Virei-me para Ricardo. —Ricardo tem certeza que a policial disse que mandaria uma viatura checar o local?
—Ela disse que sim, disse que mandaria alguém... Mas velho, nós estamos no meio do mato cara... Como eles vão saber que porra de casa estamos?
—Eles vão saber, cara... Eles devem conhecer a região. Nós precisamos subir.
—Eu não consigo. —Apesar da penumbra que se fazia, já era inicio de noite, ficávamos cada vez mais aterrorizados com a quantidade de sangue que ele perdia, minha camiseta estava coberta por sangue, as roupas dele estavam encharcadas, e uma pequena poça começava a se formar no local em que se encontrava, sentado e escorado na parede.
—Não é seguro ficarmos aqui.
—Não vamos deixar ele aqui sozinho. Não podemos fazer isso. —Protestou Fernanda. Nesse momento, apenas Augusto e Vinicius não estavam, o me causava, também, certa preocupação.
—Fernanda, não é seguro ficarmos aqui, alguém está do outro lado daquela porta com uma arma de fogo nas mãos. Onde está o Augusto pessoal? Ainda com o Vinicius? —Carol confirmara sem nada dizer.
—Precisamos subir. —Antes de alcançar os degraus ouvi Ricardo dizendo à Fernanda que ele ficaria bem e que ela deveria nos acompanhar.
Agora a escuridão já era completa, a noite havia chegado e com ela a incerteza, o pavor que rondava a casa, o sangue de Ricardo em nossas mãos. Alcancei o corredor e pude ver a porta do banheiro aberta. Vinicius estava caído no chão e Augusto chorava com a cabeça do cara em seus ombros. Observei que a porta estava quebrada.
—O que aconteceu aqui? Você arrombou a porta?
—Arrombei, ele não respondia nada. Eu achei que fosse o melhor a fazer...
—Você estava certo...
—O que aconteceu lá embaixo?—Ele estava totalmente transtornado, fora de si. —Eles vão nos matar, Renato. Vamos todos morrer.
—Claro que não Augusto, Ricardo chamou a policia, estão chegando. —Agachei-me ao seu lado, tentando consolá-lo. Passei a palma da mão em suas costas. Olhando Vinicius, parecia morto, mas ainda respirava. —O Vinicius não está bem. Precisamos colocá-lo debaixo da água fria.
—Ele está praticamente desmaiado, sei lá... Eu nunca vi ninguém assim antes.
—O cara não estava acostumado, Augusto! Além disso, não comeu quase nada desde que chegamos e pelo que me disse ele está acostumado a comer muito bem.
—Esse sangue...
—Ricardo levou um tiro quando tentou fugir no seu carro....
—Meu Deus do céu, —Foi quando começou chorar, e ver qualquer pessoa chorar é algo que me deixa muito triste.
—Vai dar tudo certo Augusto...
—E como ele está?
—Eu não sei... acho que está perdendo muito sangue.
—O Vinicius está assim e tem pessoas atirando lá fora. O que vamos fazer? —Não faço idéia do que os outros faziam no andar de baixo, mas por um bom tempo ficamos a sós ali. Augusto, Vinicius e eu.
—Ele vai ter que nos perdoar, mas precisamos tirar as roupas dele e lhe enfiar no chuveiro, e seria bom se pegássemos um copo de leite e algumas bananas na cozinha.
—Eu vou descer e pegar as bananas. —Disse ainda parado na minha frente.
—Tudo bem, pode deixar que tomo conta. Pode, por favor, ver o que está acontecendo lá embaixo e pedir para que todos subam. Não podemos ficar lá embaixo, Augusto. Eu estarei aqui.
Imediatamente ele saiu, encostei a porta do banheiro e observei o cara ali caído, ele definitivamente estava numa pior. Analisando a cena do crime notei um celular bem próximo da banheira, alcancei-o, estava fora do ar. Notei o registro de duas ligações não atendidas, ao verificar pude ver que se tratava de alguém com o nome Juliana T. Violei a ética e verifiquei a caixa de chamadas feitas, a última chamada havia sido para o celular da mesma pessoa trinta minutos antes. Juliana T, e lembrando-me da conversa que tivemos, quando me confessou que mantinha contatos com a repórter do jornal local, cheguei a conclusão de que se tratava de Juliana Texeira, a repórter.
—Filho da puta! —Estava mais tranqüilo, se ele realmente conseguira falar com ela, então estávamos salvos. —Agachei-me até ele. —Ei cara, fala comigo, você conseguiu falar com a repórter? —Sacudi-o um pouco com violência, coisa que só podia fazer porque Augusto não estava presente.
—O quê?
—Você falou com a repórter?
—Falei... me deixa. —Foi as únicas coisas que conseguiu pronunciar.
—Beleza! Cara estou prestes a fazer uma coisa que talvez tu não venha gostar muito, mas vai ser preciso para que tu fique de boa outra vez. Vou ter que tirar sua roupa e te dar um banho, cara. E fique sabendo que eu também não estou gostando nada da situação. —Conversava com ele enquanto tirava suas roupas, foi meio complicado, mas era preciso. Explicar ao cara porque estava fazendo aquilo. —Você precisa estar bem para aparecer no plantão em todas as emissoras de tevê, seu sacana. Mas não se preocupe, você vai estar melhor do que eu... Você vai ver. Sabe porque, Vinicius? Porque você é um cara de sorte meu chapa. Quando sair daqui, assim como aquele filho da puta do Ricardo Feitosa, voltarão para casa, terão pessoas esperando por vocês. —Havia deixado o cara de cueca na banheira e ligara a ducha nesse momento. Ele deu um espasmo e voltara ao que era antes. —Eu não tenho ninguém, cara. Saindo daqui vou voltar para casa do Augusto e então, não tenho idéia do que irá acontecer.
Augusto invadira com um copo de leite e duas bananas nas mãos.
—Ele está bem? —Perguntou puxando os olhos para dentro da banheira.
—Vai ficar. O que foi?—Perguntei notando o interesse dele. — Ele vai ficar bem. Onde é que está o pessoal?
—Estão subindo, estavam decidindo se traziam Ricardo ou se deixavam ele lá.
—O que decidiram?
—Caio e Sander estão com ele na escada. —Perdi a paciência.
Ele estava ferido, não conseguia se mover, não poderiam subir com ele. E se precisássemos de uma fuga imediata? Mas assim que cheguei no corredor notei que era tarde demais, o ferido já estava sentado ao chão, ao lado de sua namorada, enquanto os que lhe trouxe, empunhados de suas armas e manchados de sangue, pareciam assassinos cruéis deliberados.
—Vocês não deveriam...
—Que isso, Renato, o cara está mal. — me interrompeu Caio. Ricardo me olhara com dor.
—Não me queria aqui, não é?
—Não é nada disso...
—O que vamos fazer agora? —Perguntou Carol. —Se não aparecer ninguém?
—Vai aparecer.
—Como você tem tanta certeza? —Ele havia feito um esforço escomunal para gritar aquilo.
—O Vinicius antes de apagar no banheiro conseguiu falar com uma repórter da tevê, eu não sei... Me ajudem, ta bom? Eu estou tentando acreditar que logo a policia, a imprensa, alguém vai chegar e nos tirar dessa, cara. O que vocês estão fazendo? O que estão fazendo para não perdermos a esperança de que amanhã tudo isso já vai ter passado? Não podemos perder a esperança. —E então parecia que finalmente conseguia dizer algo à mim mesmo. —Eu não quero perder a esperança! —E agredi uma das paredes com socos e cabeçadas.
E então todos se calaram e começaram a me encarar.
—O Renato está certo. —Disse Sander. —Você vai sair dessa, Ricardo. E nós vamos ficar bem.
Augusto me chamou da porta do banheiro.
—Ele acordou. O que é que eu faço?
Vinicius já estava vestido, mesmo que relutante prometeu tomar o leite e comer as frutas desde que o deixássemos sozinho no quarto, antes quis saber tudo o que estava acontecendo, quando soube o que acontecera com Ricardo, desesperou-se. Ele parecia ter saído de um pesadelo e caído em outro ainda maior. Perguntou-me inclusive o que Caio estava fazendo no corredor com uma faca na mão. No total escuro Fernanda tentava convencer Ricardo a ficar conosco, Carol fumava um cigarro atrás do outro, andava sem nada dizer. Sander vigiava uma das janelas que davam para a piscina enquanto Felipe, do lado oposto, ficava atenta a qualquer movimento. Senti falta de Júlia. O que poderia ter lhe acontecido? Da porta da frente escutamos o barulho de vidros estilhaçados por duas vezes seguidas. Vinicius saíu do quarto exasperado. Alguém estava chorando.
—Se escondam em um dos quartos, rápido! —Todos correram para o quarto onde Julia e Carol estavam hospedadas, onde Julia e eu metemos horas antes. Agachei-me e lancei Ricardo numa só braçada. Ele gritou:
—Seu desgraçado! —Assim que entramos no quarto alguém trancou a porta e ali ficamos sem fazer idéia do que estava acontecendo no andar de baixo. Acho que assim como eu, os outros estavam em plena adrenalina, incomunicáveis.
Esperamos tempo demais, talvez tenha sido nosso erro, mas caso contrário teríamos sido baleados assim que tentássemos fugir. O fato é que a porta estava trancada e quando percebemos um brilho ardente por baixo da porta e sentimos o cheiro da fumaça entrar é que notamos que estava tudo pegando fogo. Haviam ateado fogo no centro da casa e estávamos todos presos em um quarto no segundo andar com um ferido sob nossos cuidados.
—Fogo!
—Precisamos sair! —O barulho do fogo engolindo tudo era assustador, o calor que invadiu o quarto juntamente com as fagulhas quando a porta foi aberta.
—Estão nos esperando do lado de fora! Assim que sairmos atirarão em nós.
—E nem vamos tentar? Vamos todos morrer queimados aqui? —Disse Sander. A fumaça e todo aquele brilho. —Precisamos sair!
—Podemos pular do outro quarto , a piscina fica próximo. —Falou Augusto.
—O que vamos fazer com o Ricardo? Precisamos ajudá-lo. —Pediu Fernanda. Ela tinha razão.
—Vão embora daqui, não vão morrer por minha causa.
Caio surgira dizendo que não dava para saltar do segundo andar para a piscina. Provavelmente daríamos no cimento.
—Vão embora daqui! —Gritava Ricardo. O cara não tinha forças nem para ficar em pé sozinho.
—Cala sua boca. —Disse eu.
—Você me avisou, cara. Eu é que não dou ouvidos à ninguém. Vão embora daqui, me deixem.
—Ah meu Deus! —Disse Carol. —Eles estão vindo, olhem pela janela, tem carros chegando!
—É a policia! —Falou Vinicius da janela.
—Tem certeza? —Ele confirmou.
—Precisamos descer, pessoal!
—Quanto tempo levará para chegarem aqui? —Perguntei.
—Três minutos talvez.
—Vamos! —disse, todos saíram do quarto, ardentes. —Logo entrarão aqui para tirar você. —Disse à Ricardo.
—Renato, — Ele chamou bem baixinho. — a esperança no meu caso não me ajudou em nada, não é?
—Agüenta firme.
O que me deixa mais triste é que quando lhe disse isso, quando o vi pela última vez, ele chorava, ele chorava e parecia saber que não haveria amanhã, pelo menos não para ele. Dei-lhe um tapa leve e amigo no ombro sarado, o que não estava machucado e me juntei aos outros.
—Não podemos deixar ele aí. —Dizia Fernanda.
—Fernanda, nós precisamos ir. —Caio agarrara a mão da garota e nos seguiu em direção ao corredor de fumaça. Era difícil respirar, era praticamente impossível permanecer de olhos abertos ou saber com exatidão onde estávamos indo, não enxergávamos muita coisa, mas com dificuldade conseguimos nos orientar.
O fogo já havia consumido grande parte do andar inferior e se alastrava pelas altas paredes na tentativa de chegar ao segundo piso, o inicio daquele corredor parecia a boca do inferno. A escada já era quase uma labareda e parte de sua estrutura de madeira começava a ceder. Eu estava liderando todo o pessoal quando ouvi Carol me gritar repetidas vezes.
—Onde está a Carol? —Perguntei.
Logo atrás de mim estava Vinicius e disse que não tinha a visto.
—Vocês precisam continuar, eu tenho que encontrar a Carol.
—Onde ela está? —Quis saber Augusto.
—Eu não sei... vão! —Não podia perder tempo, eu mal conseguia respirar, o ar era sujo e quente, a escada cederia em pouco tempo. Voltei tateando as paredes do corredor entre a fumaça. Gritando seu nome.
—Aqui! —Gritou e logo a encontrei, tossia muito e parecia apavorada.
—Eu não vou conseguir, Renato! Mas não quero ficar aqui, por favor!
—Você vai conseguir Carol, o único jeito de sairmos daqui é descendo aquela escada e não temos muito tempo. O que você tem? —O barulho que o fogo faz quando destrói tudo que encontra pela frente é ensurdecedor.
—Eu não consigo respirar... E eu tenho pavor de fogo, eu sempre tive...
—Vamos fazer o seguinte. Feche os olhos e se apóie em mim, está bem? Eu te levo e vamos sair daqui juntos. Tem policiais nos esperando do lado de fora, vai ficar tudo bem. Confia em mim?
Então ela concordou com a cabeça que sim e eu pedi para que fechasse os olhos. Fora bem mais complicado do que pensei, descer os degraus em chamas tendo que desviar Carol para que não se queimasse. Infelizmente quando estávamos no primeiro piso, ao olhar para cima, percebi que Ricardo não tinha mais chances. Pouco poderiam fazer. Ainda andamos sem rumo por alguns minutos até que fomos encontrados por dois policias que invadiram a casa e nos tiraram de lá.
—Tem um amigo lá em cima, ele está baleado, precisa de ajuda! —Disse.
Assim que saímos da casa o ar puro da mata invadiu nossos pulmões e os brilhos de todos aqueles refletores nos assustaram. Haviam seis viaturas policiais rondando a área, faixas de isolamento, dezenas de repórteres, fotógrafos, estávamos em rede nacional, houve até plantão interrompendo a novela das nove. Em meus quinze minutos de fama eu apareceria assim, sujo pela fuligem do fogo, cansado e consumido pelos poluentes da fumaça, fraco pelas horas sem me alimentar, manchado de sangue até o pescoço e apoiado em minha amiga de colégio, em minha companheira de vida e juventude que eu jamais abandonaria. Que eu nunca vou esquecer. E foi assim que Carol e eu fomos parar na capa de todos os jornais no dia seguinte. A manchete da Folha de São Paulo trazia o seguinte: “Jovens ricos, castigados e perseguidos. O mistério que envolve os estudantes em Goiás parece longe de ser desvendado.” E logo abaixo em letras menores: “Atentado a casa de campo onde estudantes passavam o recesso deixa dois mortos e assusta a população.” Nenhum de nós quis dar entrevista.
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