De volta à casa de campo.
Estávamos todos desnorteados na sala de estar, não só pela presença do estranho Caio, mas também porque relatara nos últimos minutos detalhes do que lhe aconteceu quando todos pensavam que estava preso em um cativeiro, ou apenas morto. Disse ter se apagado momento depois de cair no rio e sentir a água engolindo seu corpo, mas disse lembrar que nenhum de nós três tentou ajudá-lo. Contou que ao acordar tempos depois, e não faz idéia de quanto tempo se passou, estava trancado em um quarto pequeno e sem móveis, iluminado por uma lâmpada que ficava acesa dia e noite, lhe causando problemas sérios de insônia e percepção. Sempre que alguém lhe levava comida, uma voz masculina lhe pedia para que se virasse de costas para parede e que não tentasse nada, para seu próprio bem. Caio jamais tentaria fazer alguma coisa, não tinha coragem suficiente para encarar seu herói-sequestrador, o homem que lhe levava frutas frescas e comida chinesa duas vezes ao dia, e sempre do mesmo restaurante, quase sempre acompanhada por uma garrafa de água e outra de Mate sabor limão. Ele passou meses trancado naquele cômodo, às vezes chegava a mijar ali mesmo, porque nem sempre quando chamava, alguém respondia. Vinha sendo alimentado como um bicho enjaulado, até que alguns dias antes resolveram lhe colocar um capuz e removê-lo de local. E que local era esse? A propriedade do caseiro, dentro da fazenda do pai do Augusto, no momento a casa estava desocupada. Haviam dispensado os empregados, se não me engano a fazenda estava sendo vendida, ou algo assim, eu não sei muito bem.
Vinicius estava tão desgastado pelos efeitos negativos da química em seu corpo que nem todo aquele alvoroço na sala conseguiu acordá-lo.
—O que ele tem?—Perguntou Caio depois de observá-lo por um tempo.
—Ele está bodado. —Respondi. Em seguida Caio desviou o olhar e voltou a nos dizer que deveríamos partir o quanto antes. Antes do anoitecer.
—Eu vou é ligar para um guincho vir rebocar meu carro, seu imbecil. Então Fernanda e eu pegaremos uma carona de volta para cidade. Vocês eu não sei como vão fazer, bando de escrotos.
—Não encontramos a chave do carro. —Disse Sander.
—Precisamos encontrar Júlia...
—Onde ela está? —Caio se dirigiu à mim.
—Eu não sei... Ela saiu por ali e não voltou.
Enquanto Ricardo negociava com o cara do guincho, houve um momento de dispersão total, Augusto sentara-se ao lado de Vinicius no sofá e começou a sacudi-lo tentando despertá-lo. Carol seguira Sander até a área da piscina. Aproximei-me de Caio, sua aparência não permitia muita aproximação, parecia não ter se ensaboado nos últimos quinze dias pelo menos.
—Você sabe que tudo que aconteceu fugiu do controle, aquela garota morta, você com uma arma apontada para nossa cabeça.
—Você acha mesmo que alguma coisa importa agora? —Me olhou esperando resposta.
— …Eu…
—Vamos fazer o seguinte, Renato, toda aquela história pode esquecer. Quando me perguntarem sobre o que aconteceu, direi que fui seqüestrado na saída do Campus e então contarei toda a verdade a partir daí. Podem ficar tranqüilos, por outro lado, não conheço mais vocês, não os considero mais meus amigos e não sei no que estão metidos. Isso não me diz mais respeito agora. Todo esse tempo naquele quarto me levou a pensar em várias coisas, me levaram a rever minha vida, quem eu sou... Saindo daqui eu vou chegar em casa e não vou esperar muito tempo para sair dessa cidade. É até possível que a gente não se veja mais...
—Eu sinto muito…Caio.
Sander e Carol retornaram abraçados, pareciam oprimidos, tristes e descrentes. Vinicius pronunciava alguma coisa que Augusto tentava entender, Fernanda permanecia sentada distante, incomunicável. Ricardo chamara o guincho e acertava alguns detalhes quando percebera que a ligação fora interrompida e o aparelho estava mudo.
—Que merda é essa? Essa porra de telefone não quer funcionar.
—Pessoal, vamos fazer uma busca por Júlia agora e assim que a encontrarmos vamos dar o fora. —Carol era uma líder nata. —Precisamos da ajuda de todos.
Por incrível que pareça apenas Vinicius permaneceu sentado e imóvel.
—Onde está o Felipe? —Perguntou Augusto.
—Está lá em cima dormindo um pouco. —Mencionou Fernanda.
—Vem cá... como é que alguém consegue dormir numa hora dessas?
—Como vamos fazer? —Prosseguiu Fernanda fugindo da interrogação feita por Sander. —Fazem idéia de para onde Júlia partiu.
—Por aquela porta. —Disse apontando.
—E se ela pegou a estrada pensando em chegar naquela cidadezinha?
—Eu não sei pessoal, mas não podemos ir embora antes de procurá-la.
—Eu fico aqui com Vinicius e Felipe, vou continuar procurando pelas chaves. —Augusto pareceu-me irritado. Esperei que não fosse comigo.
—Tudo bem então, vamos nessa. —Saimos e começamos a gritar seu nome, inicialmente tímidos, como se ela estivesse perto, a medida que íamos nos afastando da casa o tom das vozes gradativamente aumentavam, cansavam de chamar por Júlia em todas as partes.
—Eu acho que Júlia pegou a estrada e fugiu a pé...
—Porque acha que ela faria isso? —Quis saber.
—Porque era o que eu faria se estivesse sozinha naquela casa com vocês...
Houve uma pausa, de repente parecíamos uns monstros.
—Tudo bem, vamos dar mais uma olhada. Você, Ricardo e Caio vão por ali. —Apontei um lado oposto ao que estávamos. —Sander, Carol e eu vamos por aqui. Nos encontramos na casa em meia hora e vamos embora daqui. Com ou sem a Júlia.
E assim torci para que tudo acabasse. Sobre encontrar Júlia já tinha minhas dúvidas, ou estava brincando de esconde-esconde ou realmente já estava bem longe dali. Lembrei do que fizemos aquela manhã, visualizei-a deitada na cama, suas pernas abertas, meu pau entrando e saindo daquela buceta apertadinha, foi tão gostoso.
—O que você e Júlia faziam? Porque não pegou aquele envelope com as fotografias antes de nós chegarmos?
—Agora que Caio apareceu, isso não importa mais. Só uma coisa me intriga, não acha muita coincidência alguém deixar fotografias na porta e Caio reaparecer horas mais tarde?
—Para não dizer que segundo ele só foi trazido para cá, dois dias atrás. —Sander acrescentou.
—Acha que Caio tem alguma coisa a ver com tudo isso?
—Não consigo mais saber o que eu acho... tudo muito estranho, Carol.
—Eu estou com medo, e não vai demorar muito para a noite cair, espero que quando voltarmos, Augusto tenha encontrado a droga das chaves.
—Vamos, acho melhor voltarmos, estamos longe e temos mais de dez minutos de caminhada.
—Desistiu da senhorita Mosquita?
—Ela não está mais por aqui... seja o que Deus quiser. —E num passo rítmico e ligeiro fizemos o caminho de volta. Os outros três ainda não haviam retornado.
—Encontrou a chave? —Perguntamos Á Augusto.
—Ainda não... tem certeza de que deixou esse troço aqui, Renato? —Parecia duvidar de mim.
—Claro que deixei, cara... não pode ter sido a Júlia, porque desapareceria com a chave?
—Não a encontraram?
—Espero que outros três tenham conseguido. Nós não achamos nenhum sinal. —Dava pra ver que ele tava uma pilha. Puxou o ar e soltou, colocando a mão na cintura e levando a outra ao cenho.
—Eu não sei o que fazer... tentei usar meu celular e não funciona, o de Vinicius também não.
Os outros chegara. Cansados, pareceram.
—Alguma coisa?
—Nada e vocês?
—Também não encontramos nada.
—Então, meu irmão, sinto muito mas vamos vazar daqui. —Informou o repugnante. Ricardo Bensimon.
Foi quando Felipe desceu a escada abatido e lento. Não parecia estar dormindo.
—Tem alguém rondando a casa, eu vi um deles pela janela do quarto. Está usando uma camiseta vermelha.
Todos entraram em pânico, inclusive Vinicius, que minutos antes parecia um boneco de cera, totalmente imóvel
—Tranquem as portas. —Chamaram por Deus, choraram, andaram sem direção, especularam sobre o que podia ser.
—Não podemos sair. —Eu disse. —Vamos pegar algumas facas na cozinha e permanecermos aqui. Alguém aciona a policia de algum celular.
—Eu preciso ir ao banheiro. —Disse Vinicius. Augusto quis ajudá-lo e fora dispensado como sempre.
—Quer parar de cuidar de mim como se fosse minha babá. —Ele estava irritado, depressivo, angustiado. Eram os efeitos negativos da química em seu corpo. Houve um silêncio marcante. Achei a cena podre. Aquele Vinicius precisava de um pau no cú para sentir o que ele gosta de verdade.
—Vamos pessoal, não temos tempo a perder. Meninas tranquem as janelas e verifiquem as portas. Augusto, Sander e Caio venham comigo. Ricardo procura um celular e disca 190, diz onde nós estamos.
Após todas as instruções ele ainda parecia sem saber o que fazer.
—Anda cara, o celular. —Disse apontando para um aparelho que estava carregando sobre o aparador da sala. Sai assim que o vi se mover.
Na cozinha os rapazes já estavam com facas nas mãos, olhando para dentro da gaveta aberta pude ver o brilho das lâminas refletindo a luz elétrica sobre nós, puxei minha arma.
—Vamos. —Disse - Precisamos encontrar os outros e subirmos para o andar de cima.
Voltando a sala, Ricardo disse que havia contatado o um, nove, zero, porém a atendente o tratou com tom de deboche, como se suspeitasse ser um trote, mas que havia lhe dito antes de desligar que mandaria uma viatura mais próximo checar a área, que ficava no meio do nada.
—Essa vadia!
—Ótimo, torcemos para que dê certo. Com seu carro quebrado não teremos como sair daqui de outra forma.
—Um ou dois de nós poderia pegar o carro do Augusto e avisar o posto policial na GO. —Sugeriu Caio.
—Gostei da sua idéia, balofo!
—Não, vocês não estão entendendo... não sabemos onde estão as chaves.
—O que fizeram com as chaves?
—Não sabemos, quando cheguei deixei-as no aparador e então desapareceram.
—Bando de mané... de qualquer forma ainda há como um de nós sair daqui. Eu sei fazer o carro funcionar sem as chaves. —Ricardo queria sair dali o mais rápido possível, se não fosse Caio, era bem capaz que já estaria longe aquela hora.
—Não sei se isso é uma boa idéia...
—Como assim?
—Dois de nós saem por aquela estrada e quem garante que não nos farão parar antes mesmo de chegar a rodovia? Além disso tendo não estando com a chave você precisaria de um tempo maior para fazer o carro funcionar.
—Meu irmão, faço isso em um minuto.
Pausa. Logo as garotas entraram.
—Portas e janelas fechadas. —Anunciou Carol.
—O que estão fazendo com essas facas nas mãos? —Fernanda estava pálida, suava e demonstrava nervoso.
—Provavelmente estão preparando um churrasco de carneiro! —Carol também estava nervosa, naquela tarde haviam descoberto que ela havia tentado assassinar seu melhor amigo, e em seguida descobriu que o amigo que julgava estar morto na verdade falava e gesticulava em sua frente como um fantasma. Carol já havia sido ameaçada por um louco dentro de sua própria casa e tinha medo de se tornar uma vitima legitima.
—Eu acho melhor alguém olhar o Vinicius, ele não está passando muito bem...
—O que ele tem? —Perguntou Augusto.
—Não sei. —Continuou Felipe. —Ele parece estar trancado no banheiro já faz um tempo, primeiro ouvi um barulho, acho que estava vomitando, então, depois quando o chamei, ele não respondeu e eu não ouvi mais nada.
Augusto se precipitou em ir ver o que estava acontecendo.
—Espera Augusto, você não deveria ir. —Disse o interrompendo. Antes de se trancar no banheiro o cara havia sido grosso com ele, deixando todos pensar no intimo daquela relação. —Deixa que eu vou.
—E sobre o plano B? —Perguntou Ricardo.
—Qual plano B? —retornei.
—Dois de nós pegarmos o carro do Augusto...
—Vocês acham mesmo que isso seria seguro?
—Acho que deveríamos tentar. —Pediu Caio. Eu estava de mãos atadas. Apenas disse que seria feito o que a maioria quisesse. Como disse meu voto fora um não, não achava seguro alguém sair, Augusto me acompanharou em seu voto, Carol também; Sander, Fernanda Felipe e Caio concordavam com Ricardo, que alguém precisava ir até o posto policial mais próximo. Eles ganharam, Vinicius precisava dar sua opinião e decidir o que seria feito, mas antes mesmo que eu pudesse alcançá-lo, Ricardo pegou as chaves sobre o aparador e se precipitara.
—Estou indo até lá.
—Onde encontrou essas chaves? —Perguntei.
—Sobre o aparador.
—Não estava ai um tempo atrás, você esteve com elas esse tempo todo?
—Não temos tempo para isso. Ok? Eu estou indo até lá e quero saber se alguém aqui vai me acompanhar. —Caio e Fernanda concordaram que sair dali seria o melhor para eles. Os três estavam prontos para a aventura. Pegar a estrada de terra até a rodovia, tendo a incomoda sensação de que estariam sendo monitorados por marginais, que poderiam lhes interceptar a qualquer momento.
—Ei, Caras... não façam isso. —de repente tudo ficara escuro, as luzes se apagaram provocando um susto coletivo.
—Eu preciso ver que troço está acontecendo com o Vinicius. —Disse Augusto passando por mim.
—Venham! —Chamou os outros. —Precisamos ir o quanto antes. —Ricardo Feitosa era um estudante asqueroso. Que não dava ouvidos a ninguém.
Eles se prepararam para sair, era inicio de noite e havia um fraco luar dentro da casa, Ricardo disse que logo a policia estaria lá para nos resgatar e destrancou a porta principal provocando um estalido. Abrira a porta dando alguns passos adiante, os outros dois o acompanhavam, pareciam cautelosos. Sander se movimentara para fechar a porta quando um tiro explodiu no ar. Os gritos vieram de fora e de dentro da sala se via o forte abalo que baqueou Ricardo, ao virar-se, vi o sangue brotar do peito e ensopar sua camiseta cinza que em minutos ficou manchada de escarlate. Gritos!
—Ah meu Deus!
—Entrem pra dentro, logo. —Gritei no tempo que corria para fora e passava meus braços em volta do cara, a bala havia se alojado em algum lugar do seu ombro direito. Outro tiro rasgara o ar em nossa direção e acertou algum ponto da parede, lá dentro era possível escutar outro alvoroço. Entramos.
—Eu estou mal, cara! —Chorou Ricardo, tentava colocá-lo no chão. Para que descansasse. —Eu não quero morrer...
—Eu disse que não deveriam sair.
—Ele está sangrando muito. —Fernanda se agachou, perguntou como ele estava, chorava também.
—O que está acontecendo lá fora? —Quis saber Carol, estava bem perto de uma crise. Aproximei-me, segurei em seus braços e disse olhando nos olhos dela:
—Eu não sei está bem. Mas não tem com o que se preocupar, nós vamos sair dessa. —O vermelho, de repente, pareceu-me brotar lentamente do chão, sujando de sangue o piso coberto de pó.
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