Dois dias após o acidente, nos deparamos com a foto sem cores da menina atropelada estampada na pagina de um jornal. “Criança morre vitima de atropelamento por falta de assistência”, dizia a manchete em negrito.
—É um absurdo coisas desse tipo, negar socorro às pessoas dessa maneira. —Concluiu dona Lena com as folhas em mãos. Carol emitira um olhar de soslaio e se retirou rumo à cozinha.
—Se o idiota do Caio abrir a boca…
—Acha que isso pode realmente acontecer? —Indaguei enquanto aceitava uma lata de soda.
—Tudo é possível… de qualquer forma devemos manter a calma. Caso ele já tivesse dado com a língua nos dentes, já teriam nos procurado… amanhã voltamos àquele maldito Campus, e estaremos juntos outra vez. —Me serviu pães de mel e uma fatia do rocambole de chocolate que retirara da geladeira. — O Caio está estrelando um de seus shows, ele precisa disso. Demonstrar essa azucrinante incapacidade psicológica.
Naquela mesma tarde dona Lena, de forma grotesca, recebera uma ligação de Minas Gerais. Uma de suas irmãs estava em prantos devido ao estado da mãe que não parecia passar muito bem de uma cirurgia. Carol não via a avó há tanto tempo, e não me pareceu demasiadamente sensibilizada quando recebera a noticia, na última vez que pediu benção à Carolina e avistou seus parentes do triângulo mineiro, seus cabelos ainda eram castanhos, e as Spice girls lançavam seu primeiro single, desgastado e adorado pelo o mundo todo. Inclusive por Carol. Eu que já olhava alguns anúncios a procura de um aluguel, a pedidos de dona Lena, decidi ficar ali por mais alguns dias.
*
Voltando ao Campus, com o fim da suspensão, o balofo, como às vezes ela brincava, decidiu nos abandonar, alegou que havia recebido ordens da mãe. Obviamente, nós não acreditamos, claro que não. E por algum motivo que desconheço, chegara na segunda chamada. Era nosso retorno ao Campus, e depois daquela mancha de sangue no asfalto estávamos assim, sem saber de nada. Entre uma aula e outra, no espaço aturdido de três ou cinco minutos, em que todos se levantam, Caio apontara melindrosamente em passos sensíveis e comedidos. Desviou o olhar ao perceber os seis olhos invasivos que lhe despia a máscara. Fora uma cena lenta, Caio caminhando daquele jeito, cortando a sala, em direção sua carteira, o olhar dele cruzando com o meu e o retorcer de suas retinas posteriormente. Enquanto a matéria era lançada, os bilhetinhos rolavam de um lado para o outro, entre Carol, Renato e eu. Tentávamos ser discretos, mas com isso chamávamos mais atenção. Era como num jogo de esconde-esconde, onde o sujeito que vai procurar conta com os olhos abertos, e depois dissimula que nada viu para não ser tão obvio. Em dado momento ele pediu licença para ir ao banheiro. Carol nos olhou ordenando que um de nós aproveitasse a oportunidade para lhe falar, Renato se opôs. Saí logo em seguida, pegando o segundo cartão de permissão sobre a mesa do mestre.
Ele estava lá, no mictório, parecia sério, coisa que nunca soube ser, de frente para parede e puxava o zíper quando entrei. Ao lado de Caio eu me sentia forte e artisticamente seguro, o que nunca fui, Caio não tentava reprimir o lado covarde que possuía, o que deixava tais características ainda mais evidentes. O pavor que se criava por ele me deixava ansioso, tenso e perturbado. Quando me viu, estremeceu. Olhando ao redor percebera que estávamos sozinhos, ele não disse nada, não se moveu.
—Que foi Caio? Está com medo? —Dei alguns passos lentos. — Com medo de mim?
—Você está me seguindo? Quer me fazer o favor de não me procurar mais, eu não quero estar com vocês.— Disse ele, meio que andando como caranguejo. Estávamos bem próximos.
—Mas logo agora que precisamos uns dos outros?
—Se você não me deixar em paz, Augusto. Eu te digo que contarei à todo Campus essa sua paixão pelo Vinicius. Conto à Julia ainda hoje que você armou para ela desencanar do seu amiguinho. —Desafiou-me com olhar arrogante, como nunca fez. —Isso é muito nojento, cara!
—O que foi que te aconteceu? Está ficando corajoso agora, é? Você está ficando bravinho? —Minhas mãos laçaram seu pescoço e a força do golpe nos jogou contra a parede.
—O que você está fazendo? —esperneou. —Você sabe que eu posso usar a policia contra você, não sabe?
—Eu sei é da loucura que você está instalando em nossas cabeças, Caio. —Gritei. Levei sua cara até o mictório, pondo força contra sua resistência. —Me diz agora do que é que você tem nojo, seu leitão? Eu não tenho medo da justiça refalsada desse país, Amaral. Até mesmo porque, antes de você soltar tudo o que você tem para falar, eu acabo com a sua raça.
—Você está me machucando.—E seu rosto vermelho como uma maçã.
—Na verdade acho que suas ameaças não se sustentam, que provas você tem daquele acidente?
—Eu não preciso de provas, eu estava dentro do carro.
—De qualquer forma seria você contra nós três, o Renato levou o carro para consertar o amasso da lataria, imbecil. Está novo como na fábrica. — Eu estava nervoso, talvez, tão vermelho quanto o Caio. — Porque isso? Porque você não pode ficar com a gente e fingir que nada aconteceu? —Ele segurava meus braços que ainda o prendia.
—Porque aconteceu e não dá pra fingir. Será que você não percebe que você matou alguém? Eu não consigo entender como para vocês isso é tão fácil. Como é que para vocês isso pode ser tão fútil e insignificante? Deve ter alguém agora lamentando profundamente a perca daquela garota, você sabe muito bem, por experiência própria, que algo assim não é como ser assaltado e ter seu carro levado por marginais.
—Seu idiota! Não se trata disso. E você estava tão bêbado quanto nós.
—Não tem como saber, Augusto. Eu já escovei os dentes. —Ironicamente soltou uma baforada mentolada em minha cara.—E outra, era você quem dirigia. Você é o culpado.
—Você é um burro, Caio. —Minhas mãos se contraíram.
—Você está me sufocando, seu safado, me deixa em paz. —Parece ter usado toda sua força para me empurrar. —Vai ser melhor para mim e para vocês também. —Assim saiu me deixando só no banheiro frio e sem cor. Por um momento pensei estar bem próximo ao demônio, chutei a porta de um dos reservados por algumas vezes, e senti vontade de matá-lo. Lavei o rosto no lavatório, arranquei dezenas de toalhas de papel e me enxuguei. Acalme-se, eu dizia à mim mesmo.
A sirene do recreio tocou, e logo o banheiro se encheu de outros caras, eu precisava me trocar para a aula de educação física. No vestiário, Renato parecia tão nervoso quanto eu, havia lhe contado a história toda. Sobre a bravura que Caio demonstrava em dias de tão lúgubre desassossego. Ficamos ali nos bancos da fonte, que ficava no centro dos pavilhões, na parte superior do pátio, podia-se ter uma vista ampla dos ambientes. As escadas de acesso às quadras, ao ginásio; as mesas que ficavam ao ar livre, na parte inferior. E Caio ia além, descia a rampa para a biblioteca, logo associamos as estantes e os livros com as cabines telefônicas. E o que mais Caio poderia estar fazendo naquela direção? Que bem que poderia usar o celular de onde bem entendesse, mas as regras firmes do Instituto o punham em uma zona de risco, caso o fizesse e fosse pego. As bocas do inferno diziam que ler era o que de pior Caio sabia fazer. O cara sempre fora mesmo fissurado em vídeo-game, de verdade, jogava horas ininterruptamente, vencendo inimigos, ultrapassando obstáculos, chegando a níveis veneráveis. Dentro daqueles jogos ele era o grande herói vencível e ao mesmo tempo, inabalável. As cabines telefônicas, sem sombra de dúvida.
Descemos, seguindo-o sem que nos percebesse. As cabines ficavam a esquerda de quem entrasse, antes das roletas eletrônicas e das maquinas de refrigerante. Carol o viu em uma das cabines e nos apontou com um dedo.
—Oi, eu gostaria de comunicar detalhes de um assassinato, eu preciso me identificar? —Pude ouvir.
Com um simples toque de dedo no gancho, Carol encerrou a ligação.
—Se eu fosse você tomaria mais cuidado. Já não é a primeira vez que te alertamos. —E lhe lascou um beliscão. Amaral gemera em dor. —E deixa de ser ridículo, não houve nenhum assassinato. Houve um acidente.
—Eu não agüento mais, —Disse atônito. —eu vou contar e pronto. Talvez eu também sofra com as punições, mas eu não vou fazer o que vocês querem! —Esperneou.
—Você vai acabar com a nossa vida, Caio. Seja racional, eu lhe peço para que seja racional. —Renato desmembrou a frase soltando palavra por palavra.
Ele simplesmente saíra, totalmente emudecido.
—O que vamos fazer, Carol?
—Não sei, Augusto, mas precisamos lhe passar um grande susto, eu conheço esse pateta. Precisamos fazer com que ele nos tema.
—Como o quê?
—Não sei… Talvez você e o Renato pudessem pegar ele e…
—Não Carol, não me peça para machucá-lo.
—Façam coisa pior.
—O que, por exemplo?
Lembro-me de termos passado o fim do recreio em uma crise apreensiva de questionamentos e planos malucos que decidiriam o final da história e colocaria Caio em seu devido lugar. Tramas sobre ameaças telefônicas, intimidação pessoal, chantagem emocional e agressões físicas estavam dentre o repertório. De inicio parecia ser só brincadeira, depois se tornaram verdades. Já estávamos articulando os desfechos para as várias versões criadas. E Caio estava logo ali, em cima de nossos olhos, e presenciava à distância todas as decisões. Ele não podia ouvir o que falávamos, mas é claro que o medo percorria-lhe o corpo como veneno. Definitivamente estava sem saída e nenhuma idéia do que fazer. O plano estava concluído quando a sirene avisou o fim do intervalo.
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(Caio procura os telefones da biblioteca para denunciar os amigos)

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