domingo, 23 de janeiro de 2011

68 - TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS

Trilha: The Tea Party - psychopomp








                                                                                                       Algumas horas se passaram desde o embaraçoso acontecimento, o envelope deixado em nossa porta com as fotos do dia em que jogamos Caio no rio. Na revolta Fernanda e Ricardo Bensimon saíram para espairecer, Fernanda disse que precisava pensar, pois estava sufocada. E sem dizer mais nada pegaram o Kia e se mandaram entre o nada, Felipe saiu de mansinho e os seguiu. Eu sabia que era hora de ir embora, não só pelo climão tenso e os olhares estranhos, mas alguém, que sabia muito mais do que pensávamos havia estado ali num momento em que a casa estava praticamente abandonada e nos deixado um envelope. Isso quer dizer que o sujeito vinha nos observando e a história de Carol e Sander sobre um homem mascarado que acendia um cigarro nos arredores da casa, era verdadeira. Vinicius tinha desmaiado no sofá e como havia dito, provavelmente dormiria as próximas vinte e quatro horas. Sander se trancara no banheiro e percebendo que estava totalmente a sós com a corja, Julia inventou uma desculpa qualquer e saiu da sala ganhando a varanda.
—Julia, se eu fosse você não me afastaria muito. —Aconselhei. ela deve ter entendido mais como uma ameaça.
—Não precisa se preocupar comigo.
     Carol, Augusto e eu havíamos contado toda história, não porque aconteceu, mas mantendo o foco no como aconteceu. De forma que todos ali presentes poderiam afirmar que Carol só fez o que fez, porque Caio segurava uma arma nas mãos e pretendia atirar. Por mais que isso ficasse visível nas fotografias, ninguém queria acreditar. Caio com a arma empunho pronto para atirar, o que não convenceu foi o motivo que levara Caio a cometer aquele ato insano, o tiro que saíra pela culatra. Agora estávamos nós três, escondidos na cozinha, dividindo um cigarro e pescando azeitonas verdes de um pote a nossa frente.
—Até agora estou tentando entender como esse envelope veio parar aqui. —A bomba havia nos abalado fortemente.
—Alguém deixou aqui. A Julia ouviu alguém bater na porta. A questão é: Quem tirou essas fotos?
—Eu disse à vocês que tinha visto a mochila do Caio caída na mata, quando fizeram o patrulhamento não encontraram nada. Quem pegou a mochila do Caio aquele dia foi a mesma pessoa que tirou essas fotos.
—Mas quem poderia ser? —Carol estava descabelada, o vento empoeirado das ruas de chão não lhe fizeram bem. —Como saberia que estamos aqui? Meu Deus! —Desesperou-se. —Alguém nos seguiu.
—Você acha mesmo?
—Claro, Renato. Qual outra explicação?
—Se a Carol tiver razão, acho melhor sairmos daqui antes do anoitecer.
—Goiânia?
—Sim, você tem outra sugestão?
—Vamos para Goiânia então! —Disse enquanto se levantava, estava saindo quando fez uma pausa e questionou-me sobre as chaves do carro.
—Estão sobre o aparador da sala.
—Tudo certo, então. Vamos subir pra ajeitar as coisas e dizer ao pessoal para fazermos o mesmo. —Ficamos Carol e eu, com os cigarros e as azeitonas.
—Acha que aqueles dois idiotas e o Felipe podem nos delatar? —Perguntou.
—Talvez.
—O que fez com as fotos?
—Estão guardadas, me livrarei delas no caminho para casa.
—Para falar a verdade não vejo a hora de voltar, estou com saudade do meu quarto, da minha mãe com suas neuroses, de você saltando a janela. —E segurou meu braço demonstrando carinho. —Está tudo tão diferente agora…
—Faz apenas três dias que estamos fora.
—Agora que estou aqui, não sei por que vim.
—Nem fala, Carol.—pausa breve.— Estou ficando louco com tudo isso... Tenho passado vinte e quatro horas por dia pensando no que fazer... Como arrumar um emprego, onde morar, o que fazer no próximo ano quando sairmos do Campus. Vocês já estão com vagas garantidas nas Universidades, inclusive fora do estado, e eu? Eu não tenho grana para Faculdade. Não tenho lugar para morar, não tenho ninguém que esteja comigo nessa. Entende? E isso está me matando... —Desabafei, cocei os olhos para que não me vesse chorar. Com Carol sempre foi fácil de falar as coisas, por mais que algumas eu escondesse por vergonha.
—Eu não vou sair do estado, Renato. Vou estudar aqui mesmo, e sabe que vai poder contar comigo. Quanto aos estudos, prepare para a seleção da Universidade Federal. Como diz o diretor, você recebeu uma educação intelectualmente diferenciada nos últimos cinco anos. Sua vaga também está garantida. —E sorriu tentando me confortar da sua maneira.
—É... Talvez você tenha razão. —E retribui o sorriso acanhado, de qualquer forma foi uma bela tentativa da minha parte.
—O que vamos fazer com relação à Fernanda e Ricardo.
—Não são só os dois, tem a Julia também, que me parece ter ficado em transe com tudo que dissemos. E também não confio nesse Vinicius... você acredita que ele procurou uma repórter, aquela do canal dois, Juliana Texeira, e contou coisas que você nem imagina?
—Estou ficando preocupada, Renato. Se descobrirem que atropelamos aquela garota? Se essa história em que eu jogo o Caio no rio for parar na delegacia? Ele é filho de um deputado! Puta merda!
—Não há nada a fazer, Carol. Talvez pudéssemos criar um pacto de silêncio. Mas não tem como prever quando alguém vai dar com a língua nos dentes.
—Claro que não... Caio era um de nós. E não deu no que deu?
—Vamos embora! —Levantei-me, pensando em avisar Júlia do mesmo. —Melhor dar uma olhada no Sander, acho que ele não está muito bem.
—Quem está? —Então saiu.
   Abri a porta da cozinha que dava para uma área de serviço externa, dei a volta na sede, passei pela frente da casa, onde as roseiras cresciam como plantas selvagens, passei pela piscina, a churrasqueira, que nem utilizamos, e já me espantava o fato de não ter visto Júlia em nenhum lugar. Alcancei os fundos, nada. Será que já estava lá dentro e eu não percebera? Decidi entrar. As janelas ainda estavam fechadas, tranquei a porta da varanda, fui até a cozinha e tranquei a porta de madeira pela qual sai momentos antes.
   Vinicius ainda cochilava, subi os degraus e abri a porta do quarto das garotas, ninguém ali. Em meu quarto Carol e Sander estavam em pé, escorados na parede, estavam de frente, mas desviavam olhares.
—Vocês viram Júlia? Não está lá de fora. —Ambos moveram as cabeças negativamente.
—Acho melhor arrumarmos nossas coisas. —Disse Carol vindo em direção a porta. —Olha suas coisas, Sander, todas espalhadas.
   E então saiu deixando-nos a sós.
—Está tudo bem contigo. —Arrisquei perguntar.
—Está sim. —logo começou recolher alguns objetos. —Você andou mexendo nas minhas coisas? —Fiquei sem saber o que dizer... então antes que pudesse falar ele continuou. —Eu odeio que mexam nas minhas coisas? Se não foi você só pode ter sido o besta do Felipe. —Continuei calado e comecei meu trabalho arrumando minha cama. Hora essa, se não gostava de ver suas coisas com os outros porque deixava tudo espalhado e ao alcance de qualquer um?
—Não sei como o Augusto não tem medo de deixar tudo isso aqui sozinho, no meio do nada.
—Ah, Renato, isso é problema dele, cara. Na verdade esse Augusto é um maluco. —Sander estava irônico. E também não me parecia muito propenso a uma conversa de amigos.
     Continuava fazendo calor. O ar da rua cheirava umidade, a terra e cimento molhados, a fruta podre. Quase tudo que eu tinha já estava dentro da mochila, guardei o par de tênis, a toalha e minha escova de dentes. Estava tudo pronto. Como Felipe não estava presente, arrumei seu colchão jogado entre as duas camas, e o que encontrei de seu, que também não era muita coisa, larguei em um canto do quarto ao lado de sua mala preta.
    Augusto entrara agitado.
—Tem certeza de que a chave estava no aparador?
—Sim, por quê? Não a encontrou? —Ele fizera um movimento com a cabeça, dizendo que não. Porra, eu tinha deixado as chaves exatamente onde havia dito, tinha plena certeza disso. O seguimos de volta à sala e realmente não havia nada sobre o aparador.
—Alguém pode ter pego?
—Tenho certeza de que estava aqui. Acorda o Vinicius, vou falar com a Carol. —Disse.
    Vi que estava organizando algumas peças de roupa, a mala estava aberta, pareceu dsurpresa ao me ver.
—O que foi? —Perguntou.
—Mais uma... —adentrei cauteloso.
—Não me assusta, Renato. O que aconteceu?
—As chaves do carro... parece que sumiram.  
—Não estou acreditando nisso... Acha que alguém, enquanto estávamos aqui, poderia ter entrado e pego as chaves sobre o aparador?
—Acho que não... Quem?
—A mesma pessoa que deixou aquele envelope na porta essa tarde. Talvez o mesmo que Sander e eu vimos na moto ontem. —haviua interrompido o que fazia e me fitava dramaticamente.
—Eu sinceramente, não sei! Não vejo como, assim que subi tranquei as portas.
—E antes? —Eu estava perplexo, e psicologicamente estávamos ainda sob efeito de drogas, fisicamente mau alimentados e cansados pela noite em claro. —Encontrou Júlia?
—Não.
—Precisamos ligar para alguém, avisar onde estamos e pedirmos para que nos busque. Vá procurar Júlia. —Assim que acabou de dizer essas palavras escutamos um estrondo, não era tiro, nem janelas se quebrando, era um estrondo estranho, uma batida de carros talvez. Mas ali?
—O que foi isso? —Perguntou minha amiga aflita.
     Descemos a escada, os três ainda estavam na sala, estavam congelados quando os vimos, mas pela posição em que se encontravam era possível imaginar que estavam a procura das chaves.
—Vocês ouviram isso? —E saiu em nossa frente acompanhada de seu traficante-namorado.
    Vinicius permanecia imóvel, dormia em paz. Augusto já estava fora da casa, o alcançamos ainda na varanda. Parecia perplexo. O carro de Ricardo havia se chocado contra uma árvore de encosta, chocaram-se de frente causando paralisação total do automóvel. De longe pudemos ver que Ricardo saia pela janela, a porta provavelmente havia se emperrado, a voz de Fernanda era nítida, porém incompreensível. E de repente, surgindo de trás de alguma coisa enquanto nos aproximávamos, ele, inacreditavelmente.
    Carol me olhou firme, os olhos transmitiam dúvida e alivio.
—Caio? —Soltou Augusto.
    Era ele, cabelo bem mais longo, desgrenhado, barba para fazer, mais gordo que nunca, roupas sujas, aparentemente péssimo, mas era o Caio. Aquele filho da puta! Naquele momento não pensei no que ele estava fazendo ali no meio do nada, fiquei tão surpreso e emocionado ao vê-lo que havia me esquecido até mesmo das chaves, das fotos e de todo o resto. Quando nos aproximamos suficientemente para uma visão mais objetiva, percebemos que Ricardo estava extremamente irritado, agredindo Caio com palavras, parecia pronto para avançar.
—Seu gordo sujo, olha o que me fez fazer saindo do mato daquele jeito, parecia um urso vindo em nossa direção.
—Quer calar sua boca. —Fomos nos aproximando, correndo. —Nós precisamos sair daqui. Rápido! —Avisara Caio. Inicialmente não olhara para nenhum de nós três, para mim, Augusto e Carol... E nós apenas o observávamos, presenciávamos a ressuscitação dos mortos.

*

—Meu irmão, quando deixei o Brasil não imaginava que algo assim pudesse acontecer naquela nossa cidade pacata. —Disse Fernando ainda sentado no sofá, os pés descalços sobre a mesa de centro. Era o seu dia de folga.
—Muita coisa aconteceu naquela cidade depois que você se mandou, agora que estou aqui, tudo parece tão distante, as pessoas, os lugares... Papai.
—Não está pensando em voltar por conta do nosso pai, está? Aquele velho não presta Renato. Depois de ter feito com a gente o que fez merece passar o resto dos dias sozinho. Um asilo público cuidará bem dele.
      Entendia perfeitamente o ódio de meu irmão, até mesmo porque fora ele que crescera sob os braços e os olhos de nosso pai, mas as vezes ele me parecia frio demais, cruel.
—Não sei como você consegue ser tão frio.
—Nosso pai tem grande parte de culpa de nossa mãe não ter superado a doença. Lembra como ele a tratava naquela época? Ele a obrigava a fazer o jantar mesmo naqueles dias que ela passava a tarde toda na cama após a quimioterapia. —Parecia extremamente tranqüilo, seguro de si. —Esquece isso Renato, agora somos só nós dois. O colorado parece assustador no inicio, mas depois que você se acostuma se torna um ótimo lugar para se viver. Você vai ver. Mas agora continua... Depois que o Caio reapareceu? O que houve?
—Na verdade depois desse dia eu nunca mais vi o Caio novamente, e o Augusto se afundou de vez nas drogas, cheirava pó com freqüência e experimentou o crack pela primeira vez, para não falar da bebida e do cigarro que estava sempre presente. Isso fez com que eu me sentisse cada vez mais repelido e incomodado dentro daquele apartamento, limitando minha vida a pessoa dele... Logo eu chego lá. Agora vou voltar e recomeçar de onde parei.
—Eu sou todo ouvidos. 


Continua...


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PRÓXIMO DOMINGO CAPÍTULO INÉDITO E IMPERDIVEL de DIAS DE CHUVA.

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