domingo, 9 de janeiro de 2011

64 - PERFUME

Trilha: The Radio Dept - always a relief   (e)   The Polar Dream - wooden ship







                                                                                                           Achamos melhor servir a bebida antes do almoço, Augusto disse alguma coisa sobre a possibilidade da digestão ser afetada pelo álcool e as anfetaminas, então deixei meus dois amigos servindo os copos e fui chamar o pessoal. Havia cheiros no ar, e eu não era o único a usar meu sentido e meu olfato para deduzir o que era. Cheguei a conclusão que estavam todos transando, estavam todos transando, menos eu. E acredito que Felipe e Julia também estavam fora dessa. Porra, Fernanda e o Ricardão passavam horas trancados no quarto, Carol e Sander saíram para dar um passeio duas vezes e não foram vistos por um longo tempo, depois voltavam lerdos, sorrindo e agarrados um ao outro. Vinicius e Augusto era uma história a parte, mas duvido se os dois não estavam chupando o pau um do outro durante a noite. Aquela casa perfeita, agora cheirava gozo e uma merda de ensopado que fedia madeira para construção. Sander estava dançando uma música na área externa enquanto Felipe e Vinicius olhavam os CDs disponíveis, e falavam sobre alguma coisa que nem faço ideia.
—Pessoal vamos fazer um brinde antes do jantar! Venham! —Fui até o pé da escada e gritei para os que estavam lá em cima.
—Ei vocês que estão aí em cima, vamos fazer um brinde antes do almoço. Desçam, por favor!
     Não demorou muito, Ricardo e Fernanda chegaram meio tontos, se recompondo, fomos todos à cozinha. Augusto e Carol nos receberam com os copos sobre a mesa.
—Sirvam-se. —Orientou o anfitrião.
—Cheiro estranho. —Alguém comentou.
—Onde está Júlia?
—Acho que está no banho... Não tem problema, vou levar o dela. —Eu queria que todos bebessem o mais rápido possível. Era como botar mais lenha na fogueira e ficar vendo o circo pegar fogo.
—Vamos brindar a amizade! —Sugeriu Augusto.
—Vamos brindar ao último ano! —Mencionou Carol.
—Vamos brindar a mais dias de diversão, como estes que estamos tendo. —Finalizou Sander, e então brindamos, os tiques de vidro contra vidro duraram alguns segundos, em seguida sorvemos a bebida amarela de nossos copos.
—Pode me ajudar a colocar a mesa? —Vinicius, Augusto e eu ficamos pondo a mesa enquanto Carol foi buscar sua colega de quarto. Acredito que Carol estava ansiosa para ver suas cobaias sentadas na mesa de jantar.
—Hum! Esse cheiro? —Era impossível não notar o aroma de culinária experimental.
—Ensopado da Julia Mesquita. Precisam provar. —fui irônico. 
     Julia, ao voltar, se antecipou e foi até a panela sobre a mesa, abriu, observou criticamente.
—Você deixou secar demais.
—Acho que assim ficou mais consistente.
     Foi engraçado, mas de repente estávamos todos em torno da mesa analisando o único, e prato principal. Alguns ainda chegavam mais perto para certificarem de que o cheiro era exclusivamente do nosso jantar e não do jantar misturado a alguma outra coisa, como chulé.
—Tem nós-moscada aqui? —Quis saber o intruso.
—Tem várias especiarias, encontramos no armário da cozinha.
—Está tudo velho... Faz meses que ninguém vem aqui. 
—Sentem-se. —Sentenciou Carol. —Eu vou servir. —No fundo Carol não estava sendo tão gentil por cordialidade, e sim porque queria muito ser a última a provar do magnífico ensopado preparado por ela mesma.
      A medida que ela despejava as porções cuidadosamente nos pratos vizinhos, uma ânsia parecia tomar conta de toda a mesa. Ricardo que foi o primeiro a receber uma das porções generosas, olhou cuidadosamente para aquela massa compacta de carne e vegetais e depois se interrogou mentalmente, acredito que estava se questionando o que aconteceria caso decidisse não engolir aquilo.
—O que tem aqui? É que não estou conseguindo distinguir muito bem... —Perguntou meio acanhado.  Julia respondeu:
—Batata, cenoura, macarrão de conchinha, beterraba, abóbora e  linguiça paio picada.
—Hum...Quem lembrou de comprar beterraba?
—Parece a sopa da minha tia... —Comentou Felipe. —Não gosto de sopa.
—Não teria sido melhor a gente ter assado essa lingüiça? Tem uma churrasqueira ótima ali fora. Um churrasco seria bem melhor. —Sugeriu.
—Não se assa lingüiça paio em churrasqueira.
—Quem disse?
—Decidimos deixar o churrasco para noite de amanhã, Ricardo.
—Que pena!
—Por que? Você também não gosta de ensopado? Esse está ótimo, usamos vários tipos de temperos. Prove.
    E todos se viraram para o intruso por dois motivos, o primeiro: queriam ver se ele realmente ia engolir. E o segundo: caso engolisse queríamos presenciar o acontecimento com gostinho de quero mais.
—Pessoal, vocês estão nos sacaneado, Julia e eu ficamos horas preparando isso...
—Carol a aparência disso é horrível. —Reclamou Augusto.
—É só fingir que estão a passeio por um país bem exótico e que estão prestes a experimentar uma das iguarias da região. Vemos isso todos os dias no TLC. 
—Eu vou experimentar. —Disse Vinicius. —Não deve estar tão ruim assim...
—Logo você... Pessoal, —Alertou Almeida. — a mãe do Vinicius faz a melhor comida que eu já comi na vida. —Augusto ao lado de Vinicius parecia tão afetado, só agora podia ver.
—Deixa de ser mentiroso.
—É verdade, sua mãe faz cada coisa... Aquele crepe...
    Vinicius estava decidido, talvez a fome tenha colaborado para a decisão extremada, ou talvez isso fizesse parte de sua simplicidade, da vivência no campo, onde mesmo os ricos, acham que serão punidos por algo maior caso promovam o desperdício de recursos num mundo onde crianças morrem secas e desnutridas por falta de boa alimentação; onde acreditam que um simples vestido não pode custar dez mil num país em que grande parte de nós, jovens, se quer possui um emprego, quanto mais chegaremos a possuir uma casa própria e uma vida digna antes dos trinta anos de idade. É... Lá no interior de onde ele vem, as pessoas ainda não haviam sido contaminadas pela desgraça da indiferença, da insensibilidade humana. Lá, os muros ainda não haviam crescido o suficiente para dividir as cidades ao meio, ou, simplesmente trancar toda a aberração pelo lado de fora. 
     Ele levou à boca o que a colher permitia e sem soprar sugou todo o conteúdo para dentro, volvendo tudo logo em seguida.
—Vocês temperaram isso com o quê?
—Temperos desidratados... Alecrim, manjerona, gengibre em pó e noz-moscada, uma mistura de temperos sírios também.
—Eu acho que vocês exageraram no gengibre ou na noz-moscada, eu não sei, talvez nos dois...
—Eu disse a você que gengibre e noz-moscada juntos não ficariam bem.
—Eu discordo de você, e a culinária indiana também.
—E o que tem a ver a culinária indiana com temperos sírios?
—E quem disse que ensopado é indiano? —Perguntou Ricardo.
    Fernanda sentiu o clima áspero de repente.Pude ver. Pode até não parecer, mas sou um cara muito observador. 
—Ai, gente... —Disse. —Já vimos que essa iguaria ninguém vai querer. Então vamos colocar as pizzas congeladas para assar e fazer alguma coisa enquanto isso. Uma partida de cartas, talvez. 
—Está ai uma garota sensata. —Eu disse, aquela havia sido a minha deixa. —A batida de pêssego e maracujá estava excelente, se alguém quiser um pouco mais.
     A ideia foi bem vinda e em poucos minutos já estavam todos com copos nas mãos, saiam da cozinha a procura de um ar mais puro, sem resquícios da noz-moscada. O pátio da piscina era ideal, mais próximo da música, iluminação suave, aquela casa parecia o cenário de um filme americano, Americano ou Canadense, ou Dinamarquês, eu não sei. Algo bem sofisticado. A trilha sonora do dia foi um mix feito por Carol com todo tipo de música que ela acreditava ser quentes como o verão, e isso contribuiu e muito para elevar o ânimo e promover o consumo de substâncias ilícitas. Agora ali, com a noite caindo, Fernanda e Ricardo partiam para uma coisa mais sensual e distanciada em uma penumbra próximo a rede, Logo Sander veio em minha direção e passou um comprimido.
—Dissolva isso em vodca e misture com o resto dessa batida.
—Pode deixar senhor. —Brinquei.
—Vem... Eu vou te ajudar. —Me puxou Augusto por um dos braços.
      Voltamos a cozinha, agora abandonada, a mesa ainda posta, intocada.
—E ai, como vão as coisas com o Vinicius?
—Eu não sei... Mas ontem pela primeira vez rolou alguma coisa.
—Rolou o quê?
—Vai querer mesmo saber?
—Claro, estou esperando faz tanto tempo.
—Rolou uns beijos e uns amassos... Sabe? Amassos...
—Sei... mas que tipo de amasso?
—Ah, Renato... Tipo pegar no pau e tal.
—Vocês pegaram no pau um do outro?
—Sim.
—Já é um começo!
—Esse lance da Julia estar tão próxima está melando tudo. Mesmo sabendo que a Mosquita não me parece mais tão interessada no Vinicius. —Augusto pegou um copo, despejou dentro dele três dedos de vodca e me passou. Joguei dentro o comprimido e o desfiz com o cabo de uma faca.
—Como assim?
—Não percebeu as olhadas que ela tem te dado? Renato, você nem imagina... Achei que a Carol já tivesse te dito alguma coisa.
—Por quê? O que a Carol...
—Acho que ela foi a primeira a perceber. Sei lá, talvez porque são mulheres. Você sabe como são as mulheres...
—É, eu sei... mas acha mesmo que...
— Joga isso ai dentro e vamos voltar pra lá.
—Com certeza.
—Sabe o que estou adorando? É ver esse povo todo louco com esse troço, eu nunca vi o Vinicius doido na minha vida...
—E como ele está?
—Estava rindo da última vez que eu o vi.
—É sinal que está se divertindo.
     Quando retornamos, Carol e Sander já haviam desaparecido, Fernanda e Ricardo estavam na mesma, só que agora um pouco mais ousados. Julia sentava a beira da piscina, com os pés imersos pela água, parecia se entreter com o que Vinicius preparou para diverti-la. Fingia participar de um duelo de espadas fazendo uso de um espeto que encontrou na churrasqueira.
—Para onde foram Carol e Sander?
—Eu não sei. —Disse Julia entre risos. —Eles estavam loucos... Disseram que iam descambar pra quele lado.
—Descambar pra quele lado? O que isso quer dizer?
—Nós não sabemos... —Soltou entre risos. 
—Deixa eles, Augusto, eles não vão se perder.
—Gente eu pareço bêbada? Nunca estive assim antes, acho melhor eu parar de beber.
—Ah Julia! Agora que começamos. —Disse Fernanda finalmente saindo do beco onde se meteu e vindo em nossa direção. —Ainda precisamos brindar. Você não brindou.
—Não sei se tenho algo a brindar.
—Portanto eu brindo. —Fernanda levantou seu copo ao encontro do copo de Ricardo que se encontrava na mesma altura. — A coisa mais linda que já encontrei.
     Vinicius que se encontrava de pé, ao lado de Julia, não aguentou quando escutou aquilo e impelido por uma vontade impulsiva de gargalhar, cuspiu todo o liquido que estava na boca como jato em cima do gesso, da roupa e dos cabelos da menina que segundo Augusto vinha me paquerando. Não se segurando, Fernanda e seu comparsa riram com deleite de toda situação.
—Me desculpa Julia... eu...
—Não precisa se preocupar... —Disse Julia se levantando, meio que zangada, rispidamente gentil. —acho melhor eu subir e me trocar.
—Vamos sair daqui Fernanda, vamos até o nosso quarto que estou querendo te mostrar uma coisinha.
—O que é?
—É segredo, meu bem. Que tal subirmos?
    E assim se foram, como nuvens ameaçadoras que passam sem chover.
—Eu não queria fazer aquilo...
—Nós sabemos. —Eu disse. —Brindar a coisa mais linda que ela já encontrou. Está precisando ir ao oftalmologista.
—Essa Fernanda nunca bateu muito bem da cabeça...
—O que ela está fazendo aqui afinal?
—A Julia a convidou. —Disse um dos dois, não me lembro se foi Augusto ou Vinicius. Então notamos a presença de Felipe, que nos olhava sem graça. —Me desculpa, Felipe. Pensei em Julia sozinha, tentando se trocar e não conseguindo, sendo impedida pelo braço imóvel, precisando de ajuda.
—Eu vou ver se a Julia não precisa de ajuda... Se a Carol aparecer poderiam pedir ela para subir?
—A gente avisa.
    Então os deixei ali, e subi para o segundo andar. Do inicio do corredor dava para escutar risos que vinham do quarto de casal, a porta do quarto das meninas estava entreaberta e discretamente coloquei a cabeça para dentro, para ver se estava tudo livre. Julia estava com os ombros totalmente nus, mas infelizmente estava impossibilitado de ver seus seios devido ao gesso do braço. Voltei. Bati duas vezes na porta.
—Quem é?
—Sou eu, Renato.
—Ah, Renato. Não entre, eu já vou descer.
—Não está precisando de ajuda?
    Não houve resposta.
—Julia? Se estiver precisando de qualquer coisa, não é só porque sou homem que vou me aproveitar.
    Também não tive resposta. Então desisti.
—Tudo bem então, entre. Eu quero apenas que você amarre as alças dessa blusa em meu pescoço. É só você pegar e amarrar... Não é muita coisa.
    Logo fechei a porta do quarto ao passar, quase que no mesmo momento ouvimos o bater de portas no andar de baixo. As pessoas naquela casa estavam realmente loucas, foi o que pensei. Julia estava de costas, vestia uma blusa bem sensual de tecido verde musgo, combinava bastante com sua pele. As alças caiam-lhe sobre os bustos, eu as peguei, cuidadosamente as peguei, passei em torno ao pescoço dando uma volta, sem fechar o nó, agora que estava mais perto sentia um cheiro bom ali, a nuca exposta, a pele quente... Toquei-lhe o corpo, ela pareceu assustar-se, contraiu-se, depois relaxou, eu massageei seus ombros, passei meu rosto bem perto do dela, passei a língua em sua orelha, ela ainda de costas para mim. Um barulho pareceu desembocar no corredor, ali bem perto, logo ouvimos o barulho da porta do quarto do casal se abrindo. Devia ser grave. Enlacei as alças.




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