Além da aula do professor Frans, de literatura brasileira, que nessa manhã não chamou muita atenção,— Sua aula sobre a dialética da malandragem fora enfadonha e imprevisívelmente desairosa, um discurso pedante, citando Mario de Andrade o tempo todo. — teríamos Espanhol, com o Edgar, então fecharíamos com História geral e professora Sônia Regina, a professora mais megera que ali vinha nos explorar. Uma vez deixou uma aluna da sétima serie atrás da porta até as seis da tarde. Dizem que a garota urinou e vomitou ali mesmo... Diziam também, que em outra ocasião, ela fizera um aluno do primeiro a engolir um pedaço de papel dentro da sala de aula. Tudo isso eram lendas. Não fazíamos idéia do que poderia fazer conosco… mas arriscamos.
Devido aos bilhetes que passávamos propositalmente, a peçonhenta, após um show de histeria, nos prende por meia hora. —Foi a vez da famosa lista das quinze lições de vida para uma pessoa ser equilibrada e responsável. —Essa lista também era popular entre os castigos de Sônia Regina. —Todos os dias, um pequeno grupo de antiéticos, como ela mesma dizia, se compraziam de sua presença por mais algum tempo. A mulher que todos evitavam, por sua carranca permanente, lecionava História geral e Filosofia e era a professora aparentemente mais perversa que já conheci. Envolvemos o Caio lhe enviando bilhetinhos as vistas da professora, entupimos sua mesa de papeis dobrados como cartões. De inicio se apressara a ler, depois foi os amontoando ao lado da mesa, até ficarem visíveis como um monte. Todos pensaram que senhorita Daiane fosse lhe fazer engolir um por um.
—Professora, o ônibus sai em quinze minutos. Eu não posso ficar. Terei que chamar um táxi ou pedir para que alguém me pegue. —Explicava Caio incansavelmente, a mulher se mostrava indiferente e irritada, virava o rosto e se contorcia.
—Os seus amigos lhe dão uma carona, querido. Além disso, Amaral, deputados como seu pai sempre tem um troquinho para o taxi. —Estava mais sarcástica que nunca. —Vocês quatro.… —Disse já supondo algo com os olhos. — O que andam fazendo?
“Cala a boca, piranha!” Pensei.
Caio pegou rapidamente sua mochila e saiu um pouco a frente. Apenas rapidamente, para que ninguém notasse um comportamento fora dos padrões. No Campus parecia ser estritamente ilegal qualquer coisa fora do padrão. Qualquer objeto que pudesse decompor o uniforme, qualquer tipo de singularidade.
Saindo pela grade eletrônica por onde alunos entravam todas as manhãs, de frente ao amplo estacionamento, avistamos Caio bem mais adiante, ultrapassando os portões do Instituto. Correndo com o notebook em uma das mãos.
—O que vocês estão esperando?—Ela desceu rapidamente os degraus e começou a correr em direção a saída.
—Ei! Cuidado. As câmeras. —Alertou Renato. —Se não quisermos chamar atenção precisamos pegar o carro, não podemos voltar depois. —Ele tinha toda razão.
Carol era sempre uma pressa, uma loucura, uma alegria indomesticável, cápsulas de vitamina C, algo cansativo. O ponto de taxi mais próximo ficava há uns seis quilômetros, na rodovia de acesso a cidade, mas certamente Caio usaria o celular para chamar um. —Dos portões do Campus até a rodovia, havia apenas uma estreita e razoavelmente longa estrada, cercada pelas árvores da reserva.
Fomos seguindo-o, ele já havia nos visto, entrei com o carro no vão entre a mata, descemos e tornamos ao asfalto. Caio corria olhando para trás. Era covarde, sempre olhava para trás. Agora, já longe dos portões, perseguíamos ofegantes, passos largos, Renato com todos seus troços nos ombros.
—Está com medo, Amaral? —Gritou Carol saltitante, como se fosse um gnomo malvado da floresta.—Agora só estamos nós, o que você vai fazer? Hein?
Ele parou muito a frente e se virou em nossa direção.
—A professora Sônia ainda vai passar por aqui. E quando ela passar. . .
Ele parou muito a frente e se virou em nossa direção.
—A professora Sônia ainda vai passar por aqui. E quando ela passar. . .
Se a professora Sônia nos visse, ela iria perguntar o que estávamos fazendo ali, no meio do nada, a pés, numa perseguição. Responderíamos? Bem provável que não.
—Não seja ridículo, toda Quinta-feira aquela horrorosa dá aula de reforço até as seis da tarde. —Disse Carol, como se o martelo do juízo final estivesse em suas mãos.
—É verdade. —confirmou Renato. — Ninguém mais passa por aqui, não nas próximas horas.
Caio voltou a correr, a se movimentar entre as árvores, a ter um objetivo. E nós aceleramos para alcançá-lo. Adentramos em algum lugar, após os portões gradiados, e muito longe da rodovia interestadual, agora tudo era sombra. Num lance estávamos dentro da reserva, no tapete de folhas que se quebravam quando os sapatos tocavam o solo. Eu não fazia idéia do que estávamos fazendo… muito menos para onde estávamos indo. Tudo fugira do que fora proposto, estava tudo errado.
O vento soprava forte contra todos nós. Até pouco tempo tinha cicatrizes nos braços, cicatrizes que os galhos fizeram. Eu seguia Carol e Renato, com pressa, não podia me perder, não podia ficar para trás. Foi quando me vi sozinho, no meio daquela trilha feita por certo espaçamento entre os galhos, onde as altas copas se fechavam, formando um teto verde e perfurado. Olhei para os lados, não havia ninguém, depois de alguns minutos procurando pude ver a mochila amarela de Caio jogada, estirada perto de longas raízes. Voltei a movimentar meus pés, tentei farejar, segui as pistas no solo, foi quando se abriu um vácuo, onde não havia galhos, não havia copas. Apenas o chão, um imenso clarão, o rio, e os três, bem à minha frente. Falavam coisas que ainda não conseguia escutar.
—Quem são vocês, afinal? —Perguntava Caio chorando. — Nós sempre fomos amigos… porque estão do lado do Augusto? Nós podemos nos livrar dessa, pessoal.
—As coisas mudam, Caio. E a verdade é que tentamos de tudo com você. —Disse Carol se aproximando enquanto eu acompanhava distante, vi quando Caio retirou de dentro da calça uma arma. Um revolver prateado, muito pequeno, porém assustador.
—O que você vai fazer, Caio? Você não deveria estar andando com uma coisa assim, sabia? Passa isso para mim. —A tentativa de Renato foi em vã. Ele apontara a arma em minha direção. Pegou no bolso o aparelho celular, três dígitos apenas, estava na escuta.
—Em nenhum momento eu gostaria de ter feito isso, Augusto. Mas você é o culpado. A culpa é sua, cara.
—Você não vai fazer isso, seu imbecil! —Fora prudentemente repentino o movimento de Carol… em velocidade correu e com palmas contra o peito de Caio, lançou-lhe dentro do rio. Eu apenas o vi caindo na água, soltando o celular. —Você é louca? —Gritava Renato, fomos seguindo a margem enquanto ele pedia ajuda e era levado pela forte correnteza, e com a quantidade de água que caia do céu naquele mês, o rio transbordava engolindo tudo ao redor.
—Ele não sabe nadar, Carol! —Renato parecia-se extremamente aflito. Fez menção de saltar no rio, mas a essa altura não víamos mais nada na água. Carol dava passos tão frios que parecia ter planejado aquilo a vida toda. Eu estava totalmente em pânico, fugindo das abelhas.
—O que eu podia fazer, Renato? Ele acabaria atirando em um de nós. —Prendia o cabelo, para livrá-lo do vento.
—Meu Deus do céu. —Um desespero me atingiu. —Vão acabar descobrindo tudo... Estamos totalmente ferrados. Nada disso deveria acontecer...
—Ei, cara, calma. —Renato segurou meus braços, tentando me acalmar. —Não sei o que vamos fazer agora, mas não podemos nos desesperar.
—Ninguém vai acreditar em nós. E se ele se afogar?
—Ele até que mereceu, Augusto. E outra, não há nada mais a fazer. Vamos dar o fora daqui. —Ela se virou e seguiu em nossa frente, Renato e eu nos olhamos complacentes.
—O plano era só passar um susto, Carol.
—Cada um tem o fim que merece. Vamos embora! —Disse andando com as costas voltadas para nós. No fundo, todos sabíamos que havíamos ido longe demais.
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(Para escapar de Carol e os outros, Caio foge entre as árvores)

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