quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

67 - COISAS BELAS E SUJAS

Trilha: Trespassers William - lie in the sound  / Warren Ellis - what happens next   (e)   Peaches - fuck the pain way







                                                                                                              Augusto nos levou até uma represa, há uns dois quilômetros da sede, nuvens apagavam o sol hipoteticamente. Pensava em Júlia, pensava em Fernando perdido no outro hemisfério, pensava no velho desgraçado e no que seria quando o ano chegasse ao fim. Sabe quando, de uma vez, surge várias coisas na mente e você tenta administrá-las de uma vez mas sem se concentrar em nenhuma delas? Quando descemos dos carros, senti a terra úmida e uma brisa suave, fria. Então Augusto ligou o som do carro enquanto Fernanda e Ricardo se aproximavam com latas de Skol. Peguei uma para mim. A visão ampla do céu se perdendo no horizonte verde-capim. A fraca luz do sol se refletindo nas águas da mansa e gigantesca represa. O vento leve que nos levava a contrair os braços, mas ainda assim incapaz de afastar a bebida gelada das bocas secas e ávidas por um trago, um gole qualquer.
     Ricardo passou uma lata para Vinicius, que imediatamente produziu um estalo ao abri-la.
—Se fosse você não bebia mais isso por hoje. —Fui levado a dizer, o álcool só alongaria os efeitos da droga que nele estavam tão evidentes. Eu me preocupava com o uso dessas coisas. Usava para me divertir... Os filmes nos levaram ao desejo de experimentar, criara em nós uma espécie de necessidade. Quem já assistiu Christiane F. sabe do que estou falando. E esse foi apenas o começo de uma seqüência interminável, e não menos impactante.  Alguns meses atrás, pouco antes do aniversário de Augusto, nós três, Carol, Caio e eu, locamos numa tarde uma pérola cinematográfica sobre a vida de uma jovem usuária no subúrbio de uma grande metrópole: “A cidade está tranqüila.” O filme mexeu tanto conosco que decidimos que algo deveria ser feito. Se não arrumássemos cocaína ou LSD, que seria maconha mesmo. Queríamos experimentar alguma coisa. E por meio de alguns contatos Caio conseguiu um punhado de maconha. E inicialmente era amplamente divertido, ficávamos os três na janela do quarto de Carol, soltando baforadas de cânhamo enquanto o incenso salpicava no ar um cheiro acre de fruta podre. Só depois de conhecermos Sander é que essas brincadeiras se tornaram coisa séria, ele fornecia coisas que antes nem contabilizávamos. Eu via que Carol estava cada vez mais envolvida por ele, e que Augusto a cada dia se envolvia mais com o que ele tinha para oferecer, e isso me preocupava. E de fato entre todos, eu era o que deveria se preocupar. Porque eu não tinha nada, nem ninguém. Joguei a lata de cerveja no chão ainda pela metade e me distanciei um pouco de todos, a música era tão alta que parecia estar vindo de dentro do lago, era música suave, promovia a contemplação do espaço natural. Notei alguém se aproximando por trás.
—Tudo bem com você? —Perguntou.
—Sim. —Continuei caminhando, Augusto me acompanhara. —O que você colocou para tocar? Gostei desse som.
—Trespassers William.
—Saca tudo, ein?
—Eu tento. —Disse ele, paramos momentaneamente. —O Sander vai pôr um, não está afim de uma prensa? —Eles realmente estavam muito envolvidos.
—Acho que vocês estão exagerando um pouco com isso.
—Foi você quem deu ideia de doparmos todo mundo ontem...
—Certo. Isso foi ontem... Vai querer tomar mais ácido hoje?
—Se alguém tiver... —Disse rindo. —Com certeza.
     Fiz cara de homem sério. Ele notou e logo tirou o sorriso do rosto.
—Isso não é brincadeira. Viu como está o seu namorado? Vai acabar tendo um troço se não dormir.
—Você está exagerando...
—Não estou não, Augusto. E outra, você pode se drogar o quanto quiser, não tem com o que se preocupar! —Não deveria ter mencionado aquilo assim, de forma irônica, sem pensar.
—Ah já sei... Eu sei o que você pensa de mim, Renato... Eu sou um playboy filho-da-puta, não sou? Você acha que porque meu pai tem dinheiro e me dá um monte de troços que custam caro, na verdade para compensar o que realmente preciso e não tenho, que seria um pai, já que minha mãe morreu há oito meses atrás... —Estava fora de sí. —Você acha que por isso eu não tenho com o que me preocupar, não é? —Detesto pessoas que não dão valor ao que tem.
—Pelo menos você tem isso, esse monte de coisas que custam o olho da cara… Pelo menos você tem um futuro promissor... Porque de pai, meu amigo, nós dois estamos ferrados.
—Eu acho que você está muito por fora do que se passa... Eu pensei que estivéssemos mais próximos, que você sabia pelo menos parte do que tenho passado... Mas estava enganado. — Disse dando meia volta.
—Você entendeu errado, não foi isso que eu quis...
—Vai se ferrar, Renato! —E se afastou.
    Eu estava isolado, acendi um cigarro e voltei a caminhar cada vez para mais longe dos outros. Pensava de que forma poderia conseguir um emprego e descolar uma grana, não dava para viver na casa de outros, comendo e bebendo o que me davam. E quando não tivesse mais roupas para usar? Passaria a pegar emprestado? De forma alguma. Eu tinha mais de um ano de carteira assinada como vendedor. Tive a sorte de trabalhar em uma das lojas Levi’s, em um dos shoppings, e comprava boas calças com um bom desconto. Os clientes gostavam de mim, seria um começo ligar para a gerente e como quem não quer nada descobrir se não estariam interessados em recontratar um cativante funcionário. Mesmo sabendo que a gerente era uma mulher grossa e incivil, uma masculina lésbica assumida.
     O que mais me deixava perplexo e azedo era o fato de que semanas haviam se passado, e por mais que não soubesse onde estava, ele possuía o numero do meu celular, mas nenhuma ligação de casa foi notificada pelo identificador de chamadas. Sob condições alguma eu voltaria a conviver sob o mesmo teto, havia descoberto um lado daquele homem que jamais podia imaginar... conviver. Talvez ele tivesse medo de que eu o denunciasse. Eu não faria isso... Talvez atravessar a fronteira do México e alcançar o estado do Colorado fosse uma opção mais sensata agora. De qualquer forma parecia algo tão impossível que raramente me passava pela cabeça.
    Acabei chegando à conclusão que o que eu tinha de mais real naquele momento estava se despedindo sem que eu fizesse qualquer coisa para impedir que o trem partisse, entende? Precisava voltar. Interromper a leitura de Julia com meu corpo rijo e minha boca sedenta. Ela se surpreenderia ao me ver e seria incapaz de disfarçar o leve pasmo ao me aproximar.
    Retornei em passos largos e apressados. Estavam empoleirados sobre os carros como aves em poleiros.
—Preciso voltar. —Disse ríspido. —No que estão pensando?
—Nada em especial. O que você tem? —Indagou Carol.
—Nada em especial. —Soltei. —É sério, a não ser que queiram comer a sopa de legumes da Carol, é melhor voltarmos.
    Ninguém disse nada, olhavam para a água como quem reluta em acreditar que está tendo uma miragem. Cansado de aguardar uma resposta e acompanhar o transe coletivo da moçada, resolvi retornar a pé.
—Ei, —Gritou Augusto. —Está indo onde?
—Voltando para sua casa de campo.
—Pega meu carro, vai nele. Nós voltamos com Ricardo depois.
    Carol demonstrou-se irritada, mas nada disse. Peguei as chaves na mão de Augusto e retornei dirigindo seu carro, pensando em imundices com uma garota de aspecto tão limpo.
      Esperava encontrá-la na sala, deitada no sofá com seu romance em mãos, mas não estava. Chamei umas duas, três vezes e não houve resposta. Veio-me em mente Carol dizendo que não achava boa ideia Julia ficar a sós, talvez estivesse correta. Sondei todo térreo da casa, na cozinha apenas a mesa ainda suja do café, na sala de jantar, ali estava ele, o livro caído no chão ao lado do sofá. Abri a porta de correr e fui até a piscina, chamei algumas outras vezes. Nada.
     Subi os degraus rumo aos dormitórios receoso, antes de chegar ao corredor retornei, estava de mãos vazias. E se alguém estivesse a espreita? Voltei à cozinha. Puxei uma faca do cedro, curta demais, na segunda vez obtive mais sorte, lâmina longa e aguda. Excelente para perfurar. Já imunizado, subi os degraus e alcancei novamente o corredor, as portas estavam todas fechadas de modo que o que via neste instante era um túnel negro e fatigante. Invadi-o, se algo de mal tivesse acontecido eu não me perdoaria. Suavemente lancei a mão sobre a maçaneta do quarto das garotas, penumbra. Afastei a porta obtendo maior visão do interior do cômodo. Ela estava de costas, nua acima do umbigo, estremeci, a faca pendia rumo ao chão.
—Julia? Está tudo bem?
—Sim. —Disse virando-se de frente para mim, eu nem estava acreditando. Seus seios eram firmes e pequenos, atraiam-me. —Venha até aqui.
     A faca soltou-se da mão, eu dei uns passos medrosos e a abracei, beijei aqueles lábios que ninguém beija e por isso cede mais àqueles que se aproximam. Meti minha língua em sua boca quente e ela chupou, sugou minha saliva e me passou uma bala de menta quando me invadiu retribuindo minha agressividade passiva. Apalpei seus seios com as duas mãos, eram firmes como imaginava, por um instante desci e passei minha língua sobre o bico de um deles, mamei-o, ela gemeu. Abri os botões da minha camisa e joguei-a no chão, exasperada ela metera as mãos  me acariciando os pêlos do peito, da barriga, desceu os dedos, enfiou a mão dentro da minha calça e segurou meu pau, com uma mão firme e quente. Apalpando-o por fora da cueca da Levi’s. Abri meu zíper e novamente a beijei, enquanto a beijava pensei rapidamente se aquela seria mesmo Júlia, ou seria um mutante disfarçado? Eu estava louco de tesão, sentindo o gosto da boca que havia desejado, sua mão agora roçava a cueca e a calça desceu a altura dos joelhos. Ainda em pés, voltei a sugar seus seios, desci seu shorte e fiquei com o rosto bem perto da vagina dela, passei minha língua por ali, ela estava agora apenas de calcinha. Uma vez havia ficado com uma garota no vestiário masculino, e não sei por que, mas a imagem de Léia Telles veio-me aquele momento. As garotas adoram os caras que praticam esporte, e existem aquelas que gostam, em especial, dos nadadores, após os treinos as garotas praticamente se oferecem nos arredores da piscina, às vezes o treinador vai embora mais cedo fingindo não ver e nos deixa livres para uma pequena recreação. Uma vez fiquei com essa garota, Léia Telles, fomos para o banheiro e ela sem dizer nada abriu meu zíper, pegou meu pau e começou a chupá-lo com uma determinação que jamais vira antes. Nunca havia ficado tão excitado, até agora.
    De repente ela tirou minha cueca e jogou em um lugar qualquer, eu estava em pé, ela sentada na cama. Achei que como Léia Telles ela iria chupar minha vara, mas logo deitou-se e me chamou para cima dela. Tirou a calcinha amarela e abriu as pernas mostrando a beleza que havia ali entre elas. Agachei-me, beijei seus tornozelos, suas coxas, virilha. Passei minha língua quente e úmida em torno de seus clitóris, Julia ronronou como uma pomba acuada, o que me deixou livre para prosseguir. Então passei meu cacete sobre seus pelos pubianos, eu estava babando. Ela perguntou se eu tinha uma camisinha.
—Claro que tenho. está na carteira, no bolso da calça. —Respondi. —Você coloca?
Quando penetrei, ela estava deitada de costas, o braço quebrado, pernas para o ar, eu me apoiava em seus joelhos enquanto me mexia cada vez vais rápido, metendo bem gostoso e quando gozei, deixei-me cair sobre o corpo branco e mole da senhorita Mosquita. Carol tinha toda razão, ela era um peixe fora d’água, se debatendo até a exaustão. Ficamos um tempo em silêncio, nus sobre a cama de solteiro, com as pernas para fora da cama e os pés no chão.
—Esteve tudo bem aqui enquanto estivemos fora?
—Sim, —Disse levantando-se. —só houve uma coisa estranha. Estava aqui em cima mexendo em algumas coisas quando ouvi um barulho muito parecido com o de alguém batendo na porta, então desci, mas não havia ninguém...
—Como assim não havia ninguém?
—Não sei, não havia ninguém, mas encontrei um envelope na entrada, deixaram na varanda. —Fiquei perplexo, alguém que não fazíamos idéia esteve ali, talvez fosse melhor irmos embora ainda aquela tarde.
—Está falando sério? E o que tinha dentro desse envelope?
—Não sei, não cheguei a abrir, coloquei em algum lugar. Deixei na sala eu acho. —Ela já se vestia, decidi fazer o mesmo.
—Você encontra um envelope na sua porta, após alguém bater e desaparecer e você não fica curiosa para saber o que é?
—Não, se quer tanto saber, desce e veja você mesmo. —Começou a pentear os cabelos.  
   O barulho do carro de Ricardo surgiu com os gritos de Carol, rapidamente coloquei minha camisa e calcei o tênis.
—Não precisamos... —Comecei dizer.
—Claro que não. Ninguém precisa saber. Melhor descermos.
    Estavam na sala em baixo, e por incrível que pareça ninguém notou em nossos rostos traços de aflição, talvez não estivéssemos mesmo. Sander já posicionava seu violino e com o arco na mão direita, iniciava uma introdução qualquer. Vinicius parecia exausto, seu corpo estava largado em uma espécie de divã. Tentei localizar o envelope de que Julia havia falado, e lá estava ele, ao lado de Fernanda e Ricardo, esquecido sobre o sofá.
     Fernanda o notara antes mesmo que eu pudesse alcançá-lo. Leu algo escrito a caneta. Rasgou o topo e meteu suas mãos enxeridas tirando de lá um pequeno volume de papel fotográfico. Olhou uma primeiro, surpreendeu-se, depois passou algumas mais como se não acreditasse.
—Oh meu Deus! —Disse finalmente, chamando a atenção de todos. Até mesmo Vinicius pareceu despertar de seu breve coma.
—O que foi? —Quis saber Caroline Araújo.
—Veja isto! —Disse passando a imagens para o namorado sentado ao lado.
O intruso olhara tudo incrédulo.   
—Oh meu Deus!
—O que foi? —Dessa vez foi Augusto.
—Vocês mataram o Caio.
—O quê? —Julia estava pouco atrás de mim.
—Vocês o jogaram no rio… as fotos. —Fernanda andava em círculos.
—Carol jogou. —Acusou Ricardo lançando as fotos sobre a mesa. Vinicius se levantara da poltrona, Julia se aproximara com intenção de pegar a prova. Eu me antecipei.
—Deixa eu ver isso, Renato. —pediu-me impaciente.
     Realmente eram fotos tiradas naquele dia em que estivemos com Caio pela última vez, o dia em que o perseguimos e Carol inconsequentemente acabou o lançando no rio por medo de que ele atirasse em um de nós. Encarei Caroline, percebi o nervosismo. Augusto parecia desnorteado, mudou até de cor, mas estava muito mais preocupado com a reação de Vinicius ao ver aquilo do que com o fato em si. Sander era o único que parecia indiferente, e não demorou muito para que voltasse a sua introdução, interrompida pelo choque inicial provocado por aquela negra rica que nem deveria estar ali. 



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