domingo, 10 de abril de 2011

77 - QUARTOS DE VIDROS

Trilha: The Cranberries - animal instinct    (e)    R.E.M - the one I love








                                                                                                Augusto saiu num curto prazo de tempo que desci até a esquina para comprar um maço de cigarros. Havia desaparecido, e quando tentei o celular, caia direto na porra da caixa postal. me senti pequeno, sozinho ali. Subi a escada pulando, intercalando os degraus, é uma mania que tenho, saltando um e alcançando o seguinte. Se leva a metade do tempo que você levaria para subir qualquer escada que desejasse.
    Naquele imenso corredor, pela primeira vez senti-me em casa, confortável, livre, totalmente à vontade, ali naquele corredor eu tinha um quarto. E com a intenção de me isolar e viajar peguei a segunda porta a direita e lá eu estava, era um momento transitório é claro, mas ainda assim havia um espaço reservado à mim. Um canto só meu. Tranquei a porta, talvez com medo que Augusto aparecesse e invadisse o local sem o mínimo de discrição, acho que estava passando tempo demais com ele... Acordávamos juntos, íamos para o Campus juntos, voltávamos juntos, almoçávamos juntos, durante a tarde estávamos juntos, e antes de dormir normalmente assistíamos tevê juntos. Só agora racionalizava as coisas daquela forma, Augusto ocupando cem por cento da minha vida e de todo meu tempo.
     Acendendo o baseado na janela, acionei o controle do pequeno micro-system instalado ao lado da cama. Tocava uma antiga do The Cranberries. Sempre gostei de clássicos, e essa música em especial mexia tanto comigo, com algo dentro de mim que desejava correr e gritar... Mas naquela noite eu apenas me silenciei, eu prensei a fumaça o máximo que pude e fumei alguns cigarros vendo a chuva fina que começava a umedecer a cidade e o trânsito da região que nunca para. Isso antes de me instalar no computador do escritório e ficar até tarde navegando em mil sites. O telefone tocou assim que liguei o monitor. Atendi ali mesmo, no escritório.
—Alô.
—Oi. —Reconheci a voz.
—O Augusto não está, Vinicius...
—Não está?
—Não... e nem sei onde foi. —Ele pareceu pensar por um minuto.
—Não tem importância, é com você mesmo que eu quero falar. —Achei estranho.
—Pode dizer então.
—Cara, não sei se você abriu sua caixa de email hoje ou se você recebeu, mas alguém enviou um email com o link de um vídeo, bem, digamos que o vídeo esteja na categoria amador pornô...
—Beleza. E o que eu tenho a ver com isso?
—Bem... você é um dos caras que aparece no vídeo, Renato, e se não me engano, esse vídeo foi feito aí, na casa do Augusto. —Juro que gelei, rapidamente sentei-me de frente o computador.
—Como?... Você pode me passar esse link?
—Claro. Tem como você entrar no MSN?
—Sim, já estou entrando, só um minuto.
—A gente se fala lá então. Até mais. —Disse desligando. Me deixando num estado de choque.
    Liguei para o filho da puta do Pablo, o desgraçado não atendia. Disquei o numero uma dezena de vezes. Quando o encontrei no Campus na manhã seguinte parecia receoso, inicialmente parecia assustado com uma possível reação agressiva de minha parte, me olhou de modo interrogativo. eu queria era quebrar a cara do vagabundo, mas se o fizesse, seria expulso num piscar de olhos. 
—Se liga, Renato... agora é que vai cair mulher nos seus pés. Todo mundo viu aquele vídeo. —Foi o que disse. De certa forma tinha razão... duas meninas haviam se apresentado e praticamente me convidaram para sair. A questão é a vergonha, todos meus amigos haviam assistido, é como se estivessem num quarto me vendo comer a garota. E como se isso já não fosse o suficiente, ainda estava acompanhado de outro homem, de um colega. Devem ter pensado que já fizemos aquilo inúmeras vezes.
—E a menina cara? Por acaso ela sabe de tudo isso? não é sua namorada?
—Aquela menina é uma vagaba, Renato!  Encontrei na internet e antes mesmo de conhece-la já tinha me mostrado fotos dela nua, toda pelada. Mora num lugar horrível, uns bloquinhos ali para os lados da Goiás Norte. Nunca foi minha namorada, você está maluco, né? Ela é que é apaixonada em mim, essas piranhas quando gostam de um pau fazem qualquer coisa por ele. —Naquele momento cheguei a conclusão que a gente nunca, jamais, conhece alguém verdadeiramente. Eu não conhecia o Pablo. pior seria um escândalo interno entre nós dois. Simplesmente decidi ignorá-lo, se um dia o encontrasse em algum lugar por aí. deixaria um dos olhos roxo. no momento não. 
     Os outros estavam lá, reunidos no lugar de sempre, um banco no pátio central, sob uma das árvores, percebi que falavam de mim, pois quando cheguei, todos deixaram de mão as palavras e passaram a se encarar, a me encarar também.
—O que foi? —Ninguém disse porra nenhuma. Carol coçou a nuca. —Eu sei que vocês viram o vídeo. —Todos que passavam próximo davam aquela olhada que insinua alguma coisa.
—Não estamos falando nada. —Disse Carol.
—Eu ainda não vi. —Augusto não parecia mais o mesmo. —Ele nem teve coragem de me contar ontem quando cheguei em casa.
—Quando você chegou em casa ontem eu já estava dormindo. —Apenas moveu a cabeça, como se estivesse contrariado.
—Boa performance. —Comentou Fernanda.
     A manhã seguinte, assim como grande parte de todos os dias daquele ano, estava fechada e nebulosa. Após meses em seca, pudemos ouvir o som da água caindo durante toda noite. Meio que havia me esquecido, aliás, estava totalmente esquecido de que Vinicius tinha passado a noite ali, levantei-me e corri até o banheiro, no corredor, para escovar os dentes antes de me vestir. Era difícil o dia em que eu acordava de baixo-astral, não que eu fosse um cara super extrovertido e animado, mas ao acordar sempre senti um vigor, uma vontade de prosseguir. E nesse estado de espírito eu saí em direção ao quarto de Augusto, acordá-lo, como sempre, abri a porta subitamente; o susto fora tão grande que imediatamente pedi perdão e fechei a porta, eles estavam num momento de muita intimidade, deitados na cama seminus eles se pegavam e roçavam a boca no corpo do outro simultaneamente. Uma espécie de preliminares, eu acho.
      Corri para o quarto onde dormia e tranquei a porta. Por um minuto olhei e andei desorientado, sem saber como agir... Depois me surgiu a lembrança que Carol não mais iria com a gente, isso implicava dizer que naquela manhã iríamos nós três juntos para o Campus e eu não queria fazer aquilo. Todo mundo já sabia da minha situação, do fato de que estava morando com o Augusto há algumas semanas, íamos e voltávamos juntos como um casal, todos me viram numa espécie de Pornô adolescente pela internet... As pessoas que estudavam com a gente desconfiavam do Augusto e sabiam que existia alguma coisa entre ele e Vinicius, o que para mim era até agradável que continuassem pensando assim. De forma alguma eu queria ser visto como mais um da gangue, visto como parte de um trio gay bizarro... Fiquei com asco de mim mesmo por pensar assim, mas no final achei que seria melhor não ir.
    Não levou muito tempo para que batessem na porta. Girei a chave destravando a porta, disse que podia entrar e ele entrou.
—Foi mal. —Disse ele.
—O quê? —Como se nem mais me lembrasse.
—O que acabou de ver. —Estava tão sem graça quanto eu.
—Não se preocupe, a culpa foi minha, cara... —Surpreso notei que eu estava interessado nos detalhes do que acontecera na noite anterior. —Você não vai se importar se não for não aula hoje, não é?
—Por quê? Algum motivo?
—Não... não estou numa fase muito boa e estou afim de evitar aquele lugar hoje. Algum problema se ficar por aqui?
—Claro que não, cara! Fica tranqüilo. —Disse já de saída. —Ah! E tenho uma boa noticia, o advogado do meu pai ligou ontem dizendo que irá resolver nossos problemas financeiros, deve passar aqui hoje e logo, logo estaremos sentados no L’alouette como antigamente, comendo aquele filets de sole bonne femme. —Nome dado a um Linguado gratinado com camarão ao molho branco, aspargos e cogumelos. O melhor prato desse local normalmente freqüentado por pessoas de bom gosto e uma boa conta bancária.
—Vai acabar se atrasando... —Alertei.
—Até mais tarde. —E então fechou a porta. Trinta minutos depois estava totalmente só naquele apartamento de dois andares e quatro quartos sendo dois suites.
     Naquela manhã, quando desci para circular e comer alguma coisa, Maria se desculpara pela mesa do café estar vazia. Havia pão francês, queijo e café. O que para mim era suficiente. Lembrando-me do que Augusto havia dito sobre a grana que o advogado iria trazer, decidi chamar Maria para irmos até uma loja do Pão-de-acuçar e comprássemos o que fosse necessário, usaria meu cartão e depois pegaria parte do que gastamos de volta. Disse à ela que devia fazer uma lista de tudo que costumavam comprar e estava em falta, mas que teríamos de ir a pé e pedir para que entregassem. A distância era de apenas três quadras e ambos já estávamos acostumados a bater perna por ai.
     Maria já havia reclamado que estava muito complicado fazer seu trabalho, já que desde que o Dr. Marcos se ausentara ela tentava se virar com o que ainda encontrava por ali. Augusto não havia tomado nenhuma providência, eu me sentia mal com a situação, pois também não tinha grana nem mesmo para uma compra. Abrindo a geladeira notei que estava mais vazia que antes, havia suco em caixa, da reserva inesgotável que entupia a dispensa; havia também restos de um macarrão com queijo do almoço e algumas maças, além de água, nada mais. Normalmente pedíamos comida pelo telefone a noite, notei caixas de comida chinesa no lixo da cozinha, restos do que comemos na noite anterior.
     Subi para pegar minha carteira e desligar o computador do escritório, Augusto disse que seu pai não gostava nem de imaginar alguém passeando por ali, mas com o tempo eu me acostumei a sentar naquela mesa cara e elegante e fazer uso do Aplle praticamente abandonado que ali estava. Era nove de Outubro, notei ao ver um calendário sobre a mesa, era aniversário do meu irmão. Fernando era uma peça chave, tínhamos momentos de indiferença, mas por desavenças nunca passamos. Gosto do meu irmão, ele é o único que pode compartilhar minha história de vida comigo, fomos os únicos a crescermos juntos, dividindo o mesmo quarto, convivendo todos os dias com os mesmos pais, comendo a mesma comida e escovando os dentes no mesmo lugar. Essas coisas têm o poder de unir as pessoas. Eu gostava do meu irmão, porque diferente do meu pai, deixara apenas boas lembranças em mim e provocou saudade quando partiu. Precisava ligar para lhe dar os parabéns, mesmo tendo dormido com sua ex-namorada dois dias atrás. Faria isso apenas pela sensação de que no meu aniversário ele também ligaria. O numero estava no celular. A ligação fora feita do escritório do Dr. Marcos. A secretária eletrônica atendeu.
—Fernando? Você está ai? —Pergunta idiota. —Bem, acredito que não esteja. Estou ligando para te desejar parabéns, cara. Sei que a última vez que nos falamos não fomos tão bem, mas você é meu irmão, certo? Não podemos ficar assim... sem se falar... Bem, acho que é isso. Tenha um bom dia... Sinto sua falta, cara... —Desliguei.
    Maria apareceu na porta.
—Estou pronta doutor. —Ela era bem mais velha que eu, não me sentia a vontade sendo chamado de doutor, eu não era mesmo.
—Renato, Maria. Pode me chamar pelo nome. Vamos descer?—Enquanto caminhávamos lhe confessava detalhes obscuros de minha personalidade. —Eu adoro fazer compras, sabia? Em supermercados eu digo. As prateleiras cheias de produtos é uma coisa que me atrai. —Ela me olhava espantada. E sem dizer muito caminhamos e compramos o suficiente para encher três carrinhos.
    Já sabendo da satisfação que a funcionaria tinha em cozinhar, e calculando o valor daquela compra, resolvi lhe dar um sermão de economia.
—Sabe, Maria? Agora que são poucas pessoas em casa, acho que você não precisa cozinhar tanto... Não que não goste do que você faz, nossa! Meu Deus! Você é perfeita, nasceu para cozinhar... —Ela me olhava séria e curiosa. —Mas seria bom economizar nos ingredientes, e descansar um pouco mais... Porque cá entre nós, isso vai custar uma fortuna, e pode acabar em uma semana... Me entende?
—Dr. Marcos e Dn. Paula sempre gostaram do bom e do melhor, não é porque não estão em casa no momento que vou deixar que seu filho Augusto pare de comer e emagreça. —Eu não esperava uma resposta assim, mas decidi me calar e dirigir rumo ao caixa.
    Maria guardava as compras, ainda espalhadas pela mesa e balcão.
—Vou ficar lá em cima até Augusto chegar. —Não demoraria muito. —Se precisar de alguma coisa é só você me chamar.
     O cinzeiro estava sobre a estante ao lado da janela, no quarto de Augusto, era lá que ele deixava os restos de baseados que ele fumava; e dessa forma, mais uma vez, me vi tirando proveito dos restos de alguém. Peguei o meio baseado como se estivesse furtando algo de pequeno porte numa loja de conveniência, olhei de relance temendo ser visto, meti o produto do furto no bolso da calça e sai do quarto deixando-o a sós.
     Naquele imenso corredor, pela segunda vez senti-me em casa, confortável, livre, totalmente à vontade, ali naquele corredor eu tinha um quarto. E com a intenção de me isolar e viajar peguei a segunda porta a direita e lá eu estava, era um momento transitório é claro, mas ainda assim havia um espaço reservado à mim. Um canto só meu. Tranquei a porta, talvez com medo que Maria ou até mesmo Augusto a abrisse e invadisse o local sem o mínimo de discrição, acho que estava passando tempo demais com ele... Acordávamos juntos, íamos para o Campus juntos, voltávamos juntos, almoçávamos juntos, durante a tarde estávamos juntos, e antes de dormir normalmente assistíamos tevê juntos. Só agora racionalizava as coisas daquela forma, Augusto ocupando cem por cento da minha vida e de todo meu tempo.
     Acendendo o baseado na janela, acionei o controle do pequeno micro-system instalado ao lado da cama. Tocava “the one I love” do R.E.M. Sempre gostei de clássicos, e essa música em especial mexia tanto comigo, com algo dentro de mim que desejava correr e gritar... Mas naquela tarde eu apenas me silenciei, enquanto a música repetia inúmeras vezes eu prensei a fumaça o máximo que pude e fumei alguns cigarros vendo a chuva fina que começava a umedecer a cidade e o trânsito da região que nunca para. Isso antes de me instalar no computador do escritório e ficar até as duas navegando em mil sites, conhecendo pessoas e adicionando estranhos.


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