quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

2 - APROXIMAÇÃO

Trilha: The National - all the wine





                                  Estava em casa assistindo um season finale da Família Sopranos, gostava da tevê a cabo. Nada daquelas telenovelas chatas de canais abertos que as pessoas não param de comentar, a maioria não passa de dramaturgia de segunda mão, ou nos obrigam a acreditar que o país é o Rio de Janeiro, ou nos transportam para os piores lugares da Cidade do México, é claro, há raras exceções. O telefone toca, chego a pensar na possibilidade de não atendê-lo. Minha mãe não estava em casa, dizia estar farta das brigas com meu pai, para mim, ela estava farta era de tudo, porque mesmo quando eu estava só no apartamento raramente a via circulando por ali. Nas ultimas duas semanas ela parecia ter criado uma repulsa melancólica por quase tudo. Havia discutido com Silvia, sua melhor amiga e ainda não tendo falado a respeito eu sabia que pensava em separação. Na verdade, talvez fosse melhor assim. Chega um momento na vida de qualquer um, que a separação parece ser a coisa mais sensata. E daí se eles se separassem? Simplesmente arrumaria minhas coisas e nos mudaríamos para a casa que antes era da vovó, e que agora está alugada por um salário mínimo ao mês. 
Atendi ao telefone, com os olhos fixos na teve.
—Oi.
—Olha quem fala, o misto quente do colégio! —Lembro-me de ter achado estranho.
—Alô… Quem é?
—Carol! Nos vemos todas as manhãs, não se lembra de mim? —Ligação tão incomum como granizo no centro oeste.
—Como você conseguiu meu numero?
—Ah! Não se preocupe… O Renato me passou.
—Preciso dizer ao Renato para tomar mais cuidado ao passar meu telefone por ai.
—Calma! Não precisa ter pedras na mão. Estou ligando em missão de paz.
—E o que seria isso, Carol? Você está me deixando confuso.
—Sabe quem está de olho no Vinícius? — Soltou de uma vez.
—Você me ligou para falar do Vinicius?
—Não diga que fui eu quem lhe falei, mas, a Julia Mesquita anda como um urubu sobrevoando a carniça.
—Ele deve estar gostando bastante, você não acha?
—Porque você finge tanto, Augusto? Parece ter medo de viver. Eu sei que você está se remoendo. Posso até imaginar sua expressão nesse exato momento —Havia um tom de perverso em suas palavras.
—Olha Carol, eu estou ocupado e para ser franco a vida da Julia não me interessa.
—Mas a do Vinícius sim. Nós já percebemos a alegria que vocês dois sentem quando estão a sós. Parece que não existe nada mais em volta.
—Meu Deus… eu preciso desligar. —Praticamente o fiz em sua cara. Eu adorava fazer isso. Era uma agressão justificada pela auto defesa.
    Assim que me virei para tevê, e apertei a tecla mute do controle remoto, havia acabado, passavam os créditos finais. Eu havia perdido a ultima cena, por uma conversinha ao telefone com a menina ruiva e imbecil que sentava ao meu lado. O telefone tornou a tocar, senti-me impaciente.
—Oi.
—Fica esperto que eu estou sacando qual é a sua, babaca. —Ela disse.
—Vai pro inferno! Sua maluca. —Antes que eu pudesse terminar ela já havia metido o fone no gancho. Eu lhes avisei, ela é assim. Uma mistura de agressividade temperamental e malévola inocência. Vamos ignorá-la. Pelo menos por enquanto.


      Dias depois o som me despertara, como em todas as manhãs. Abri a porta da sacada, a cidade viva do lado de fora, o sol brilhava mesmo sem força, o verde que tomava conta das ruas e calçadas, das praças e canteiros. Meu apartamento era o de numero nove, porém no décimo oitavo andar, pois todos apartamentos eram duplos. Eu adorava ficar na sacada vendo as pessoas circulando em baixo, ficava a pensar como eram suas vidas, o que faziam, onde moravam, porque passavam por ali àquela hora da manhã e tantas outras coisas,  que inconscientemente nos projetam em outra direção. Carol estava certa sobre Julia, tive o cuidado de observá-la durante as manhãs com a perspicácia de um detetive particular e realmente parecia vibrar quando trocava algumas palavras com Vinicius. Era nítido também, que o contato entre os dois vinha crescendo lentamente, Vinicius parecia mal notar tudo isso, mas Julia sempre tomava novas iniciativas. Parecia disposta a investir quase tudo nessa historinha. Não sei por que, mas realmente isso me permitiu sentir uma lança de ciúme inexplicável e corrosivo. Daí em diante passei a me perguntar se isso era normal. Se essa vontade de me apropriar de meu melhor amigo era saudável e coerente. E de fato não consegui explicar-me de forma tão simples como consegui elaborar todas as questões sufocantes que floreiam e crescem, sugando-nos. Por fim… Deixei de me preocupar.
     Minha boca propagava um gosto estranho de sola de sapato, um gosto ruim. Naqueles dias em que você dorme sem ter escovado os dentes.  O telefone que se ouvia tocar ao lado, no escritório, me fez realmente abrir os olhos. Despretensioso, atendi-o.
— Pensei que te tiraria da cama, mas era essa minha intenção. —O senso de humor de Vinicius oscilava entre o negro e o sarcástico. Não consegui definir qual usava naquela ocasião. Mas sua ligação me concedeu um intruso bem estar matutino.
— Você perdeu, eu já estava de pé.
—Como é que você está? —Prosseguiu.
—Eu estou bem…
    Após alguns segundos ansiosos começamos ambos a falar simultaneamente, o que fez com que nós dois nos calássemos ao mesmo tempo. Eu estava só em casa, meus pais passavam o fim de semana na fazenda, minha mãe havia posto na cabeça que venderia a casa de campo a qualquer custo, dizia não ter mais paciência para cuidar daquele lugar. E isso causava uma nódoa de rancor em meu pai, que sempre tivera a fazenda como um refugio dos dias cansativos. Mas ela era proprietária e faria o que bem entendesse a respeito, foi o que disse um pouco antes de partirem. Esquecendo tudo isso, eu já pensava em ligar, em chamá-lo para fazermos qualquer coisa. Poderia até mesmo me fazer companhia enquanto estivesse só. 
—Pode dizer…
—Nada, fala você. —Eu disse. Quando estava com Vinicius achava que ouvir era sempre melhor que falar.
—Eu acho que o que você tem a dizer pode ser mais importante.
—Porque? Normalmente eu só digo asneira.
—Augusto… — prosseguiu. —Deixa eu te falar... Eu posso ir para sua casa? —Ele perguntou, demonstrando certo acanhamento. —É que eu estou sozinho aqui, e estava ficando impaciente. Engraçado as coisas, não?
—Claro, Eu também estou só, meus pais foram passar uns dias na fazenda. Na verdade eles estão brigando demais, talvez nesse final de semana eles se reencontrem.
—Isso te deixa mal, não é?
—Na verdade é algo bem chato. Mas deixa pra lá… e seus pais? Como estão?
—Estão bem, foram para um retiro religioso. Ficarão por lá o dia todo.
—Eu não sabia que você freqüentava igrejas.
—Eu não, meus pais são evangélicos.
    Conversamos mais alguns minutos antes de desligarmos, lhe falei um pouco sobre o que pensava de Deus e das religiões e ele pareceu achar-me um tanto quanto avançado em meu ponto de vista. Por que em minha teoria Deus nada mais era do que uma energia presente no interior de cada um, algo que emanava da natureza um poder quase sobrenatural. Falei-lhe sobre a reencarnação e o ponto de vista de Alan Kardec, que para mim, não passava de mais um terreno sombrio em que se deve tomar bastante cuidado. Porém, era algo digno de ser refletido e porque não, questionado. Parecera impressionado com minha desenvoltura ao conectar pontos de vistas desconexos e dar sentido a tudo de uma forma simples como jamais pensara antes. Vinicius não possuía o dom da indagação e reflexão, mas sua inteligência sinestésica corporal era monasticamente bem definida.
—Então você está vindo? —Perguntei interrompendo bruscamente o assunto.
—Com certeza. Um abraço!
    Vinicius morava no Jaó, um calmo setor de classe média alta da zona norte, eu vivia no setor Oeste, numa avenida próxima ao zoológico, um elitista e movimentado setor de Goiânia. Havia uma distância a ser percorrida entre os dois setores, de aproximadamente uma hora, pegando o transporte publico. Mas o cara sempre optava por pagar os taxistas, então calculei metade do tempo. Comecei a me mover de forma acelerada, tomar um banho, fazer a barba.
     Quando estou sob o chuveiro, geralmente, me permito ficar ali por minutos a fio. Cantarolando a musica que vem do quarto e deixando a pele se queimar com a água, ficando visivelmente rosada. Mas quando uso a banheira do quarto dos meus pais, o banho se torna algo interminável, que ao sair me sinto como uma ameixa seca,  gosto do cheiro dos sais para banho e de brincar com a espuma do sabão. De envolver meus cabelos com ela, e de soprá-la como nas propagandas de Lux luxo. É meio bicha, mas é o tipo de coisa que os homens só fazem quando estão sozinhos. Mas nada era comparado a agradável sensação da água quente se chocando sobre os ombros, açoitando apele fria e doente, acalmando e castigando-me ao mesmo tempo, era como um prozac, limpando, repondo energias, transformando cacos de vidros em obras de arte. Eu fechava os olhos e imaginava um mundo totalmente diferente.
     Fui terminar de me secar na sacada. Se realmente minha mãe resolvesse se separar, isso me doeria muito, apenas pelo fato de que, também me separaria daquele espaço há alguns pés do chão. Pensando melhor, isso seria uma péssima idéia, eu cresci ali naquele quarto, doze anos sendo proprietário daquela vista. Não acredito que me acostumaria a viver sem ela em apenas alguns meses, por outro lado riscaria meu pai do convívio diário, o que me proporcionaria um bem estar considerável, compensações… Ele andava me irritando, mesmo quando não dizia nada sua presença incomodava. Pensava que eu fosse me entregar a medicina para honrar o fato de ser seu filho. Eu estava mandando a medicina se danar, mas ainda não tinha tido coragem de lhe falar sobre a faculdade de jornalismo. Tudo seria uma surpresa, quando passasse no vestibular, chegaria em casa e jogaria tudo em sua cara, deixaria bem claro que a medicina nunca me atraiu e que jamais passaria meus dias trancafiado em um hospital vendo gente sangrando e morrendo logo em seguida. Não que não considere a profissão honrosa, mas definitivamente não havia nascido para ela.
    A música entrava em meus ouvidos e descongestionava a mente fértil e perturbada, estava imerso em pensamentos quando a campainha tocou. Joguei a toalha sobre a cama e vesti de forma rápida uma bermuda. Permaneci com o peito de fora, havia tanto sol naquela cidade que o calor provavelmente assava os órgãos de várias pessoas que por um motivo ou outro caminhavam pelo asfalto. Mas a meteorologia prometia chuva para todo o fim de semana. Ela só poderia estar atrasada, mas a caminho, acreditei. 

 ©Copyright 2010

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(Setor Oeste Goiânia)

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