Descemos em frente a casa de Carol, como eu não estava escrito na lista de entrega, seria imprudente ao motorista nos deixar de vez no edifício de Augusto. Era inicio de tarde, mas caia um continuo chuvisco que nos acompanhou todo trajeto, quinze minutos. Ela andava apressada dentro de seu uniforme, a saia azul totalmente formal, os cabelos amarrados atrás. Parecia andar o mais rápido que podia, se protegendo com seu fichário. Chamando-me pelo nome, apressando-me quase como se fossemos tirar alguém de uma forca. Pingos sucessivos que caiam sobre a pele, os fios e tecidos eram absorvidos e esfriava o corpo proporcionando, em tão agrestes dias, bem-estar. Havia um buraco em meu estomago, um temor, a porra de uma angustia, misturados a fome que já corrói sozinha. O porteiro vespertino, de aparência estranha devido umas manchas escurecidas que possuía no pescoço e em parte da face —diziam ser de nascença.—abriu o portão e nos cumprimentou de modo ilustre e eminente. Pareciam ter sidos treinados para isso.
—Mais tarde poderíamos fugir para o apartamento do César, seria bom se vocês se conhecessem melhor.
—Acho que hoje não vai dar, Renato. Vou apenas levar Sander para casa antes que apronte uma pior. Cara, a mãe dele vai morrer quando souber que ele foi expulso.
—Pelo menos ele tem a mãe, Carol. Quero ver é o que o Augusto vai fazer.
—Você se preocupa demais com o Augusto, deixa ele, ele tem tudo, se nada der certo, se ele fizer uma grande besteira a culpa é dele. Não vamos poder cuidar do Augusto para sempre, ano que vem estaremos na faculdade. Tudo vai ser diferente... —Desenvolvemos tal conversa no elevador, naquele pequeno espaço de espera. Ouvindo atentamente a advertência de Carol, decidi que era momento de nada dizer. Não adianta discutir quando ela já tem opinião formada e insiste em apresentá-la da pior forma possível. Fazendo-nos engolir goela abaixo.
Maria, a senhora que trabalhava na casa onde me alojei, estava sem uniforme a espera do elevador. Olhou menosprezando-nos sutilmente. Não me contive.
—O que houve, Maria?
—Só volto para essa casa quando o doutor Marcos estiver presente. —Em seguida apertou o painel e as portas cerraram-se entre nós.
Abri a porta de casa, acompanhado por Carol, ambos estavam histéricos, pulando sobre o sofá aveludado da sala, e riam como crianças num pula-pula.
—Acabei de pegar uma dúzia de estrelas!
—Mas eu peguei a Dalva, que é a mais importante. —Segundo a conversa, acredito que eles realmente imaginavam estar numa cama elástica, alcançando o céu inexistente com estupendos saltos em sincronia.
—Sander? —ralhou Carol.—O que vocês estão fazendo?
—Estamos roubando estrelas, deveriam tentar.
Eles estavam perdidos, com uma bomba nas mãos. Nenhum de nós sabíamos o que fazer exatamente, mas a vida é assim mesmo, nos obriga a aprender coisas difíceis e dolorosas com o esgotar do tempo. Te bate na cara para mostrar que fechar os olhos ou dormir é apenas uma forma terrível de ver o tempo passar sem nada fazer. Te maltrata, massacra e te testa ao deixar claro que você não tem controle algum sobre nada e nos leva a questionar Deus quando coloca diante de nós o corpo de um filho morto, o corpo de uma mãe ensangüentada, a doença terminal daquele que é o único a te amar, os membros esquartejados de estranhos, a mancha vermelha que permanece no asfalto após um trágico acidente... A própria vida nos leva a crer que ela não vale nada. Que todos os anos que aqui passamos são mais cruéis do que a própria morte.
—Vocês querem descer daí, agora! —Carol fez sinal para que lhe ajudasse e em seguida agarrou as pernas do namorado que parou de saltar deixando claro que haviamos cortado seu único prazer. Eu estava em choque porque tudo estava se tornando grande demais, ganhando proporções devastadoras, escapuliam do meu controle e eu era obrigado a presenciar os acontecimentos como um inofensivo telespectador que nada pode fazer além de mudar o canal. E eu me via metido naquilo até a cabeça. Quando a alegria foi cortada e Carol conseguiu, com grito e persistência, levar Sander embora, chegou o momento de maior tensão entre Augusto e eu. Ele me encarava como se já soubesse o que eu tinha a dizer, a expulsão do Campus naquela manhã havia o deixado armado contra todos, aparentemente ele estava agressivo, mas precisávamos conversar.
—Augusto...
—Você não vai começar agora, não é?
—Começar o quê?
—Sei lá, a me torrar o saco. Sabe por que, Renato? Eu não estou nem um pouco afim de ouvir nenhum troço que venha me deixar ainda pior do que já estou. Que venha me mostrar que isso é uma droga, que essa vida é uma merda, e que no fundo não existe felicidade... —Estava chorando e gritando ao mesmo tempo. —Só existe dor, é só a dor Renato... É só isso que existe.
—Augusto, você tem abusado demais, cara. Precisa parar! Precisa parar!
—Eu não quero, eu não quero parar... Porque se eu parar, eu vou voltar a lembrar da minha mãe, eu vou voltar a me sentir só, eu vou ter que suportar tudo isso e isso está doendo demais... Eu sinto tanta falta dela, eu sinto falta do meu pai... Eu sinto falta da pessoa que eu era antes de tudo isso começar... Cada dia que passo me vejo mais próximo de pular daquela sacada e esquecer esse inferno.
—Você está se entregando... —Pensar em se jogar da sacada. Como poderia pensar uma coisa daquela? —Eu também não tenho mãe, Augusto... Eu não tenho pai. — foi difícil admitir isso. —Eu não tenho a metade de tudo que você tem e nem por isso me deixei levar como você. Seu pai está em algum lugar, fugindo de algo que provavelmente não tem culpa. Seu pai esteve preso uma cara e você nem mesmo foi vê-lo. —Confesso ter levantado a voz, e ele que já estava exaltado pela droga que usou, tentou me superar.
—E daí? O que acontece entre eu e meu pai não é dá sua conta. Pode deixar, que para me encher o saco com isso, já existe o Vinicius. Não preciso de mais um no meu pé.
—Presta atenção, se fosse esperto veria que não falamos isso por mal. Vou te dizer uma coisa como amigo, Augusto. Para de se drogar o dia inteiro...
—Ah, vai cuidar da sua vida, consegue entender? Você já está aqui em casa há semanas e eu nunca de torrei a paciência. Então vê se me deixa... Pode ser assim? Não preciso de censuradores agora, logo nessa parte... Se for para ser assim, Renato, é melhor você cascar fora, cara.
Engoli aquilo em seco, pensar que poderia ter um favor jogado na cara daquela forma, algo que me magoou e deixou-me subitamente indignado. Juro que naquele momento quis mandar Augusto para Puta-que-o-pariu.
—A única coisa que fiz nessas ultimas semanas foi estar ao seu lado... —Pra onde eu iria? Com quem eu iria falar sobre isso? — passei meus dias ouvindo suas histórias, agüentando você falar do seu amor gay no meu ouvido o tempo todo...
—Vai se fuder!
—Se você pensa que você é o único a ter problemas nessa droga de planeta, você está muito enganado... E sobre mandar eu me fuder, eu te perdôo, você não está sabendo o que diz. Mas se tinha medo de ficar sozinho, eu espero que aproveite as próximas semanas, pois terá esse apartamento só para você. Todos esses cômodos e cantos só para você, e se quer mesmo ser a vitima e acabar com a sua vida dessa maneira, se drogando, bom proveito, mas faça isso sozinho, meu velho. —Dei-lhe as costas.
—O que você vai fazer?
—Arrumar minhas coisas e me mandar daqui.
—Olha como você é ingrato, depois de tudo quer me deixar aqui... Completamente só.
—Você não consegue encarar algumas verdades... Olha só o que fez essa manhã! Precisava mesmo fazer aquilo? Precisava ir fumar maconha com Sander no colégio? Você conhece o código de disciplina. Se o diretor aproveitava de suas infrações para com isso ganhar consultas gratuitas, acorda, Augusto! Seu pai está preso, tem alguém nos perseguindo que não sabemos o que é, e você está certo... A vida está ruindo, está tudo ruindo ao nosso redor, mas o que nos diferencia, é que você não está nem ai, você não está dando a mínima. Eu vou dar a volta por cima, mesmo sem saber... —Ele entendia o que queria dizer. E se ele tinha o luxo de se entregar assim, eu não podia, eu precisava superar barreiras e obstáculos. Cansei de argumentar. Queria um quarto quente em algum lugar, uma cama que fosse minha, queria minha mãe de volta, meu irmão... Eu queria ter doze anos —Vou organizar o que é meu.
—Para onde vai?
—Eu não sei... Não vim parar aqui? Qualquer coisa tem a casa da Carol, onde você se hospedou uma vez... Acho que lá eles não jogam favores na sua cara.
Depois de fechar a porta do quarto onde estava, ouvi a do quarto dele bater, um estrondo. Augusto era mimado, por isso era viado. Sempre teve tudo que quis, e sempre esteve debaixo da saia da mãe. Carol tinha razão, o que ele fazia da vida dele era um problema que não cabia a mim resolver, quem sou eu para querer salvar o mundo? Comecei pegando minhas poucas peças de roupas no armário, fora o que coube na mochila, sapato e terno de uniforme e o velho All star, camisetas, três bermudas e cinco cuecas, meias, material escolar. Só isso já era muita coisa. No bolso da mochila jeans achei a chave de casa, não que não soubesse que elas estavam ali, mas por um tempo elas deixaram de existir, por um tempo todo aquele passado pareceu não me pertencer. Olhei o relógio e ainda eram quatro e meia, não teria ninguém por lá, ele só chegava após as sete. Pensei em dar uma passada para pegar algumas coisas, talvez permanecer alguns minutos na minha velha casa.
Ao sair até pensei em ir ao quarto dele e me despedir, sei lá, dizer qualquer coisa, cheguei a pegar o corredor em direção, mas no meio do caminho eu simplesmente desisti, não tinha nada a dizer para Augusto naquela ocasião. Eu Precisava era de um ônibus para chegar ao meu antigo apartamento, e não muito longe havia uma parada.
O vento ainda soprava nas ruas, as calçadas estavam molhadas e as inúmeras árvores de nossa cidade reacendiam um verde estrênuo de vida e limpeza. As mudanças climáticas desde cedo nos ajudam a perceber que nada no mundo é imutável, e que estamos em constante transformação. Semanas atrás os bombeiros lutavam contra a fogueira que consumia o cerrado e matava dezenas de animais, o que acontece todos os anos; e hoje já ouvíamos falar de enchentes e desabamentos. Algumas pessoas anseiam por mudanças, sem mesmo saber que estas sempre virão, naturalmente, sem que você nada planeje, elas podem surgir em forma de acontecimentos inesperados, coincidências, ou também podem se formular lentamente, como uma grande e temível tempestade.
Caminhei sozinho pelas ruas tumultuadas do setor Oeste. Ainda vestia o uniforme úmido, as pessoas me encaravam, sabiam que eu era um aluno do PH. Eu ainda estava com fome, os pingos insistiam em apressar os que já tem pressa. Eu também estava perdido, perdido e pensando que nesse momento há 6 bilhões, 470 milhões, 818 mil, 671 pessoas no mundo. Que algumas delas, assim como eu, estão fugindo assustadas. Algumas estão voltando para casa. Algumas, dizem mentiras para suportar o dia, outras estão somente enfrentando a verdade. Alguns são maus indo contra o bem e alguns são bons lutando contra o mal. Há mais de seis bilhões de pessoas no mundo, seis bilhões de almas... E às vezes tudo que nós precisamos é de apenas uma.
Com as duas mochilas nos ombros, tranquei a porta e chamei o elevador. Havia uma janela ali, o céu ainda estava esbranquiçado, fora o que fez com que eu me aproximasse mais, ainda com as chaves em mãos. Eu tateava as chaves ao mesmo tempo que procurava senti-las como antes, de repente se transformaram em apenas chaves, que desejava e conseqüentemente nunca mais voltaria a usá-las. Tive a idéia de lançá-las pela janela andares abaixo e assim o fiz. As atirei contra o nada, saboreando a intrigante sensação de que agora o mundo é minha casa. Saindo do prédio, caminhei alguns metros até a barraquinha de Hot-dog da esquina, simplesmente o melhor cachorro quente da região, estava morto de saudades, meus planos era comer dois enquanto pensava no que fazer.
Naquele prazo em que a senhora preparava meu pedido peguei o celular e liguei para algumas pessoas, César demorou atender e quando o fez não me pareceu muito amistoso, quando perguntei se podia passar a noite em seu apartamento ele disse que estava em lua de mel com uma gata que conhecera três dias antes, concordei que não podia atrapalhar algo tão promissor e desliguei. Carol estava na casa de Sander, disse que as coisas estavam bem sérias entre ele e seus pais e que naquele momento participava de uma reunião de família para decidirem que rumo as coisas iriam tomar. Optei por não incomodá-la com meus problemas e desejei boa sorte. Mariana morava sozinha, pensei em ligar para ela, seria só uma noite, duas no máximo.
—Renato, eu não sei se seria uma boa nos falarmos agora...
—Por quê?
—Eu estou grávida, voltei com o pai do meu bebê. Estamos juntos... —dizia ela entrecortado. —E depois do que aconteceu na última vez em que nos vimos. Acho que deveríamos não nos falar por um tempo.
Aquilo me deixou paralisado, primeiro porque não podia esperar uma recepção tão fria e seca de Mariana, segundo que dera tudo errado, ninguém podia me receber ou queria falar comigo, terceiro porque não tinha mais ninguém para ligar.
—... Então tudo bem... Se você acha mesmo que vai ser melhor assim... Por mim tudo bem.
—Que bom que você entende... Como você está?
—Eu? ...Eu estou ótimo... Estou bem melhor que da última vez... Na verdade eu preciso desligar, tenho um milhão de coisas para fazer.
Em pouco tempo devorei o hot-dog, e pedi mais um. Enquanto aguardava o próximo, verifiquei minha agenda a procura de um nome para ligar, haviam apenas duas possibilidades, Alberto, um ex-vizinho com quem ainda mantinha contato via internet, e que pelos pais abomináveis que possuía seria a última opção; e Bruna, uma garota que conheci há algum tempo, estava afim de mim, depois por motivos diversos nos afastamos. A conheci quando ainda trabalhava na merda daquela loja, comprou de mim algumas vezes, mas depois que nos encontramos e ficamos juntos numa Rave, rolou uma amizade legal. Havia uma tensão química e corporal entre nós, um desejo de aproximação sempre que nos víamos. Lembro-me que na ocasião ela dividia um apê com uma moça que usava preto e andava numa onde meio gótica. Disquei. Pensei que não fosse atender.
—Olha só, que quem é vivo sempre aparece!
—Sabe quem é?
—Claro que sei. Renato! —Eu me entusiasmei, ela parecia feliz. —O que houve com você? Saiu da loja e nunca mais me procurou.
—Precisei sair, aqueles atritos com a gerente... Chegou a um ponto intolerável.
—Eu imagino... Ela era grossa até mesmo com os fregueses… como você está? Te vi no jornal uns dias atrás...
—Pois é... Eu tenho estado no jornal. —Grande coisa.
—Tem muita história para me contar...
—Você nem imagina... Aliás, Bruna, me desculpe, mas te liguei porque estou precisando de um lugar pra passar a noite, um salvador, você me entende? Talvez alguém pra conversar... Acha que pode me ajudar?
—Claro que sim. Onde você está agora?
—Setor Aeroporto, próximo a praça onde morava.
—Ótimo, Renato. Não estamos longe, estou morando no Centro, agora. Bem próximo a Republica do Líbano. Em alguns minutos estará aqui.
Peguei a Republica lá no inicio, bem próximo a Independência, e fui subindo, a noite entrando, a ausência de estrelas no céu, os faróis parados nos cruzamentos, os respingos surgidos de todos os lugares, fones no ouvido, o canteiro central da avenida era usado por pedestres que também subiam ou desciam a avenida, trafegavam o pequeno calçamento entre as grandes fileiras de carros em movimento. Ela me encontraria em frente de frente uma estação do eixo, sugeriu a locação de um DVD, mas não havia espaço na minha cabeça para apreciar nenhum tipo de arte, talvez apenas a música, e nem todos os estilos, apenas aqueles que não exigem de você um pouquinho mais de raciocínio e bagagem.
Lá estava a Bruna, pude vê-la antes mesmo que ela me notasse. Parecia exatamente igual, algumas pessoas não mudam, por mais que o tempo passe. Até a roupa que vestia parecia idêntica a de um ano atrás, certamente não devia ser, mas indiscutivelmente era similar. Nos divertimos muito no pouco tempo em que estivemos juntos, Bruna era espirituosa, passava aos seus comparsas uma alegria, uma tranqüilidade que só quem nasce com o dom é capaz de transmitir. Caminhamos até onde morava, ela colocou uma de minhas mochilas nas costas e seguimos conversando.
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