Os primeiros dias ali, na casa de Carol, foram um verdadeiro campo minado para mim. Primeiro porque nunca fui de passar noite em outras casas, nunca tive amigo tão próximo, e além disso, eu estava na casa da Carol! Querem coisa mais estranha? Lá, todos os dias, sentávamos à mesa, reunidos para as refeições, enquanto em casa não tínhamos horário para comer e nem sempre comíamos juntos. No almoço, que era servido mais tarde devido os horários de Carol, sentávamos a mesa acompanhados de Walda, a senhora que cuidava da casa e preparava a refeição; no jantar, por volta das oito, sempre havia massas, lasanha, pizza, canelone, espaguete, ou outro tipo qualquer de macarrão. Logo percebi que aquilo não era tão desagradável. Só era estranho, sentar-me todos os dias ao lado de dona Lena e de frente para Carol. Esse era meu lugar. Era onde eu ia buscar a ração que me davam. Sentia-me envergonhado. Dona Lena tinha sempre um comentário agradável sobre o menu do almoço ou jantar. Parecia uma excêntrica critica gastronômica. Eram elogios maravilhosos, sugestões criativas, — como dizia ela — e todas elas acrescidas de perguntas bobas sobre temperos e etc. “Como as batatas estavam amolecidamente crocantes.” “O alecrim com a hortelã deixaram o filé de linguado inesquecível.” Coisas assim, incrementavam uma simples refeição.
Já passavam das dez, Carol e eu estávamos recolhidos no quarto, que ficava no andar superior da casa, eu em meu sofá-cama e Carol em seu colchão. Estávamos moles, tentando digerir a torta de frango com pequi, segundo eles, uma especialidade de Walda. Lembro-me de que a tevê estava ligada e o jornal daquela noite exibia em horário nobre, uma matéria sobre como nós, usuários do Messenger e do Orkut, nos tornamos seres humanos solitários e ilusionistas. —“Nessa longa marcha do humano desde o Neanderthal percorremos caminhos longos, acidentados. Marcha interrompida em vários pontos porque, como observava o filósofo inglês Francis Bacon no século XIV, O tempo, como o espaço, tem os seus desertos e solidões. Essa marcha tinha apenas uma razão de ser: alegrar o coração e acalentar o espírito do homem.” —Dizia a narradora da matéria. Observávamos distraídos quando ouvimos um barulho na janela do quarto. Alguém batia, de um modo diferente. Me assustei com o ruído, mas Carol se levantando disse que eu não precisava me preocupar.
Era Renato, escalara as grades da janela do térreo ou a árvore, sei lá, e grudou-se na do andar de cima, e com certa dificuldade, eu imagino, chegara até a janela do quarto.
Pulou para dentro assim que Carol destravara o trinco.
—Então é aqui que você está? —disse olhando para mim. —Passei na sua casa para deixar o carro e seu pai me disse pelo interfone que você havia se mandado. Ele me pareceu bastante apreensivo.
—Eu vou pegar alguma coisa para gente beber… —Disse Carol, minutos depois retornou com latas de Ice Tea e brigadeiros, que ela havia preparado pela manhã.
—O Caio não está segurando a barra, pessoal… Eu sei disso porque não consigo falar com ele desde ontem. Eu ligo e a mãe dele diz que ele não está… Mas nós sabemos que está lá, não é? Para onde ele poderia ter ido? Será que levou suspensão e os pais mandaram-no de viagem para Gramado?
—Não seja irônico, Renato… vocês sabem que se o Caio abrir a boca nós estamos perdidos.
—Isso não pode estar acontecendo! —Peguei um cigarro e fui a janela, onde era mais fresco.
—É minha vez de tentar.—Carol pegou o telefone e discou, a tevê ainda ligada, agora no mute, chamava a atenção com a imagem de uma chipanzé parindo.
—Quem fala? —Disse.
—Luisa
—Oi, como vai a senhora?—Tentou convir simpatia. —Eu gostaria de falar com o Caio.
—O Caio não está. Quer deixar algum tipo de recado?
—Olha aqui… —Expeliu.—uma senhora com a sua idade, já deveria ter aprendido que mentir não é certo, dona Luisa. Que exemplo a senhora dá para o seu filho, se a senhora mesmo, mente a mandado dele?—A mulher deve ter ficado um tanto desajeitada.
—Caio levou suspensão.
—Eu sei... mas eu queria falar com ele por cinco minutos. Nada mais.
—. . .Eu vou ver se ele já chegou, Caroline.
Tudo ficou mudo, estávamos na grande expectativa. Será que Carol fora convincente o bastante? De repente ela sorriu, ouvira sons do outro lado, era voz de Caio dizendo algo incompreensível.
—Caio?
—Diz.
—Adivinha quem é? —Era um chavão de Carol. Adivinha quem é? Usada com mais freqüência ao telefone, acho que era um tipo de jogo de "eu não estou conhecendo a sua voz". Adivinha quem é? Quase uma marca registrada.
—O que você quer? —Ele sabia muito bem de quem se tratava.
—Garantir que o trato que fizemos na manhã de ontem ainda está de pé.
—Me deixem em paz, Carol. Eu não quero mais ficar nessa.
—Nessa o quê, seu palerma? Acho que você não está me entendendo, Amaral. —Era seu sobrenome, Caio S. Freitas de Amaral. Eu nunca soube o que significava o S do meio.
—Eu vou desligar… —Já era óbvio que o trato não mais existia.
—Se você abrir a boca a gente acaba com sua raça, Caio. Ouviu? Eu acho que você não quer se machucar. —“Meu Deus, ela falava de homicídio culposo com tanto charme.”
—Se eu abrir a boca você não vai ter tempo para me matar, Carol, porque a polícia pega todos vocês antes mesmo que isso aconteça. Eu imagino que devem estar todos ai agora, no seu quarto. Renato e Augusto.
—Poderia estar aqui também.
—Não poderia não. Minha mãe não quer que eu saia, além disso, disse que passarei uma semana sendo auxiliar do jardineiro.
—Isso não me interessa... Eu quero saber se está tudo bem, Caio?
—Não acho certo se esconder depois do que fizemos...
— Então o que você acha da gente acabar com você antes mesmo que você nos denuncie? Seriamos espertos, não?
—Vai para o inferno. —Disse ele.
Você já se perguntou se somos nós que fazemos os momentos em nossas vidas ou se são os momentos que nos fazem? Se você pudesse voltar no tempo e mudar apenas uma coisa em sua vida, você mudaria? E se mudasse, será que essa mudança tornaria sua vida melhor? Ou será que ela acabaria partindo seu coração? Ou partindo o coração de outro? Será que você escolheria um caminho totalmente diferente? Ou será que poderíamos mudar uma única coisa, um único momento sem alterar todo o resto? Sem desfazer todos os dias bons que você sempre quis ter de volta.
©Copyright 2010
(Carol e Augusto assistem tevê no quarto)

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