Estávamos em um daqueles fins de semana nublados, não chovia, mas tudo era sombras e o vento soprava calmo, de modo a deixar os interiores de todos ambientes ainda abafados e quentes. Eu havia acordado tão tarde, para quem normalmente levanta da cama as seis, acordar as onze é muito tarde. Acho que a ausência de sol contribuiu com o sono longo. Coloquei uma bermuda que estava ao lado da cama, acendi um cigarro e fui até a janela, passara a noite toda aberta, sempre fui meio claustrofóbico. Porra, havia me esquecido de que o aniversario de Carol era no dia seguinte, e que na manhã do dia anterior, ainda no Campus, conversamos como Sander sobre uma possível festa na casa de Augusto. Sugeri o salão de festas, mas Augusto disse que teríamos de agendar e que a festa teria hora exata para acabar, e que lidar com todos os adultos do seu edifício e principalmente com o porteiro e o sindico seriam uma merda. Faríamos uma festa para poucas pessoas no próprio apartamento. Durante a tarde enviamos convites virtuais para o email e facebook de algumas pessoas. Sander nos passou uma lista que incluía o nome de Charles, eu convidei Cesar e Pablo, e mandamos outros para alguns alunos mais próximos, talvez a festa nos aproximasse novamente dos outros alunos.
Fernanda, Vinicius e Felipe ficaram de aparecer antes do almoço para ajudar a organizar o espaço, Fernanda traria algumas coisas para decoração. Meio que despertei do transe em que me encontrava exatamente quando o interfone tocou. Destranquei a porta e nem barulho de som ligado escutei, talvez estivesse dormindo. Desci os degraus correndo, o porteiro avisou que o pessoal já estava na porta, autorizei a entrada e subi novamente para avisar o anfitrião. Bati três vezes na porta e antes de abrir, e lá estava ele sentado no chão, escorado na cama, fumando maconha.
—Começou cedo hoje em...
—Você que acordou tarde... Quem era? O pessoal?
—Acabaram de chegar, preciso lavar o rosto e escovar os dentes. —Pensei em sair, mas ele me chamou novamente.
—Vai me contar o que rolou? Ontem entre você e o Vinicius...
—Depois, Renato. Vá se trocar o pessoal está subindo.
—Mas foi bom?
—...Não sei... Não tem como comparar, já que nunca tinha feito um troço assim antes... Mas foi massa... Eu acho.
—Que bom...
—Na verdade a gente não chegou a gozar. —Confessou.
—Entendo... Mas talvez seja assim mesmo. Quem sabe da próxima vez...
—Vai se arrumar, seu pornográfo.
—Delinqüente juvenil. —Às vezes nos agredíamos dessa forma.
Hoje sinto falta dos meus dezoito anos, daquele último ano maluco numa cidade que pouco tinha a oferecer, numa cidade que segundos só era boa para criar filhos. Hoje sinto falta da minha cidade, dos amigos que tinha ali... É uma merda do caralho isso que a vida faz com a gente, na verdade não a vida, mas o tempo, o tempo e o caminho que cada um de nós tomamos com o passar dos anos. É impossível resgatar o que já se foi, é impossível pensar em abraçar alguém que já não mais está do seu lado, ou dizer coisas que você sempre quis e por algum motivo idiota nunca disse. As pessoas vão, os momentos passam, as fases chegam ao fim, e tudo se renova.
Estavam todos na sala, retirando dezenas de objetos de caixas de papelão, coisas coloridas, geométricas e plásticas. Fernanda estava com um globo nas mãos, daqueles feitos de inúmeras partículas de vidro espelhado.
—Quanta coisa! —Expressei minha opinião. —E esse globo, Fernanda?
—Não havíamos combinado ontem que faríamos um flashback? Tem coisa mais anos setenta e disco que isso?
—Vamos espalhar essas coisas por todo apartamento. —Ordenou Augusto. —Vamos trocar as luzes e colocar uma música para tocar.
—Espero que tenha conseguido fazer uma seqüência com coisas antigas, do tipo Bee Gees, Abba, Barry White e Billy Ocean.
—Claro. Já está tudo pronto.
—Ué, só vieram você e o Felipe? —Perguntei.
—Sim. O Vinicius disse que só vem a noite, disse que por algum motivo precisava ficar em casa.
Era uma festa surpresa, por tanto era necessário que todos os convidados estivessem presentes antes da aniversariante. Nos trinta convites marcava a reunião para as nove da noite, chegamos a pensar que talvez não fossem aparecer nem metade dos trinta convidados, mas quando os carros começaram a estacionar na rua de Augusto e a galera começou a subir, em pouco tempo já havia umas oitenta pessoas ocupando tudo que é canto do apartamento. Cheguei a ver pessoas que fumavam, bebiam e conversavam dentro do quarto de empregada. As figuras geométricas que ganhavam brilho com a falta de luz, decoravam as paredes, o grande globo de Fernanda no meio da sala principal era um lembrete de aquilo era uma festa, e os copos fluorescentes flutuavam em todos os lugares, parados, deslizantes.
Pablo estava acompanhado de sua namorada, uma garota loira, que se chamava Simone, ainda não conhecia a mina, mas tinha olhos bonitos, cabelos nem tanto, precisavam de retoques, pois já aparentavam raízes pretas e longas, além de parecer ressecado e esticado. O que mais me chamou atenção em Simone foram seus peitos, porra, eram enormes, eram desproporcionais. Talvez esse tenha sido meu grande erro na noite, mas assim que bati o olho nela, na namorada do meu amigo, me imaginei caindo de boca naquele peito enorme e mamando até fazer ela gemer.
Carol chegou atrasada, as pessoas, já embriagadas, dançavam e riam incessantemente. Estava acompanhada de Sander e acreditava que iriam apenas usar o quartinho do sexo, que no máximo Augusto teria comprado um bolo enorme e que tudo acabaria por aí. Estava enganada. Pareceu-me, quando entrou, que já estava no ritmo de nossos convidados. Alguém ligou as luzes e todos cantamos juntos o velho “parabéns para você”, em seguida uma música louca da época das discotecas voltou a tocar e o som das vozes ressurgiu de todos os cantos. Fui lhe dar um abraço.
—Parabéns! —Disse.—Você merece tudo de bom.
—Obrigada! Vocês são loucos de chamar todas essas pessoas, não converso com metade delas.
—Não fomos nós que chamamos, elas simplesmente apareceram. Por onde esteve o dia todo?
—Almocei com meus pais e minha irmã e no final da tarde Sander passou para me pegar.
—Você está curtindo mesmo ele, não é? —E Sander se aproximava com duas cervejas nas mãos.
—Acho que sim, gosto do jeito dele, Renato. Acho que nunca havia sentido alguma coisa assim por alguém antes.
—Fico feliz em saber. —Mesmo preocupado. Às vezes Sander parecia-me ter uma personalidade desajustada e incorrigível. Como aqueles que não sabem muito bem distinguir o certo do errado.
—E então, Renato? —Entregou uma das cervas para Carol. —Saiu tudo como planejamos!
—Quem mais está metido nessa loucura?
—A Fernanda foi quem imaginou tudo, e se empenhou bastante, passou a tarde aqui decorando o apartamento. —Fernanda e Vinicius estavam organizando uma mesa ao fundo da sala, com doces e salgados.
—Onde está o Augusto? —Olhei ao redor e realmente ela havia desaparecido.
—Não sei... Já faz um tempo que não o vejo. —Outros chegaram para cumprimentar a aniversariante, alguns ela nunca havia visto antes. Por fim Felipe e Fernanda se aproximaram, e junto com eles Vinicius foi obrigado a abraçar minha amiga. Em outros aniversários, de anos anteriores, Carol estava deprimida, pela primeira vez via alegria em seu rosto. Lembrei-me que um ano atrás, estávamos com Caio jogando boliche. E nenhum de nós três estávamos bem de modo que fiquei imaginando que aquele era o aniversário mais triste que já presenciei, fora os meus. De repente a nostalgia bateu e senti uma saudade do gordinho, Caio era uma boa pessoa, e foi por muito tempo um bom amigo. Foi aí que tive a idéia de procurá-lo.
—Eu vou subir por um minuto. —Avisei aos outros. —Só um instante.
A possibilidade de que desligasse o telefone na minha cara era enorme, ainda assim decidi procurá-lo e disquei o numero que já tinha em mente.
—Oi!
—Pois não? —Era a mãe do Caio, me lembrava dela.
—Oi, eu gostaria de falar com o Caio, ele está?
—Não. O Caio não mora mais aqui. O Caio está no apartamento do irmão no Rio de Janeiro. Quem gostaria? —Antes que pudesse pensar em um nome apertei o botão e encerrei a conversa. Então o gordinho safado não morava mais em Goiânia. Filho da puta, teve foi a sorte grande.
No andar de cima, posso dizer que coisas estranhas estavam acontecendo, assim que deixei o escritório, Augusto saia de seu quarto, acompanhado por Charles e outro cara daquela noite. Logo suspeitei do que estariam fazendo, mas não podia dizer nada, não podia censurá-lo, aliás, quem estava ali de favores era eu, sendo contra ou a favor de suas atitudes o que eu tinha que fazer era ficar calado e de boca fechada. Quando se aproximaram o suficiente senti um cheiro ruim, e vi na cara de Augusto que estavam alterados.
—Já cantamos parabéns para Carol. —Foi minha tentativa de dizer “Você não deveria estar aqui em cima.”
—Nossa, já? Eu falo com ela quando descer. —Os outros dois ficaram ali parados como se a conversa fosse com eles.
—Faça isso... Vou fumar um cigarro aqui em cima e já desço. —Era o que realmente iria fazer, fumar um cigarro na janela. O fato é que quando abri a porta do meu quarto dou de cara com Pablo e a tal garota com quem estava. Apresentou-me como sua namorada, mas vai saber.
—O que estão fazendo aqui no meu quarto? —Estavam se beijando na maior putaria. Simone me olhava com cara de garota interrompida.
—Desculpa, não sabíamos que o quarto era seu. —Disse Pablo. E então me encaram por um curto espaço de tempo. Imóveis.
—Eu preciso ir ao banheiro. —Ela falou se desvencilhando dos braços e do corpo do outro.
—No corredor, primeira porta a esquerda. —Ela saiu, erguendo a alça da blusa caída.
—O que acha?
—O que acho do que?
—Da Simone... —Me fiz de desentendido e apenas balancei a cabeça, acendi o cigarro.
—Não está afim? Cara, ela é insaciável, e adora uma rola. —Soltei a fumaça.
—O que está sugerindo?
—Acorda, Renato! To sugerindo de nós dois pegarmos ela, cara.
—E ela topa?
—Cara, não estou te dizendo, ela adora meter... Já me contou umas coisas que fez, que você iria ficar maluco. —Então a garota retornou, parecia um pouco apreensiva, um pouco tonta, e um pouco vagaba.
—Vem cá, gata. —Chamou Pablo. Ela obedeceu e logo estavam nos mesmos amassos em que os havia pego minutos antes. Ela estava de costas para mim, ele de olhos abertos me encarava e com um movimento de mão me chamava para mais perto. Por um instante não cedi, mas terminando de fumar cheguei a conclusão que não tinha nada a perder. Era sábado a noite, provavelmente nunca mais veria aquela garota outra vez, e ela tinha um peito que deixava a gente louco só de olhar para eles. Cheguei junto, por trás. Ela gemeu, esfreguei meu pau duro ainda por baixo da calça na sua bunda. Meti a língua em um de seus ouvido e afundei minhas mãos naqueles seios. Pablo fez um movimento estranho, nos mudou de posição sutilmente, como que para nos posicionar. Tirou sua camiseta e a blusa de Simone.
—Tira a sua também. —Eu obedeci. Desloquei-me e habilmente tranquei a porta do quarto. Ele já estava agachado, tirando a saia dela. Quando se fica a três, o mais estranho são as posições que às vezes assumimos. Ele estava agachado, eu fui por trás, em pé, me debrucei e joguei meu rosto contra o sutiã da moça. Quando já estava só de calcinha, Pablo e eu tiramos nossas calças, nossas cuecas e nos divertimos para valer. Não tocamos um no outro, mas fizemos com ela o que queríamos, era mesmo insaciável. Quase uma puta.
Ao descer estavam todos dançando, da escada pude ver Sander, Carol, Augusto, Vinicius, Fernanda e Felipe no centro da sala, estavam se divertindo para caralho. Fernanda e Carol gritavam e por um momento naquela noite senti falta de Júlia. Aqueles dias juntos na fazenda foram bem intensos.
—Vem dançar, Renato! —Chamou Carol. Dançar não era uma cosia que gostava de fazer, achava tão sem sentido ficar balançando o corpo no ritmo da música. Logo me juntei a eles. César me encontrou.
—Até que enfim te encontrei, estava perdido aqui.
—Chegou muito tarde!
—Tinha algumas coisas para fazer antes, mas não se preocupe, já entrei no clima. —E dançamos até a música acabar. De alguma forma um trenzinho se formou e quando me vi estava segurando o quadril de Sander enquanto serpenteava pelo apartamento entre os móveis e os chatos que apenas olhavam e criticavam, essas pessoas chatas que não conseguem se divertir de jeito algum.
—Preciso que pegue meu carro e deixe o Vinicius em casa, não posso dirigir agora como estou... —Pediu Augusto. Nem eu sabia se estava bem para dirigir, mas resolvi lhe fazer o favor, apenas pensei em levar alguém comigo para não voltar sozinho.
—Ei Fernanda, preciso ir até o Jaó deixar o Vinicius em casa. Não quer me fazer companhia?
—Claro! Que horas vão?
—Agora. Vou só subir e pegar a chave do carro.
—Está bem... Estou esperando.
No caminho Vinicius tocou no assunto das drogas, e não só deixou claro que se preocupava com Augusto, mas insistiu em dizer que eu tinha responsabilidade sobre o que estava acontecendo com ele, disse que eu era o único no momento que podia fazer algo a respeito.
—Eu concordo com você, mas não é tão fácil assim para mim. Eu estou morando na casa do cara de favor...
—Acho melhor fazer alguma coisa, Renato... Antes que seja tarde demais. Converse com o Sander, com a Carol. —Já havia pensado nisso. Talvez tendo uma conversa séria com Sander, os problemas do Augusto, em partes, deixariam de existir.
Fiquei aliviado ao parar o carro de frente a casa, pensei que seria coisa rápida, ele desceria, eu diria “até mais” e minutos depois estaríamos na festa outra vez.
—Preciso usar seu banheiro, Vinicius! —Disse Fernanda.
—Vamos embora Fernanda, já é tarde.
—Eu preciso fazer xixi.
—Vem, minha mãe não está em casa. Viajou essa manhã.
—Se não tem ninguém aí, por que não dormiu na casa do Augusto? —Perguntei.
—Meu pai está aqui.
—Ai, rápido, não estou agüentando mais segurar. —Estava até meio emborcada.
—Eu vou esperar você aqui no carro. Vê se não demora.
Entraram falando alguma coisa que não consegui entender, passaram pelo portão e logo ligaram a luz da sala. Fernanda soltou um grito agudo, um grito que me fez desligar o automóvel e correr para onde estavam, atravessei o jardim, subi alguns degraus e passei pela porta da sala alcançando a luz. Fiquei chocado com o que vi ali, o pai do cara, doutor Raul, como se chamava, estava sentado em uma das poltronas de couro, sua cabeça estava desconstruída, o sangue esguichado na parede de cor clara e os sapatos sobre uma poça enorme de sangue. Ao lado do corpo a arma caída, um cheiro estranho no ar. Vinicius parecia estar lutando contra a realidade, olhava o corpo, virava o rosto e chamava Deus. Abracei-o e mesmo contra sua vontade o tirei dali.
—Vem comigo cara, você não precisa ver isso... Vem, vamos chamar a policia. —Disse enquanto o conduzia para a área externa. Fernanda nos acompanhou, ainda em transe, até o jardim. E quando fomos engolidos novamente pela escuridão, eu peguei meu celular e disquei os três dígitos.
Copyright 2011
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário