todas as dúvidas que me angustiavam. Nem mesmo sei se realmente havia algo a dizer. E vai saber se não tinha rolado algo entre ele e Carol, talvez rolasse até orgias, ele, Carol e Renato. —E você? Já rolou algo entre você e o Renato?
—Claro que não, seu maluco. Está pensando em quê?
—Sei lá... —Vi na cara dele que zombava de mim com um olhar esnobe e um sorriso sarcástico. —Você me acha frio?
—Muitas vezes sim...
—Não sei, talvez eu seja mesmo, acho que tenho muito receio... entende? mas no fundo acho que todo mundo tem coração de pedra, os que não tem estão chorando pelos cantos.
—Muitas vezes sim...
—Não sei, talvez eu seja mesmo, acho que tenho muito receio... entende? mas no fundo acho que todo mundo tem coração de pedra, os que não tem estão chorando pelos cantos.
—Vou descer e fazer alguma coisa pra gente tomar, uma vitamina. —E logo saiu deixando-me apenas uma tarde de sol e o céu azul que brilhava sobre o concreto da cidade. Havia algo no peito brigando para sair, ânsia, aflição, aperto, sofrimento, tribulação, tudo de uma vez. Vontade reprimida de gritar, correr sem destino, molhar-me na chuva, saltar de alturas inimagináveis, lágrimas contidas que brotavam dolorosamente e forçavam-me a refletir, a punir-me com a dor do pensamento, com o pesar que só ele nos traz. Escolhi um disco a dedo para tocar, localizei um álbum do “The Bear Quartet”, entre outros que se encontravam em um porta cd. Nunca tinha escutado a banda antes. Deitei-me na cama, esperando que voltasse, e com ambos em meus pensamentos, Julia e Augusto. Senti-me sufocado por memórias e enojado por mim mesmo.
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