O borbulhar de carros que cruzam a cidade no horário do rush já era um pouco mais brando quando deixei o apartamento. O setor de Augusto era bem agitado, região de muitos prédios e clínicas médicas, a rua onde atualmente eu residia era uma verdadeira batalha em certos horários, porque muitas eram às vezes em que ficávamos o tempo de duas canções no estacionamento esperando uma brecha para sair. Pagar uma verdadeira fortuna para ter que passar por isso todas as manhãs. Já tinha pensado que possuindo os mesmos bens eu encontraria lugar melhor para morar. Saindo da garagem presenciei Vinicius descendo de um taxi, o velório do pai lhe deixou permanentemente abatido, ver o homem daquele jeito, com os miolos estourados e reviver algo que senti quando minha mãe se foi, me sensibilizou bastante. Buzinei para chamar sua atenção.
—E ai, rapaz?
—E ai, Renato? Está indo onde?
—Vou dar uma volta. Ver um certo alguém. Acho que o mesmo que você.
—Espero que dê sorte, então. O Augusto está lá em cima?
—Está com a Carol. —Percebi um certo descontentamento em seu rosto. —Não se preocupe, Sander está chegando e ela não pretende incomodar. —Ele parece ter ficado ainda mais consternado.
—Sander... Cara, não acho Sander uma boa companhia, nem mesmo para sua amiga Carol.
—Também tem notado isso, é?
—O cara passa o dia todo chapado, ontem o peguei no banheiro do Campus cheirando sem medo algum de ser pego, na cara dura. E não fui o único, o Aluisio do terceiro B também estava no banheiro quando ele perguntou se a gente queria dar um tiro.
—Cara, a coisa está mais seria do que pensei. Fala com o Augusto sobre isso, eu vou ver o que posso fazer. Até logo, Vinicius! —Disse soltando o pé do freio.
—Até mais.
Peguei a mão única e após ultrapassar o sinal da esquina encostei o carro rapidamente, peguei meu celular no bolso e disquei, ela atendeu.
—Mariana?
—Renato?
—Sou eu... Como você está?
—Eu estou bem... Quanto tempo! Como está você? Te vi num jornal um dia desses. —Disse a ex-namorada de meu irmão. Tínhamos um carinho muito grande um pelo outro. Quando Fernando foi embora deixando só uma carta escrita, nós nos apoiamos, saímos juntos, de certa forma ficamos íntimos, pois falávamos constantemente sobre o que sentíamos, sobre coisas que se passavam conosco. Mariana era sete anos mais velha que eu, atualmente morava sozinha em uma quitinete próximo a Universidade, estava cursando o ultimo ano de Biologia.
—Então... Você está só?
—Desolada. —risos.
—Estava pensando em passar ai para pormos a conversa em dia, se você não estiver fazendo nada... Tenho muitas novidades.
—Ótimo! Vou estar te esperando!
—Até mais! —Desliguei e por um minuto pensei que talvez, aquela noite, poderia acontecer.
Esses pensamentos só começaram a surgir em minha mente a partir do dia em que meu irmão fugiu abandonando família, amigos, emprego e namorada. Em alguma parte do percurso eu me vi pensando em beijar a garota, e posso estar enganado, mas algo me dizia que ela também pensava o mesmo. O que nos impedia era o fato de que eu ainda era o irmãozinho mais novo de Fernando, agora eu tinha dezoito e ela vinte e cinco. Não era uma diferença enorme, era até imperceptível. E como Fernando nunca mais ligara, nem mesmo para se desculpar... Talvez Mariana já pudesse acreditar que mau nenhum estaria fazendo em transferir os desejos que sentia por meu irmão, para minha pessoa. Isso fora o que eu sempre quis, quando meu irmão estava em casa não chegava a desejá-la, mas assim que ele se mandou eu percebi que a boa sensação que sentia quando atendia aos telefonemas dela não era por acaso. Naquela época Mariana era louca por Fernando, disso eu sabia.
Liguei o som, The Cure, como era bom escutar aquela voz. Era disso que eu precisava, cigarros, um carro, Robert Smith e alguém para conversar. O Campus da Universidade Federal de Goiás fica em uma área afastada, já que tudo nessa provinciana cidade acontece em meio a uma ponta da região sul e oeste. Dificilmente eu me mandava para campos tão vazios como aqueles, mas ao contrário de meus colegas de colégio, eu tinha uma noção de toda a cidade. Quando Fernando partiu eu comecei a freqüentar Mariana no mesmo local que hoje ela mora, conheci dezenas de outras garotas pelas salas de bate-papo na internet, sai, conheci e meti com todas elas. Houve um tempo da minha vida em que eu era um verdadeiro vagabundo, passava os dias de casa em casa, houve um tempo em que passei idolatrar meu pai, era o que tinha sobrado; isso até ele começar chegar em casa gritando e me batendo. Depois disso, eu decidi trabalhar e não mais depender dele. Passei quase dois anos sem casa, minha vida era dividida entre o Campus PH e as dependências do Flamboyant Shopping, e por mais que fosse dura a semana, às vezes preferia assim, quando chegava em casa ele já estava dormindo e tudo era mais tranqüilo.
As rodovias que nos levam ao Campus da Federal são todas largas, escuras, cercadas de mata, estabelecimentos fechados, postos de combustíveis, motéis e como diria Augusto, ”Condomínios de apartamentos conjugados feitos para a classe média baixa.” Detestava esse tipo de comentário por parte daqueles riquinhos do PH.
Estava próximo, na esquina havia um pequeno movimento, um homem já idoso e sua família montaram um negocio de espetinho na calçada da esquina, colocaram umas mesas plásticas de cor amarela, bem chamativa, e além de espetos variados ofereciam inúmeros refrigerantes e suco de frutas feito na hora. Achava o máximo esse jeito que as pessoas arrumam para sobreviver nesse país. Sempre achei o Brasil um país generoso, legal por acolher tanta gente, de tantas nacionalidades, mas ao mesmo tempo em que acolhe também os castiga. Grande parte dos moradores desse país estão sujeitos a prostituição, não só física, mas de todas as outras formas possíveis. Estacionei em frente um portão cinza. Lá dentro, uma dezena de quartos, cozinhas e banheiros, era lá que ela morava. Se Carol chegasse a ver aquele local, chamaria de submundo.
Desci do carro luxuoso, talvez não devesse estar ali, toquei o interfone do submundo. Ela atendeu.
—Sou eu Mary Anne – Eu brincava com ela, transformando seu nome, Mariana, em um composto americanizado.
—Abriu? —Perguntou ao mesmo tempo em que o estalo do automático rompera sua voz. Subi seis lances de escada, o condomínio era antigo e pequeno, não possuía elevadores. Quando alcancei seu andar, coloquei os pés em seu corredor, a vi na porta sorrindo esperando por mim. Ela estava linda, bem mais que da última vez, os cabelos estavam mais longos e mais escuros, a pele bem clarinha, meio rosada... Estava ela sorrindo e me esperando. Beijei-a no rosto. Ela disse que estava bem, eu também. “É, você está ótimo, Renato!” - disse à mim mesmo. Já dentro eu notei que as paredes haviam sido pintadas, achei que fosse um bom assunto para iniciar conversa.
—Ficou legal! —comentei. —Esse efeito que você deu na parede.
—Ficou bem legal mesmo, uma amiga minha quem fez, ela trabalha pintando as coisas... Estava num momento tão carregado há um tempo atrás, Renato. Estava precisando de paz, ai tive a idéia de reproduzir o céu na parede do quarto. —Realmente era muito bem feito, e muito interessante. Aproximei-me tentando absorver pequenos detalhes. —Às vezes passo horas deitada na cama olhando nessa direção.
—E quando se mudar?
—Ah sim, isso ai vai ficar para os futuros moradores. Universitários não se importam com essas coisas não. —Ela estava linda.
—Você está linda! —Disse assim que pensei, estava me sufocando.
—É mesmo? Você achou? Você também está muito bem!
—Mentira. Bondade sua! —Quando me olhava em qualquer espelho sentia-me certa repulsa da minha atual aparência. Estava me alimentando melhor, mas de resto, estava tudo acabando um pouco comigo. Eu estava péssimo, eu me olhava no espelho e me achava feio, sem perspectivas. Mariana notou minha expressão desacreditada.
—Que cara é essa, Renato? Estou falando sério. Apesar de tudo você me parece melhor, parece mais maduro agora... Eu tenho acompanhado o que tem acontecido com vocês, com o pessoal que estuda naquele seu colégio. Vi uma foto sua no jornal duas semana atrás, o que foi aquilo? Você estava todo sujo de sangue... —Enquanto ela falava eu fiquei ali pensando que jamais conseguiria novamente travar contato com qualquer pessoa sem antes explicar essa história e fornecer detalhes. —Se importa de falar?
—Não, claro que não. —Sentei-me. —O que você quer saber?
—Espera um minuto, eu estava fazendo um chá para gente tomar. Gosta de chá? A gente fuma um cigarro, toma um chá...
—Vai ser ótimo.
—Ai você me conta o que está acontecendo.
Estava tocando uma musica legal, que falava algo sobre você querer ser exatamente aquilo que a pessoa do seu sonho gostaria de encontrar em alguém. Acendi um cigarro enquanto Mary Anne me trazia uma xícara de chá.
—O que você está ouvindo? —Perguntei curioso, assim que ela retornou da cozinha.
—Leo Maia. Não conhece? —movendo o pescoço deixei claro que não. Ela prosseguiu. —Tenho escutado muito essas essas novidades da MPB, retirando U2, não suporto mais esse monte de coisa internacional que tenta nos empurrar guela abaixo.
—Não conhecia não... Gostei muito! —Eu realmente achava interessante.
—Não desvia o assunto não, queridinho.
—Eu não quero ficar aqui falando disso a noite toda, Mariana. Na verdade estou aqui tentando fugir disso. Me entende?
—Claro que sim. —O chá estava realmente bom, era vermelho e na mistura senti um traço de canela. —Se não quiser falar, tudo bem. É que a cidade inteira não comenta outra coisa... Na verdade queria saber o que aconteceu naquele dia em que o filho do deputado reapareceu... O dia em que tiraram a foto.
Então me rendi, havia chá e cigarros o suficiente. Comecei relatando tudo, como fiz até esse exato momento, falando de como nos tornamos amigos de Augusto, apesar de conhecê-lo há anos. Depois a forma estranha como a mãe dele morreu e os telefonemas que seu pai vinha recebendo, a morte da namorada do pai dele, o assassinato do medico, o tal Ismael, e também falei sobre o tiro que estilhaçou a vidraça da casa da Carol, naquele período em que Augusto estava passando um tempo por lá.
—Esse Augusto parece estar levando com ele esses acontecimentos estranhos. Eu o vi no jornal também. Um cara meio loiro, do cabelo raspado... É ele?
—É ele mesmo. —Confirmei.
É claro que na minha versão contada à Mariana, eu escondia vários detalhes, como o atropelamento da garota naquele dia em que fomos suspensos, a arma que Caio apontara em nossa direção aquela tarde, próximo ao rio. Nada disso foi mencionado.
Talvez o clímax de tudo tenha sido o atentado aos ônibus, foi quando tudo veio a tona e de repente éramos assunto em dezenas de noticias. O que de fato espanta é que se esse sujeito tem Augusto como alvo, por que atacaria o ônibus sabendo que Augusto não ia mais de buzão pro Campus? Parecia haver outros motivos...
—Que estranho!—Não imaginava que essa história atraísse tanto a atenção das pessoas. Ela encheu as xícaras de chá. —Eu me lembro dos ônibus, um mês atrás. O motorista morreu, um monte de alunos ficaram feridos...
Foi então que cheguei na parte em que peguei minhas coisas e fui morar com Augusto, preferi ocultar os motivos e apenas dizer todas as histórias que já tinha escutado sobre meu pai, lhe disse que as coisas continuavam a acontecer e que eu simplesmente estava farto de tudo aquilo. Augusto estava só, procurando companhia, e eu não tinha idéia do que fazer. Quase como uma resposta a tudo isso, a mente pequena que nunca pensei que possuísse se manifestava, e ela me perguntou se havia algum envolvimento sexual. Eu disse que não, disse que não havia interesse de nenhuma das partes e que jamais faria algo do tipo.
—Porque as pessoas sempre pensam coisas desse tipo?
—Não sei... Talvez porque todo mundo sabe, meu querido, que os homens não prestam.
—Você está me zoando?
—Tudo bem, vai... Foi uma pergunta idiota.
Os acontecimentos na fazenda foram narrados em partes, exclui o sexo com Julia, o envelope com fotos inexplicáveis, e evitei ficar dramatizando muito, apesar do sufoco que passamos e de Ricardo ter chegado ao fim que chegou. Talvez se tivesse o ajudado poderíamos termos morrido os dois, mas às vezes acho que não deveria tê-lo deixado lá.
—Não foi culpa sua, Renato... E se estivesse com ele o que teria sido da Carol? Ela realmente estava precisando de você e você a ajudou. Não se culpe. —Colocou a mão sobre meu braço de forma afetuosa. Aproveitei o momento e coloquei minha mão sobre a dela. Ela me encarou curiosa, sorrindo.
—O que foi?
—Preciso lhe contar uma coisa, eu estou grávida!—Era possível ser solteira, estudante e estar feliz em estar grávida? Mariana estava.
—Como assim grávida?
—Dois meses, foi um descuido, eu sei... Passei uns dias difíceis, mas agora está tudo bem. O que você acha?
—O que eu acho do quê?
—Não sei... Você parece surpreso.
—Mas eu estou, - levantei-me. —Eu estou totalmente surpreso. Você está pensando em casar ou algo do tipo?
—Ah, não! Não estamos mais juntos... No inicio ele tentou mostrar que apoiava, que ia ficar comigo, mas depois de um mês mostrou o oposto e eu preferi assim... Não sabia se gostava mais dele. —Ela se levantou, pegou o bule e foi em direção a minúscula cozinha, eu a segui.
A mesma banda continuava implacável durante todo esse tempo, agora falava sobre um clima a dois, sobre paixão, sexo, amor e traição. Mariana estava na pia com os pires nas mãos, abracei-a por trás.
—Posso ajudar você criar se você quiser...
—Renato…! —Ela lamentou, suspirou, ofegou, sei lá.
—Eu estou falando sério. Não sou mais o menino que era quando você me conheceu. —Ela se virou, saindo dos meus braços.
—Eu sei... Claro que não. —Me olhou, encarou meu porte físico avaliando-me.
—Eu sei que me acha atraente.
—De modesto você não tem nada.
—Acha que não sei? Você acha que eu me pareço com meu irmão.
—E não se parece?
—Não sei... Talvez. Vou deixar meu cabelo crescer... —por um tempo nos encaramos mutuamente, ela sorria como se abrisse caminho, como o fizera desde o inicio. Aproximei-me tentando ser sedutor. —Eu já tenho dezoito anos.
—Não vamos falar de idade... —Pegou em minha cintura. Eu cheguei junto. Sei que havia o fato da garota ser ex-namorada do meu irmão, mas ele estava longe e havia deixado-a para trás já há algum tempo. Beijamos no estreito espaço existente entre a pequena mesa e a forte parede que dividia o que seria uma sala em dois ambientes. Dali fui arrastado para o seu quarto, ela encostou a porta e em seguida tirou a blusa, não usava sutiã e seus seios eram fantásticos, cheios e durinhos. Peguei-os, chupei-os enquanto ela gemia e massageava meu pau com uma das mãos, adorava isso, uma boa pegada por fora antes de tirar ele da calça. Mariana era perfeita, beijava bem, cheirava gostoso, fazia tudo direito e transmitia uma paz de espírito ainda maior através do sexo.
—Você é maravilhosa, sabia?
—Eu não quero que pense em me ligar amanhã. Vamos apenas curtir esse momento. —Ela já estava sentada sobre mim, eu estava todo nela, abraçando-a por trás e sentido seus peitos quentes em minhas mãos. Ela rebolou até eu gozar e juro que nunca gozei tão bem em toda minha vida.
Quando me despedi, ganhando um beijo na face, o submundo estava mais frio do que esperava. Disse que voltaria assim que a vida agitada desse um tempo, falei rapidamente sobre as provas de fim de ano, o ingresso na Universidade, e a festa de Halloween do Campus marcada para algumas semanas. Disse que se quisesse vir comigo. Ela veio até o carro.
—Carrão! Deve ser ótimo ter amigo playboy.
—Quer dar uma volta?
—Não. Não fica dando bobeira num carro desse por aqui. E outra, hoje vai chover!
—Depois dessa onda de calor... Eu espero que chova mesmo. —O som do Deftones surgiu de repente, assim que liguei o rádio. Balancei a cabeça no ritmo do rock, estava satisfeito.
—Como você consegue escutar isso?
—Estou indo embora Mary Anne. A gente se vê no dia das bruxas. —Parti logo em seguida deixando-a ainda na calçada.
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