Dizer que os dias seguintes no Campus foram tranqüilos seria uma merda de uma mentira, continuamos isolados, enfrentando olhares torcidos e a revolta dos outros alunos. Takano e Maurílio nunca mais chegaram tão próximos, mas também não deixaram as provocações de lado. Na verdade eu estava pouco me fudendo para aqueles dois, contanto que mantivessem distância.
O que mais incomodou aquela semana foram os repórteres que não saiam da porta do prédio, da entrada do Instituto, onde quer que estávamos parecia haver um deles, algumas vezes acompanhados de cinegrafistas, outras era possível vê-los sozinhos, fazendo anotações ou a espera do que chamariam de “o grande furo.” Duas vezes quando sai do edifício a pé para comprar cigarros na esquina, fui seguido e interrogado. Perguntavam coisas idiotas como “Renato, faz idéia do que esteja acontecendo?” ou “O doutor Marcos tem entrado em contato com o filho?” Mantendo a calma eu caminhava friamente e nada dizia, uma vez apenas pedi para que um mais afoito se afastasse, e acrescentei o “por favor”.
Quando no sábado Carol ligou nos convidando para sair, estávamos na sala jogando Silent Hill: shattered memories. Um jogasso do Playstation, A história, lembrem-se, é de um sujeito normal à procura de sua filha. Ele não é policial, não é soldado, não esteve na ilha de Lost (onde é pré-requisito saber atirar), por isso tudo que ele pode fazer quando os monstros aparecem é correr e se debater . Essa falta de armas pode, à primeira vista, parecer estranha em um jogo desse estilo, mas acredite: estar indefeso só faz aumentar a tensão e tornar o clima ainda mais assustador.
—Está combinado, a gente fica aguardando então às dez.
—Vamos encontrar uns amigos do Sander, por lá. Mas não tem problema, são gente boa. —Mencionou Carol ao telefone.
—Até mais tarde, Carol. —Augusto estava ao meu lado, com o controle nas mãos.
—Sabe onde vamos?
—Não sei. Mas qualquer lugar vai ser legal, estou cansado de ficar em casa. Você não está não? —Ele meio que concordou. —E o Sander vai estar no carro do pai hoje, então acho que podemos ir com ele e deixar o conversível na garagem. Concorda?
Ele até tentou convencer Vinicius a sair conosco, mas depois veio falar que o cara estava desanimado, que não parecia mais o mesmo, e que havia o fato da mãe estar o policiando porque havia descoberto uma espécie de declaração escrita feita por Augusto. Só o maluco do Augusto mesmo para ter coragem de escrever eu te amo numa folha de papel e entregar à um outro cara.
Sander estava com um baseado de hidropônico pronto para ser queimado e Carol falava muito mais que o normal, estava insegura com o fato de sua irmã estar voltando para casa da mãe, não só a irmã, mas seu sobrinho Erick. O que lhe tiraria totalmente a privacidade de passar as tardes sozinha em casa. Pensava em se mudar para casa do pai, no Nova Suiça, o que não era certo pois teria que lidar com a namorada do velho, apenas seis anos mais velha que Carol. Como meu irmão sempre diz, família é uma coisa maravilhosa, mas quando você está bem longe dela.
Estávamos na sacada do quarto, fumando aquela tronca que parecia não acabar mais, a cidade estava abafada e o movimento das ruas no sábado a noite, pelo menos no Oeste, era animador, o calor havia expulsado as pessoas de suas casas, que agora circulavam em seus carros na tentativa de encontrar ares mais frescos. Há pouco mais de um mês para o fim do ano letivo eu me sentia totalmente perdido, eu me sentia muito estranho, os outros percebiam minhas mudanças, mas porra, acho que nunca mais seria o mesmo outra vez. Existem coisas que acontecem na vida da gente que nos muda por completo, que nos transformam em pessoas muito melhores, ou que acabam com a gente de uma vez, porém sem matar.
Carol e Sander andavam tão loucos que pareciam ter adquirido o hábito de caminharem sustentando-se um no outro, aquilo não era um simples abraço, era um apoio. Já dentro do elevador Sander nos contou todos seus planos, sua mente imunda. Faria uma grana naquela boate repassando LSD e cocaína, mais tarde sairia com uns amigos para comemorar ao seu estilo. Desequilibrou, encostou-se no espelho do fundo e confessou ter tomado umas três doses de absinto antes de saírem de sua casa.
—Acho melhor pegar meu carro. —Disse Augusto.
—Não vai pegar seu carro Augusto, vamos no meu, quase nunca posso pegar essa droga de carro... —Mas o cara definitivamente não parecia bem para dirigir. Até mesmo porque não era algo que fazia com freqüência. —Um de vocês pode dirigir se quiser... —Então levantou as chaves do Ecosport e balançou na nossa frente. —Quem vai ser? Renato? —Peguei a porra da chave, nunca tinha dirigido um Ecosport antes.
Já dentro do carro, Sander tirou algumas latinhas de Bohemia de uma pequena caixa de isopor que descansava sobre o banco traseiro do veiculo. Carol estava na frente, ao meu lado, abriu a sua logo após ligar o som, eu preferi recusar, não beberia pelo menos até chegarmos ao Club. Não me lembro o nome do lugar onde fomos, em Goiânia bares e boates abrem e quebram todos os anos, todos os meses quase. Sempre há um lugar novo para conhecer, e um outro que deixa saudade. Só sei que ficava para os lados do Jardim América. Hoje tudo parece tão distante...
—Então não sei se devo pegar minhas coisas e sair de casa essa semana ou simplesmente viro babá do meu sobrinho. O que acha que devo fazer misto-quente?
—Não sei se ir para casa do seu pai vai ser a melhor solução. Ele não está acostumado a dividir o espaço dele com alguém...
—Foi o que eu disse à ela. —Falou Sander antes de acender o cigarro. Carol ficaria em casa, mas passaria as próximas semanas imaginando como seria morar na casa do pai. Acredito que se o pai tivesse lhe convidado apenas uma vez, certamente experimentaria uma nova vida, infelizmente os convites não surgiram e ela apenas aceitou o fato como uma solução para suas dúvidas.
A boate era incrível e estava abarrotada de gente, encaramos uma fila antes mesmo de nos aproximarmos do bar, e já do lado de fora Sander começou a encontrar os conhecidos e a recolher a grana.
—Me encontra lá dentro, aqui é meio sujo. —Dizia aos que se aproximavam. —Renato, vou precisar da sua ajuda, cara. Para agilizar melhor a coisa.
—O que quer que eu faça?
—Fique com as balas, mando chegar em você. Não venda nenhuma por menos de quarenta.
—Beleza. —E então peguei da sua mão um saquinho preto que rapidamente coloquei em meu bolso.
—Já viu o Charles por aí? Por que não liga para ele? —Perguntou Carol.
—Ele nos encontra lá dentro...
Quando entramos, tudo ocorreu como esperado, música alta, gente bonita, muita cerveja e várias pessoas que chegavam até mim a todo minuto, me passavam uma nota de cinqüenta ou dinheiro trocado e saiam com um sorriso no rosto. Acho que em menos de uma hora eu vendi umas trinta balas. Nunca fiz aquilo antes, vender alguma coisa para quem quer que fosse, até fiquei com medo dos seguranças sacarem o movimento, mas se sacaram algo simplesmente não quiseram se intrometer. Os amigos do Sander apareceram de repente, eram totalmente inflamados, cabelos arrepiados, roupas justas, sei lá meu, um estilo playboy dos piores que existem, o jeito que falavam era irritante... Ouvi dizer, por Carol, que o tal de Charles uma semana antes, havia torrado mil reais em notas falsas sem que ninguém descobrisse. O outro, como soube depois, naquela noite ainda se recuperava de uma lesão na perna causada por um acidente em que dirigia embriagado. Decidi pedir uma água e ficar o mais tranqüilo possível até decidirem sair de lá.
Nem percebi na ocasião, mas hoje acredito que tenha sido intencional, eu estava ali meio que isolado, Augusto dançava bem próximo, não nos comunicávamos porque o som era ensurdecedor, e a gente não conseguia parar de se mover, estava ali com a garrafa de água na mão quando a mina chegou até mim. Era bem interessante, daquelas com estrutura frágil e espírito valente.
—Pode me dar um pouco da sua água? —Pediu. Eu lhe entreguei a garrafa e ela virou de uma vez, se molhando um pouco. Sorriu.
—Qual é seu nome?
—Renato... me chamo Renato.
—Como?
—Re-na-to. —Falei bem perto de seu ouvido.
—Ah! Legal. Eu sou Leila. —Gritou.
—Prazer!
Ela ficou por ali, tinha cabelos curtos e presos, cabelos negros, tinha pele morena. Logo estávamos dançando juntos e eu nem fazia idéia de onde Carol e os outros haviam se metido. Fomos nos aproximando de um jeito que ficou evidente que deveria beijá-la, e beijei, passei meus braços em sua cintura fina, ela era bem menor que eu, acho que ela segurava meu cinto durante aquele primeiro beijo, deixou seus braços me envolverem e segurou a parte de trás do cinto. E assim ficamos por um tempo, perguntei se ela morava longe dali, ela disse que não, eu contei que estava morando com um amigo no Oeste e o assunto não deslanchou pelo fato de que tínhamos de gritar para sermos entendidos, depois de um tempo, cansado do barulho, decidi localizar Augusto e os outros.
—Vem, tenho uns amigos que quero lhe apresentar. —Ela segurou minha mão e seguimos. Provavelmente estavam todos na área externa fumando um cigarro e conversando, perdidos na imensidão azul da loucura. Estavam numa rodinha, Carol e Augusto fumavam lucky strike, Sander mastigava um chiclete de mãos vazias e seus dois amigos seguravam uma lata de cerveja em uma das mãos. Apresentei Leila assim na geral, tipo “Ei pessoal, essa é a Leila.” De um jeito bem informal.
—Cara, vendeu tudo que te passei?
—Todos. Preciso te passar a grana.
—Fica frio. Acho que faturamos quase oitocentos reais aqui hoje, Renato. —Fiquei surpreso. —Estamos pensando em sair daqui, curtir um pouco lá fora... Estou louco para fumar um beck, cara.
—Logo agora, Sander? —Ele entendeu que estava me referindo à Leila.
—Convida ela para ir com a gente... Não dá nada não. —O barulho ali era menor, mas ainda era preciso falar alto para ser entendido.
—Meus amigos estão pensando em ir... vamos curtir um pouco lá fora. —Me aproximei de seu rosto, meio que tentando ser sedutor ou carinhoso, uma mistura dos dois. —Vamos fumar um baseado e depois vamos para o duplex onde moro... Não quer ir com a gente?
—Estou com uma amiga.
—Ela pode vir também, se você quiser. —Pensou por alguns segundos.
—Me dá um minuto, vou falar com ela.
—Quem foi que te apresentou essa garota? —Ironizou Carol.
—Ela me pediu um pouco de água. —Leila não era uma garota rica, dava para perceber logo de cara, isso não quer dizer que eu não deveria ficar com ela. Eu também não era nenhum filhinho de papai, playboy folgado. Talvez eu fosse até vagabundo, mas playboy folgado não. Quando voltou trouxe a amiga, um tipo bem divertido, extrovertida, ria com facilidade de tudo e dava gargalhadas contagiantes, chamava-se Cecília. Como Carol estava fazendo o estilo primeira dama, Augusto criou um forte vinculo de amizade com a tal Cecília, até o final daquela noite se tornaram melhores amigos, e depois nunca mais se viram outra vez.
Ficamos de encontrar Charles e o outro no centro da cidade, até lá estávamos entregues ao hidropônico, aos cigarros, eu estava atento ao trânsito e às viaturas.
—Vocês curtem pichar? Já picharam alguma vez na vida? —Cecília soltou um grito.
—Fala sério, cara. Sempre quis fazer isso... Vamos fazer isso hoje?
—Meus amigos estão com os sprays no carro.
—Arrasou! —Disse passando o baseado para Augusto.
Eu nunca havia pichado, até era daqueles que via nisso um simples vandalismo barato, destruir praças e prédios públicos, monumentos e estabelecimentos privados com palavras ilegíveis e rabiscos indecifráveis. Só que naquela noite tínhamos sprays, estávamos juntos e todos pareciam animados, Sander e os filhos-da-puta provavelmente se reuniam para isso. Tenho certeza. Naquela noite eu não estava nem aí, mesmo sabendo que se fossemos pegos, eu seria o único a dormir atrás das grades. Não sei de Leila e Cecília, mas eu seria fato. Foi maluco e insano, com sprays em mãos saímos num raio de trezentos metros pichando tudo que víamos pela frente. Correndo, outras vezes parados, sozinhos e em alguns momentos em grupos, desenhando, rabiscando, escrevendo, lambrecando tudo. E foi muito divertido. Quando voltamos para os carros, estávamos com as latas vazias, já passavam das três da manhã. Estávamos ali escorados nos automóveis, ouvindo um som baixo e conversando, alguém fumava um cigarro, quando de repente senti um cheiro estranho no ar. Procurando, notei que vinha do cachimbo dos amigos de Sander.
—O que os caras estão fazendo? —Perguntei ao próprio.
—Eles curtem fumar uma pedra. Deixa eles, já estamos indo embora mesmo. —Pedra nada mais é que a porra do crack, na língua dos malucos.
—Alguém está afim? —Perguntou Charles. Cecília animou, aproximou e pegou o cachimbo.
—Vocês não vão querer? Vem Augusto! —Quando Augusto fez menção de nos deixar para se juntar à Cecília, Carol lhe segurou.
—Você não vai fumar essa porcaria, não é?
—Ah, Carol! O que é que tem? —Decidi não dizer nada, estava com Leila e não queria me intrometer, mas pelo meu olhar deixei bem claro que reprovava o que estava prestes a fazer.
Deixamos Cecília no caminho, em um lugar que segundo ela, ficava muito próximo de onde morava. Já Leila aceitou meu convite para dormirmos juntos, Sander nos deixou na porta do edifício.
—Toma cuidado e deixa minha amiga com segurança em casa. —Avisei ao fechar a porta do carro.
—Fica tranqüilo, não tem ninguém nas ruas essa hora.
Augusto não atrapalhou nem um pouco meu lance com Leila, assim que entramos ele se trancou no quarto e de lá não saiu, nós ficamos ao lado, era um quarto amplo, claro, com uma cama de solteiro, porém muito confortável. Ali nós nos beijamos, ficamos nus, transamos por muito tempo, horas eu acho. O pó prolonga o prazer e retarda o orgasmo. O dia já estava quase amanhecendo quando finalmente dormimos, e como é bom dormir com aquela sensação de que você não está sozinho. Eu pensei em passar o domingo com ela, queria anotar seu numero em minha agenda, lhe convidar durante a semana para sair. Eu queria ter visto Leila outras vezes. Mas horas depois, com o sol do meio dia, quando acordei, ela não estava mais ali. Ela havia sumido, me deixado outra vez sozinho, seminu sob os lençóis, com o seu perfume ainda na pele. E só... Novamente só.
Copyright 2011
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário