Vinicius, Augusto e eu estávamos na mesa da sala de jantar resolvendo uma daquelas drogas de questionário de Química que deveria ser entregue no dia seguinte. Eu queria estar fazendo qualquer coisa menos aquilo, ainda assim dediquei-me até o final. Eu vinha sentindo algo muito estranho nos últimos dias. É uma sensação ruim a que você sente quando transa com alguém horas antes dela morrer. Júlia estava morta, eu vi ela morta, estive em seu funeral, mas as vezes é tão difícil acreditar que alguém próximo se foi. Já estávamos finalizando quando Carol ligara dizendo que nos faria uma visita no fim da tarde, havia muita coisa para estudar, leituras a fazer, mas ainda assim eu desejava sua presença o quanto antes. Quando estava só com Augusto, setenta por cento do que ele dizia era sobre o Vinicius, eu não poderia deixar de ouvir porque depois de tudo que ele vinha fazendo isso era o mínimo que ele esperava de mim. O fato é que juntando meu estado psíquico com tudo que passamos na porra daquela fazenda e as provocações de Takano durante a semana, me deixaram tenso. Eu não andava muito tolerante. Pelo visto, Vinicius também não, assim que mencionei a chegada de Carol, ele terminara rapidamente a última questão, reuniu seus materiais e disse que precisava ir embora. Sua saída rápida foi só o que Augusto precisava para voltar ao assunto outra vez.
—Você passa o dia todo falando do Vinicius, não sei se você já percebeu. —Soltei assim de repente, queria ver como iria reagir. Mas não o encarei, olhava para a mesa enquanto juntava minhas coisas.
—Não... —Disse. —Nunca reparei isso, mas incomoda você? Esse troço deu ficar falando no Vinicius? —Eu queria era mandar o Augusto procurar uma xoxota para ele, ou se ele quisesse, eu mesmo arrumaria uma, e diria: “Vai cara... vai, experimenta!” eu queria ver se depois de provar ele não mudaria de posição.
—Não sei, Augusto. Veja meu ponto de vista, eu sou heterossexual, cara. Ai você passa o tempo todo falando de outro cara para mim. Não quero restringir nossos assuntos, mas talvez você pudesse falar menos, só o necessário.
Ele me olhava como se não entendesse nada do que estava dizendo.
—Não sei, Takano está comentando algumas coisas... Acha mesmo que as pessoas podem achar que estamos tendo um caso?
—Vai dar ouvido ao que Takano anda dizendo, Renato? Sai dessa. E sobre o que tu falou, eu entendo. Não vou mais ficar te enchendo com isso.
—Você pode falar, Augusto... Sei lá. —O silêncio que veio a seguir me trouxe um pensamento... a idéia de que se tudo que estamos vivendo agora fosse um livro, daqui cinqüenta anos alguém abriria esse livro e saberia como os jovens do inicio do século XXI se comportavam, o que passava em nossas mentes, e veriam que não fomos culpados de nada que fizemos ou somos. Foi esse sistema nervoso que agiu sobre nós. —O advogado já ligou para falar sobre como tudo o que aconteceu repercutiu no caso de seu pai?
—Para a policia, os assassinatos de Solange e Ismael não possui conexão alguma com os atentados ao ônibus e à fazenda, ou com o seqüestro de Caio. Estão investigando o que Caio fazia justamente na fazenda da minha família. Isso quer dizer, eles devem possuir indícios de que meu pai é realmente culpado. Você por acaso tem alguma idéia do que está acontecendo?
—Já pensei nisso várias vezes. Nem imagino, parece que nada faz sentido. Ele comentou se sabe onde seu pai se encontra?
—Não. Por várias vezes pensei em perguntar isso, ir vê-lo, mas em todas as vezes que pensei cheguei a conclusão de que não queria. —Eu o entendia. — Eu não sei se você chegou a notar, mas nós dois somos iguais. —Nós dois somos iguais? Aquilo me assustou. —Nós dois somos sozinhos e possuímos um pai ausente. Você ainda tem um irmão em algum lugar no Colorado. Eu não tenho ninguém, cara. Talvez seja por isso que passo tanto tempo falando do Vinicius.
—Um irmão em algum lugar do Colorado. Você tem idéia de onde fica o Colorado? Não estou falando das aulas de geografia... Quando a gente está aqui no meio-oeste brasileiro, o Colorado parece que nem existe nesse mundo...
—Você entendeu o que eu quis dizer... Além do mais essa situação do seu irmão não é permanente.
—Quer saber? Eu acho que não estamos sozinhos... Nós temos um ao outro, temos a Carol. Você tem o Vinicius. Eu tenho meu irmão, onde quer que ele esteja.
Já estávamos sentados no sofá da outra sala, a tevê desligada. Nada dissemos por um tempo, estávamos digerindo tudo aquilo, tentando de alguma forma acreditar.
—Tem uma coisa Augusto... Você sabe como peguei meu pai antes de vir para cá. Acho que foi a pior coisa que já me aconteceu, cara... E dias atrás Takano se aproximou o suficiente para que eu ficasse puto, você entende? Eu não sei como você encara o lance de você gostar de outros caras, mas não destrua o que nós temos tentando se aproximar de mim.
Ele se concertou.
—Você nem devia dizer isso, seu maluco. Não que você não seja interessante, mas com o Vinicius é diferente. Não sei... Talvez se nada der certo eu descubra que na verdade gosto de mulher. Não é o corpo de homem que me chama a atenção, é o que o Vinicius representa, compreende?
—E nunca aconteceu nada entre vocês? Além de beijo? — Estava curioso, aquele lenga-lenga desde o inicio.
—Rolou só beijos e uns amassos. Fora isso não rolou nada. Acha que deveria rolar?
—Claro, não rola sexo? Um comendo o outro? —Ele parecia surpreso.
—É que sei lá, eu nunca fiz...
—Nunca fez o quê?
—Você sabe...
Eu estava surpreso, soltei uma gargalhada divertida, daquelas que há muito tempo eu não soltava.
—Você nunca fez sexo? Você tem dezoito anos!
—Eu sei a minha idade.
—Vai por mim, se você não fizer alguma coisa, vocês vão ficar nessa um bom tempo. O cara que você está afim não parece ser do tipo que toma iniciativas, inclusive ele parece até ter um pouco de medo de você. No bom sentido eu quero dizer. —Resolvi dar uns toques.
—E como é que medo pode estar empregado no bom sentido?
—Claro que pode... Às vezes o medo impede você de se matar.
—Mas nesse caso?
—Dá para vê que ele está na sua, cara. É por isso que digo que ele está com medo de você. Já pensou como deve ser para alguém ter que lidar com isso? Ficar sabendo que está interessado por outro cara... Meu Deus! Beijar outro cara! Vocês são doidos da cabeça... Você é de boa, tranqüilo, mas ele não parece.
—Não... —Disse absorto.
—Vocês precisam se pegar, só depois da para vê se vai rolar alguma coisa ou não. Eu vou te dar umas dicas. —Ele se levantou.
—Ei, que tal fumarmos unzinho e você me falar um pouco sobre isso? O Sander deixou uma parada comigo hoje cedo, inclusive tem um hidropônico que é o caralho!
—Vai devagar com as palavras, que quem curte isso é você! —Falei em tom de brincadeira. —Eu curto uma bucetinha, depiladinha, bem cheirosa! —Vi que me olhava com uma cara de nojo.
—Eu não curto nada disso. Quero dizer... Eu não curto nada de nada... —Por um momento imaginei o que ele queria dizer com aquilo. — Então, vamos fumar o troço que te falei?
—A gente tem um trabalho de história para entregar amanhã.
—Nem preocupa. Pedi um bolsista do terceiro B para fazer. Vai ganhar uma nota, e é claro eu pedi para que incluísse seu nome na capa.
Inicialmente eu não soube o que dizer. Ele tinha feito tudo isso sem me consultar, colocado meu nome na capa? Fiquei momentaneamente confuso. Ele notou.
—Nossa, que furada a minha. —Emendou. — O lance do bolsista, foi mal. Eu não quis...
—Não é isso.
—Já estamos no final, não acha mesmo que precisamos passar a tarde fazendo esse tipo de trabalho idiota, acha?
—Deixa para lá, Augusto. Se você já está com o trabalho pronto, vamos curtir então.
—Ótimo! —Animou-se. —Que hora a Carol está vindo mesmo?
—Depois das cinco.
—Eita rapaz, o hidropônico nos espera! —Estava tão empolgado! E era um dia comum.
—Não acha melhor esperarmos nossa garota ruiva?
—Quando ela chegar nós fazemos outro. —Sorriu. E acendendo um cigarro partiu confiante em direção ao quarto. Apesar de já notar um certo abuso eu não queria dizer nada que pudesse contrariá-lo, eu queria apenas ser um amigo e lhe fazer companhia.
Nós havíamos aprendido com Sander todas as técnicas, a melhor forma de enrolar um baseado, de preparar carreiras cuidadosamente medidas, da proporção exata de anfetamina e álcool para se ter uma boa viagem, aprendemos inclusive a receita de preparar para injetar, coisa que nunca pensei fazer. Augusto, em pouco mais de três meses aprendera dezenas de coisas com Sander, o novo amigo, apenas, não havia o alertado para os caminhos sinistros que tudo isso pode te levar, e é provável que nem Sander sabia ao certo, mas meu pai sempre foi um alcoólatra, um viciado, eu sempre soube o que o vicio é capaz de fazer com as pessoas.
Enquanto fumava o baseado na sacada ao lado de Augusto, lembranças invadiram minha mente, o sol do céu lembrava as tardes quentes de domingo quando íamos todos ao clube, naquela época meu pai ainda não bebia, ou pelo menos não demonstrava nenhum sinal de embriaguês, ou talvez eu só fosse pequeno demais para notar coisa do tipo. Mamãe fazia sanduíches, bolos, colocava algumas frutas na cesta e passávamos as tardes mais alegres que me lembro. Eu me recordo inclusive das músicas que tocavam na rádio quando já estávamos voltando para casa, no fim da tarde, no inicio dos anos noventa... Tudo parecia-me tão mágico e promissor. Ninguém sabe como gostaria de ter aqueles dias de volta, ver minha mãe outra vez, meu irmão, que aos catorze se tornou um verdadeiro idiota e eu nem fazia idéia dos motivos que o levaram a fazer tudo que fez.
—No que está pensando? —Perguntei.
—Estava vendo aquelas três garotas atravessando a rua, está vendo? Elas estão tão felizes.
—Como sabe? —Era impossível de onde estávamos ver qualquer traço do rosto dessas garotas.
—Olha como caminham, estão elétricas, a do meio está sendo contida pela a da esquerda.
—Talvez estejam drogadas... Assim como nós.
—Não. São muito novas para isso... E outra, esse troço apenas anestesia a gente, não proporciona alegria. Para isso, meu amigo, eu precisaria de prozac.
—Só falta mesmo, associar sua bebedeira diária de uísque com prozac ou qualquer outro antidepressivo. —Censurei-o de imediato. Era para o seu bem.
Ele puxou o baseado e logo em seguida exalou, nos deixando em uma nuvem de fumaça. Fez uma cara de quem já não sabia mais quem era, e me passou o beck, ainda prensando a fumaça contra o céu da boca, fizera um sinal de que já estava satisfeito. Eu puxei mais uma e apaguei esfregando a brasa no cinzeiro.
—E você? No que estava pensando?
—Às vezes você pensa na sua mãe? Em como seria se ela estivesse aqui agora?
—Todos os dias. Principalmente quando estou no banho, não sei por quê.
—Acho que tudo seria tão diferente...
—Acho que esse som está nos deixando depressivos. Você não acha?
Augusto sempre colocava algo para tocar quando estava em casa, naqueles poucos dias que estava ali eu já tinha escutado e visto tantas coisas que sinceramente não fazia idéia de que existiam.
—Não acho que seja isso.
—Outra coisa que temos em comum: O meu está preso e o seu deveria estar.
O telefone estava tocando.
—Talvez seja a Carol. —Ele se metera no quarto, abaixara o volume e correu para atender. Segundos depois voltara com o telefone sem fio na mão.
—Falando no capeta aparece o diabo.
—O quê?
—Seu pai. —Não poderia ser.
—O quê?
—Seu pai! — Disse direcionando o fone em minha direção, a impressão que tive era de que aquilo iria me queimar. Afastei-me.
—Atende!
—Não! Você está louco?
—Se eu falar que você não está ele vai ligar de novo. Atende e diz que não quer mais falar com ele. Que agora você tem outro lugar para morar. Sei lá... A gente não sabe nem o que Ele quer
Não era verdade. Ainda indeciso peguei o fone e levei ao ouvido. Do outro lado estava tudo quieto, sem ruídos ou vozes, mas ele estava lá. Não consegui dizer nada de entrada.
—Renato? —Ele perguntou. —Está me ouvindo? —Ouvir sua voz me deixou profundamente irritado.
—Estou aqui... Pode dizer o que você quer.
—Como você está? Eu tenho acompanhado os jornais e vi uma foto sua coberto de sangue... —Eu queria mandá-lo para o inferno.
—Como estou? Como acha que estou seu filho-da-puta? Eu estou péssimo, está me ouvindo? Não porque apareci numa merda de foto de jornal coberto de sangue. —Eu falava do corredor, mas acho que Augusto ouvia tudo. — Eu estou me sentindo péssimo porque eu tenho um pai que é um safado, um gay safado e sem vergonha, porque você abusou do Fernando o tempo todo até fazê-lo querer ter distância de nós, porque você destruiu a vida da nossa mãe, porque acordei e peguei você chupando meu pau. Que diabos pensa que estava fazendo? Eu era seu filho!
—Você ainda é...
—Depois daquilo, não tem como... Não sou mais.
Eu estava exaltado. O velho nada disse do outro lado.
—Não vai dizer nada? Liga para saber como estou e não vai dizer nada? Quer saber? Eu não preciso mais de você... Eu tenho outro lugar para morar. Conheço pessoas que se preocupam comigo.
—Você está certo... — Disse em tom seco. — Eu não deveria ter ligado, me desculpe!. —Em seguida desligou. Eu o xinguei outra vez de filho-da-puta, soltando todo o ar dos pulmões, esmurrando a parede.
—O que aconteceu?
—Agora não, Augusto. Preciso ficar só um tempo, pode ser?
—Claro! Estarei aqui.
Sai do quarto e tenho a impressão de que bati a porta, desci os degraus, alcancei a cozinha e abri o quartinho da empregada, às vezes Maria ficava por lá, muito raramente. Ajeitei-me na cama, as paredes eram tão próximas que elas por si só poderiam oprimir uma pessoa. Eu estava tão cheio, tão triste, tão incerto, tão doloroso que chorei. Chorei ali sozinho, sem ninguém ver.
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