sexta-feira, 27 de junho de 2014

29 - SETE DE MAIO

Trilha: Korn - word up   (e)    Lucero - nights like these







                                                     Meu aniversário chegou tão sorrateiro que nem eu mesmo percebi, inicio de Maio. Quando acordei meus olhos estavam na nuca de Vinícius, eu me sentia imóvel. Fiquei observando sua respiração, enquanto isso, pensando se não haveria um lugar onde pudesse me socar durante todo o dia sem ter que responder à ninguém sobre tamanha tristeza logo quando se completa mais um ano. Saí da cama como se fugisse de um ladrão, vesti a camiseta e calcei meus tênis.
       Naquela tarde, em que decidi sumir, apenas Renato me procurou. Quando atendi foi cordial e quis saber onde eu estava, se estava bem ou precisando de ajuda, na verdade nem mencionou um parabéns ou pareceu lembrar.  Vinícius havia comentado sobre resolver alguns assuntos com seus pais e que seria melhor se eu passasse o dia com Carol ou Renato. Eu preferi passar sozinho, duas sessões de cinema seguidas, restaurante um pouco mais tarde, e antes de voltar para casa, umas sete cervejas em lata que comprei em uma loja de conveniência. Uma sacola cheia de cervejas. Tomei-as uma a uma, ali mesmo, de frente para o lago do shopping. Uma grande bosta comemorar um aniversário de vinte anos dessa forma. Naquele dia eu queria ferrar com o mundo, eu queria que bombas atômicas caíssem do céu e homens bombas destruíssem parte dos shoppings da cidade e matasse centenas de pessoas, e que eu fosse uma delas. Ninguém havia se lembrado, primeiro aniversário sem mãe. Por isso que eu estava bebendo e mandando as pessoas irem se fuder um pouco mais. Porque fudidas, todas elas já estão. E.E. Cummings uma vez escreveu: “Não ser ninguém exceto você mesmo, num mundo que se esforça, dia e noite, para torná-lo igual a todo mundo é lutar a pior das batalhas que um ser humano pode enfrentar e é nunca deixar de lutar.” E isso é verdade, existe toda aquela bobagem de que somos únicos, mas qualquer um é muito mais feliz quando é igual aos outros, quando se iguala a maioria, quando se está dentro do padrão desejado. Fico pensando como não deve ser terrível ser negro, deficiente ou extremamente feio nesse mundo de merda que vivemos. Deve ser como pagar pecados de todas suas reencarnações de uma vez só e no mesmo lugar. Ser pobre também deve ser uma bosta de verdade.
      Quando retornei pra casa de Vinicius, meio tonto e colérico, já era inicio da noite. Liguei para avisar que estava chegando.
—Já está em casa?
—Estou sim. Onde você está?
—Voltando...
—Está bem então, vou abrir o portão para você.
 Quando entramos assustei-me com o som excessivamente alto que se expandia para todo o jardim. A casa estava escura e sem vozes.
—Por quê as luzes não estão acesas?
—Meus pais não estão em casa. —Achei excêntrico, mas acreditei.
     Houve um abalo quando passei pela porta, era uma incrível festa surpresa, eu não desconfiava de absolutamente nada. Olhei para os convidados. Umas cinqüenta pessoas do Campus PH que mau conversavam comigo, mas que se propuseram estar presentes para fazer a figuração e porque recusar convites não era algo praticado entre este grupo seleto. Os de Castro, os Francini, Nassers, os Matias Marquês, os Proffits, Vichessis e os Bauer. Estavam todos lá; os Mesquitas também estavam. Em um canto da sala havia uma caixa de presentes decorada, do tamanho de uma embalagem de televisor, daqueles maiores, estava abarrotada de caixas menores, embrulhadas por papel festivo. Havia um bloco maciço de senhoras e senhores na grande sala azul, tomavam vinho branco enquanto uma das convidadas parecia entreter-los com suas risadas achavascadas. Na sala principal, garotas desfilavam com copos grandes de diet-coke e taças de coquetéis “não-alcoólicos”, muitas tropeçavam ao se arriscar um pouco no jazz. Estilo musical que obrigatoriamente abria uma reunião social, deixando o gosto pessoal para certa altura do evento. Naquela noite, Carol e Renato fumaram maconha antes de saírem, Renato estava com o carro do pai. Quando Carol veio me contar confesso ter ficado assustado… Como se já não bastasse tudo, meus amigos agora andavam fumando merda por ai.
    Lembro-me de estar em um canto da sala conversando com Renato sobre este fato acontecido, fumaram o troço na casa de Carol. Julia chegou até onde estávamos, sorria, sempre com um copo na mão.
—Estão te chamando na porta. —Disse.
—Quem?
—Me disseram que era doutor Marcos, é seu pai?
—Julia, será que poderia ir até lá e dizer que não estou?
—Como não está, Augusto? É sua festa de aniversário. —Ela tinha razão.
—Saco!
      Chegando a porta, não poderia tratá-lo como um assassino, empunhando uma faca em mãos e encenando a grande novela da noite. Mas como pai também não poderia tratá-lo, então o tratei  com cordialidade, isso foi tudo o que fiz.
—Me disseram que estava aqui. —Fui levemente arrogante. — O que houve?
—Eu vim apenas lhe dar os parabéns… —Ele não conseguiu disfarçar o constrangimento, era algo que o fazia mexer.— Trouxe um presente para você.— Disse me entregando um envelope.
—Ah, não precisava mesmo… não estava esperando…
—Eu vi a caixa, mas… Eu queria lhe entregar pessoalmente.
    Eram uns troços de agência de viagem, hotel cinco estrelas nas praias do nordeste por algumas semanas, com acompanhante. Sorri-lhe sem graça, como quem ri querendo esconder os dentes.
—Obrigado, realmente não precisava…
—Agora você não precisa mais se preocupar com o que irá fazer nas férias de fim de ano. —Cristo! Os oito meses que nos separavam de Dezembro parecia-me uma pequena eternidade.
    Em seguida me convidara, me pedira para que voltasse para casa. Porque estava inseguro sobre o modo de vida que estava levando, precisando de favores de família de amigos. Aquilo não era certo, muito menos algo digno. Era constrangedor e vergonhoso para ele próprio.
—Tem certeza? —Perguntei.
—Claro, Augusto. Se você não quer conversar comigo, não nos falamos… mas isso que você está fazendo, não cabe a um garoto da sua classe social. Se for o caso, desocupo um dos apartamentos alugados para você.
—Tudo bem, então. —Minha sacada de volta! Por um momento me parecia um presente maior do que o outro.  —Também acredito que você deva entrar e participar da festa. —Fechei a porta. —Venha.
—Tem bebida nessa festa?
—Claro! Os mais velhos estão na sala ao lado com a mãe de Vinicius, se o senhor preferir…
—Eu me encontro, —Pôs a mão em meu ombro. —pode deixar.
     Já passavam das duas da manhã, estava completamente bêbado, sentado no jardim dos fundos enquanto fumava. As cervejas em festas eram bem comuns, a gente fazia um pouco de malabarismo para beber sem que percebessem, mas no final acabava todo mundo alto e sorridente, só os mais velhos é que, as vezes, pareciam enjoados com o excesso. Senti alguém se aproximando.
—Como está? —Perguntou.
—Depois dessa festa? Eu fiquei bem melhor. E você?
—Você não deveria estar aqui, Augusto. As pessoas procuram por você lá dentro…
—Aqui estava bem mais fresco… acho que estou meio tonto, sua casa amanhã estará fedendo tabaco de todas as qualidades. —As pessoas fumavam muito, parecíamos até uma rede de fumantes.
—Eu não me importo, eu estou muito bêbado…
—Todo mundo está. 
—Quer saber? — Disse enquanto sentava-se ao meu lado e passava seu braço direito sobre meus ombros. —Eu gosto mesmo de você.—Então deu mais um gole em seu copo de chope e ficamos ali, olhando a lua enquanto a festa, que aos poucos perdia o fôlego, era apenas um cenário de fundo em movimento.




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(Pessoal se diverte na festa de aniversário de Augusto)




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