Carol desligou o telefone e vi que havia receio em seu olhar, aliás, Carol e Caio eram uma dupla inseparável há quase quatro anos, quando Caio entrou no Campus. E faltou eu aparecer, aprontar uma coisa desse tamanho, para abalar os fortes laços que os unia. Eu me sentia inevitavelmente culpado e temeroso. E se por acaso eles decidissem se juntar a Caio e se oporem à mim? Algo assim poderia acontecer sem nenhum aviso prévio.
—Ele não vai abrir a boca depois do que disse. —Disse Carol tomando o cigarro da minha mão. —O Caio é um medroso e em cima disso é que levamos vantagem. Não se preocupem.
—Mas o Caio é algo que me deixa preocupado, Carol. —Renato estava sentado, de frente para nós. Já passavam das nove, quando ouvimos a campainha tocar. Em seguida ouvimos os passos da mãe de Carol subindo a escada. Bem rápido Renato se escondeu atrás da cama. Deitado sobre o piso de madeira.
—Augusto, —Disse assim que abriu a porta. Então fez uma pausa e observou tudo a sua volta, como se sentisse o cheiro de carne podre. — tem um rapaz no jardim querendo falar com você.
—Obrigado, dona Lena. —Se retirou enquanto eu atravessava o quarto e Carol pedia para que nosso amigo se levantasse.
Descia os degraus movido por uma branda curiosidade, porque as hipóteses sobre quem poderia estar ali, eram escassas. Eu sempre fui tão cercado de amigos e pessoas, que de prévia já me passava Vinicius pela cabeça. O estranho era estar ali tão tarde sabendo que tinha aula na manhã seguinte. Isso deveria significar algo, se não porque estaria ali? Poderia ter telefonado, ou simplesmente esquecido… Mas deve ter sentido minha falta e por isso me procurou. Primeira vez que falo com o cara depois daquele beijo em sua casa. Evitei procurá-lo para não se gabar pensando que eu fosse capaz de tudo. Detesto essa minha neurose de querer ficar calculando as coisas, decifrando mensagens ocultas sem dicionários, analisando comportamentos sem o eficiente auxílio behaviorista. Quem sou eu, afinal? Para achar que tudo posso. Se minha vida fosse exposta em páginas de um livro, provavelmente o narrador abusaria dos pontos interrogativos e das reticências, tão necessárias em tempos modernos.
Encontrei-o sentado e distraído com a pequena cascata, com a queda d’água artificial no muro de pedras, a água corrente se retinha por um instante próximo a grama, formando um pequeno reservatório.
—Como vai? —Perguntei.
—Você não me ligou. —Sorriu.
—Desculpa, eu pensei em ligar mas…
—O que você fez com o seu cabelo desgrenhado?– Perguntou enquanto passava a mão em minha cabeça. Eu havia sentado ao seu lado.
—Sei lá, Vinicius… não dá para pensar em cabelo quando já estou prestes a perder a cabeça. —Aquilo pareceu engraçado, ou besta, rimos para descontrair.
—Eu vou levar um tempo para me acostumar.
—Estaremos juntos.
Estávamos no jardim da frente, sentados em um banco de madeira envernizado, próximo ao enorme cacto. A lua cheia e centelha mostrava-se enorme, gigante sobre nós, cravada no céu plácido e repleto de pontos luminosos. Era bom estar ao seu lado, era confortante sentir sua presença. Aquele meu amigo, que agora falava de coisas desagradáveis como meu pai, era para mim, alguém inexplicavelmente querido e inolvidável.
—…Você não deveria ter saído de casa, Augusto.
—Eu não sai Vinicius, ele me mandou pra fora. Foi ele que disse “ pegue suas coisas, tire seu carro da garagem e saia daqui.”
—E porque aqui? Na casa da Carol.
—Talvez porque a Carol seja minha amiga? Aliás como foi que...
—O ônibus do Campus passava aqui para pegá-la. Não sabia onde estava e pensei que ela soubesse. Não estava enganado. —Fez uma pausa. —Mas agora que te encontrei aqui, fiquei pensando em perguntar se você não quer ficar na minha casa… eu sei que tudo isso é temporário… então, se quiser… meus pais não contestariam a idéia.
—Eu não posso, Vinicius. —Foi o que eu disse.
—Tem alguma coisa a ver com o que aconteceu? Você sabe... Com o que rolou…
—Acho que sim. —Falar em tal assunto parecia-me algo muito complicado.
—O que foi aquilo? —Já ele parecia-me um explorador a procura de novos horizontes e tinha-me como bússola. Como se aquilo tudo não fosse um continente novo para mim também.
—Não sei… —Fui um pouco insensível. Ríspido. —Mas me pareceu um beijo, não?
—Hoje você está tão irônico.
—Foi só o modo que encontrei de lidar com a vida... —Silêncio.
—Eu estou quebrando a cabeça para entender porque você fez aquilo.
—Eu não fiz sozinho, você também me beijou.
—Você me beijou primeiro. —Ele retrucou.
—Eu também não entendo.—irritei-me. Levantando-me. — O que sei é que você me parece mais do que deveria ser. Entende? —Agora já estava envolvido por emoção. —Você acha que é fácil para mim? Não é fácil ficar pensando que você deseja seu amigo. —eu precisava deixar escapulir qualquer coisa verdadeira.—Quando eu pensava em me apaixonar eu imaginava uma menina, entende?—Calei-me porque achava-me ridiculamente constrangido em ter que definir o que para mim era especialmente inovador. Dizer aquilo me fez travar, me fez ter ódio por não sermos livres o suficiente.
—Tudo bem com você?
—Eu acho que não… E você? O que sente? O que sentiu depois daquilo?
—Eu acho que ficamos tão próximos um do outro que chegou uma hora que dava para prever tudo isso. Em alguns momentos na sua casa eu me via muito perto de você, cheguei a pensar em tal coisa, mas nunca desejando, você me entende? Juro que pensei o que faria se você fizesse alguma coisa e nunca achei resposta. Quando aconteceu, não sei se foi por respeito à você, mas deixei rolar. Sei que também te beijei, saca? E não foi ruim, mas acho que não quero outras vezes... Acho que não consigo lidar com tudo isso. —Ele me olhava e demonstrava afeto.
—Não sei o que está acontecendo, Vinicius, tudo ao mesmo tempo, sabe? E uma vez li em algum lugar que é besteira querer ser otimista, porque se as coisas não vão bem, elas podem ficar ainda pior.
—Eu não vejo o que aconteceu como algo totalmente ruim. Falo sobre o que aconteceu lá em casa. Mas não vou negar, Augusto, que é desesperador pensar que beijei a boca de outro cara… É assustador pensar que isso pode voltar acontecer e se prolongar impensadamente. De forma que um de nós dois possa se arrepender mais tarde.
—Eu tenho procurado entender o que está acontecendo.—Soltei vagamente.— Fico me perguntando o que estou fazendo aqui nessa casa. Acho que não me conheço mais…
—Pega suas coisas e vamos embora. —Colocou sua mão febril em meu braço, era um gesto corriqueiro, mas eu senti.
—Acho melhor não, ficaríamos muito próximos e como você mesmo disse, não temos certeza de nada. E eu estou gostando de você.
—E eu não sei, até onde vai o meu gostar por você.
—Tenho me sentindo culpado.
—Não devemos nos culpar pelo o que não se pode evitar. —Ele se levantou subitamente. —Eu não me vejo assim, você entende?
—Eu também não, até te conhecer.
O silêncio tomou conta de nós, ouvíamos apenas o cantar dos grilos que habitavam o jardim. E da pequena queda d’água. Naquele momento, o que eu mais queria era poder abraçá-lo, e depois, dizer-lhe o quanto era especial, mesmo sem imaginar de que forma diria tal coisa, foda-se com a convenção social, eu queria expressar o que sentia; e por algum motivo as coisas não podem ser assim. Simplesmente quase nada pode ser tão simples como pensamos… E as pessoas ainda insistem em complicar tudo. Tudo o que fazemos é no sentido de colaborar com o caos, tudo que tocamos se torna feio e posteriormente se converte em catástrofes. Os seres humanos são amaldiçoados e seremos eternamente infelizes.
—E então? amigos? —Perguntou de frente para mim.
—Amigos… bons amigos?
—Amigos como sempre fomos.
Uma música pareceu deslizar, ao olharmos para o alto, avistamos Carol e Renato na janela acima de nós. Ela acenou, cumprimentando Vinicius, e fora retribuída com o mesmo aceno. Aquela noite me lembrou uma citação de William Shakespeare que me parece apropriada:
“Existe uma maré nos casos dos homens a qual,
levando à inundação, nos encabeça à fortuna.
Mas omitidos, a viagem das vidas deles
está restrita em sombras e misérias.
Em um mar tão cheio estamos agora a flutuar.
E nós devemos pegar a correnteza quando nos for útil,
ou perder as aventuras á nossa frente”
Eu acho que o que essa citação significa é que a vida é curta e as oportunidades são raras e nós temos que ficar de olho e protegê-las, e não só as oportunidades de sucesso, mas as oportunidades de rir, de ver o encanto do mundo, e de viver. Porque a vida não nos deve nada, na verdade eu acho que nós devemos algo ao mundo. E se nós apenas acreditarmos...
Agora é a hora de nós brilharmos, é a hora de acreditar que nossos sonhos estão a nosso alcance e as possibilidades são vastas. Agora é a hora de nos tornarmos as pessoas que sempre sonhamos ser. Esse é nosso mundo. Nós estámos aqui. Nós somos importantes.
“Existe uma maré nos casos dos homens a qual,
levando à inundação, nos encabeça à fortuna.
Mas omitidos, a viagem das vidas deles
está restrita em sombras e misérias.
Em um mar tão cheio estamos agora a flutuar.
E nós devemos pegar a correnteza quando nos for útil,
ou perder as aventuras á nossa frente”
Eu acho que o que essa citação significa é que a vida é curta e as oportunidades são raras e nós temos que ficar de olho e protegê-las, e não só as oportunidades de sucesso, mas as oportunidades de rir, de ver o encanto do mundo, e de viver. Porque a vida não nos deve nada, na verdade eu acho que nós devemos algo ao mundo. E se nós apenas acreditarmos...
Agora é a hora de nós brilharmos, é a hora de acreditar que nossos sonhos estão a nosso alcance e as possibilidades são vastas. Agora é a hora de nos tornarmos as pessoas que sempre sonhamos ser. Esse é nosso mundo. Nós estámos aqui. Nós somos importantes.
A visão daquela lua ainda permanece em minha memória como uma das mais nobres que já tive. Carol e Renato ainda estavam lá, na janela, olhavam as estrelas no céu. E a lua era linda, essa lua que ilumina ruas e parques com seu brilho turvo.
Copyright 2010
(Enquanto conversam, Vinicius e Augusto observam a lua)

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