Por mais que eu tente, os versos da Canção da torre mais alta de Rimbaud estão sempre comigo, “Amava o deserto, os vergeis crestados, as lojas decadentes, as bebidas insípidas. Eu me arrastava pelos becos infectos, e, de olhos fechados, me ofertava ao sol, deus de fogo”... Estou em meu quarto agora… espalhado na cama, com os olhos para o teto vejo estrelas artificiais, porém, tão reais na escuridão quanto todas as constelações que brilham no céu em dias de noites quentes.
Ultimamente tenho ficado assim, pensando em mim mesmo e em como todas as coisas do mundo poderiam ser melhor. Acabo tendo plena certeza que se alguma coisa durante todo esse ano fosse feito de outra forma, essa única ação poderia ter soterrado toda essa história e dado origem a algo melhor para contar. É por uma fração de segundos que podemos mudar todo o rumo dos acontecimentos. Mas descobri que precisamos ser estúpidos demais para analisarmos o passado a procura do erro, esperando que de alguma forma, após corrigi-lo, a rasura deixada desapareça, e a folha se mostre virgem outra vez. Ultimamente eu tenho me sentido tão vazio… Parece que o peito não se manifesta mais, apesar de ter a plena certeza de que o órgão ainda bombeia sangue para todo o corpo. Num movimento incansável e na esperança conflitante de ainda querer que a vida prevaleça, mesmo quando tudo já está morto por dentro. Por isso meus olhos ainda vêem, meus pensamentos se entrelaçam na tentativa de fazer com que todos desapareçam.
Eu fico aqui por conta das horas e do tempo, esperando que os dias voem e que como num filme, apareça legenda em português anunciando ‘‘DOIS ANOS DEPOIS.'' Eu sei como partir, mas por agora fico ouvindo os mesmos discos, repassando as mesmas cenas e inventando coisas, subterfúgios… Esperando o momento exato para sentir a bala atravessando o cérebro. As vezes vou até a sacada e vejo a poluição crescente que impregna os últimos andares dos edifícios mais altos, inclusive o meu. È nauseante sentir-se parte de tudo isso.
É estranho me lembrar que já tenho quase vinte anos, por muitas vezes eu me esqueço, é como se eu tivesse adormecido por longos meses e só então aberto os olhos outra vez.
Ainda espalhado na cama, como roupas sujas sem dobrar, umas tragadas e vejo a fumaça subindo em espiral até se desfazer antes de tocar o teto. Foi quando me lembrei onde tudo começou. Eu já pensava nisso há alguns dias, mas só agora me lembrava nitidamente, como tudo havia começado...
Estudava em um dos colégios mais elegantes e tradicionais do Estado, digamos que do país até, de idade, era apenas dois anos mais novo que a capital do Brasil. Uma imponente construção de três andares, três pavilhões interligados, sustentados por grandes pilastras e rodeados por janelas de um vidro tão límpido que pareciam peças de cristal. O Campus PH, como se chamava, localizava-se na capital, saída para Brasília, e formava por ano, com orgulho, cerca de cinqüenta alunos distintos que terminavam o segundo grau e se tornavam médicos, advogados, psicólogos e celebridades. Muitos se intencionavam por administração de empresas, com a esperança de que algum dia pudessem administrar o negocio de seus pais e se enriquecerem do dia para noite. Já eu, Augusto, estava no ultimo ano do colegial e provavelmente estudaria jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Isso é o que inicialmente passava em minha cabeça, pois me lembro que mais tarde, não só eu, mas todos meus companheiros que ali estudavam, se mostravam irmanalmente confusos e sem direção. Não fazíamos idéia, muito menos aspirávamos qualquer coisa.
O pessoal do colégio, eu já conhecia. Desde o ginásio eu estudava lá e todo ano eram os mesmos alunos, havia uma imensa dificuldade de se conseguir uma vaga no PH, primeiramente porque o numero de alunos era limitado. Quando surgia uma cadeira, conforme diziam, antes de mais nada faziam uma avaliação do pretendente, uma prova para testar conhecimentos e uma conversa para analisar as origens familiares e financeiras do individuo, no final incluíam testes psicométricos e projetivos, aplicados por psicoterapeutas. Em dois anos, nada novo fora introduzido naquela turma, o que tornava cada semestre mais tedioso e monótono que o anterior. Já esperávamos que esse ano fosse diferente. Melissa se mudara com os pais para Escócia antes mesmo de terminar o ultimo semestre letivo. Então, certamente teríamos um novo colega. Se não fosse tão idiota como os esportistas lá do fundo ou tão assustadora quanto Caroline Araujo, estava valendo. O filtro selecionaria mais um jovem rico de qualquer parte do território brasileiro. Novidade com a qual nos entreteríamos por algumas semanas. Já que tudo passa.
Quando se está no segundo grau, a colégio se torna algo tão valioso, tudo passa a girar em torno das especulações feitas sobre os colegas de sala. Dos bares onde os mais populares freqüentam, do desconhecido universo de certos alunos retraídos, das mentiras contadas semanalmente por parte de outros que só querem se promover, da problemática familiar da vida particular de uma garota que não conversa com ninguém. De caras estranhos como eu, incomum eu diria. Aquelas castas que se formam no decorrer dos bimestres, os escravizados, que estudavam como loucos e tiravam as melhores notas. A evidente classe de esportistas, na minha sala liderada por Ricardo Bensimon e Fernando Takano, que sentiam-se superiores, cultuavam o corpo e tomavam anabolizantes; também circulava por ali o grupo dos porra-loucas, esses, pouco queriam saber, pareciam consumidos por profundas olheiras que se fixavam como sangue sugas, devido ao desgaste físico e todas aquelas noites mal dormidas. O que mais desejavam, aparentemente, era terminar a droga do segundo grau o quanto ante, queriam conhecer a Europa a custa da mesada que ganhavam dos pais. E com ela pagavam os bolsista para que fizessem-lhes os trabalhos. A estupidez aliada ao conforto de se ter tudo o que quer. Nessa idade a vida se apresenta como uma irremediável série adolescente, e você nada mais é que um dos personagens patéticos, tentando se sobressair para talvez, na próxima temporada, ganhar um espaço na abertura do programa. E essa concepção de vida é lastimável.
No final da primeira semana de aula, desci do carro e pude ver Carol vindo em minha direção, era seu primeiro dia. Parecia vir deslizando sobre a calçada, como uma víbora do deserto, traiçoeira, branca como é de ser as pessoas bem brancas, cabelo escorrido até os ombros, cor de sangue, as pontas, logo acima dos ombros, se curvavam para fora de modo era possível a comparação com o palhaço Bozo. Boca preta, como as de gatos. Poderíamos chamá-la de egoísta, mas de certa forma, como agora sei, sempre se propunha ajudar e pessoas egoístas não possuem tal qualidade. — Outros fizeram parte desses dias, Renato, um dos bolsistas da turma, era um amigo e tanto, daqueles leais que faz tudo para te ver bem, conversávamos aleatoriamente, quando ele não estava na presença de Carol, havia uma amizade forte entre eles; poderia também citar Julia, que se tornou a pedra no meu sapato. E até então, também me lembro bastante de Caio, o mais novo e mais ingênuo de todos nós. Caio apesar de ser um cara bacana, possuía dois defeitos imperdoáveis. Primeiro, parecia sustentar uma paixão platônica por Carol e segundo, ainda era um pouco pior, ele tinha medo até da própria sombra.
O sinal soou assim que bati a porta do carro e fiz careta para Carol, tentando ignorá-la e deixar isso bem claro, passei pela portaria de alunos, subi alguns degraus em direção ao segundo piso, entrei e me sentei na terceira carteira da segunda fila. Na primeira aula, de Inglês, o professor por conhecer a todos, deixou passar aquela coisa constrangedora que é a apresentação. Os professores e funcionários daquele lugar pareciam ter assinado um contrato milionário ou vendido suas almas ao dono da instituição. Em cinco anos de Campus, eu nunca vira uma reposição ou reciclagem de sequer uma secretária.
Copiávamos do quadro quando ouvimos alguém bater a porta, para mim era só a coordenadora ditando as regras de um novo ano letivo, desejando boa sorte, esse tipo de coisa sempre ocorre na primeira semana letiva. Eu me enganara, como sempre. Quando a porta fora aberta pelo professor, o que pudemos ver através da fresta, fora um rapaz de mais ou menos minha idade, um metro e oitenta e cinco de altura, branco, com cabelos pretos umedecidos por gel e partidos ao meio; entrou subitamente após um pedido de licença. A única carteira vaga se encontrava atrás de mim e na frente de Julia Mesquita, e por isso, talvez por nada mais, ali fora seu lugar, entre ela e eu.
Aquelas primeiras semanas de Fevereiro passaram-se com uma velocidade incrível, e em todas as manhãs eu me sentava a sua frente, sentia o cheiro limpo, suave e penetrante da colônia que usava, a curiosidade se apossava de minha atenção e assim, gradativamente aumentavam os assuntos pelos quais expressávamos nossas opiniões. Estávamos nos conhecendo despretensiosamente. E em dado momento, já havíamos recolhido informações suficiente para longas conversas que se transpunham ao tempo. E isso foi acontecendo... Dias inteiros... Manhãs no colégio, noites ao telefone, internet, algumas tardes em casa mesmo… e quando cansávamos de casa ficávamos na rua. Andávamos pela cidade em tardes intermináveis e em um curto período de tempo parecíamos nos conhecer tão bem que chegamos a fazer um pacto de amizade. Furamos os dedos com uma agulha e tomamos uma gota de sangue do outro dentro de um cálice de vinho. —Tudo bem, hoje em dia eu sei que esse tipo de coisa é meio piegas e até mesmo perigoso ou nojento, mas naquela tarde, aquilo me pareceu a coisa mais sensata a se fazer. — Seu nome era Vinicius. Tinha acabado de se mudar do interior com a sua família e de fato não era tão rico quanto o corpo estudantil do Campus PH, mas viviam com razoável conforto em uma espaçosa casa na zona Norte. Seu pai era um influente advogado civil e sua mãe se limitava a cuidar de casa e ler revistas sobre decoração, além de estudar os livros de Zibia Gasparetto com afinco, ouvia também, álbuns completos do Djavan, seu idolatrado artista, por quem nunca precisou roubar, mas o faria, se fosse a única forma de não perder uma de suas apresentações quando estava na cidade. Voltando ao que interessa, gostávamos de passar os recreios juntos, conversando e às vezes pensava que ele era o amigo que eu tanto esperava… ou o irmão que nunca tive. Sei lá. Via nele infinitas qualidades que em mim não poderia ser nada mais além de pequenos defeitos, ele me incitava a pensar em coisas até então desconhecidas, me mostrava uma nova possibilidade de vivenciar minha própria existência. Eu o agarrei como algo precioso, e valorizei-o como os melhores amigos se valorizam.
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(Quarto de Augusto)

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