domingo, 2 de outubro de 2011

81 - FESTA SOB AS BOMBAS

Trilha: Pony The Pirate - treetop   (e)   Marilyn Manson - Sweet dreams








                                                                                            Acordei no sofá da casa de Bruna, ainda era cedo, mas ouvia passos incessantes e nervosos percorrendo toda quitinete. Na noite anterior ficamos até uma da manhã falando de tudo que é coisa, ela era muito comunicativa. Ficara intrigada ao saber parcialmente de minha história. Era manhã de Halloween, ultimo dia do mês, elas já estavam acordadas,. Primeiro vi Tereza alisando os cabelos na tomada da cozinha, Bruna surgiu depois com o cheiro bom, só liberado quando o banheiro fora aberto. Eu observava as várias cabeças de manequins sobre a mesa, cabeças que sustentavam perucas de diversas cores naturais e cumprimento de fios, Bruna trabalhava com apliques e próteses capilares. Tereza apareceu com uma garrafa de café e algumas canecas coloridas. Eu ainda estava imóvel, olhando-a afastar com as mãos toda aquela cabeleira, ganhando um pequeno espaço para se sentar, sabia que eu a acompanhava. Ela tinha um bom par de seios, vestia uma blusa marrom, com um decote que só os realçavam ainda mais.
—Está fazendo o que?
    Fingi despertar.
—O que?
—Você estava ai parado me olhando... —Tereza tinha o cabelo cacheado, agora estavam lisos. Eu preferia assim.
    Bruna apareceu no pequeno corredor, levantei-me ainda envolto as cobertas, fazia frio apesar da claridade que vinha de fora, seria uma tarde quente. O temperatura no Planalto Central sofria essas alterações.
—Eu estava deitado. —Respondi desconfiado.
—Ei, Tereza, — entrou a outra. —acha que... Já te pedi para não amontoar tudo assim, os fios se misturam e estraga tudo...
—Já te falei para por isso no chão, todos os dias eu preciso tirar isso daqui e colocar sobre o sofá. —Olharam para mim. Estavam se referindo as perucas. Eu estava ali ocupando o lugar delas.
—Ei, acha que poderia me emprestar um cheque-calção, eu e o Renato precisamos locar umas fantasias, temos uma festa hoje a noite!
—Vocês vão a um Halloween? Esse tipo de festa não faz o menor sentido... Nosso CEP é Goiás, Brasil. —Tereza não era a colega de quarto que usava preto, se fosse teria sido mais receptiva a idéia, na verdade Tereza era uma moça pessimista e que por permanecer tanto tempo no mesmo emprego, uma papelaria, passou a  acreditar que a vida não tinha graça. E que dela os outros apenas queriam perguntar preços ou passar-lhe listas de material escolar, quando muito lhe pedir cheques emprestados. É nisso que dá quando estagnamos, por um tempo estive assim, estagnado, vivendo naquele apartamento vazio. Eu sempre acreditei que a vida precisa andar, porque é exatamente isso que nos mantêm vivos.
—É o Halloween do Campus PH, o Renato estuda lá... Eu não perderia, não é Tereza? Ainda não estou totalmente louca.
—E de onde você o conhece? —Quis saber enquanto gastava seus últimos minutos com a caneca de café. Levantei-me atraído pelo cheiro e me servi.
—Somos amigos há alguns anos, ele trabalhava numa loja da Fórum no shopping e então saímos juntos. —Bruna também parecia ter boas lembranças a respeito daqueles dias.
—Bem, o que eu posso fazer? —tirou o talão da bolsa, assinou uma rubrica deselegante e passou à Bruna a folha bancária. —Já tem algo em mente?
    Não entendemos.
—Sobre quem vocês vão ser essa noite...
—Ainda não sabemos... Nada de Harry Poter ou coisa parecida.
—Porque não Mulher-Maravilha e Super-Homem? —Disse sarcasticamente. —Pensem nisso. —então pegou sua bolsa e saiu.
    Bruna trabalhava em um grande salão próximo ao local onde morava, por ter muita afinidade com o patrão e ser tão boa no que faz, tirou aquele dia de folga. Ela dizia que há tempos não fazia nada parecido nem mesmo para ir ao médico e que precisava de um dia de descanso depois de um ano inteiro se matando dentro daquele salão, onde as outras cabeleireiras enciumadas não gostavam tanto da sua pessoa e lhe encaravam com tesouras nas mãos.
     Pela manhã fomos dar uma volta pela cidade e eu aproveitei para lhe passar um pouco de todas as minhas incertezas, enfim, minha história de vida que você também já sabe. Claro que não precisava contar detalhes sórdidos. Almoçamos em um self-service do centro e antes de retornamos passamos na loja de fantasias para ver o que encontrávamos. A dona do estabelecimento, que estava de alto-astral pelo extra que viria aquele mês, nos disse que devido ao horário e ao dia não teríamos muitas opções, dava para perceber tal fato logo de entrada. Mas lá estavam elas, profetizadas por Tereza da papelaria, Mulher-maravilha e Super-homem. Com certeza seriamos debochados. Mas fora isso só havia a malha colada de esqueleto humano e uma outra de urso que precisava que eu sustentasse uma cabeçorra enorme sobre os ombros. Bruna poderia escolher entre uma baiana, uma havaiana, ou uma fadinha cor-de-rosa. Optou pela mulher-maravilha.
—Fala sério que iria ao Halloween do Campus vestida de fadinha cor-de-rosa, com asas de borboleta ainda por cima! —Disse já a caminho de casa.
      A mãe de Carol passaria para nos pegar as sete, Tereza nos ajudou com a maquiagem e o cabelo, tinha muito jeito com a coisa. Bruna estava muito gata vestida daquele jeito, a tiara prendendo os fios encaracolados e o laço enrolado na mão... dava muita coisa pra me esfregar nela vestida assim. Meu cabelo cor de mato seco não ajudava muito a caracterizar Clark Kent, mas estava bem, as garotas iriam gostar.
        As sete em ponto o interfone tocara, Carol e Sander estavam no portão esperando por nós. Bruna deu a idéia de tomarmos um energético antes de sairmos, estranhamente estávamos felizes. O que não significava nada, apenas mostrava que nem tudo era somente sangue ou lágrimas. Eles riram quando nos avistou, Carol debochou de nós. Eles estavam de Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau, Sander usava uma daquelas cabeçorras enormes.
—Fomos tarde demais e não encontramos nada melhor! —Disse Carol.
—Se foram na mesma loja, devem ter ido antes de nós. —Eu me sentia poderoso e ridículo ao mesmo tempo.
—Para sorte nossa minha mãe está de bom humor hoje. —Comentou disfarçadamente. Bruna ocupou o banco dianteiro, eu me meti atrás junto ao casal e a cabeça do lobo. Eram uns quarenta minutos de sinais e rodovia até o castelo do horror. A festa aquele ano fora intitulada de “Os mortos pedem paz”, texto bolado pelo comitê de eventos para fazer do Halloween algo que passasse uma mensagem positiva e reflexiva sobre os dias que estávamos vivendo. De qualquer forma, sinistro.
     Assim que entramos na estrada de acesso, naquela noite toda ladeada por tochas, bruxas e caveiras, Carol abaixou o som perguntando-me sobre Augusto.
—Falou com ele?
—Não falei não, Carol. Deve estar em casa dormindo essa hora, ou fazendo “qualquer outra coisa.” Aliás, você não o viu, Sander?
—Na verdade não, Renato... Você está enganado, cara... O Augusto não precisa mais de mim. —Filho da puta! Pensei. Claro que ele não precisava mais de você, havia mostrado à ele todos os lugares possíveis de achar qualquer tipo de droga na cidade.
—Eu até liguei pra ele hoje à tarde, liguei umas cinco vezes, mas ele não me atendeu e nem retornou. Talvez ele esteja exorcizando seus fantasmas.
—Como você mesma disse Carol, deixa o cara com os problemas dele. Não é isso?
    Ela apenas desviou o olhar e com o controle remoto aumentara o som. O som naquele momento tocava canções doidas que não saberia dizer, e luzes vindas de holofotes que cruzavam o céu às vezes pareciam vir em nossa direção. Os enormes portões estavam abertos, na entrada para o salão, que não era a mesma por qual entravamos todas as manhãs, seguranças engravatados checavam nomes na lista, outros usavam rádios e patrulhavam todo o estacionamento, no horário em que chegamos tudo parecia uma grande bagunça, dezenas de pessoas riam, dançavam, bebiam, e perambulavam dentro de suas fantasias por todos os lugares. A música eletrônica que escapava de dentro dava ao local um ar de Trance. Descemos do carro enquanto outros atrás de nós buzinavam ensandecidos.
—Esse pessoal ai atrás estuda com vocês? —Perguntou a mãe de Carol.
    Carol se voltara para ver.
—Nunca vimos na vida. —Abriu a porta e desceu. Não se esquecendo de sua cesta de piquenique.
—Dividam um taxi na volta, Carol. E por favor não me acorde quando chegar. —Dona Lena havia confessado que estava doida para chegar em casa antes da novela das nove e logo depois o episódio tomar um chá relaxante para dormir. Keila Engelstein, uma garota de nossa turma e uma das organizadoras da festa, nitidamente estressada, tentava conduzir as pessoas e convencer alguns da importância de estar lá dentro.
     Durante a festa eu não estive presente, nem vi com os meus olhos o que aconteceu, mas ainda assim pretendo contar tudo a você conforme ficamos sabendo depois.
     Ao entrarmos foi bem difícil reconhecer aqueles mais chegados, o salão transbordava de pessoas de todas as idades, em parte pelos jovens, é claro. As professoras, como todos os anos, circulavam vestidas de bruxas, e os professores também repetiam suas fantasias de Conde Drácula. O pouco espaço que havia para mesas nem era muito disputado, as pessoas dançavam e se locomoviam o tempo todo, ao som do que de melhor vinha tocando nas rádios indies e eletrônicas do pais, também havia espaço para baladas e casais apaixonados. O que não era meu caso. Definitivamente. A verdade é que eu nunca havia gostado de ninguém, já havia estado, beijado e metido em dezenas de garotas. Gostar de verdade eu nunca gostei.
      De repente Vinicius e Thais, a garota de óculos estranhos que sentava ao meu lado na classe, nos surpreendeu, estavam juntos aquela noite, eu até quis perguntar por Augusto assim que nos encontramos, mas vendo o casal formado achei melhor evitar qualquer constrangimento. Depois das fofocas que surgiram com a expulsão de Augusto. Seria melhor evitar. Vinicius estava esplêndido como Elvis Presley e Thais Inicialmente me lembrara algo muito marcante, o que foi logo confirmado quando ela se justificou. Elvira, a rainha das trevas. Todos rimos, ela estava idêntica.
     Eu sentia um clima diferente no ar, como se aquele dia não fosse como todos os outros. Pelo astral do local enganei-me acreditando que era uma boa sensação. Alguém nos chamou para balançar o esqueleto, e assim fomos para enorme pista de dança, observando Carol e sua cesta, se divertindo, pude confirmar como estava diferente, como tinha se transformado aquele ano. Se fosse antes estaríamos sentados em algum lugar observando as pessoas e rindo da cara delas. Logo Fernanda veio se juntar a nós, estava acompanhada de Felipe, um cara que segundo todos carregava os materiais de Fernanda como um burro de carga simplesmente porque era um bolsista e queria se promover. Como esses imbecis do Campus falam besteira. Meu Deus!
    Estavam muito feios como zumbis, mas para uma festa de dia das bruxas, pareciam um encaixe perfeito. Foram vestidos e maquiados por profissionais. Usavam até mesmo lentes brancas nos olhos para esconderem a cor dos olhos.
—Isto não está ótimo? O que você está achando? —Perguntou-me, gritando ao pé do meu ouvido.
—Eu estou curtindo, está bem legal... Na verdade estou precisando de algo para beber. Não morra desidratado, os mortos pedem! —Ironizei, ela entendeu e ambos rimos. Ela havia detestado o tema, como Ricardo não estava mais entre nós, ela acreditava que a frase o invocava como se o próprio estivesse pedindo. Educadamente pediu para a líder organizadora que mudasse o titulo da festa, fora vetada sem mesmo direito ao voto. Então Fernanda e seus pais decidiram entrar com uma ação judicial contra o comitê de eventos. De nada adiantou.
    Bruna me acompanhou até o bar e pedimos duas cervejas sem álcool, era o que vendiam naquele lugar, um raio de cerveja sem álcool. Cacete! Serviam em copos plásticos que brilhavam com a iluminação. Naquele ano parece que ninguém decidira sabotar o ponche com bebida alcoólica, porque algumas horas já haviam se passado e algumas pessoas ainda continuavam terrivelmente entediadas. Com as mesmas caras de quando chegaram, porém mais cansadas.
              Bruna parecia encantada com tudo, a decoração fora inspirada em cemitérios e a frase tema jazia sobre nossas cabeças em cores alegres e festivas. Na primeira hora ali ela me fez percorrer ao seu lado todo o canto do vasto salão. Havia de tudo, bruxas de todos os tipos, todos integrantes da família Adams, Frankestein, “Chapeuzinho vermelho”, Dráculas, múmias, duendes, magos, fadas, morte, havia de tudo, até mesmo Odaliscas, mas quem era eu para falar? Superman?
     Estávamos escorados ao lado de uma das imensas janelas que ladeava todo salão, fazia calor, Através da janela Bruna pode constatar parte da estrutura do PH, parte do jardim onde passávamos o intervalo quando saiamos do refeitório. A imagem, ainda que mal iluminada lhe chamou a atenção, mexeu com suas fantasias... E então me perguntou se era possível dar uma checada, pois nunca tinha estado lá dentro antes e provavelmente não teria outra oportunidade.
—Não vai ser permitido, e a entrada não é por aqui. —Disse sabendo da furada que ia me meter.
—Ah Renato, pensa bem vai... Deve ter um jeito.
—Não tem não, o único jeito seria por aqui mesmo.
—A janela? —Eu confirmei repetindo o mesmo. Ela pareceu impressionada com a idéia.
—Mas alguém nos veria pulando.
—Está vendo aquele corredor ali. —Indiquei com a cabeça, logo atrás dela. —Não tem ninguém por lá. Já faz um tempo que estamos aqui e só notei dois passando por lá até agora. Eu posso te dar cobertura e logo depois eu vou também.
—Estamos revivendo nossos dias de glória, você não acha?
—Só que dessa vez sem vômito e vaso sanitário para dois no final.
—Nem fale... Nunca mais tomei vinho na minha vida.
    Enquanto preparávamos para o pulo, Sweet dreams do Marilyn Manson começou a tocar empolgando a multidão, aquilo parecia o limbo, Fernanda e Felipe estavam se divertindo ao lado de Thais e Vinicius na pista de dança; Carol e Sander, fora do meu campo de visão,  ganharam uma pulseirinha na recepção e chegaram ao estacionamento que naquele horário, era repleto de automóveis, mas abandonado por humanos. Uma pequena patrulha desfilava sua luz vermelha entre os corredores num movimento lerdo, pesaroso. Bruna pulou a janela produzindo um estalo, pensei que havia quebrado um osso qualquer.
—Meu Deus! Você está bem?
—Eu estou bem. Agora é você, vem! —Fez sinal, olhei ao redor e ninguém vinha em minha direção. Num lance de segundos pulei. Sem saber como faríamos para voltar.




CONTINUA...


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