domingo, 17 de abril de 2011

78 - ATRAVESSO PORTAS, PULO JANELAS

Trilha: The Strokes - hard to explain   (e)   Explosions in The Sky - the only moment we were alone    





                                                                                   Deixei o apartamento de César, estava lá há horas, apenas jogando e trocando idéias. Abri a porta de emergência, no corredor, e subi aquela diferença de andar pelas escadas. Maria estava na cozinha.
—Augusto está em casa?
—Acabou de subir. —Disse, estava agachada de frente a geladeira. —Guardei seu prato no forno.
—Eu não vou comer agora, Maria. Obrigado. Ele está com alguém?
—Não.
   Lá estava ele sentado na escrivaninha, tão concentrado que nem se mexeu quando entrei. Notei que estava dilacerando uma pedra branca sobre uma capa de cd.
—O que você está fazendo?
—Preparando uma carreira... Vai querer?
—Não, obrigado. —Sei lá o que estava acontecendo comigo, eu estava ficando sufocado. —Você não acha que está muito cedo para você estar fazendo isso?
—Como assim?
—Augusto, são quatro horas da tarde, estamos no meio da semana... Você está cheirando isso desde segunda.
—Ei, não esquenta não... Não cheirei muito hoje...
—Essa merda tira seu sono, faz você não ter vontade de comer... Não pode usar isso assim deliberadamente, o tempo todo.
—Ah Renato... Antes mesmo deu saber que havia isso nessa cidade para comprar você já cheirava e fumava como um junkie decadente. Quem é você para vir me...
—Eu experimentei sim, meu amigo, bem antes de você... Mas eu fazia isso quando saia a noite para uma festa, coisa que muito de vez em quando acontecia. —Começamos a discutir. —Olha só você, anda comprando pó no colégio e cheirando quando chega em casa. O que acha disso? E não é só isso não, Augusto... Estou preocupado com você, cara... Você tem fumado e bebido demais, toda hora... E sobre a maconha, parece que só consegue deixar ela de lado quando tem algo pior nas mãos... Como essa pedra ai sobre a mesa. —Se seres humanos normais possuíssem super-poderes eu poderia ter morrido aquela hora.
—Eu achei que teríamos uma tarde tranqüila… —O pó deixa as pessoas nitidamente exaltadas, ele estava gritando. — Achei que poderia chegar em casa e conversar com meu amigo, eu achei que estivesse interessado em ouvir tudo que aconteceu...
—Agora não, Augusto!
—É, agora não, Renato! Poderia por favor me deixar aqui no meu quarto? Sozinho.
—Claro... É você quem manda, não é? O junkie decadente vai sair para dar uma volta.
—Não foi o que quis dizer... Onde esteve até agora?
—No andar debaixo com um amigo.
—Como assim? Com aquele cara não sei quantos anos mais velho que você?
—César, o nome dele. A gente se conheceu já algum tempo. Não sei o que idade tem a ver com isso....
    Ia saindo quando ele me chamou pelo nome, como se houvesse se esquecido de algo.
—A Maria me falou sobre a compra que fizeram e o dinheiro já está em mãos. —Pegou algumas notas de cem dentro da gaveta. —Ela disse setessentos. Aqui estão.
—Não precisa me passar o valor total.
—Não precisa se preocupar. —Disse ironizando. —Você não precisa se preocupar com nada.
      Então peguei a grana e sai. Mentalmente desejando que ele fosse para o inferno. Esse tipo de coisa que fazemos quando a raiva invade o sangue, quando somos rejeitados por alguém, quando nos sentimos inferiores ou humilhados. Naquelas horas em que estamos putos.
     Sai, caminhei rumo a casa de Carol, não era muito longe dali. O sol era quente. Antes passaria numa loja de conveniência para comprar torrones, beef jerk e Mentos, o tipo de coisa que nós costumávamos comer quando, para fugir de casa, passávamos as noites juntos assistindo filmes de terror trash até as cinco da manhã em seu quarto. E por incrível que pareça nunca ultrapassamos o ponto da amizade, Caio sim era fissurado na ruivinha, mas Carol, para mim, valia muito mais como amiga do que uma paquera. Ela não parecia ter uma vertente toda sexual, ou muito menos era psicologicamente voltada aos relacionamentos amorosos, de modo que até me espantei ao perceber que o que vinha acontecendo entre Sander e ela ganhava ares de algo sério.
    Acho que nunca cheguei a tocar campainha em sua casa, quando não entrava em sua companhia preferia escalar a frondosa árvore da calçada e alcançar o quarto pela janela. Para quem tinha força e habilidade a tarefa não era das mais complicadas, para mim, que sabia exatamente onde pisar, a tarefa se tornava fácil, fácil. Já estava no alto, com as duas sacolas cheias de coisas que comprei, bati no vidro da janela que se encontrava fechada. Ninguém abriu. Meio que equilibrando nas telhas e nos galhos, peguei meu celular e liguei, ela atendeu.
—Diz Catatau! —Carol tinha essa mania incômoda de escolher e inventar apelidos e nomes novos para seus mais próximos.
—Por que Catatau? Essa é nova?
—Catatau é o ursinho, que vive sob a sombra do Zé Colméia.
—Não poderia me chamar de Robin, então? Seria a mesma coisa.
Robin não tem graça, porque lembra aquele namoradinho gay da Barbie, o Ken...
—Eu estou na porta da sua janela, me equilibrando para não cair...
—Estou indo. —Disse e em seguida desligou.
    Quando abriu notei que fizera uma pequena encenação, como se procurasse alguém.
—Veio só?
—Eu e minhas sacolas da loja de conveniência. Trouxe daquela batata sabor frango à passarinho.
—Que delicia... Mas o que aconteceu com o Misto-quente? —Já estávamos lá dentro, eu sentado na cama arrancando os tênis enquanto ela revirava as sacolas.
—Sei lá... O Augusto anda estranho, Carol... Às vezes acho que está até precisando de ajuda.
—Quem não está? —Disse tirando um dos torrones de dentro da embalagem. —Você diz com relação a essa história dele com o Vinicius?
—Não... Aliás, isso é o que menos me preocupa. Estou falando que ele está pirando... Passa o dia todo bebendo, fumando maconha, agora ele estava lá cheirando pó e ficou grilado quando notou que eu não estava curtindo aquilo.
    Ela me olhou de forma imparcial.
—Ah, Renato... Sei lá. Cada um sabe o que faz, acho que a gente tinha essa concepção. O que foi que aconteceu?
—Ah, não sei. A gente nunca chegou a fazer coisas do tipo, a gente sempre curtiu de boa, não me lembro de nenhuma vez termos passado uma tarde inteira na sua casa cheirando essa droga. E posso ser bem franco com você, Carol? Vou te dizer uma coisa, porque sempre te considerei muito amiga.
—Manda ver!
—Eu acho que seu namorado tem uma grande parcela de culpa nisso.
—O quê? O Sander?
—É Carol, o Sander. Ele é que anda negociando essas coisas e inclusive distribuindo quando percebe que não há interesse nenhum em se comprar.
      Por um minuto ela mastigou o torrone pensativa, digerindo reflexões antagônicas, concebendo suas frases teatrais.
—Não acredito que a situação seja tão preocupante... —Encarei-a resolutamente. Ela se sentiu acuada. —Tá bom, mas o que eu posso fazer?
—Falar com o Sander?
—Não existe uma maneira de falar disso com ele, ele é assim, lembra quando o conhecemos? Quando fomos à casa dele pela primeira vez? Logo de cara ele nos deu absinto e depois nos entupiu de maconha. Lembro-me que nunca havia ficado tão doida antes daquilo.
—Não vai me dizer que você também tem andado como o Augusto.
—Não, claro que não. Eu não bebo em casa, só posso fumar quando estou sozinha... Eu tenho minha mãe para me controlar, esqueceu? O Augusto é que está sem rédeas e transtornado. Tudo que tem passado esse ano... Não acha que tudo isso, essas coisas que estão acontecendo com a gente, que sai no jornal todo dia, não acha que isso tem a ver com ele?
—Certeza.
—Sobre o Sander, Renato, sinceramente eu não sei como intervir. Porque na cabeça dele isso é normal, ele é assim. Quando não quero, apenas digo “não estou afim,” e sempre resolve. A questão é que o Augusto parece estar procurando o Sander para comprar. O que ele pode fazer? É complicado dizer não à um amigo. E você sabe que o Sander adquire essas coisas com uma facilidade incrível.
—Então, Carol. Não devemos dizer não aos amigos. Fale com o Sander, por favor. —Talvez tenha soado preocupado e melodramático demais, mas era o que queria aparecer. Só assim tocaria sua sensibilidade.
—Está bem, Renato. Vou ver o que posso fazer. Vou falar com o cabeção também, vou ligar para ele agora. —Disse pegando o fone sem fio na cômoda ao lado da estante. Ele atendeu, a conversa estava no viva-voz.
—Adivinha quem é?
—Carol! —Ele parecia mais exaltado do que quando o deixei. Ria ao mesmo tempo em que falava, a música estava alta e enquanto o ouvia falar, pude imaginá-lo na sacada do quarto fumando um cigarro com o telefone em mãos. Andando de um lado para outro, era uma mania de Augusto. Ele falava sobre Vinicius, parecia a continuação de uma conversa que durara toda manhã e eu perdi.
—Augusto deixa fluir, está ligado? Se aconteceu uma vez irá acontecer de novo. Bem... A não ser que ele tenha achado péssimo... Mas pelo que vi essa manhã, finalmente nosso plano deu certo. —Fiquei pensando que plano era esse, se não fosse por mim provavelmente ainda estariam brincando de esconder o biscoito. —O que você está fazendo ai? —Prosseguiu.
—Eu estou aqui no quarto escutando música.
—Doidão?
—Demais... Eu estou fritando, Carol! —E começou a rir sem parar. Ela me olhava indiferente.
—Vai com calma, misto-quente. Janes Joplin não teve controle e morreu, não quero que o mesmo aconteça com você. Sabe quem está aqui?
—Nem faço idéia.
—O Renato, você deveria estar aqui também...
—Ah, sabe o que que é? Eu estou meio cansado...
—Hum... Bom descanso para você, então! Se mudar de idéia aparece.
—Vocês dois é que deveriam estar aqui.
—Não posso querido. Eu tenho uma casa. Até mais! —Desligou.
—Está vendo!
—Gosto do Sander, não quero entrar numa fase ruim por esse tipo de situação. —Confessou.
—Você prometeu e promessa é divida.
   Por um momento ficamos ali absortos, eu deitado na cama, Carol pensando em algo para fazer.
—Ontem estava pensando no Caio, sinto falta daquele gordo filho-da-puta!
—Eu também... Que bem que ele estava tão diferente aquele dia na fazenda... Eu mal o reconheci.
—O que acha de ligarmos para ele?
—Eu já tentei, me dissereamq eu ele está morando no Rio, no apartamento do irmão.
—Fala sério...
—Verdade. —Afirmei.
—Não custa tentar. —Tentada Carol retirou o fone novamente do aparelho e discara os números que já sabia de cor.
—Se for a mãe dele você fala, ela conhece minha voz. —Uma voz de mulher atendeu, rapidamente ela me passara a ligação. A mãe voltou a dizer que Caio não estava em Goiânia.
—Então o safado está no Rio de Janeiro. “Olha que coisa mais linda, tão cheia de graça...” — Ela cantou um trecho da musica de Tom Jobim.  Eu apenas conformei-me com a informação e senti o peso de um amigo que se foi. Ver Caio outra vez, depois de pensar que estava morto, ressuscitara lembranças em mim que estavam adormecidas. Foi como recuperar algo perdido e precioso para perder outra vez logo em seguida. Pura frustração.
    Carol ligou o amplificador, pegou a guitarra, antes apoiada na parede. Carol tocando era muito ruim, eu nunca entendi muito de composição musical, mas era óbvio, até para um leigo, que a tentativa de tocar as notas corretas não ajudava em nada a melodia. Enfim inexplicavelmente era terrível de se ouvir. Porém àquela tarde fiquei surpreso, ela dedilhara alguma coisa , era uma seqüência suave e melodiosa; a letra era em inglês, língua que os anos de estudo no Campus fizera-me entender muito bem. Aplaudi por vê-la tocar, pelo menos uma música, tão bem.
—Gostou?
—Muito. Quando você aprendeu a tocar assim?
—Sander e eu temos ensaiado há um tempo. Fica melhor quando ele acompanha no violino.
     Algo espesso de repente cobriu o sol da tarde deixando o quarto numa penumbra só.
—A chuva está chegando. Aquela retardada que apresenta o jornal e fala sobre o tempo errou mais uma vez.
—É bom que chova. —Disse me levantando do colchão duro e ortopédico que ela dormia. Fui até a janela, ventava bastante. Eram cinco da tarde.
—Sobre o Halloween? Está pensando em ir?
—Acho essas festas uma imbecilidade... Aqui no Brasil ninguém se comemora essa droga de Halloween, no entanto somos praticamente obrigados a ir numa merda de festa dessas.
—Não vai ser tão ruim assim... A gente sempre se diverte. Lembra ano passado quando misturamos vodka no ponche?
—Claro! A coordenadora da festa era aquela aluna repugnante do terceiro ano passado, Jéssica Caspim. Ela ficou puta de raiva quando descobriu que todos estavam bêbados...
—Você, Eu e o Caio... Já fizemos muitas coisas juntos!
—Você está nostálgico hoje. Está tudo bem?  —Ela se aproximou, após deixar a guitarra em seu canto.
—Sei lá, hoje é aniversário do Fernando, meu irmão... Eu tenho pensado em tantas coisas... Eu estou com medo... Medo de como vai ser quando tudo terminar.
—Você anda muito pessimista, ultimamente.
—É porque não estou conseguindo enxergar nada de bom daqui em diante, pelo menos para mim... Tudo bem?
—Ano novo, vida nova... É nosso último ano naquele colégio para idiotas. —Ela poderia chamar o Campus de colégio para idiotas, eu só tenho o que agradecer por ter uma bolsa e um nível escolar acima da média, por terem me incentivado a praticar a natação.
—Com relação a Universidade eu passo tranquilamente numa Federal, mas vou fazer o que da vida, Carol? Acha que só passar numa Universidade vai resolver meus problemas? Talvez só vá trazer outros. —A lagrima fugiu dos olhos e pouco me importei em escondê-la. —Eu só tenho dezoito anos e lugar nenhum para ir... —Eu me emocionei. Mentalmente tentava dizer a mim mesmo para que me controlasse. O fato é que estava realmente amedrontado, a angustia estava acabando comigo. —Você me entende?
—Renato, eu seria a primeira a dizer que seu pai não é bom sujeito, mas se você se sente assim volta pra casa. Ele é seu pai.
    Tá certo, eu chorava um pouco, irritei-me com a colocação.
—Eu não posso voltar para casa... Ele me violentou... Foi por isso que eu saí... Eu odeio ele. Eu odeio meu pai! Eu odeio aquele desgraçado filho da puta, Carol.
—Ele fez o quê?
—Ele se aproveitou de mim num dia em que eu estava bodado e acabei apagando... meu pai é um viado nojento, Carol... —traguei o cigarro, passei a palma da mão no rosto. —Ele me molestou, pegou em mim, me masturbou sem que eu visse qualquer coisa... Eu só não queria que você soubesse... Eu tinha vergonha que você soubesse.
    Ela se desculpou por coisas que disse, me abraçou. Um abraço amigo e o único que realmente eu queria, não porque vinha de Carol, mas porque era verdadeiro, tranqüilizador.Quando acordei era isso que eu queria, um abraço naqueles dias quentes e abafados, nos últimos dias daquele ano que, certamente, marcou e mudou o rumo de todos nós.


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