quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

65 - NOITE DOS OBSERVADORES

Trilha: Queens of the Stone Age - make it wit chu    (e)  From monument to masses - old robes








                                                                                                       O movimento externo partiu ao meio aquele momento de intimidade que eu facilmente criara, passei minha língua em sua orelha com tamanha facilidade que cheguei ficar surpreso, naquele dia descobri que Julia estava tão solitária e carente quanto eu, ansiosa por alguém que lhe metesse os dedos. Apenas se retirou e abriu a porta do quarto, soltou um grito estridente, juntamente com Fernanda que estava no corredor, era Sander, como sempre brincando com coisas sérias. Vestia uma roupa toda preta e um daqueles gorros pretos usados por ladrões de banco, com apenas um recorte na região dos olhos, além disso empunhava uma faca em uma das mãos. Juro que até eu assustei quando vi o sujeito passando de frente a porta. Então logo ele mostrou a cara e caiu na gargalhada. Riu tanto que por um instante se escorou na parede do corredor para sustentar seu próprio corpo.
—Seu retardado. —Fernanda parecia enfurecida.
—Nossa, que susto! —Comentou Júlia. Eu nada disse, mas sentia as pernas bambas. Tive vontade de socá-lo. Porém nada disse. Eu havia acordado com uma incomoda sensação que coisas ruins poderiam acontecer. Talvez os outros tenham sentido o mesmo assim que acordaram, eu não sei dizer, mas o fato é que estávamos cada minuto mais próximos de algo terrível, mesmo sem sabermos. Logo vi Ricardo partindo pra cima de Sander, algumas pessoas sob o efeito de drogas demonstram agressividade excessiva. O cara simplesmente chegou e pegou meu brother pela gola da camisa pólo que usava, jogou-o contra a parede que antes o sustentava.
—Acha isso engraçado, seu imbecil?
    Sander revidou empurrando o adversário que momentaneamente se desequilibrou, acho que ele não era o tipo que levava desaforo para casa, e acredito que Ricardo já havia dito muita merda durante todo o dia. Logo Júlia e Fernanda começaram a gritar e Carol e os outros subiram para ver o que estava pegando. A essa altura os dois já haviam trocados alguns tapas e socos, vi a cara de raiva de Sander quando para revidar um soco no estômago acertou um tapa na cara do playboy metido filho da puta. Mesmo com a gritaria e Júlia me pedindo para intervir eu nada fiz, fiquei olhando até Vinicius e Carol decidirem separá-los, e com isso levaram alguns esporros também. Quando pensamos que clímax já havia passado, Ricardo voltou a falar besteira:
—Esse filho de uma quenga sem graça!
—O que foi que você disse?
—Isso mesmo que você escutou. Seu palhaço. —Sander deixou a namorada e partiu para cima do outro mais uma vez. Deram-se mais uns socos, o tumulto no corredor prosseguiu e a gritaria durou mais alguns minutos, até que conseguiram separá-los outra vez. No meio de tudo ouvi alguém dizer.
—Dá uma mão, Renato! —Eu nem me envolvi. Com ânimos menos exaltados, Carol disse que sairia para dar uma volta com o namorado e que quando voltasse gostaria de ver Fernanda e Ricardo longe daquela fazenda.
—Quem é você para falar assim comigo? Você é a dona desse local?
—Ah, cala sua boca sua piranha!
—Eu fui convidada por você? Piranha é você que passa o tempo todo andando com os machos.
—Eu não sei quem te convidou, mas quem o fez nem mesmo perguntou o dono da casa se você seria bem vinda.
—Carol... —Augusto tentou apaziguar.  
—Felipe vai arrumar suas coisas, estamos dando o fora desse lugar... —Todos olharam para Felipe esperando que ele fizesse exatamente o que Fernanda mandava.
—Você não precisa ir. —Sugeriu Carol. Por um minuto Fernanda ficou esperando que Felipe a obedecesse, quando viu finalmente que isso não aconteceria, demonstrou ira e descaso.
—Vai dar as costas para mim agora, não é? Tudo bem então, fique com essa gentinha vagabunda. —Em seguida entraram, fecharam a porta e lá ficaram um bom tempo.
—Vem Sander, vamos dar uma volta. —O casal numero dois se retirou deixando-nos com caras de bobos no corredor.
—Por que não fez nada Renato?
—Eu não... São grandes, eles que se entendam. Além disso Sander está passando dos limites, achei a brincadeira que ele fez muito da sem graça.
—O Ricardo é um pouco estourado. —Comentou Felipe. —E eu não sei o que está acontecendo, mas parece que está todo mundo meio louco. Nós bebemos tanto assim? —Vinicius coçou a cabeça, parecia desnorteado.
—As pizzas já devem estar prontas e pelo jeito ninguém vai comer. Vou descer e dar uma olhada. —Augusto o seguiu. Eu abri a porta do meu quarto e entrei, deixando Júlia e Felipe a sós no corredor.
    Sozinho poderia aproveitar a onda quente que sentia para ter uma viagem mais introspectiva, havia coisas me incomodando, indagações. Aquelas pessoas já estavam com a vida feita, eu mal sabia o que fazer da minha. Ficar pensando nos destroços que surgiram ao longo de minha vida, incluindo a mais recente... ...Estou falando daquele absurdo envolvendo meu pai... Como é que um pai pode fazer algo assim com um filho? Ainda quero muito deletar toda a cena da cabeça, porque cada vez que aquele flash, aqueles fragmentos de memória, imergem à superfície do meu cérebro, eu me contorço por não querer de forma alguma pensar a respeito, refletir sobre essa coisa que jamais deveria ter acontecido. E é exatamente por isso que pouco digo sobre como foi acordar bêbado aquela noite e ver meu pai de joelho no chão da sala, me molestando, levando-me a uma ereção involuntária e inconsciente. Tudo isso é muito nojento. E sem querer me auto-flagelar, triste, para alguém que viu a mãe morrer de uma forma horrível dois anos antes... Bem, o fato é que mesmo após tudo, mesmo sendo dono de uma mente perturbada e até mesmo pervertida, eu me sinto melhor hoje, acho que hoje sou um Renato melhor do que já fui há um tempo. E no fundo acho que é isso mesmo que importa, é a gente ser uma pessoa melhor... Mesmo com sua pobreza, ou com sua falta de religião e fé no que as pessoas não podem simplesmente explicar, ou mesmo sozinho, sem ter quem convidar, com seus inúmeros defeitos, o importante é se sentir melhor. E se você é melhor agora, então o que importa o local onde você está? Como diz meu grande professor, “Observar e construir algo melhor é bem mais sábio que apenas imitar.” E é exatamente disso que falo agora, minha ansiedade me leva a pensar em meses futuros e ainda distantes, por mais que eu bloqueie. Por mais que eu saiba que não tenho casa nem ninguém, quero me concentrar no dia de hoje, e o dia de amanhã, será amanhã. E assim meses se passarão sem muitas preocupações. Eu tenho muito medo do que ainda nos espera, mas isso não pode se sobrepor e anular o dia de agora.
     A cortina soprava com o vento. O silêncio. Eu estava irritado, nostálgico, fisicamente esgotado e aparentemente depressivo. No banheiro, abri a torneira e joguei água no rosto. Minha cara. Eu parecia ter sido arrastado por um caminhão na noite passada e sobrevivido. Rapidamente lembrei-me da pele suave de Julia, seu ombro sendo massageado por mim, sua nuca, suas contrações sincronizadas aos meus movimentos. Aquilo não fora um sonho, eu estive naquele quarto pouco antes de Sander aparecer; estava momentaneamente excitado ao pensar em tudo isso, ela estremecera toda no momento em que meu corpo alto e forte chegou bem próximo, aquele breve atrito a fez soltar um leve suspiro, quase sem som, apenas o ar escapando-lhe pela boca. Eu criaria uma nova oportunidade. Voltei ao quarto, usei um pouco de colônia do Sander que estava por ali, a embalagem do Ferrari Yellow despertou minha curiosidade. Gostei muito do perfume, o cheiro se espalhou pelo ar preso da tarde abafada. Recomendo a quem queira algo de qualidade. Logo alguém bateu na porta.
—Renato, estão te chamando para comer. —Era Felipe.
—Já estou descendo, cara.
    O final da tarde foi tranqüilo, após as pizzas ficamos na piscina, Júlia apenas sentada na sobra com os pés na água. Conversávamos sobre o sumiço dos casais.
—Carol e Sander devem estar tranqüilos em algum lugar por aí, já devem conhecer mais essa região que qualquer um de nós.
—Sobre Fernanda e o outro, o que será que será que aconteceu? Estão até agora trancados no quarto.
—Eu duvido que eles vão embora. —Soltou Felipe, usava uma sunga verde de cor estranha, parecia desbotada, flutuava sobre o colchão inflável. —Fernanda saiu de casa brigada com o pai. Ele acha que ela deveria arranjar um namorado negro.
—Que idéia mais retrô. —Disse Júlia. —Só por que ela negra deveria namorar um negro?
—O pai dela não gostou do Ricardo.
—Bem, isso é normal. Ninguém gosta do Ricardo. —Ironizou Augusto.
    O dia estava de partida e o pôr-do-sol era incrível, o pôr-do-sol em Goiás é algo incrível, a geografia plana permite que vejamos o sol em seu último minuto, fugindo para o outro hemisfério ao criar um tom laranja que preenche todo o horizonte, mesmo em Goiânia era possível presenciar esse momento fantástico por entre os prédios e torres. Mas ali onde estávamos ainda era mais incrível, porque a medida que o laranja se tornava negro, as estrelas cravadas no céu, surgiam com um brilho intenso que jamais havia visto.
—O pôr-do-sol aqui da sua fazenda é incrível. —Disse contemplando.
—Fantástico.
    O som tocava alto, Fernanda e Ricardo trancados no quarto, e nós ali na piscina viajando no que era um resquício de luz solar. Oi quando surgiu Carol e Sander, ofegantes, pálidos. Assustei-me.
—Vocês não vão acreditar! —Carol parecia ter corrido muito para chegar até ali.
—O que aconteceu com vocês?
—Vocês não vão acreditar, vimos alguém rondar a casa de onde estávamos. —Disse Sander meio que em pânico. —Acho que todos pensaram ser mais uma piada sem graça.
—Vocês têm certeza de que viram o que viram? —perguntei. Não que não acreditasse neles.
—É sério Renato, acha que iria inventar algo assim? Nós estávamos próximos a um riacho que passa mais embaixo quando vimos uma luz no meio do mato, era um isqueiro eu acho, eu não sei... parecia com um isqueiro.
—É verdade. De inicio pensamos que fosse um de vocês. —Confirmou Sander.
—Eram vaga-lumes. —Falou Júlia.
—Foi quando decidimos sair para ver se aquilo era de fato real ou se na verdade nós estávamos viajando, sei lá... Mas era verdade, quando nos aproximamos a pessoa começou a correr...
—Depois vimos um motoqueiro descendo a estrada com o farol apagado. Era uma moto, temos certeza.
—Desapareceu, e era tão estranho, não parecia ninguém comum. Estava escuro, mas tenho certeza de que a pessoa estava vestida de preto e usava uma daquelas mascaras emborrachadas que se compra para o Halloween.
—Viram se estava armado? Revolver, sei lá...
—Não... Nós corremos atrás durante algum tempo, mas depois perdemos totalmente de vista. —Julia se levantou.
—A gente, vocês vão acreditar neles? —Olhei para Carol, para ter certeza de que estava mentindo. Mas Carol quando queria se fazer acreditar, era uma bela atriz.
—Eu juro que estou falando a verdade.
—Isso pode ser várias coisas... —Confirmei. —Repórteres, vizinhos querendo pregar uma peça, podem saber que estamos aqui. Quem garante que não.
—Como pode também ser...
—A casa aqui estava vazia há tempos, quem nos garante que o pessoal da região não estava usando para trazer as namoradas ou sei lá o que.
—Gente, vocês não viram o que nós vimos, o sujeito usava uma máscara... eu estou com medo, acho que não quero mais ficar por aqui.
—Não podemos entrar em pânico. Vamos apenas ficar atentos, ta bem? —Todos saíram da piscina. —Amanhã veremos o que a gente faz. —Eu parecia ser o mais sensato. Recolhemos rapidamente as toalhas e algumas coisas e entramos rapidamente.
—Trancaram as portas?
—Vamos trancá-las. —Então todos começaram a trancar as portas e fechar as janelas.
—Estão todas trancadas. —Disse Augusto.
—Além das portas existe outra forma de se entrar aqui?
—Não... Todas as janelas possuem grades.
—Não há com o que se preocupar, tem uma cidade vizinha há sete quilômetros. Verifiquem as janelas e as portas, amanhã discutimos de cabeça fria. É o que eu sugiro, o que vocês acham?
      Janelas conferidas, todos se trancaram em seus quartos e a noite se tornara mais silenciosa que nunca, todos acordados, em silêncio, algumas vezes falando baixo, confessando coisas, calando-se outra vez. Sempre a espera de algum ruído, de qualquer coisa que pudesse nos despertar caso já estivéssemos dormindo. 




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